CAPÍTULO III – A imprensa como protagonista do processo eleitoral
2. Correio da Manhã
2.7. Bernardes e seus desafetos
O jornal, aproveitando a oportunidade, transcreve vários telegramas de repúdio “à baixa política” praticada pelo bernardismo.
“A exemplo do que aconteceu com o sr. Seabra [...]” (19/02/1922) dá continuidade ao caso e relata que o sr. Maurício de Lacerda “não poderá ir a Minas continuar a propaganda pelas candidaturas da Reacção Republicana”. Segundo o artigo, mesmo concedido o hábeas corpus aos dois políticos (Lacerda e Seabra), este ato, simplesmente jurídico, não garante a integridade física de ambos. “Está visto que não era preciso mais, para um bom entendedor. Em Minas, o sr. Bernardes e o general Setembrino; no governo da República, o sr. Epitácio Pessoa; na presidência do Supremo Tribunal, um ministro eventualmente vaiado [...]” fazendo referência de uma espécie de “quadrilha” montada pelo bernardismo e suas vertentes.
Odilon de Andrade, figura política mineira que ganhou notoriedade pelo jornal após a nota “A sessão de hoje na Câmara [...]” (27/12/1921) que indica que o deputado Mineiro Odilon de Andrade planeja declarar que não mais faz parte da chapa de Bernardes, pois seus eleitores querem votar no Nilo Peçanha. Segundo o jornal, esta declaração tem sido adiada, pois os comparsas de Bernardes estão tentando fazer com que ele não faça tal declaração.
Contudo Odilon seguiu firme com sua declaração conforme publicado no discurso de 28 de dezembro de 1922 “Pingos & Respingos – Em seu discurso [...]” em que este declarou “Minas não é o bernardismo! É uma víctima, uma presa, sacrificada, asphyxiada por elle. Ella há de quebrar essa cadeia”. Ainda segundo a nota, o deputado conhece o seu eleitorado e que os “carneiros não constituem um eleitorado”.
No mesmo número de jornal, o artigo “Depoimento Capaz” disserta sobre o deputado Odilon de Andrade ter deixado a causa bernardista em favor da dissidência respeitando os anseios dos que o elegeram deputado. Ainda sobre o bernardismo, o artigo analisa que
não é, afinal, uma doença nova; é mal antigo, espalhado endemicamente em Minas de há quatro annos [...] e que se propagou no resto do paiz pela fatalidade com que todas as pestes não morrem no foco de origem sem
haverem produzido no seu campo de irradiação o vácuo da orphandade e da viuvez [...] cupim estadual
e que o movimento que tenta defender o país da ruína total é a dissidência e que Minas deveria ser o berço da dissidência já que é o estado que mais sofre deste mal e que só defendem o bernardismo por pura ilusão. Ainda segundo o artigo, o bernardismo não compreende a democracia, não é dirigido, só quer dirigir, oprimir, manda, não obedece “é a revivescência delirante da autocracia medieval”. Odilon foi “o bisturi que hontem dissecou o cadáver moral de Arthur Bernardes”.
Mas, analisando algumas edições do Correio da Manhã já é possível constatar que o grande assunto tratado pelo jornal eram os ataques a Arthur Bernardes.
Se o jornal, alinhado à reação, pouco mencionou o candidato da dissidência, o contrário aconteceu com o candidato da Convenção. Nas matérias do jornal, Bernardes era relacionado a esquemas criminosos que iam desde perseguições e prisões por questões políticas a acusações de assassinato, tal qual em extensa e detalhada matéria do dia 11 de dezembro com o título “Corruptor e assassino”, relata que o candidato utilizou sua influência e a disponibilidade de seus amigos para impor o terror para obter o controle da cidade de Viçosa (no período citado na reportagem, Bernardes ainda era Deputado).
A alcunha de assassino, também é aplicada a Bernardes na reportagem: “De Varginha, em Minas [...]” (08/02/1922) em que o jornal transcreve um telegrama enviado para a redação, de um grande número de pessoas que protestam contra a absolvição do assassino de “Gancho” um barbeiro local. Segundo o artigo, tal atitude só foi possível após ostensiva intervenção da política bernardista. “Afinal de contas, o assassino da Viçosa, que chegou a presidencia de Minas e quer escalar a da Republica, protege apenas a gente de sua parceria [...]”.
“Estávamos a encerrar o expediente desta folha [...]” (06/12/1921), “As misérias do bernardismo” (07/12/1921), “Um caso escandaloso – As podridões de nossa política” (11/12/1921), “Capangas do Libanio agridem um cidadão indefeso” (24/12/1921), “O chefe da dansa” (24/12/1921), “Até uma creança é victima da sanha policial!” (25/12/1921), “Soubemos hontem – e hesitamos em acreditar [...]” (30/12/1921), “Informações de fontes seguras [...]” (02/01/1922), “Sucessão Presidencial – Prisões de Sargentos e Perseguições aos funccionarios postaes” (09/01/1922), “O dr. Joaquim de Assis Ribeiro [...]” (14/01/1922), “A demissão do promotor da capital do Pará” (20/01/1922), “Sucessão Presidencial - Manifestantes atacados a tiros no Pará” (24/01/1922), “Bernardices... – Exemplares do ‘Correio da Manhã’ e do ‘Imparcial’ queimados por ordem do governo” (28/01/1922),
“Sucessão Presidencial - O governador catarinense não adheriu ao ‘Seu Mé’” (03/02/1922),m “No Estado de Santa Catharina [...]” (08/02/1922) e “As misérias do bernardismo [...]” (14/02/1922) são notas e artigos que relatam perseguições de Arthur Bernardes e de seus correligionários a cidadãos comuns que se manifestam em favor de Nilo Peçanha e da causa dissidente. As perseguições eram relatadas como da sendo prisões arbitrárias, espancamentos e censuras à manifestações públicas contrárias aos ideais ou aos candidatos da convenção.
A censura e violência não era exclusividade de Bernardes em Minas Gerais. Conforme publicado no Correio da Manhã, seu candidato à vice, Urbano dos Santos, também seguia os passos de seu “tutor” com “irrupção violenta da peste bubônica e o regimen do terror implantado nos municípios sertanejos” (“O sr. Urbano dos Santos mandou dizer ao sr. Raul Soares [...]” – 13/12/1921) e compara-os no dia 22 de dezembro: “o sr. Bernardes é accusado de vários crimes, em Minas. O sr. Urbano, idem, no Maranhão. E ainda há quem os chame de mé, com tamanha ferocidade [...]” (Pingos & Respingos). Em “TELEGRAPHO - O sr. Urbano dos Santos [...]” o jornal critica a atuação pífia de Urbano dos Santos no Maranhão, principalmente no que diz respeito à peste bubônica, varíola e outros horrores “o governador trata de despachar para estas localidades caixotes e mais caixotes de boletins contendo a propaganda do seu e do viçoso nome do seu comparsa [...] Felizmente, o eleitorado maranhense conhece o sr. Urbano. Não há propaganda que o salve” sentencia.
O argumento de violência praticada no Maranhão com a bênção do governador é utilizado também em “A prophylaxia rural [...]” (22/12/1921), “No Maranhão, o bernardismo deu agora para aggredir [...]” (05/01/1922) e “Deus fez e o diabo juntou [...]” (07/01/1922). Nos três exemplos, os artigos fazem dos atos violentos e da deterioração da população por pestes, responsabilidade da comodidade e incapacidade administrativa de Urbano dos Santos sempre tutelada pelo candidato Arthur Bernardes.
“Companheiro de chapa do sr. Arthur Bernardes [...]” (21/12/1921) informa que Urbano dos Santos, em telegrama, solicitou que um amigo seu, promotor, desacatasse o juiz Demosthenes de Macedo, que o fez e por isso recebeu um telegrama do próprio juiz o repreendendo. Segundo a nota, Urbano tenta se identificar a Bernardes tanto política como moralmente, utilizando recursos ditatoriais tal qual o presidente de Minas o faz: “Bernardes e Urbano se identificam e se completam. Deus os fez e [...] a ‘convenção do mé’ os uniu [...]”.