CAPÍTULO 2: A EMPRESA E SUA FUNCIONALIZAÇÃO
2.1 Sustentabilidade e Direitos Humanos
2.1.5 A proteção constitucional da sustentabilidade
Como o presente trabalho trata da funcionalização do direito, e, mais especificamente com relação à empresa, ou seja, de como esta deve se expressar em compatibilização a essa funcionalização, cabe melhor explicitar a normatividade que a afeta. Assim, faz-se pertinente abordar a sustentabilidade no contexto constitucional, pois esse é o norte maior do agir de todos, quer sejam pessoas físicas, quer jurídicas, entes públicos ou privados.
A Constituição de 1988 claramente contempla a multidimensionalidade da sustentabilidade. Contudo, a abordagem ambiental é sempre a mais lembrada, talvez pelo fato de o artigo 225193 fazer menção a expressões como “gerações presentes e futuras”, contidas no Relatório Nosso Futuro Comum.
Todavia, não se pode deixar de reconhecer que na ordem constitucional pátria, a inserção da sustentabilidade se faz como princípio cogente que vincula tanto o Estado quanto toda a sociedade, em todos os seus aspectos. Ou seja, a Constituição Federal contempla
192 Ibidem, p. 60, 62, 63 e 65.
193 Artigo 225 da Constituição Federal: Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de
uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
também a abordagem social e econômica da sustentabilidade, tratando o fenômeno em seu caráter multifacetado, como explicita Juarez Freitas:
Trata-se de princípio constitucional que determina, com eficácia direta e imediata, a responsabilidade do Estado e da sociedade pela concretização solidária do desenvolvimento material e imaterial, socialmente inclusivo, durável e equânime, ambientalmente limpo, inovador, ético e eficiente, no intuito de assegurar, preferencialmente de modo preventivo e precavido, no presente e no futuro, o direito ao bem-estar.194
Já no início, ao tratar dos princípios fundamentais, a Constituição Federal expressa a adoção de um Estado Democrático (artigo 1º),195 pautado pela solidariedade e justiça social, e coloca no rol dos objetivos fundamentais da República tanto a garantia ao desenvolvimento como a promoção do bem-estar de todos (artigo 3º).196
Nos artigos 174 § 1º197 e 192,198 que tratam, respectivamente, do planejamento do desenvolvimento e do objetivo da estruturação do sistema financeiro nacional, a expressão “desenvolvimento equilibrado”, utilizada nesses dois dispositivos constitucionais, denota claramente a preocupação com o desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade. Também o artigo 205199 associa a educação ao “pleno desenvolvimento da pessoa” e o artigo 219,200 vincula o incentivo ao mercado interno ao desenvolvimento, cultural e socioeconômico.
194 FREITAS, op. cit., p. 41.
195 Artigo 1º: A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do
Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I – a soberania; II – a cidadania; III – a dignidade da pessoa humana; IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V – o pluralismo político.
196 Artigo 3º: Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade
livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
197 Artigo 174: Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei,
as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado. § 1º: A lei estabelecerá as diretrizes e bases do planejamento do desenvolvimento nacional equilibrado, o qual incorporará e compatibilizará os planos nacionais e regionais de desenvolvimento.
198 Artigo 192: O sistema financeiro nacional, estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado
do País e a servir aos interesses da coletividade, em todas as partes que o compõem, abrangendo as cooperativas de crédito, será regulado por leis complementares que disporão, inclusive, sobre a participação do capital estrangeiro nas instituições que o integram.
199 Artigo 205: A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a
colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
200 Artigo 219: O mercado interno integra o patrimônio nacional e será incentivado de modo a viabilizar o
desenvolvimento cultural e sócio econômico, o bem-estar da população e a autonomia tecnológica do País, nos termos de lei federal.
Acerca da inserção da empresa na sustentabilidade, ganha destaque o tratamento constitucional previsto para a ordem econômica, pois, no regime capitalista de mercado a empresa é sua maior expressão. Entretanto, é preciso considerar que, apesar da adoção da economia de mercado, a Constituição de 1988 impõe uma abordagem de bem-estar social. De pronto isso fica claro no artigo 170,201 que erige como finalidade da República “o estabelecimento de uma vida digna”, colocando lado a lado a “valorização do trabalho” e a “livre iniciativa”, numa perspectiva de equilíbrio entre esses valores,202 expressando, assim, a preocupação com a perspectiva social e econômica, pertinentes às duas primeiras dimensões de direitos humanos.
Além disso, o referido dispositivo determina a harmonização da propriedade privada com a função social da propriedade e a livre concorrência, na medida em que coloca os tais valores como princípios balizadores da ordem econômica (incisos II, III e IV). A defesa do consumidor e do meio ambiente (incisos V e VI), completam o plexo de garantias constitucionais à sustentabilidade. Em síntese, a defesa dos consumidores e do meio ambiente, ao lado da função social, foram erigidas como limitadores da livre iniciativa, da propriedade privada e da livre concorrência.
Essas colocações, somadas à adoção da solidariedade (consubstanciada em “justiça social”, a busca pelo “bem geral” e pelo desenvolvimento, consagrados, respectivamente, como princípios fundantes e o objetivo do estado brasileiro), deixam claro que a ordem constitucional vigente, ao consagrar o Estado social, abraçou integralmente a sustentabilidade em sua acepção multifacetada, cultivando valores que norteiam e dão significado ao desenvolvimento, para além do aspecto meramente econômico.
Como corolário dessas disposições constitucionais, que balizam a ordem econômica, fica claro que a empresa, enquanto principal protagonista das atividades econômicas que geram o progresso, também precisa lastrear sua atividade em observação ao caráter
201 Artigo 170: A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por
fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: I – soberania nacional; II – propriedade privada; III – função social da propriedade; IV – livre concorrência; V – defesa do consumidor; VI – defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação; VII – redução das desigualdades regionais e sociais; VIII – busca do pleno emprego; IX – tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País. § único: É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei.
202 No mesmo sentido cf. SILVEIRA, Vladmir Oliveira da. O direito ao desenvolvimento na doutrina humanista
do direito econômico. São Paulo, 2006b. Tese (Doutorado em Direito Público) – Programa de Pós-Graduação
multifacetado da sustentabilidade; eis que na ordem constitucional vigente é a sustentabilidade que molda o desenvolvimento e não o contrário.