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Direitos da terceira dimensão : fraternidade o período pós-guerra

CAPÍTULO 1: O PROCESSO DINAMOGÊNICO DOS DIREITOS

1.1 Dos precedentes históricos até as declarações de direitos

1.1.3 Direitos da terceira dimensão : fraternidade o período pós-guerra

Durante o século XX ocorreu a II Guerra Mundial, que envolveu as nações mais desenvolvidas da época (de um lado Alemanha, Itália e Japão e, de outro, Inglaterra, Estados Unidos, França e União Soviética). No âmbito da Alemanha, desenvolveu-se a ideologia nazista, patrocinada por Hitler, que propagava a hegemonia da raça ariana, valendo-se para tanto do extermínio de pessoas de outras raças, religiões, bem como na matança de homossexuais.

52 SILVA, op. cit., p. 105. 53 COMPARATO, op. cit., p. 66.

54 FONSECA, João Bosco Leopoldino. Direito econômico. 5. ed. São Paulo: Forense, 2004, p. 10. 55 BONAVIDES, 2013, p. 577.

No desfecho do conflito ocorreu o lançamento de bombas atômicas pelos Estados Unidos, causando a destruição das cidades de Hiroshima de Nagasaki, no Japão. Nessa conjuntura ficou patente que a própria ação humana, instrumentalizada pelo poder estatal, poderia colocar em risco a vida humana na Terra, não só pela prática direta da tentativa de aniquilamento de um povo, como também pela devastação ao meio ambiente causada pelos ataques atômicos.

As práticas de nazistas de extermínio de vidas humanas significavam a “coisificação”

56dos seres humanos, tomados como supérfluos e descartáveis, em completa negação da

dignidade humana, e daí emergiu a necessidade de reconstrução dos direitos humanos.57 A respeito do lançamento das bombas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, Fábio Konder Comparato enfatiza: “soou como um prenúncio de apocalipse: o homem acabara de adquirir o poder de destruir toda a vida na face da Terra”.58 Além do poder destrutivo imediato e potencial de degradação do meio ambiente, tais bombas revelariam ainda o nefasto efeito de contaminação dos sobreviventes pela radioatividade, com graves prejuízos para sua saúde, de seus descendentes e até mesmo das gerações futuras.

Diante do contexto do pós-guerra, as grandes potências atentaram para a necessidade de garantir o respeito aos direitos humanos como forma de preservar a convivência pacífica entre as nações.59 Assim, em 1945, representantes de 51 países, reunidos em São Francisco,

Califórnia, assinaram a carta fundadora das Nações Unidas. Criou-se, assim, a Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945. Três anos depois, aos 10 de dezembro de 1948, a ONU editou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamando os direitos e a dignidade da pessoa humana.

A edição da Declaração Universal dos Direitos Humanos é o marco histórico da institucionalização da solidariedade como valor que norteia a terceira dimensão. O valor solidariedade, intrínseco à terceira dimensão, sintetiza as duas primeiras dimensões, suscitando a proteção aos direitos humanos não mais na perspectiva do indivíduo ou cidadão,

56 As práticas levadas a cabo no contexto do nazista representavam a completa negação de direitos a determinado

grupo de pessoas, retirando-lhes assim a condição de sujeito de direitos, transformando-as em meros objetos e, diante dessa condição, passíveis de serem eliminados, como se a vida humana pudesse assumir a natureza da descartabilidade. Isso identifica o processo de “coisificação” ou “desumanização” dos seres humanos. Nesse sentido expõe: Flávia Piovesan; “O legado do nazismo foi condicionar a titularidade de direitos, ou seja a condição de sujeito de direito, à pertinência a determinada raça – a raça ariana pura”. PIOVESAN, Flávia.

Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 11. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 122.

57 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 11. ed. rev. e atual. São Paulo:

Saraiva, 2010, p. 122.

58 COMPARATO, op. cit., p. 226. 59 Ibidem, p. 226.

em sua relação com o Estado, mas, sim qualquer ser humano, de qualquer parte do planeta sem importar sua nacionalidade, ou qualquer outro atributo que possa ser tido como positivo ou negativo, como explanam Vladmir Oliveira da Silveira e Maria Mendez Rocasolano:

Mais do que isso, a terceira geração sintetiza os direitos da primeira e da segunda gerações sob o viés de solidariedade, adensando-os numa perspectiva de equilíbrio de poder – inclusive ideológico – em favor do ser humano, seja homem ou mulher, negro ou branco, angolano ou saudita, cristão ou muçulmano, rico ou pobre, desenvolvido ou subdesenvolvido, da cidade ou do campo, jovem ou idoso, instruído ou analfabeto, ou passível de qualquer outra divisão que se faça, haja vista sermos todos iguais em essência, dignidade e humanidade.60

Além disso, como corolário dos ideais do pós-guerra as declarações da ONU que se seguiram passaram a expressar preocupações com o direito à paz (artigo 20 do Pacto Internacional dos Direitos Civis da ONU, 1966), ao meio ambiente sadio (Declaração de Estocolmo, 1972 e reafirmada na Declaração do Rio de Janeiro, 1991), ao desenvolvimento (Declaração da ONU sobre o Direito aos Desenvolvimento, 1986) e autodeterminação dos povos (Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos da ONU, 1966). Nas declarações emitidas pela ONU, fica claro que nessa nova esfera a titularidade do direito recai não mais sobre o indivíduo isoladamente, nem tem como escopo sua defesa contra o poder estatal, ou ainda reivindicação de direitos prestacionais a serem reivindicados face ao Estado.

Na dimensão solidária, a proteção se direciona para a coletividade, as categorias ou grupos de pessoas (família, povo, nação), mas, desta feita, numa perspectiva difusa, para garantir a sobrevivência humana no planeta e o bem-estar de todos. Antônio Carlos Wolkmer, ao tratar dos direitos de terceira dimensão, destaca sua natureza difusa e explana:

Os direitos coletivos e difusos se referem aos direitos metaindividuais, direitos de solidariedade. A nota caracterizadora desses direitos “novos” é a de que seu titular não é mais o homem individual (tampouco regulam as relações entre os indivíduos e o Estado), mas agora dizem respeito à proteção de categorias ou grupos de pessoas (família, povo, nação), não se enquadrando nem no público nem no privado.61

60 SILVEIRA; ROCASOLANO, op. cit., p. 177

61 WOLKMER, Antonio Carlos. Novos pressupostos para a temática dos direitos humanos. In: RÚBIO, David

Sánchez; FLORES, Joaquín Herrera; CARVALHO, Salo de (Orgs.). Direitos humanos e globalização: fundamentos e possibilidades desde a teoria crítica. Anuário Ibero-americano de Direitos Humanos (2003/2004), 2. ed., Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010, p. 17.

Como enfatiza o autor os direitos relacionados ao meio ambiente e ao consumidor, apresentam-se como os primeiros atinentes à dimensão solidária os quais começaram a ganhar impulso no período que seguiu à Segunda Guerra Mundial. Depois, o próprio evoluir das sociedades propiciou a ampliação de novos sujeitos coletivos, intensificando outros direitos de natureza solidária e de aplicação difusa, portanto de terceira dimensão, tais como os direitos de gênero (dignidade da mulher, subjetividade feminina), direitos da criança direitos do idoso, os direitos dos deficientes físicos e mentais, os direitos das minorias (étnicas, religiosas, sexuais).62

Por fim, cabe destacar que foi na conjuntura do pós-guerra, com a edição da Declaração Universal de 1948, que despontou o chamado “movimento de internacionalização dos direitos humanos”, operando-se nova ampliação dos direitos humanos e reavivando a pretensão de universalista de sua proteção.