Outro recurso cinematográfico bastante recorrente nos filmes de Tarkovski é o slow-
motion (movimento lento), ou seja, o efeito cinematográfico em que os movimentos e ações do plano são vistos numa duração maior do que a normal. A cadência normal no cinema é 24 quadros por segundo, se, por exemplo, usarmos uma cadência de 48 quadros por segundo, a duração no plano vai ser o dobro da duração normal. A pretensão do slow-motion é então criar uma sensação de que o próprio tempo está passando mais devagar. Essa mudança na cadência do plano, tornando-o mais lento, ou mais veloz, é possível através da edição.
Tarkovski faz uso do slow-motion na tentativa de gerar um efeito de retardamento temporal do plano. Nesse sentido, quando esse recurso é utilizado, entramos em contato com uma duração maior do que de fato aconteceu. O crítico Kierran Horner vai dizer que essas distorções no tempo geradas pelo slow-motion fazem distintas referências à maleabilidade do tempo, ou seja, ao fato de o tempo, tanto para Tarkovski, como para Bergson e Deleuze, não ser uma estrutura concentra e linear, mas um lençol sobre o qual o tempo se espalha265. Tarkovski explica o motivo de ter usado tal recurso em Esculpir o tempo através da explicação da cena do abate do galo em O espelho:
Quando a protagonista do filme, exausta e prestes a desmaiar, pensa se vai ou não cortar a cabeça do galo, nós a filmamos em close-up, em alta velocidade nos últimos noventa fotogramas, e com uma iluminação evidentemente artificial. Uma vez que na tela esta cena aparece em câmera lenta, obtêm-se um efeito de alargamento da estrutura temporal – estamos levando o espectador a mergulhar no estado de espírito da protagonista, estamos retardando aquele momento, acentuando-o266.
Apesar dessa cena do abate do galo ter feito sucesso na época e ter impressionado muito dos espectadores que foram ver o filme, Tarkovski, todavia, depois que o filme foi lançado, se arrependeu de tê-la inserido no filme, por considerá-la literária demais. Conforme ele afirma em Esculpir o tempo:
Deformamos o rosto da atriz independentemente dela, como se estivéssemos representando o papel por ela: servimos a emoção que desejamos, forçando a sua exteriorização através de nossos próprios meios – os do diretor. O estado de espírito do personagem fica excessivamente claro e legível. E na interpretação do estado de espírito de um personagem, sempre se deve deixar algo em segredo267.
Tarkovski analisa então outra cena que considera mais bem sucedida no uso desse recurso cinematográfico. Trata-se da cena da tipografia em O espelho, onde a personagem sai correndo pela rua por achar que cometeu algum erro em uma publicação que está em vias de
265HORNER, K. Andrei Tarkovsky´s Mirror viewed through Gilles Deleuze´s time-image. Disponível em: http://filmint.nu/?p=1787. Acessado em: 19 de março de 2013.
266TARKOVSKI, A. Esculpir o tempo. p. 129. 267TARKOVSKI, A. Esculpir o tempo. p. 129.
ser impressa. Nessa cena, o uso do slow-motion é quase imperceptível. Talvez por nela Tarkovski ter mesclado o tempo real (24 quadros por segundo) com o uso do slow-motion. Quando a mãe de Alexei corre pela rua no meio da chuva, o espectador dificilmente nota que houve um alongamento temporal do plano. Era justamente esse o objetivo de Tarkovski: fazer com que o espectador ao assistir ao filme tivesse apenas uma sensação de que algo de estranho se passava, contudo, não de forma tão óbvia como na cena do abate do galo.
Tarkovski não está tentando enfatizar uma ideia, descrever melhor uma cena através do uso do slow-motion, mas potencializar a percepção do espectador, evocar nele “um estado de espírito através de outro meio que não o trabalho do ator”268. Com o aumento da duração do plano Tarkovski queria causar um estranhamento imperceptível, uma inquietação, bem próxima da que o personagem pensava e sentia no momento. Podemos dizer então que tal recurso, em Tarkovski, é uma tentativa por parte do diretor de puxar o espectador para perto do estado psicológico do personagem.
Em Stalker, na cena em que o escritor, o professor e o guia viajam até a zona, o slow-
motion, juntamente com o plano-sequência é utilizado por Tarkovski na tentativa de nos fazer compartilhar da mesma atmosfera particular dos personagens. Com o alongamento do campo temporal temos a sensação que a viagem durou muito tempo, que ela foi difícil e cansativa, quando na verdade tal sequência ocupa apenas uma pequena parte do filme. Tarkovski, nessa cena, através do slow-motion, intensifica a sensação de ansiedade pela qual os personagens passam. Entramos em contato direto com aquele sentimento de expectativa, de apreensão que antecede qualquer viagem para um lugar perigoso e desconhecido, como se viajássemos juntamente com os personagens.
Em O espelho, na cena da tipografia, a mãe de Alexei corre desesperada por achar que cometeu um erro grotesco numa matéria que estava para ser impressa. Já na cena do abate do galo, ela sente-se enojada com a ideia de ter que matar um galo. Nas duas cenas a mãe de Alexei está sob um estado emocional peculiar de desconforto ou de nojo, e é isso que Tarkovski quer captar.
O slow-motion além de nos aproximar mais dos personagens, pode ser também uma maneira de aumentar a expressão rítmica do plano. Isso fica claro nas cenas em câmera lenta onde não vemos absolutamente nenhum personagem, mas apenas elementos da natureza, o vento, a chuva. Com o slow-motion Tarkovski claramente distorce o tempo no plano, ou seja,
esculpe o tempo. O plano é “esculpido” por Tarkovski na tentativa de dar expressão rítmica ao filme e nos fazer entrar numa relação mais direta com ele.