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A PRIMEIRA BIBLIOTECA PÚBLICA INSTITUCIONAL NO BRASIL

2 BIBLIOTECA DE CARÁTER PÚBLICO: instrumento de socialização

2.2 A PRIMEIRA BIBLIOTECA PÚBLICA INSTITUCIONAL NO BRASIL

Convém salientar que a primeira biblioteca pública brasileira é a da Bahia. Os ideais progressistas de D. Marcos de Noronha e Brito, 8º Conde dos Arcos, Governador da Bahia, para disseminar a instrução entre todas as classes da província apoiou o intelectual baiano Pedro Gomes Ferrão um projeto para a criação de uma biblioteca pública em 1811.

Segundo Von Spix e Von Martius (1916), os valores e a administração do Conde dos Arcos refletem a expectativa da sociedade e realizações em vários setores da gestão publica:

O vivo interesse com que o Conde dos Arcos procurava disseminar a instrução entre todas as classes da provincia despertou no respeitável bahiano Pedro Gomes Ferrão a feliz lembrança de apresentar ao mesmo Conde o vantajoso projecto da fundação de uma Bibliotheca Publica, para principio da qual offereceo os seos livros [...] Este oferecimento foi logo imitado [..] e, poucos dias se achou aquelle estabelecimento com um fundo de 3:261$000 rs. em dinheiro e tres mil volumes [...] oitenta pertencentes ao Conde dos Arcos, [...] um meio de adquirir a doação de outros das pessoas particulares.[...] á abertura da Bibliotheca em o dia 13 de Maio de 1811, na sala do docel de palacio, por nao permittir o estado de ruínas, em que se achava o salão da antiga livraria dos Jesuítas, para ella destinado [...]. Concorreo o Conde dos Arcos para a mesma Bibliotheca, em todo o tempo de sua administração, com a quantia subscripção annual de 64$000 rs. (VON SPIX; VON MARTIUS, 1916, p. 57-58).

A primeira Biblioteca Pública do Brasil e da América do Sul foi instalada em Salvador, Bahia, em 13 de maio de 1811, inicialmente na sala do Docel do Palácio, com um acervo inicial de livros doados pelo Vice-Rei, Alexandre Gomes Ferrão e Francisco Agostinho Gomes. Em 1829, a biblioteca foi transferida para o Colégio dos Jesuítas, no espaço onde anteriormente ocupava a livraria.

Accioli (1931, p.54), traz em anotações de rodapé de Braz do Amaral ,

o [...] estabelecimento, com a sahida do seo creador, ficou entre o abandono [...] todavia é de esperar da actividade do actual bibliothecario, que prospere melhor, o que por certo se conseguirá se o governo o coadjuvar [...].

A importância da trajetória política de D. Marcos de Noronha e Brito, Conde dos Arcos, é descrita abaixo por Amaral (1931, p.53 e 56)

Conde dos Arcos, depois de haver adquirido um bem merecido renome como governador do Pará, e Vice-Rei do Rio de Janeiro, foi nomeado governador da proivincia da Bahia em 30 de setembro de 1810, e em todo decurso de sua administração manifestou ser um d‘aquelles homens capazes de felicitar os povos sujeitos à sua jurisdição, distinguindo-se por seo genio vasto e creador, ao qual deve a Bahia grande parte da consideração de que gosa, e pela proteção prestada à literatura, que assiduamente promoveo, com o estabelecimento de muitas cadeiras para a instrucção publica, cuja creação exigio do governo‖ [...] Não podia esquecer-se o Conde dos Arcos de promover n‘esta capital o estabelecimento de uma typographia, e animando para este fim ao negociante Manoel Antonio da Silva Serva, foi tal estabelecimento autorizado por Carta Régia de 5 de janeiro de 1811 [...] começando logo a publicação da gazeta denominada Edade de ouro do Brasil.

Almeida Júnior (1980) traz outra informação sobre a construção do acervo da Biblioteca Pública da Bahia. Diz que fora idealizada como uma instituição para promover a instrução do povo, formada pela cooperação de todos os cidadãos que desejassem dela fazer parte, sendo a administração, exercida pela sociedade e os fundos necessários provenientes dos sócios, sendo que ao Governo foi solicitada, apenas, a anuência. A idéia era iniciar com um plano coletivo de assinaturas de revistas e, com as sobras financeiras, adquirir livros para formar uma biblioteca. Segundo o referido autor, Castello Branco propôs que:

Para que destes elementos se possam formar com mais brevidade uma biblioteca ampla e capaz de preencher os fins de uma geral instrução, serão convidados os subscritores a entrarem para este estabelecimento com suas livrarias particulares' ou com aquelas obras que podem dispensar do seu uso ordinário, as quais serão encaminhadas por doação ou por empréstimo, [...]. A doação ou empréstimo far-se-á pública por meio da imprensa e uma cópia dela será remetida ao illustríssimo o e excellentíssimos senhor general desta Capitania com o nome do que a houver feito como um benfeitor do Público, Amigo da Pátria e zeloso dos verdadeiros interesses do Soberano (CASTELLO BRANCO apud ALMEIDA JÚNIOR, 1980, p.6).

Convém salientar que a biblioteca tem perdas significativas com relação ao seu acervo. Mais tarde, em 1912, a biblioteca é incendiada durante bombardeio no

governo de Hermes da Fonseca, restando apenas 300 obras: algumas emprestadas aos leitores e, outras em processo de encadernação. Um segundo incêndio na biblioteca em 1961, registrou outra perda significativa do rico acervo. Depois de reformada, é rebatizada como Biblioteca Pública do Estado da Bahia e, em 1970 inaugura-se a seção de Obras Raras. Atualmente a Biblioteca representa um dos principais pontos de cultura do Estado.

Entretanto, o apoio institucional do estado em relação as bibliotecas públicas brasileiras, seguindo o entendimento de apropriação do saber, são criadas várias bibliotecas de caráter público no Brasil, na segunda metade do século XIX. Mantidas pelo Estado, com objetivo educacional tal como hoje é conhecida, com funções específicas e com a intenção de atender a toda a sociedade. Apontam, portanto, para a necessidade de ações de direitos e de deveres do Estado que, de maneira difusa, vinham sendo elaboradas nos discursos do bem-estar e no desenvolvimento dos grupos sociais.

A primeira biblioteca pública brasileira, em Salvador, é contemporânea dos primeiros trens ingleses e foi iniciativa privada. Fora das escolas, muito pouco foi criado pelos órgãos governamentais no sentido de criar e manter acervos públicos para a leitura de todos que não dispusessem de recursos para adquirir os livros necessários. Nas grandes cidades, colônias de imigrantes procuravam por meio de ação coletiva obter benefícios. Da mesma forma que surgiram hospitais denominados "Beneficência Portuguesa‖, foram criadas várias bibliotecas com o nome de "Gabinete Português de Leitura", um esforço privado para oferecer leitura à população (MILANESI, 2002, p. 39).

Sobre a Biblioteca Pública do Estado da Bahia, no século XX, Cunha e Santos (s.d.), afirmam:

Em permanente evolução, chega ao século XX preocupada em conhecer as necessidades reais de informação do seu público, em atrair os usuários potenciais. Volta-se para o fenômeno do aprimoramento das tecnologias de informação e de comunicação que se estabelece de modo inovador e sem retorno. Percebe a mudança do seu papel com sua função de mediadora da informação ganhando novo patamar. Reconhece que a partir de então, para gerar produtos e serviços de qualidade terá que não somente utilizar essas tecnologias, mas estimular o seu uso.

A abrangência do conceito de biblioteca pública deve-se ao trabalho de indivíduos ou grupos sociais, que apontaram para a necessidade, possibilidade de uma prática cultural, numa sociedade letrada e, sobretudo, diversa. Aos poucos, o olhar para re-significação da biblioteca pública como elemento central de suporte educacional e o espaço no qual se concentram e desdobram as lutas em torno dos diferentes significados da apropriação cultural do mundo letrado. Neste caminho, a ―educação e biblioteca firmaram-se como elementos inseparáveis‖ (MILANESI, 2002, p.46).