1 O MARXISMO, AS INTERNACIONAIS E O TROTSKISMO ARGENTINO
1.1 A Primeira Internacional: marxistas e anarquistas
A reconstrução histórica da Primeira Internacional, como é geral, está baseada principalmente em dois livros “clássicos” analisados criticamente, A história social do
movimento trabalhista europeu do cientista político alemão Wolfgang Abendroth
(ABENDROTH, 1977) e no volume II da História del pensamento socialista de George Douglas Howard Cole, economista e historiador inglês, membro durante muitos anos da Sociedade Fabiana (SF) e advogado do movimento cooperativo que foca no marxismo e no anarquismo entre os anos 1850 e 1890 (COLE, 1964). Também usamos o livro organizado por Marcelo Musto intitulado: Trabalhadores Uni-vos! Antologia Política da
Primeira Internacional, onde apresenta depois de um estudo introdutório, uma relevante
documentação, as resoluções da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) que devem ser entendidas no contexto das lutas de classes (MUSTO, 2014).
Em 28 de setembro de 1864 em Londres, forma-se a Primeira Internacional (PI), sendo uma de suas características sua heterogeneidade. Mesmo assim Karl Marx consegue impor seus pontos de vista junto com os adeptos das Trade Unions (TU), sindicalistas, como os seguidores do anarquista francês, Pierre-Joseph Proudhon sobre os apoiadores pelos seguidores de Robert Owen, socialista utópico inglês, ou de Giuseppe Mazzini, um republicano nacionalista radical, líder da Jovem Itália (JI). A ideia de formar uma Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) foi aprovada por unanimidade e apresentada de uma forma aceitável para os partidários das Trade Unions (TU) e os proudhonianos. Quando Karl Marx faz o discurso inaugural Palavras a classe
trabalhadora tentou apresentar o ponto de vista da totalidade do movimento, focando na
necessidade de luta de classes comum por parte da classe trabalhadora, como afirma Wolfang Abendroth em seu livro. (ABENDROTH, 1977)
A característica da Primeira Internacional (PI) foi a de não ser uma Internacional de partidos, mas de sindicatos e organizações de trabalhadores e de indivíduos que poderiam se filiar diretamente a Internacional pagando sua cotização.
No seu preâmbulo considera que a emancipação da classe trabalhadora deve ser obra da própria classe trabalhadora, como já fosse apresentado por Marx e Engels no
Manifesto do Partido Comunista, escrito em 1848, e que isso não expressa a prerrogativa
de ter um privilégio de classe, mas o aniquilamento de qualquer domínio de classe. Reafirma o internacionalismo e tenta agrupar os movimentos de todos os países que estavam dispersos. Na sua declaração expressa, como mencionamos, que podem se filiar
sociedades e indivíduos, nos mostra que não será ainda uma internacional só de partidos operários, como efetivamente será a Segunda Internacional (SI) a partir de seu Quinto Congresso como apresentaremos neste mesmo capítulo, a Terceira Internacional (TI) e a Quarta Internacional (QI).
Nos dois Primeiros Congressos a disputa no interior da AIT se expressa entre Marx e os anarquistas Proudhonistas da delegação francesa.
O Primeiro Congresso público da Internacional foi realizado em Genebra, Suíça, em 1866 e expressou esta disputa. Triunfam as teses de Marx, maioria no Conselho Geral da AIT, apoiadas pelo sindicatos ingleses, mas isto também tinha relação com um fundamento estrutural, o peso político das organizações operárias dos países capitalistas mais desenvolvidos que apoiavam em geral as ideias de Marx, enquanto que os de menor desenvolvimento capitalista, considerados mais agrários, apoiavam os anarquistas, como Espanha, Itália e parte da França, ou com produção artesanal como na Suíça. No anarquismo predominam primeiro as ideias proudhonistas e depois as bakunistas, tendo como característica geral ser trabalhadores individuais ou artesãos.
No II Congresso realizado em Lausanne, também na Suíça, em 1867, tem uma discussão política central: a necessidade ou não da luta política para a classe trabalhadora, defendida por Marx e rejeitada pelos anarquistas. Emite também uma declaração de adesão ao Congresso da Paz que se reuniria em Genebra, Suíça, em 09 de setembro desse ano, expressando que a guerra não só priva a classe trabalhadora de suas condições de existência, mas obriga a derramar a sangue de outros trabalhadores. As ações políticas têm que ter como objetivo a abolição dos exércitos armados e manter a paz19 para conseguir a emancipação da classe trabalhadora do jugo do capital, como a formação de uma Confederação de Estados Livres de toda Europa20 (COLE,1964).
Essa posição se consolidará mais no III Congresso, realizado em Bruxelas, Bélgica, em 1868, onde se defende de forma explícita que seja o poder político aquele que socialize os meios de produção, isto contra a posição dos delegados franceses. Os Blanquistas, partidários de Louis Auguste Blanqui, não faziam parte da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), mas o próprio Auguste Blanqui assiste como
19 Isto pode ser considerado um antecedente que consolidará as posições políticas dos socialistas sobre a
guerra em diferentes congressos da segunda internacional e que será mantida como veremos no balanço da literatura sobre o tema por Karl Liebknetch, socialista internacionalista, na segunda votação sobre os créditos de guerra no Parlamento alemão durante a Primeira Guerra Mundial.
20 Este pode ser um primeiro antecedente da proposta socialista internacionalista de uma União das
ouvinte a este Congresso.
Em 1869, no IV Congresso em Basileia, Suíça, os anarquistas são derrotados de forma definitiva quando se aprova uma resolução sobre socialização da terra e do solo por 54 votos contra 4. Participou como delegado por Lyon, França, o revolucionário anarquista russo Michael Bakunin, expressando as posições dos países capitalistas mais atrasados e em contraste deste Congresso participa, pela primeira vez, um partido político nacional, o Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores da Alemanha (PSDTAl.), abrindo uma nova fase no movimento operário europeu.
Na Alemanha a situação dos socialistas era a seguinte: em Eisenach, no congresso pan-alemão dos sociais-democratas da Alemanha, da Áustria e da Suíça, realizado de 07 à 09 de agosto de 1869, foi criado o Partido Operário Socialdemocrata Alemão (POSDAl.), posteriormente conhecido como partido dos eisenachianos. O programa aprovado pelo Congresso correspondia inteiramente aos princípios da Segunda Internacional (SI). Temos um fato político de muita transcendência, a guerra franco- prussiana, que isola os integrantes da Internacional. O Partido Socialdemocrata da Alemanha (SPD) até vota divido na Câmara dos Deputados da Alemanha do Norte: os deputados Wilhelm Liebknetch, pai de Karl Liebknetch, e Auguste Bebel, socialistas de Eisenach, partidários de Marx, se abstém de votar os créditos de guerra21, enquanto que os lassallianos, partidários de Ferdinand Lasalle, votam a favor.
Posteriormente fecham fileiras em termos de unidade internacionalista de classe, quando os socialistas alemães se declaram partidários de uma paz justa com a França e contra a anexação de Alsacia-Lorena, em solidariedade com os trabalhadores franceses. Esta posição política fez com que os dirigentes sejam presos e acusados de alta traição à pátria. Esta situação fez com que todos os socialistas votem de forma unificada contra os créditos de guerra e de qualquer anexação22.
Mesmo antes da Comuna de Paris de 1871, realiza-se uma forte campanha de difamação contra a AIT e aprofundam-se medidas repressivas em diferentes países. Um ponto alto da Primeira Internacional (PI), mesmo sendo minoria na Comuna de Paris, são suas declarações políticas na forma de Mensagens do Conselho Geral da AIT sobre a
guerra franco-prusiana em 1870 e a guerra civil na França um ano depois, escritos por
21 Destacamos este relevante segundo antecedente do que serão os posicionamentos da corrente socialista
revolucionária internacional.
22 Destacamos este relevante terceiro antecedente do que serão os posicionamentos da corrente socialista
Karl Marx. Mas a derrota da Comuna aprofunda os ataques contra os trabalhadores e a AIT, só para termos uma dimensão apresentamos a posição do Papa Pio IX sobre o governo suíço:
Ele tolera aquela seita da Internacional que quer tratar a Europa toda como tratou Paris. É preciso temer a essa gente da Internacional, pois trabalha por conta dos inimigos de Deus e da humanidade. (Citado por ABENDROTH, 1979, p. 42).
Na Conferência de Londres da Internacional de 1871, exigia-se a formação de partidos socialistas nacionais legais em cada país, algo inaceitável para os bakunistas e os blanquistas.
No marco destas disputas e o contexto de derrota, realiza-se o Congresso em 1872 em Haia, Holanda, mas estava mantido o isolamento, e mesmo Marx triunfando na votação no Conselho Geral, perdem-se os votos do sindicalismo inglês delibera-se a transferência da sede do Conselho geral para os Estados Unidos.
Em relação aos socialistas alemães, mas tem impacto na Internacional, o Congresso de Gotha23, realizado entre os dias 22 e 27 de maio de 1875, tinha como objetivo unificar as duas organizações operárias alemãs existentes: o Partido Operário Socialdemocrata (os eisenachianos) dirigidos por Willheim Liebkenecht e Auguste Bebel, e a União Geral dos Operários Alemães (UGOA), organização lassalliana acaudilhada por Wilhelm Hasenclever e Carl Wilhelm Tölcke, para formar uma organização única, o Partido Socialista Operário da Alemanha (PSOA).
Os ataques da Igreja contra a Internacional continuam em dezembro de 1878 com a encíclica do Papa Leão XIII Quod apostolici mineris sobre o socialismo e o comunismo. Em 1876, depois da derrota da Comuna de Paris, mesmo que a intervenção política a tivesse conferido muito prestígio, a crise entre marxistas e bakunistas, o translado aos Estados Unidos e seu isolamento, decide-se pela dissolução da AIT.
23 Após da suspenção das leis contra os socialistas, o primeiro Congresso que se realiza o Congresso da
Socialdemocracia da Alemanha na cidade de Halle e elabora o 16 de outubro de 1890, uma resolução, redigida por Wilhelm Liebknetch de apresentar no Congresso seguinte uma proposta de Programa, que foi o Programa de Erfurt. Assim como Marx realiza à Crítica ao Projeto de Programa de Gotha em maio de 1875, Friedrich Engels realiza a Crítica ao Projeto de Programa de 1891, de Erfurt, mesmo criticando escreve que é melhor que o anterior.