(NUNES, 1988, p. 51-60)
O canário na gaiola cantou; Maria olhou. A gaiola estava pendurada na janela, batia sol no canário, ele parou de cantar e começou a pular de um lado pra outro, será que ele queria sair? Mas a porta estava fechada, uma gaiola de nada, como é que prendiam ele assim apertado com tanto lugar pra voar? Escutou a voz de dona Eunice:
― Mas antes você me diz se esses números são divisíveis por três, por dez e por mil.
Antes? Antes por quê? O que é que ela tinha falado primeiro? Será que tinha explicado muita coisa?
Dona Eunice tirou um fiapo que estava preso na saia e botou ele dentro de um pratinho. ― É pra escrever, dona Eunice?
― É.
Maria fez força pra pensar. dona Eunice levantou a mão, sacudiu o braço, e tudo quanto é pulseira foi pro cotovelo, uma esbarrando na outra. Quando dona Eunice sacudia o braço daquele jeito é porque estava meio sem paciência, era melhor escrever logo uma coisa, mas o quê?
Uma coisa qualquer, depressa, correndo. Escreveu. Vai ver estava tudo errado. Dona Eunice foi dizendo:
― Certo. Certo. Certo. Esse aqui tá errado! Maria pegou o lápis.
― Não, não, não!
Que tanto não-não era aquele?
― Não risca, Maria! Eu já disse que não se risca caderno. Fica uma coisa feia, suja. E não tem nada pior do que a sujeira. Usa a borracha.
Maria pegou a borracha. Dona Eunice viu um fiapo no tapete e se levantou pra pegar. A borracha escapou da mão de Maria, rolou pro chão, caiu tão perto do focinho do cachorro que ele nem precisou se mexer pra começar a cheirar a borracha vendo se era coisa de comer. Maria olhou de rabo de olho e viu dona Eunice descobrindo outro fiapinho no tapete; aproveitou e pegou disfarçado a borracha de dona Eunice, que estava dentro de uma caixinha azul; começou a apagar com cuidado, pro papel nem enrugar nem rasgar. Dona Eunice sentou de novo.
― Isso. Agora escreve certo. ― Puxou tudo quanto é farelinho de borracha pra palma da mão, puxou o pratinho pra botar o farelo dentro, largou tudo de repente, prato, farelo, fiapo, a vontade de espirrar vinha vindo, vinha vindo, [...]
O espirro não veio e dona Eunice falou: ― E então, Maria?
Maria olhou pra dona Eunice mas continuou pensando no cachorro: e se ele cismava de engolir a borracha? Era uma borracha grandona, boa mesmo pra ficar entalada em garganta de cachorro. Imagina se ele ficava todo engasgado e...
― Acorda, Maria! ― Hmm?
― Você não fez errado? Não apagou? Então? Faz direito! Mas vamos de uma vez, você tá mole demais.
Maria começou a escrever. [...] O que é mesmo que ela tinha que escrever? Ah! Antes ela tinha feito errado, bom, se antes tava errado, o jeito era fazer ao contrário. Mas será que ele tinha engolido mesmo a borracha? Firmou o olho no caderno e acabou de escrever.
― Tá certo, dona Eunice?
Dona Eunice suspirou “até que enfim” e começou a explicar matéria nova. Maria ficou olhando pra ela. Só quando dona Eunice olhava pro livro é que Maria olhava pro chão. O cachorro não se mexia [...] vai ver engasgo de borracha não fazia barulho! E se o cachorro tinha se engasgado baixinho? E morrido bem baixinho? Dona Eunice falava, escrevia, a dormência do pé foi subindo, subindo, Maria já não sentia a perna direito, por que que a dona Eunice tinha virado o caderno pra ela?
― Você vai efetuar essas adições e subtrações de frações com denominadores iguais e desiguais.
Fração? Mas elas não estavam em número divisível? ― Mas, olha, Maria, eu quero que você use o MMC.
― Menor múltiplo comum. Ou será que você já esqueceu?
― Não esqueci, não. (Mas de que jeito? Se sacudia a perna, batia no cachorro.) ― E o MDC?
― MDC? (e se a perna batia... e o cachorro, não mexia?) ― É.
― Que que tem? (Bom, se ele não mexia...) ― Você está lembrada do MDC?
― Tô, sim senhora. (...é porque tinha mesmo morrido baixinho.) ― Então, vamos ver: faça aí as operações.
Maria se debruçou no caderno. [...]
Maria começou a somar as frações. Resolvendo que só ia pensar no múltiplo e mais nada. [...] A aula continuou.
Mas Maria não conseguia mais se lembrar o que ela tinha que fazer com o menor múltiplo. Desatou a morder o lápis. A unha de dona Eunice começou a puxar de novo a pelezinha do polegar. Maria olhou pro relógio em cima da cristaleira (era relógio-despertador, tocava na hora da aula acabar).
― Temos tempo, Maria, temos tempo. Endireita as costas. Atenção com a coluna. Não morde o lápis desse jeito, estraga ele todo. E olha só sua boca, o lábio tá preto! Tudo sujo de casca de lápis.
[...] Dona Eunice suspirou. O cachorro voltou para baixo da mesa e o canário cantou. Maria sentou na mesma posição que estava antes. A aula continuou.
― Você sabe o que é um segmento? ― Um o quê?
― Segmento. ― Não.
― Você sabe o que é uma semi-reta? ― Só reta.
― Alguma vez você já ouviu falar em paralelismo e perpendicularismo?
― Bom ... ― Lembrou-se do circo: às vezes eles falavam em botar os cabos de aço paralelos. O pensamento ficou no circo; só voltou quando a dona Eunice parou de falar pra pegar o lencinho de bolso. [...]
Maria sentou em câmara lenta; endireitou as costas em câmara lenta; encolheu as pernas em ― hmm! ― quanto tempo ia agüentar naquela posição? E foi só o cachorro deitar que a dona Eunice botou o pé em cima dele e falou:
― Agora vou explicar contorno, figura aberta e figura fechada. ― Olhou pra Maria; franziu a testa, mal podendo acreditar: ― Mas o que é isso?!
― Você tá com a boca toda preta outra vez! Ai: ia começar tudo de novo?
Mas o despertador tocou bem comprido e a aula particular acabou.
Em primeiro lugar, convidamos você para ler um fragmento de uma bela canção composta por Gonzaguinha. Ao lê-lo, logo perceberá que seu conteúdo manifesto explicitamente consiste em uma espécie de aconselhamento sobre estratégias para que alguém possa se sair bem em um jogo de futebol. Vejamos.