(MITSUMORI, 2005)
Eu, por tantas e tantas vezes, desejei que a vida fosse torre de Hanói. Sabe aquele jogo em que você tem que transportar uma “pirâmide” de discos de uma haste para outra, intercambiando-os de um em um entre essas duas colunas, usando também uma terceira como intermediária?
Pois é, o objetivo desse jogo é fazer um número mínimo de movimentos. Para isto, basta descobrir a lógica da relação entre as ações e estabelecer minimamente a ordem de seu encadeamento. Pronto: tudo se torna passível de previsão e de planejamento. Os movimentos estão todos conectados por uma interdependência. Assim, a consideração da jogada anterior é suficiente para antecipar o deslocamento da seguinte.
Está certo... no começo o jogo nem sempre é assim tão simples: em geral, a gente erra, volta, se atrapalha, faz um monte de movimentos totalmente “inúteis”. Mas quando se percebe que o que se tem ali é um sistema lógico, fica fácil inferir as regularidades, as leis que compõem a sua estrutura; o mistério é desfeito.
Como eu ia dizendo, muitas vezes desejei que a vida fosse como esse jogo. Pensem como seria legal: eu, professora, frente a um aluno rebelde (desses que adoram desafiar a “autoridade”, ou que se recusam a fazer qualquer coisa que não contraria o outro), só teria que procurar a técnica e os meios adequados e planejar o momento certo de sua aplicação. Além disso, um livro de receitas bastaria para que eu me tornasse uma boa cozinheira. Afinal, ele não me mostra todos os passos para se fazer um belo bolo, por exemplo?
Por mais que se reflita, raciocine e planeje uma ação, nunca é possível saber ao certo o que virá depois. As regras, as leis que regem os acontecimentos não estão dadas de antemão e as decisões são quase sempre uma aposta. Uma aposta de que aquele é o melhor caminho, o mais certeiro, o que nos ajudará a chegar aonde queremos. Enfim, a marca da vida é essa imprevisibilidade, essa incerteza que nos deixa sempre a sensação de que as coisas “escapam por entre os dedos”.
Mas então, se tudo na vida é incerto e se os desdobramentos das ações nunca são passíveis de antecipação, porque a pedagogia insiste tanto em falar em planejamento? Planejamento educacional, planejamento pedagógico, projeto de escola, plano de aula... Não seria tudo isso uma inutilidade, uma perda de tempo?
Se pensarmos nesse tal planejamento como escudo contra toda e qualquer falha no processo, como possibilidade de previsão dos resultados, talvez possamos dizer que sim.
Porém, não seria possível pensar nessa questão em outros moldes?
Não podemos esquecer que falamos de um trabalho que é direcionado a uma outra vida humana. Assim, como não esperar que esse alguém a quem nos dirigimos saia do lugar em que estava e passe a ocupar uma outra posição? Não é essa causa que abraçamos?
Sim, e com certeza é isso que nos orienta e que nos leva a querer... planejar as ações. Mas esse planejar tem que considerar aquele imprevisível que é a marca da vida de todos nós; não pode deixar de levar em conta o desejo do outro sujeito, que pode, em última instância, seguir por rumos totalmente diversos daqueles por nós “planejados”. Caso contrário, esse planejamento vira “camisa-de-força”.
Enfim, a educação nos lança esse enorme desafio de planejar o implanejável, de prever o imprevisível, numa busca incessante (e sempre frustrada) de uma vida (quase) perfeita, feito torre de Hanói.
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Você se lembra de uma peça que se compra em papelarias ou outras casas do ramo que se chama livro de ouro? Trata-se de um caderno grande, feito à moda de um livro, normalmente encadernado de maneira primorosa, com tecido ou couro. Além dos velórios, onde cumpriam a tarefa de registrar para as famílias quem tinha honrado os funerais de um ente querido, eles normalmente eram usados em minha cidade natal para anotar os “feitos” ilustres de seus habitantes.
Na época, cada escola tinha o seu livro de ouro, e para lá iam os registros dos sucessos publicamente reconhecidos de seus alunos, como por exemplo, a história de alguém que ganhou os cem metros rasos, ou o torneio de xadrez, ou o concurso municipal de redação promovido pela Caixa Econômica Federal. Quando criança, eu era fascinada por esses livros em branco. Suas páginas sem tinta eram para mim um permanente convite para preenchê-las, com os
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As atividades que se seguem consistem em uma adaptação daquelas pre- viamente apresentadas empequenos “feitos” de minha vida de menina. Embora em outros tempos, nós também temos direito ao nosso livro de ouro. No momento preciso, cada um vai transcrever lá (na página indicada pelo monitor da turma), com sua melhor letra, a versão final de seu texto. Que seja também o melhor que cada um de nós puder produzir!
Passo 1 – Preparação em grupo para o trabalho
Trabalhando em pequenos grupos por cerca de meia hora, leia o texto “Um dia de Professor” e, em voz alta, tente lembrar-se de um momento semelhante ocorrido em sua vida. Ou seja: a idéia central do trabalho no pequeno grupo é tentar recuperar historietas verídicas nas quais a escrita exerceu um papel importante em sua prática pedagógica. Valem lembranças de algo que alguém escreveu para você ou que você escreveu para alguém.
Também pode ser a narrativa dos efeitos da leitura de um texto (de um livro ou de um texto menor), ou seja, pode ser o testemunho da influência de um escrito sobre sua formação como professor, mesmo que o autor não tenha ficado sabendo de seu sucesso. Anote os pontos importantes de sua própria narrativa oral e leve para casa. Marque também as eventuais reações de seus companheiros de grupo (perguntas, expressão de surpresa ou de descrédito, riso etc.) e, mais tarde, organize suas anotações na forma de um esboço descompromissado e informal.
Passo 2 – Trabalho individual
Considere atentamente seu primeiro esboço como ponto de partida. Então, sigamos os procedimentos adotados por uma autora americana: Lucy Calkins, pessoa para quem a escrita ainda mantém a sua mística e a sua mágica. Para ela, escrever não é uma ação entre outras, mas corresponde à opção por um estilo de vida, como se lê no belo excerto abaixo sobre o texto ensaístico.
O ensaio é, acima de tudo, um modo de vida. As pessoas que escrevem regularmente vivem com um senso de “sou alguém que escreve”, e esta consciência engendra uma extra-suscetibilidade, uma consciência extra. “As estórias acontecem para aqueles que escrevem” diria Tucídides. Exatamente como os fotógrafos estão sempre observando fotos potenciais, também os escritores vêem histórias em potencial, onde quer que olhem. (CALKINS, 1989, p. 30).
Estamos agora atrás dessa “extra-suscetibilidade”, visando a transformar os esboços trazidos como lição de casa por nós narrando um fragmento de nossa vida real em um belo texto ficcional ou ensaístico. Precisamos tocar o outro com nossa escrita, comovê-lo, tentar resgatar nele o prazer de escrever que talvez se esconda ainda em um belo lugar. Transcrevi, abaixo, um texto que, há poucos anos, teve o poder de resgatar em mim lembranças adormecidas sobre o início de minha carreira, quando também eu andava nos ônibus de minha cidade carregando enormes pacotes de redação para corrigir. Escolhi-o como “modelo” porque o achei belo e sensível e, também, porque parece muito com sua autora, uma vez que mostra um pouco dela.