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a qualidade final de um texto?

No documento Linguagem e Pensamento (páginas 108-111)

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Tradução de Cristine Maria Tedeschi Conforti e Andreza Roberta Rocha.

sabe, que um cuidado idêntico ao dos primeiros inventores me habita quando procuro alinhar palavras sobre o papel.

O problema da origem da escrita pode ser abordado considerando sua evolução ao curso dos últimos milênios. Trata-se de examinar o importante material arqueológico hoje disponível, de organizá-lo segundo suas invariantes e sua cronologia e, eventualmente, interpretar suas modificações. A gênese da escrita pode também ser estudada examinando-se sua aquisição individual. É conveniente, então, observar como as crianças se põem a escrever segundo os procedimentos conhecidos das regras gerais e das exceções. As dificuldades de integração da leitura e da escrita merecem uma atenção particular, porque elas permitem desembaraçar os pontos de sustentação externa e, por conseqüência, as etapas dessa iniciação. Lá, ainda, o pesquisador poderá tentar interpretar essa evolução.

Uma longa história de escrita precede o momento em que uma criança se apodera dos signos do alfabeto. Que analogias existem entre a aprendizagem individual da escrita e as etapas que a humanidade precisou atravessar para descobri-la? Há quem pense que tal semelhança de destino determinaria que a escrita seja um instrumento de comunicação progressivamente aprimorado por aproximações sucessivas. Uma vez experimentada sua técnica, ela teria sido em seguida transmitida às gerações seguintes. Segundo uma tal concepção, bem ocidental, a escrita teria progredido por etapas, e sua forma mais prática, o alfabetismo, teria finalmente superado a pictografia e o silabismo. Esses aprimoramentos sucessivos de procedimentos de transcrição das mensagens seriam, em seguida, aplicados à aprendizagem a ser cumprida por cada criança. Em conseqüência, o conhecimento da história da escrita e de seus estágios poderia ainda ser útil para fazer os escolares compreenderem como formalizar suas letras.

Os egípcios, por exemplo, utilizavam a acrofonia para isolar algumas de suas consoantes. Quem não seria tentado a imaginar que a descoberta dessas letras se efetua do mesmo modo como o alfabeto continua a ser ensinado às crianças? A letra A não é compreendida graças a sua acrofonia com Ana, a letra B graças a balão etc.? Nos esqueceríamos, assim, que se trata de um método mnemônico inventado pelos adultos e que resiste a numerosos sintomas que têm o valor de uma útil evocação à ordem: um modelo histórico não pode ser comparado a técnicas destinadas a facilitar a aprendizagem, pois elas não são, indubitavelmente, a própria aprendizagem. Dentro de um louvável cuidado pedagógico, deseja-se ajudar as crianças com procedimentos supostamente análogos aos da invenção do alfabeto, mas transmitir-lhes um instrumento inventado antes delas não será sempre o mesmo que deixá-las descobrir por si mesmas. Quando a hora chega, as crianças não inventam, por si próprias, a chave da escrita e, se elas não fazem esse trabalho solitariamente, não se torna impossível transmitir-lhes as formalizações gráficas próprias de sua cultura?

Possivelmente, a descoberta histórica da escrita e sua aprendizagem individual seguem o mesmo caminho. Mas, para sustentar essa hipótese de uma correspondência entre filogênese e ontogênese, é preciso mostrar que as etapas de certas invenções, elaboradas em alguns milênios, devem ser novamente transpostas em poucos anos por cada criança. Se assim sucede com a escrita, ela brilhará muito pouco por sua originalidade. De outras descobertas, conhece-se o mesmo destino: é duvidoso que o homem soubesse caminhar ereto se ele crescesse fora do abrigo cultural. Mesmo a possibilidade de falar depende de um aprendizado, senão de uma técnica. No entanto, a língua não se aprende no sentido usual do termo, pois, se a linguagem constitui o objeto dessa iniciação, o próprio sujeito faz parte desse objeto. Essa apropriação da língua é um fato cultural, se bem que, por outro lado, cada criança se engaja na palavra segundo seu ato próprio de apreensão.

Existem muitas invenções semelhantes na história da humanidade. Cada um deve refazê-las por si, porque é sujeito delas. A escrita faz parte dessas descobertas. É verdade que existem sociedades ditas “sem escrita”, que não parecem ter se imposto tal obrigação. Não obstante, todas as civilizações, sem exceção, têm uma prática da arte, seja por meio do desenho ou da escultura. Suas representações artísticas, o denominador mínimo comum da humanidade, quiseram se fazer portadoras de uma mensagem que ainda se endereça a nós. Entre esta universalidade, um número maior de culturas elaborou uma escrita ideográfica. Mais raras ainda foram aquelas que utilizaram ideogramas. Por fim, apenas algumas utilizaram o recurso dos alfabetos.

[...] Quando traça um desenho, a criança se representa e apresenta inicialmente seus sonhos; seus desenhos são traçados segundo as dimensões oníricas que ela projeta: a evolução de suas representações segue então o mesmo trajeto que o de seus sonhos, cuja lembrança se perde sempre, mais ou menos, no recalcamento. Sabemos no que nossos sonhos transformam: esquecemo-los quase todos, pois eles encenam um prazer que ocultamos. Da mesma forma, se os primeiros desenhos possuem um valor idêntico ao dos sonhos, não serão eles, em si, sujeitos a um recalcamento cujo resto será escrita?

Eis, então, o que este livro deseja explorar: os primeiros desenhos apresentam os fantasmas que estarão sujeitos ao recalcamento até o ponto em que o retorno do recalcado se escreve na letra. Entre o espaço do desenho e o da letra, convém, conseqüentemente, localizar o evento diacrônico do recalcamento. Se uma criança não consegue escrever antes de certa idade, não é porque ela seria incapaz tecnicamente mais cedo. Com efeito, antes de estar em condições de formar as palavras, ela já conduziu a termo operações mais complexas que a de fazer corresponder um som e um signo. Se ela não pôde fazê-lo até então, é provavelmente porque sua relação com a representação pictórica, seu valor psíquico, impedia-a. Quando completar um certo caminho com relação aos desenhos, a criança se porá a escrever, ainda que, quão inteligente fosse ela, não pudesse tê-lo feito antes.

[...] Se alguém deseja manter a hipótese de uma invenção da escrita comum à história da humanidade e à de cada um de seus membros, será necessário igualmente examinar uma origem da letra pertinente em todas as ocorrências em que está em questão a transmissão de uma mensagem e estabelecer uma definição mais ampla que aquela à qual estamos acostumados. É necessário examinar o que pode haver em comum entre o sonho, o desenho, o pictograma e a letra do alfabeto. A instância da letra no inconsciente, tal como a psicanálise a define, não permite situar essa primeira formalização da escrita, comum a todos,ainda que cada um deva reinventá-la? Qualquer que seja a maneira pela qual comunique sua mensagem, poder-se-á mostrar que o grafismo do homem descende do pensamento.

[...] O que há em comum entre o que hoje me permite traçar letras e aquele que, há muito tempo, atribuiu um significado estável a alguns desenhos? Diante dessa questão, descobri, talvez, o que me faz irmão do escriba e do mandarim. Do sacerdote do faraó, mestre da escrita, dando seu beijo da manhã à estátua divina, recitando-lhe nos ouvidos seus próprios textos, como se, sem ela (a estátua), não pudesse rememorá-los. Do adivinho chinês lendo os primeiros signos do destino graças aos bastões incandescentes que ele guiava sobre cascos de tartaruga, escrevendo os primeiros caligramas no fundo de vasos onde a ninguém ocorreria lê-los: no início, escrito para os deuses! Irmão da criança rabiscando seus desenhos cuja forma não convém mais a suas obsessões, riscando seu desenho como se explorasse inocentemente o interdito da representação, rasurando e descobrindo uma letra que não se parece com nada e, portanto, significa.

A cada vez que escrevo uma palavra nova, em que me assemelho ao escriba, ao mandarim ou à criança? Como os corpos dormindo à noite, dissolvidos na obscuridade, ligam-se ao

fio de suas vidas graças à escrita tenaz de seus sonhos? Como aqueles em vigília bem tarde, quase até a manhã, debruçados sobre o papel branco: as letras que eles traçam não guardariam seus semelhantes, os adormecidos, e elas não lhes permitiriam repousar em paz? Espécies de sentinelas, irmãs do hieróglifo onírico, elas tecem sobre a cidade a rede que impede os sonhadores de se perderem em suas canções, elas os acompanham até o despertar e lhes chamam para o dia. Como foram traçados os primeiros signos capazes de falar por nós em nossa ausência? Aprenderemos a traçá-los sempre em nós para além de nossa aparência?

Material necessário: exemplares do livro O apanhador no campo de centeio (J. D. Salinger) em

número suficiente para serem lidos em grupo.3 Fase 1 – Atividade de pré-leitura.

Em um pequeno grupo, leia a resenha que se segue. A partir da sua discussão, anote as expectativas que a resenha criou no grupo sobre as possíveis cenas que estarão narradas no livro.

No documento Linguagem e Pensamento (páginas 108-111)