A partir de 1850, o país entrou num tempo de estabilidade e prospe-ridade. Tempo esse que prosseguiu até quase o final de seu reinado. Seu fim, e o término da Monarquia no Brasil, com a Proclamação da República em 1889, adveio de alguns fatores negativos que convergiram sem que Pedro II apresentasse reação contrária capaz. A Escravatura e a Abolição foram alguns desses fatores. Dom Pedro, pessoalmente, era contrário à escravidão, nunca tendo possuído um escravo em toda sua vida. Por outro lado, a economia cafeeira dos grandes e pequenos produtores era franca-mente dependente deles, até a possibilidade de vinda efetiva de grupos de imigrantes. Por volta de 1850, sob pressão da Inglaterra, que se decla-rara contra a escravidão africana, Dom Pedro conseguiu aprovar uma Lei proibindo o tráfico de escravos (Lei Eusébio de Queiros). A Lei do Ventre Livre, que aconteceu em 1871, estabelecendo a liberdade de todos os no-vos filhos de escrano-vos, aumentou a pressão política. Quase todo o mundo ocidental já tinha declarado o fim da escravidão — os Estados Unidos, por exemplo, em 1863 com a ação emanada da política de Abraham Lincoln.
No caso brasileiro, apenas em 1888 deu-se a libertação definitiva dos es-cravos.
A forma de governo existente no Brasil Imperial, desde 1823, era Monarquia Constitucionalista, ficando o Poder Legislativo nas mãos do Congresso Nacional. Dom Pedro II não atuava de forma contundente nes-se processo e passou a depender do Congresso, no qual os grandes pro-prietários e fazendeiros poderosos predominavam. Foram muitas as fortu-nas e títulos de nobreza conseguidos por meio da exploração da mão de obra escrava no Brasil.
Também nesse período ocorreu a Guerra do Paraguai, com a forma-ção da Tríplice Aliança, composta pelo Brasil, Argentina e Uruguai, reuni-dos contra o ditador paraguaio Francisco Solano Lopes, que alimentava pretensões de obter uma saída para o Atlântico. Iniciada no final de 1864, a Guerra só foi concluída após terríveis e cruéis batalhas, com um Paraguai arrasado e Solano Lopes morto, em 1870.
Desse evento, politicamente, resultaram dois pontos importantes. O primeiro foi o surgimento do Exército Brasileiro, como uma força agrega-dora de aspirações a serem consideradas daí para a frente. O segundo foi o papel do Conde d’Eu que, ao final desse período, atuou como Coman-dante-Chefe das forças militares no conflito, exatamente no momento da caçada a Solano Lopez.
Dom Pedro II na Guerra do Paraguai com seus genros — o Duque de Saxe e o Conde d’Eu. Litogravura de Ange Louis Janet a partir de desenho de Máximo Alves, no “L’illustration”, Vol. XLVL, nº 1.186, em 1865. Em domínio público
via Wikimedia Commons.
Para complicar a situação governamental de Dom Pedro II, agravou--se um conflito latente com a Igreja Católica. Nesse tempo, houve uma interferência e um relacionamento bem instável entre a Monarquia e a Igreja. Apesar do poder da Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil, o Imperador detinha, constitucionalmente, autoridade para aceitar ou recu-sar as normas emitidas pelo Papa, além de forte ingerência na nomeação
de bispos e prelados no país. Esse episódio da nossa história, ocorrido entre 1872 e 1875, durante o pontificado do Papa Pio IX, ficou conhecido sob o nome de Questão Religiosa.
O pontificado do Papa Pio IX (1792-1878), um dos mais longos da história da Igreja Católica (1846-1878), liberal no início, foi pouco a pouco se mostrando extremamente conservador, centrado em princípios derivados das propostas de São Tomás de Aquino, combatendo acirrada-mente todos os movimentos sociais fora da Igreja, como o Socialismo, a Franco-Maçonaria, e até o Judaísmo. Assim, em 1872, obedecendo às orientações papais, o Bispo de Olinda entrou numa disputa com membros das Lojas Maçônicas em seu estado, ameaçando-os de excomunhão. No mesmo período, o Bispo de Belém atuava de forma análoga. Os maçons perseguidos apelaram para a Corte e Dom Pedro II foi obrigado a intervir.
Em um processo instaurado no Rio de Janeiro contra os eclesiásticos, em 1874, os dois Bispos foram condenados a quatro anos de detenção, com trabalhos forçados. O confronto foi resolvido em 1875, de forma política, com Dom Pedro II anistiando os Bispos e o Papa Pio IX suspendendo as punições feitas aos mações de Olinda e Belém. Porém o estrago estava feito nas relações do Imperador com a Igreja.
Em meio a essas crises entra em cena o Conde d’Eu. Nosso Impe-rador, já chegando a uma idade mais avançada, não tinha um herdeiro homem, sendo que seus dois filhos do sexo masculino tinham falecido na infância, restando as duas meninas, Isabel, nascida em 1846, e Le-opoldina em 1847. Isabel seria a Princesa Herdeira do trono, de acordo com as Leis, porém ela era julgada pela população, pelos políticos, e até por Dom Pedro, como despreparada para ocupar a posição maior na Mo-narquia Brasileira. Tida como exageradamente devota da Igreja Católica, Isabel ostentava dependência imprópria para uma soberana. Mesmo seu casamento com o Conde d’Eu fora motivo de repúdio e de chacota nos jornais da época. Um dos argumentos vigentes propalava que ele sequer era brasileiro. Nascido na França, em 1842, Louis Philippe Gaston de Or-leans era um nobre francês, neto do rei Louis Philippe I. Sua atuação na Guerra do Paraguai foi motivo de controvérsias, descrito por alguns
cronis-tas como um excelente estrategista militar, por outros como sanguinário e cruel. Sobretudo, como estrangeiro e falando nossa língua com um forte sotaque, era suspeito de passar a ter influência em nosso destino, se sua esposa viesse a ser Imperatriz, tornar-se-ia mais um ponto crítico para a continuidade da Monarquia Brasileira.
A princesa Isabel. Por Joaquim Insley Pacheco (ca. 1830 — 1912) em domínio público via Wikimedia Commons.
Assim, com Dom Pedro II enfraquecido pela idade, com saúde pre-cária, sem um herdeiro adequado, sem o apoio dos grandes fazendeiros, que em troca do fim da escravidão clamavam por um ressarcimento finan-ceiro, com disputas com o clero católico e o movimento contrário de uma
parcela do Exército, parcela essa influenciada pelo Positivismo de Comte, pouco restou a fazer ao Imperador, quando foi confrontado com a ordem de destituição do trono e do exílio imediato.
A proclamação da república foi um episódio bem controvertido, en-volvendo um velho e muito doente Marechal, Deodoro da Fonseca, alguns poucos políticos radicais e militares descontentes. Uma ação que tinha de início apenas o objetivo de substituir o corpo de ministros nomeado por Dom Pedro II, acabou por extinguir a Monarquia. Com o termo da Monarquia no dia 15 de novembro de 1889, ao final desse conturbado dia, o Rei teria dito, resignado, “Trabalhei demais e estou cansado. Agora vou descansar”. Logo a seguir partiu para a França com toda sua família...