CAPÍTULO 2: A EMPRESA E SUA FUNCIONALIZAÇÃO
2.1 Sustentabilidade e Direitos Humanos
2.1.4 Sustentabilidade ética
A dimensão ética da sustentabilidade envolve a própria conceituação do tema nos termos concebidos pelo Relatório Nosso Futuro Comum, que prescreve o compromisso das presentes gerações de que satisfaçam suas necessidades sem, contudo, comprometer a capacidade das gerações futuras de exercerem igual direito, externando-se, pois, numa perspectiva de responsabilização dos atos praticados no presente em relação ao futuro.
Esse compromisso de responsabilidade dos atos do presente em relação às gerações do futuro guarda consonância com a ética da responsabilidade, objeto dos estudos desde Platão na Antiguidade até Hans Jonas e Gilles Liposvetsky, na atualidade, os quais vislumbram-na como uma ética aplicada. Vale aqui relembrar que, como resume Norberto Bobbio183, a ética da responsabilidade não considera a intenção deflagradora do ato, antes o julga tão somente pelo que vem depois, isto é, pelo resultado. E, como mencionado o presente trabalho, essa ética - fundada no compromisso das ações atuais em relação à humanidade do futuro - estaria se erigindo como novo valor, fazendo surtir a quarta dimensão dos direitos humanos.
Entretanto, mesmo direcionando-se à responsabilização com o futuro, a abordagem ética da sustentabilidade vai além de garantir qualidade de vida às futuras gerações. De fato, a abordagem ética modula aqui e agora as demais dimensões da sustentabilidade (social, econômica e ambiental) e lhes confere significado.
Como explicam Francisco Caporal e Roberto Costabeber, é sob enfoque da dimensão ética da sustentabilidade que se insere a avaliação dos novos valores de sustentabilidade e sua aplicação diferenciada, de acordo com os diversos contextos sociais.184
Na verdade, a abordagem ética é o vetor que norteia e dá sentido à compatibilização das diversas facetas da sustentabilidade. Nesse sentido, explictam os autores acima citados: “a
183 BOBBIO, Norberto. Elogio da serenidade e outros escritos morais. Trad. Marco Aurélio Nogueira. São
Paulo: Editora UNESP, 2002, pp. 73-74.
184 Nesse sentido, discorrem Caporal e Costabeber: “a dimensão ética a que nos referimos exige pensar e fazer
viável a adoção de novos valores que não necessariamente serão homogêneos. Para alguns povos do Norte rico e opulento, por exemplo, a ética da sustentabilidade tem a ver com a necessidade de redução de sobreconsumo, hiperpoluição e abundante produção de lixo e contaminação ambiental gerado pelo seu estilo de vida e de relação com o meio ambiente. Para nós, do Sul provavelmente a ênfase deve ser em questões como resgate da cidadania e da dignidade humana, a luta contra miséria e a fome ou eliminação da pobreza e suas consequências sobre o meio ambiente”. (CAPORAL, Francisco Roberto; COSTABEBER, José Antônio. Análise multidimensional da sustentabilidade. Uma proposta metodológica a partir da Agroecologia. Revista Agroecologia e Desenvolvimento
Rural Sustentável, v. 3, n. 3, Porto Alegre, p. 79, jul.-set., 2002. Disponível em <http://www.emater.tche.br/site/sistemas/administracao/tmp/416357777>. Acesso em 24 mai. 2014.)
dimensão ética da sustentabilidade se apresenta numa posição elevada de hierarquia, uma vez que sua consideração pode afetar os objetivos e resultados esperados nas dimensões de primeiro e segundo nível”.185,186
O bem-estar do ser humano187 é, pois, a finalidade do desenvolvimento que leva em conta a perpetuação do planeta como plataforma necessária à vida humana. Mas, não só isso, pois não basta sobreviver. O atual estágio civilizatório reclama capacitar que a vida humana se expresse e se perpetue em toda sua plenitude garantindo-se a plena realização das capacidades humanas, como forma de garantir respeito pela dignidade humana.
No dizer de Juarez Freitas, na perspectiva ética se faz presente “o dever ético racional de expandir liberdades e dignidades”.188 E essa expansão de liberdades e dignidades deve ser garantida agora e para o futuro. Não é outro entendimento que se pode inferir da definição de desenvolvimento sustentável, como aquele que tem como meta “a satisfação das necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem suas próprias necessidades”. Essa meta está contida no mencionado documento, que se tornou um princípio balizador da sustentabilidade.
Lido de outra maneira, constata-se que o documento veda que a satisfação das necessidades das presentes gerações se faça de forma descompromissada com as gerações vindouras. Sob essa leitura não se pode fugir à evidência de que há uma imposição de responsabilização das sociedades atuais pelas consequências a serem suportadas pelas gerações futuras, verificando-se aí a abordagem ética da sustentabilidade.189
185 Os autores propõem a análise da sustentabilidade a partir de seis elementos hierarquizadas em três níveis
distintos. Para tanto, valem-se de uma representação triangular/piramidal, em cuja base, ou seja, no primeiro nível, encontram-se os aspectos ecológicos, econômicos e ambientais; no segundo nível, situam-se os aspectos culturais e políticos; e no terceiro, hierarquicamente superior, encontra-se a ética. (CAPORAL, op. cit., p. 70 e 76.)
186 Ibidem, p. 80.
187 Ressalva-se que, no âmbito do presente, considera-se a perspectiva antropocêntrica no tratamento da
sustentabilidade e não se pretende discutir as teorias que a ela se contrapõem. Nesse ponto, diverge-se do posicionamento de Juarez Freitas, que, ao tratar da dimensão ética da sustentabilidade, admite a dignidade a todos os seres vivos, em geral (Ibidem, p. 18 e 63). Todavia, mesmo a adoção de uma perspectiva antropocêntrica não permite concluir que a primazia do homem sobre a natureza se faça em desrespeito às outras formas de vida existentes no planeta. Essa abordagem – antropocêntrica – considera importantes as formas de vida, ainda que seja apenas por contribuírem com o equilíbrio ecológico e, em decorrência, com o bem-estar humano.
188 FREITAS, op. cit., p. 61.
189 Preleciona Juarez Freitas quanto à determinação ética da sustentabilidade – para ele ético-jurídica – que
importa considerar que esse “princípio determina sopesar os benefícios, os custos direitos e as externalidades, ao lado dos custos de oportunidade, antes de cada empreendimento”. (Ibidem, p. 33.)
Nesses termos, a dimensão ética da sustentabilidade prescreve valores que expressam solidariedade sincrônica (entre as gerações atuais) e diacrônicas (da geração atual para com as do futuro). Esta é a visão do filósofo francês Michel Serres, citado por Ignacy Sachs:
Na medida em que a sustentabilidade social e ambiental condicionam-se mutuamente, somos confrontados com um duplo imperativo ético de solidariedade sincrônica e diacrônica, com as gerações presentes e futuras e, como um corolário, convidados a suplementar o contrato social com um contrato natural.190
A abordagem valorativa levou (e leva) à essa responsabilização solidária pela qualidade de vida, tanto das gerações do presente, como das gerações que lhes sucederão, em ampliação da dignidade humana. Trata-se de responsabilidade intra e intergeracional, pela qualidade da vida humana, vislumbrando-se ai uma ética aplicada ao caso concreto, que coloca a responsabilidade como parâmetro para nortear o agir do presente em relação ao futuro.
Vale abrir aqui parênteses para relembrar que, no âmbito do presente trabalho, se considera que a ética que daria conteúdo à nova dimensão dos direitos humanos é aquela que se expressa como responsabilização, capaz de dar respostas às consequências das novas possibilidades do agir humano e que estariam a gerar novos reclamos da sociedade (cf. subitem 1.4).
Esse posicionamento é consoante com as concepções de Juarez de Freitas191 que ao tratar da sustentabilidade deixa claro que não está a se falar da ética de valores morais e intenções subjetivas, presentes na teoria kantiana. Está sim a se falar de uma ética aplicada com base no parâmetro de responsabilização para com o outro por força do desencadeamento de condutas que se interligam do presente para o futuro.
Para o autor, a correta compreensão da dimensão ética da sustentabilidade está além “das limitações e formalismos kantianos e rawlsianos” ou de “formalismos abstratos”. Tampouco se faz necessária a busca do “fundamento ético último”, pois, conforme declara, o
190 SERRES, Michel. Le contrat natural. Paris: François Bourin, 1990, apud SACHS, 2007, p. 289.
191 Apesar de o pensamento de Juarez Freitas convergir com as proposições que preconizam uma ética pela
responsabilização, ressalta-se mais uma vez a divergência quanto ao seu posicionamento de admitir a existência de “dignidade intrínseca dos seres vivos [...] acima de transcendentalismos vazios” e acima do “antropocentrismo estrito”. (FREITAS, Juarez. Sustentabilidade: direito ao futuro. 2. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2012, p. 18,63).
que “importa é a vontade ética [...] capaz de produzir bem-estar material e imaterial ao maior número possível”. E, por fim, quando conclui que a abordagem ética da sustentabilidade requer uma “ética universal concretizável”.192
Nessa conjuntura, mais uma vez se reconhece o processo dinamogênico, uma vez que a constatação dos impactos do desenvolvimento sobre os aspectos ambientais e sociais reclamou a abordagem do fenômeno sobre outros parâmetros, no caso, sobre a ética da responsabilidade, operando-se, pois, no sentido de ampliação dos direitos humanos.
Em conclusão, a abordagem pela ética da responsabilidade está implícita na própria concepção da sustentabilidade explicitada no Relatório Nosso Futuro Comum, cujas proposições estabelecem conexão de compromisso das consequências do agir humano da contemporaneidade para com as futuras gerações. Ademais, o conteúdo axiológico da sustentabilidade é o que norteia o conteúdo de todas as demais dimensões da sustentabilidade, ou seja, os aspectos sociais, econômicos e ambientais.