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Tarkovski esteve sempre preocupado em trabalhar a memória em seus filmes. O cinema, para ele, como vimos, era como se fosse um “vasto edifício de memórias”. Esse olhar cuidadoso voltado pra o passado é notável em todos os seus filmes. Como ele mesmo diria em uma entrevista: “Todos os meus filmes, de uma forma ou de outra, falam do fato de que os homens são ligados ao passado e ao futuro por uma infinidade de fios, que todo homem com seu próprio destino realiza uma ligação com o destino geral dos outros homens”227.

Um tema que vai ser constante nos filmes de Tarkovski é a relação que se estabelece entre presente - aquilo que desejo, aquilo que vivencio - e passado - aquilo que já passou, mas que todavia é recorrente e insiste virtualmente na realidade do presente. Notamos o desenvolvimento desse tema a partir das relações que seus personagens estabelecem com o mundo. Nenhum deles, como veremos, vive apenas no presente, ignorando os liames temporais.

Os personagens se dão conta, e Tarkovski faz questão de nos mostrar isso, de que o passado está ali, com todo seu peso e é tão real quanto o presente. Alexei, personagem/narrador de O espelho, vai expressar bem esse sentimento quando diz:

Um sonho perturba-me com uma persistência espantosa. Chama-me de volta à aldeia do meu avô. Àquela casa, onde nasci há quarenta anos em cima de uma mesa de jantar. A visão é-me tão cara que até me dói. Mas, quando quero entrar nessa casa, aparece qualquer coisa e impede-mo. Tenho este sonho com frequência. Mas quando vejo as paredes de madeira e a escuridão, sei, mesmo a sonhar, que não passa de um sonho. E a minha imensa alegria perde-se na sombra da espera do despertar. Por vezes, porém, deixo de sonhar com a casa e com os pinheiros em torno da casa da minha infância. E tenho saudades. E espero impaciente o regresso desse sonho, onde voltarei a ver-me criança e a sentir-me feliz,

226Dentre os trabalhos não-cinematográficos de Tarkovski estão a direção teatral de Hamlet (1977) no teatro

Lenkon em Moscou e a direção artística da ópera russa Boris Godunov (1983) no Convent Garden em Londres.

porque tudo está ainda pela frente e tudo será ainda possível…228

Essa importância dada ao passado vai aparecer também em Esculpir o tempo, quando Tarkovski ressalta que sem lembranças o homem fica à margem do tempo, impossibilitado de compreender os elos que o ligam ao mundo exterior. “Privado de memória, o homem torna-se prisioneiro de uma existência ilusória”229, ou seja, para Tarkovski, tentar anular o passado é tentar viver fora do tempo, é negar sua existência.

Desse modo, nos filmes de Tarkovski, a força do passado se tornará visível através dos sonhos dos personagens. Sonhos esses que podem nos levar tanto de volta aos tempos felizes da infância do personagem antes da guerra, como observamos no filme A infância de Ivan, como também podem nos levar de volta à casa onde o personagem Alexei nasceu, cresceu, e foi feliz, como podemos observar no filme O espelho. O passado também se manifestará através da apresentação das lembranças dos personagens. Como é o caso das lembranças que o personagem de Nostalgia tem de sua pátria.

Em Nostalgia, por exemplo, observamos Górchakov, o protagonista, profundamente ligado ao seu passado na Rússia, de modo que sofre devido a uma saudade forte demais e a um sentimento de deslocamento diante da sua vida atual na Itália. As lembranças também podem trazer uma sensação de bem-estar, estabelecendo um contraste com a dura realidade da guerra, como é o caso de Ivan, que só se sente feliz ao lembrar-se da mãe, da irmã.

Desse modo, o passado se manifestará de diferentes modos nos filmes de Tarkovski, seja através de lembranças, sonhos ou até mesmo ilusões de déjà vu. Vale lembrar que a apresentação das lembranças em seus filmes não se dá através do flashback, ou seja, através de um recurso cinematográfico que através da montagem resgata o passado de modo coerente, como ele fosse apenas um antigo presente que pudesse ser trazido de volta ao filme. Como acontece, por exemplo, no filme de Michel Carné Trágico Amanhecer (1939), onde, o protagonista, trancado num quarto de hotel que está sendo cercado pela polícia, relembra o seu passado, antes de ter cometido um assassinato. Conforme o personagem lembra, Carné, em Trágico Amanhecer, através de vários flashbacks, segue nos mostrando o passado do personagem na tentativa de nos fazer entender a sua motivação assassina. O passado é resgatado, mas apenas sob a condição de voltar ao presente para se explicar. O flashback,

228O ESPELHO. Direção: Andrei Tarkovski. Rússsia: Mosfilm: Continenteal Home Video, 1974. DVD. 101

min.

característico das imagens-movimento do cinema clássico, não deixa nenhuma dúvida entre o que é presente, e o que é passado.

Quando se trata das recordações nos filmes de Tarkovski, o passado não é trazido de volta como no filme de Carné. Em Tarkovski, o passado não vai ser bem demarcado, não deixando nenhuma espécie de confusão ao espectador. Sempre faltará clareza em seus filmes no que se refere a reconhecer o que é presente e o que é passado, o que é “real” e o que é sonho. Vamos sempre ser forçados a decifrar o que não é nos mostrado claramente. Estamos no domínio não mais das imagens-movimento, mas das imagens-cristais, onde real e imaginário, presente e passado se confundem, são indiscerníveis.

A predominância da imagem-cristal vai se materializar imageticamente a partir de alguns métodos cinematográficos a que Tarkovski irá recorrer, como veremos num ponto mais à frente. Sobre a apresentação dos sonhos e das lembranças no cinema, Tarkovski irá fazer a seguinte observação:

Às vezes alguns diretores filmam em ritmo acelerado, ou sob um véu de neblina, ou recorrem a algum truque mais velho que o vinho, ou, ainda, introduzem efeitos musicais – e o público, já familiarizado com esse tipo de coisa, reage instantaneamente: ‘Ah, ele está evocando o passado!’, ‘Ele está sonhando!’ Mas esse anuviamento misterioso não é a melhor forma de transpor para a tela uma verdadeira impressão dos nossos sonhos e recordações230.

Tarkovski faz uso dos sonhos em seus filmes sem precisar recorrer a nenhuma “nebulosidade” e sem recorrer a nenhum dialogo que tente explicar o seu significado. Em

Quando fala o coração (1945), por exemplo, Hitchcock nos apresenta o sonho do protagonista de modo bem demarcado, introduzindo efeitos sonoros e elementos que caracterizam a cena como um sonho. Essa sequência onírica em Quando fala o coração é resgatada através de vários flashbacks que se intercalam com o presente, ou seja, o momento em que o personagem acorda e passa a narrar para dois psicanalistas os acontecimentos, na tentativa de desvendar o seu significado.

Os sonhos em Tarkovski, pelo contrário, se misturam à realidade, trazendo uma carga de virtualidade que vem andar junto à atualidade do personagem, deixando-o sob uma atmosfera onírica e carregada de lembranças ao qual não pode ou não quer se desvencilhar.

Tarkovski não nos deixa cientes de que aquilo que está sendo mostrado se trata de um sonho ou de uma lembrança, mas apenas nos induz a pensar isso através da criação sutil de uma atmosfera que se reflete a partir do uso especial feito do som, da cor, do slow-motion, da profundidade de campo, do plano-sequência, etc. Recursos que tornam possível imageticamente à coexistência entre presente e passado, real e imaginário, virtual e atual.

A imagem em Tarkovski não representa algo que devemos reconhecer, mas nos faz sentir o tempo em sua intensidade genuína.