• Nenhum resultado encontrado

O matutino carioca e as cartas de Bernardes

No documento Download/Open (páginas 65-67)

CAPÍTULO III – A imprensa como protagonista do processo eleitoral

2. Correio da Manhã

2.1. O matutino carioca e as cartas de Bernardes

Com a marca registrada de um jornalismo opinativo levado ao extremo, o Correio da Manhã, promoveu uma das mais polêmicas discussões eleitorais que o país já presenciou. O jornal foi responsável pela publicação, no dia 13 de outubro de 1921, das cartas que o candidato Arthur Bernardes, teria enviado ao seu companheiro de partido, Raul Soares e que continha ofensas diretas às forças armadas do país. Com isso, estava criado o assunto que regeria tanto a campanha do candidato do Partido Republicano, Arthur Bernardes, quanto à campanha do seu adversário no pleito presidencial: Nilo Peçanha.

Tal qual o Diário de Minas se esforçou para fazer com que o eleitorado se convencesse do embuste das cartas intitulando-as de apócrifas, falsas e difamatórias, o Correio da Manhã promoveu uma verdadeira caçada ao candidato que ousou insultar o exército. O matutino apoiou a atitude da comissão do Club Militar (que verificou a

28 Edmundo Bittencourt, advogado que começou a exercer sua profissão ao lado de Rui Barbosa e Sancho de

Barros Pimentel. Fundou o Correio da Manhã, comprando o espólio do matutino A Imprensa (de Rui Barbosa e Carlos Bandeira). Faleceu em 1943.

autenticidade das cartas), sempre confiando no seu resultado positivo e Edmundo Bittencourt tratou de encomendar sua própria perícia com Edmund Locard, perito francês, que também as considerou como verdadeiras para desespero dos candidatos da convenção e simpatizantes.

O jornal carioca, desde a publicação das cartas, as denominou em seus títulos e reportagens como sendo autênticas, escritas por Arthur Bernardes. Expressões como cartas injuriosas ao exército, cartas insultuosas às forças armadas, cartas ultrajantes aos brios da nação, caluniosas cartas de Bernardes, cartas “authênticas offensivas” e títulos como “As cartas de Bernardes” (26/2/1922) e “A passagem do dr. Edmundo Bittencourt pela Bahia - Uma entrevista ao ‘Diário da Bahia’ - A Absoluta authenticidade das cartas de Bernardes” (27/02/1922), retratam com exatidão a posição tomada pelo jornal no episódio.

Os destaques não ficavam apenas nas expressões fortes e títulos de reportagens evidentes. Foi possível constatar, no período pesquisado, a utilização das capas e dos seus números como forma de colocar em destaque notícias consideradas importantes pela sua linha editorial.

Em seu jornal no formato “standard" com nove colunas, o Correio da Manhã, como outros jornais regulares do período, reservava as primeiras páginas para notícias internacionais. A segunda página, em sua maioria, noticiava acontecimentos políticos e de administração pública e crônicas. A terceira página continha assuntos populares como acidentes, ocorrências policiais e notícias do gênero, permeada de inúmeros anúncios.

Algumas colunas fixas traziam costumeiramente alguma nota ou pequeno artigo relacionado às eleições presidenciais. Entre estas colunas destacaram-se “Tópicos & Notícias” e “Pingos & Respingos” que traziam informações de assuntos diversos, inclusive política e eleições e a mais importante no assunto eleições: “Sucessão Presidencial” que se tratava, em geral, de uma coletânea de notas relacionadas com o título.

A capa do matutino abria exceções para notícias nacionais, quando estas tinham, seguindo os critérios do jornal, uma grande relevância. No período pesquisado, todas as notícias de capa que não eram sobre nações e assuntos internacionais, continham alguma ligação com a questão da sucessão presidencial. Era pouca variedade de assuntos que alternavam entre notícias do candidato do Mé (apelido vexatório que era constantemente utilizado pelo jornal para se referir à figura de Arthur Bernardes que ainda possuía uma variante: o Rolinha) e viagens e comícios dos candidatos e apoiadores da Reação Republicana.

2.2. “Rolinha” e “Seu Mé”

As notícias que tratavam de Bernardes, sempre continham um teor incriminatório (ou ao menos acusatório) ou tratavam do episódio das cartas.

“Telegramas” (6/12/1921), “As misérias do Bernardismo” (7/12/1921), “As infâmias do bernardismo – O coronel Frutuoso pede aos governadores do Sergipe e do Pará que retirem o apoio ao candidato que insultou as classes armadas” (12/1/1922), “Bernardices... – Exemplares do ‘Correio da Manhã’ e do ‘Imparcial’ queimados por ordem do governo” (28/1/1922), tratam de episódios que segundo o jornal foram provocados por Bernardes ou a mando do candidato.

“A carta insultosa ao exército e o laudo pericial agitaram ontem a câmara - Deputados bernardistas atacam o Club Militar, cuja attitude censuram” (30/12/1921), “A carta ultrajante – A moção votada na assembléia última, elogiando a commissão de exame pericial” (14/1/1922), “A authenticidade das cartas de Bernardes verificada pelo perito Locard” (6/2/1922) e “A authenticidade das cartas de Bernardes verificada pelo perito Locard – Até o eminente professor o bernardismo tentou corromper!” (7/2/1922) são extensas reportagens de capa que tratam do episódio das “cartas infames” escrita por Bernardes em todas as suas nuances e particularidades, reportando o resultado à exaustão tanto da perícia feita pelo Club Militar quanto do trabalho executado pelo perito Locard. Algumas notícias ainda possuíam continuação nas páginas seguintes como no caso das reportagens “O bernardismo em crise no Senado – O sr. Irineu Machado pronunciou hontem um vibrante discurso, saudando o senador Paulo de Frontin e as classes armadas” (31/12/1921), com continuação na página 3 do jornal e a matéria recordista em extensão tanto sob aspecto da matéria quanto do título: “Foi lido hontem, perante o Club Militar, reunido em memorável assembléa, o laudo da perícia a que foi submettida a carta do sr. Arthur Bernardes, insultuosa às classes armadas. A commissão foi levada a concluir pela authenticidade da carta, porque ella resistiu a todas as provas periciaes, realizadas com imparcialidade e rectidão. A moção Fructuoso Mendes foi approvada com grande enthusiasmo” (29/12/1921), que ocupou quase totalmente 38 colunas do jornal (4 páginas completas mais duas colunas incompletas).

No documento Download/Open (páginas 65-67)