• Nenhum resultado encontrado

A propaganda dissidente

No documento Download/Open (páginas 71-74)

CAPÍTULO III – A imprensa como protagonista do processo eleitoral

2. Correio da Manhã

2.6. A propaganda dissidente

Dada a orientação de apoio à candidatura da Reação Republicana adotada pelo jornal carioca, não poderia deixar de existir nas suas páginas a disseminação dos movimentos de propaganda executados pelos candidatos Nilo Peçanha e J. J. Seabra, bem como de promotores oficiais da causa dissidente30.

30 O governador do Rio Grande do Sul Borges de Medeiros, apesar de pouco citado no jornal durante o período

pesquisado, é uma das maiores figuras dentro da dissidência. Isso é demonstrado em um discurso de Joaquim Osório, publicado pelo Correio da Manhã no dia 13 de dezembro de 192: “Sucessão Presidencial – Um discurso do sr. Joaquim Osório sobre a attitude do sr. Borges de Medeiros”. O artigo relata uma declaração feita pelo sr. Joaquim Osório em sessão da Câmara dos Deputados, onde este defende a atitude do sr. Borges de Medeiros em apoiar uma candidatura alternativa à proposta na convenção. Segundo o orador, Borges de Medeiros, que é adversário do candidato mas não do político Bernardes, procura um maior exercício da democracia nacional, com a inclusão de candidatos de fora do eixo Minas - São Paulo para favorecer também as outras regiões. Em seguida, o deputado diz que o sr. Borges de Medeiros defende que se o nosso sistema republicano é derivado do modelo norte-americano em sua essência, por que não adotar também seus princípios de equilíbrio entre as diferentes regiões da federação. O jornal questiona o repúdio mineiro pela idéia do político “riograndense”. “Foi, entretanto, recusada essa lembrança para admitir-se um candidato que pode ser muito digno pelos seus talentos, mas cuja personalidade a nação não conhecia e ainda hoje discute: o candidato Arthur Bernardes”.

Contudo, o que é constatado no período pesquisado não são numerosas propagandas e matérias sobre os candidatos e sim, apenas algumas inserções que apesar de extensas são iniciadas menos de dois meses antes do pleito. Em 5 de janeiro, o jornal publica uma nota “O governador da Bahia [...]” que anuncia a viagem de J. J. Seabra aos estados do sul em “propaganda eleitoral”. O artigo ainda enaltece a perseverança do já idoso J. J. Seabra que “ora em estrada de ferro, ora de automóvel, ora até simplesmente do dorso do cavallo” busca combater com afinco o “bernardismo corruptor”: “O inilludivel caracter democrático dessa propaganda é egualmente realçado pela resistência do candidato á vice-presidencia, que não conhece fadigas e cuja fé na Victoria parece dar-lhe ainda maiores forças para acreditar na justiça da nação deliberante”.

Em 7 de janeiro de 1922 a reportagem de capa “A chegada do Dr. J. J. Seabra e os acontecimentos de hontem...” com vários subtítulos (“Cães da Praça Mauá”, “No ‘Rio de Janeiro’”, “O sr. Seabra desembarca nos braços do povo”, “Na avenida”, “Uma saudação da mulher brasileira”, “Miseráveis! Capangas do ‘Cravo Vermelho’ atiram contra os candidatos do povo” e “Como se deu o attentado”) relata a passagem de J. J. Seabra pelo Rio de Janeiro e o atentado que este sofrera, juntamente com seu companheiro de chapa Nilo Peçanha com a presença de “oitenta mil pessoas, sem exagero”.

“O sr. Seabra tem sua partida para o sul [...]” (09/01/1922), “Sucessão Presidencial - Seabra embarca para o sul do país” (14/01/1922), “O sr. Seabra vae levar ao sul a palavra da reacção republicana” (15/01/1922) e “Sucessão Presidencial - A victoriosa excursão do sr. Seabra pelo interior paranaense” (20/01/1922) relatam a viagem de J. J. Seabra aos estados do sul do país até sua chegada a São Paulo.

Os artigos “Sucessão Presidencial - O sr. Seabra chega a Santos” (17/01/1922), “Sucessão Presidencial - A chegada a S. Paulo” (20/01/1922) e “Successão Presidencial – A recepção do sr. Seabra em Uberaba constituiu uma verdadeira apotheose” (24/01/1922) retratam a incursão de J. J. Seabra pelo estado de São Paulo e seu caminho até chegar em Uberaba Minas Gerais. Suas passagens relatadas são descritas como vitoriosas e apoteóticas e contavam com a presença de milhares de populares que o recepcionavam, o acompanhavam na visita e despediam-se do candidato em sua partida.

“Veja a differença destas attitudes [...]” (15/01/1922) compara as campanhas feitas por Seabra e por Bueno Brandão em favor de Bernardes. Segundo o artigo, um faz propaganda política, outro conchavo; um quer luz, discussão, exame e pleito, o outro deseja o sussurro, prepara as acomodações, negocia solidariedades e combina os arranjos. Um é o povo, o outro autocracia, Um é a nação, outro oligarquia. “Uma é o sol dourado, [...] a outra é a meia

sombra infecta, que disfarça as podridões”. Um é a república de todos, outro é a república dos camaradas: “A nação que decida entre a democracia e a plutocracia, entre o bem e o mal”.

As menções ao candidato Nilo Peçanha foram ainda mais modestas se comparadas com a do seu vice. “O senador Nilo Peçanha e o dr. J. J. Seabra [...]” (03/01/1922), “Sucessão Presidencial - O governador da Bahia esteve no palácio do Rio Negro; - A viagem do sr. J. J. Seabra a Petrópolis” (03/01/1922) relatam a excursão de J. J. Seabra ao Rio de Janeiro, acompanhado de seu companheiro de chapa Nilo Peçanha.

“A ida do sr. Nilo Peçanha [...]” (07/02/1922) relata a visita de Nilo Peçanha, “o candidato do povo brasileiro á presidência da República” a São Paulo. Segundo o jornal, esperava-se uma recepção tão apoteótica quanto a feita ao candidato à vice J. J. Seabra.

Enquanto os Cesares, caricatos do bernardismo, nos seus palácios [...] procuram transformar a democracia no império exclusivo de sua vontade, há de commover a alma das multidões, por força, a cruzada cívica dos dois candidatos que se approximam do povo e fazem depender unicamente da massa soberana o triumpho que pleiteiam.

A nota “O senador Nilo Peçanha e o dr. J. J. Seabra [...]” (03/02/1922) indica a visita de Nilo Peçanha e seu vice ao conselheiro Ruy Barbosa. Já na nota publicada em 14 de fevereiro de 1922: “Sucessão presidencial - Viagem do sr. Nilo Peçanha” o jornal informa o que seria o último comício de Nilo na campanha presidencial. O local escolhido para tal evento foi São Paulo, contudo, o artigo “A conferencia de São Paulo” publicado no dia 26 de fevereiro, além de reproduzir na íntegra o programa de governo elaborado por Nilo Peçanha, informa que o candidato foi impedido de apresentá-lo à população paulista “pela insolente arrogância politiqueira do sr. Washington Luis”.

Outros apoiadores da causa da reação são contemplados com destaque pelo jornal. Maurício de Lacerda, propagandista da Reação Republicana aparece nas páginas do matutino carioca na ocasião de sua viagem a Minas Gerais. A nota “Sucessão Presidencial – A excursão do sr. Maurício de Lacerda” relata o roteiro que será seguido pelo correligionário de Nilo Peçanha na sua visita à cidades mineiras e “Manifestação ao sr. Maurício de Lacerda” (20/01/1922) é um convite à população para participar de uma manifestação em comemoração pela sua partida. Porém, um imprevisto encurtou sua viagem: “O dr. Mauricio de Lacerda é aggredido por capangas a soldo do bernardismo - O deputado fluminense está em tratamento, na estação de Commercio”, extensa reportagem com diversas partes (“O que se passou em Juiz de Fora”, “O fato nos é communicado de Entre Rios”, “A população de Entre Rios deplora o attentado”, “Um dos alvejados pelos assalariados do bernardismo” e “A melhor

sociedade de Bello Horizonte lamenta os processos do bernardismo”) relatam um atentado sofrido pelo conferencista. Segundo a reportagem, ao chegar em Juiz de Fora, o propagandista da reação foi recebido a pedradas por “assalariados” pelo deputado Francisco Valladares (que segundo o jornal, era intimamente ligado a Arthur Bernardes). Após o incidente, Maurício de Lacerda retornou para a casa de familiares para receber cuidados médicos.

No documento Download/Open (páginas 71-74)