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CAPÍTULO 2: A EMPRESA E SUA FUNCIONALIZAÇÃO

2.1 Sustentabilidade e Direitos Humanos

2.1.3 Sustentabilidade ambiental

A constatação do potencial (senão iminente) de esgotamento dos recursos naturais, bem como os efeitos danosos ao meio ambiente à custa do desenvolvimento econômico estiveram no cerne das discussões iniciais sobre a sustentabilidade e acabaram deflagrando protestos de movimentos sociais.

Os problemas causados ao meio ambiente deflagraram os protestos de movimentos ambientais que deram origem à criação da primeira Conferência sobre o Meio Ambiente, em 1972, na cidade de Estocolmo, Suécia. As discussões que deflagraram esses movimentos sociais eram ligadas a questionamentos sobre os efeitos causados ao meio ambiente pela rápida e irrefletida industrialização do pós-guerra, considerada resposta para reestruturação de economia. O prolongamento dessas discussões relativas ao meio ambiente e sua proteção culminaram com a criação da chamada de Comissão Brundtland em 1983, na Suécia, no âmbito da qual se produziu o Relatório Nosso Futuro Comum (1987), marco da institucionalização da sustentabilidade, sob a máxima de que a satisfação das necessidades da geração do presente deve ser feita de modo a não inviabilizar que as próximas gerações usufruam de iguais recursos e benefícios.

Essa marcada preocupação com o meio ambiente, prescrevendo que sua fruição como direito de todos, numa perspectiva difusa, tanto agora como para as gerações do futuro, expressam a vinculação com a proteção de direitos de terceira dimensão. Além disso, verifica- se que o reconhecimento do meio ambiente como direito humano insere-se no processo dinamogênico dos direitos humanos, tendo em vista que nasceu de uma necessidade social que emergiu pela própria evolução social e histórica e gerou demanda (até então inusitada) para a proteção jurídica desse valor, no caso, a preocupação com os efeitos deletérios causados ao meio ambiente.

Entretanto, impossível falar em sustentabilidade ambiental sem levar em conta a estreita vinculação da economia com o meio ambiente179 e a relação de dependência da primeira com o segundo. Com relação à essa conexão entre economia e ecologia,180 valiosas são as lições de Fábio Nusdeo que explicita tal relação, tomando por base o sistema de troca existente nos fenômenos da natureza, os quais revelam a interdependência dos sistemas

179 A expressão meio ambiente diz respeito a tudo que envolve os corpos vivos e não vivos na Terra.

180 O termo ecológico diz respeito à relação entre os organismos. A palavra ecologia é derivada de ecológico e

biológico e ecológico. Segundo explana o autor essas trocas, de natureza biológica, propiciam a manutenção dos seres vivos e garantem a perpetuidade do próprio meio ambiente. É o caso, por exemplo, das plantas, que, na presença da luz solar, sintetizam o gás carbônico e a água, obtendo assim energia e produzindo o oxigênio que será utilizado por outros seres vivos. Esses outros seres vivos, por sua vez, expelirão o gás carbônico necessário para que as plantas produzam energia e novamente lancem oxigênio na atmosfera. Se não houver interferência externa, esse intercâmbio de recursos naturais tende ao infinito e produz o equilíbrio que garante a perpetuidade tanto dos seres vivos quanto do próprio sistema ecológico e, consequentemente, do próprio meio ambiente.181

Seguindo as ideias de Fábio Nusdeo, está evidenciado que os seres humanos também estão inseridos nessa cadeia de troca de recursos da natureza. Entretanto, as atividades humanas sobre a natureza se expressam como atividade econômica, na medida em que os recursos naturais são utilizados como fatores de produção para as sociedades humanas. Ou seja, os bens extraídos da natureza são reprocessados e transformados em outros, cuja finalidade é atender às necessidades das sociedades humanas. A atividade econômica se constitui, pois, de uma interferência externa ao meio ambiente.

Essa interferência do sistema econômico sobre o sistema ecológico poderia prosseguir de forma incessante, desde que a natureza tivesse tempo de absorver e reciclar a totalidade dos resíduos resultantes do processo de produção e reabsorvê-los, propiciando a criação de novos elementos que se tornariam matéria-prima de outros produtos. Ocorre que os padrões de consumo praticados desde a revolução industrial foram em muito ampliados no atual momento de pós-modernidade. Entretanto, não houve a contrapartida ambiental, pois esse incremento do consumo não se fez acompanhar de necessária aceleração na recriação dos recursos naturais, de forma a viabilizar o necessário reequilíbrio ecológico, fazendo nascer aí as preocupações com a sustentabilidade ambiental.

A sustentabilidade ambiental é, pois, um imperativo a ser observado, eis que essencialmente necessária ao adequado funcionamento do próprio sistema econômico. Além disso, o desrespeito ao meio ambiente pode, por si só, prejudicar a qualidade da vida aqui e agora ou, o que é pior, inviabilizar a existência das futuras gerações, o que implica em desrespeito aos direitos humanos de terceira dimensão e fere o compromisso firmado no Relatório Nosso Futuro Comum.

181 NUSDEO, Fábio. Curso de economia: introdução ao direito econômico. 4. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista

Claro está que a inobservância da variável ambiental da sustentabilidade pode, ao final, se traduzir em ofensa ao princípio da dignidade humana, tanto aqui e agora, como para o futuro. Nesse sentido, vale aqui lembrar a observação de Juarez Freitas quanto a ligação entre meio ambiente sadio e dignidade humana, quando declara “não pode haver qualidade de vida e longevidade digna em ambiente degradado”.182

Essa vinculação do meio ambiente saudável como garantidor da dignidade humana de forma indistinta e que se estente para as gerações do futuro, explica sua inclusão entre os direitos de terceira dimensão, os quais autorizam todo tipo de proteção, especialmente normativa, para que sejam garantidos.

Vale ressaltar que o meio ambiente foi incluído como direito fundamental conforme artigo 225 da Constituição Federal, cuja dicção reafirma o pressuposto de que todos devem observar sua proteção e garantir que toda sociedade possa dele usufruir. Nesse sentido, o artigo 225 expressa: “todos tem o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado [...] impondo-se à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.

Por fim, cabe destacar que, no tocante à empresa, é evidente que ela está incluída na abrangência do citado dispositivo constitucional, onde está explícito que todos têm o dever de defender e preservar o meio ambiente. Além disso, a interpretação do artigo 170, inciso VI da Constituição Federal de 1988 não deixa dúvidas quanto ao compromisso da empresa com preocupações ambientais, na medida em que erige a defesa do meio ambiente como princípio da ordem econômica, e isso vincula expressamente a empresa.

Com efeito, a interpretação do citado artigo 170, inciso IV permite duas proposições com relação ao meio ambiente e a empresa. A primeira proposição é a de que a ordem econômica nacional está submissa à proteção do meio ambiente, pois esta última foi erigindo como um dos princípios orientadores da primeira. A segunda proposição, decorrente da primeira, é a de que a empresa se conecta diretamente com todos os princípios colocados no artigo 170, inclusive no tocante à proteção do meio ambiente, posto que, como já mencionado, no regime capitalista de mercado adotado pelo Estado brasileiro não há como falar na ordem econômica sem falar na empresa.