• Nenhum resultado encontrado

Um dia de professor

No documento Linguagem e Pensamento (páginas 127-132)

Gisane Márcia Carvalho Dinnouti 2

Ah! Minhas aulas na graduação! Tantos sonhos! Uma sensação que se sabe de tudo, pode tudo. Mudar o mundo? Fácil! Ser um professor carismático, competente e influente? Tranqüilo! Mas no meio do caminho havia uma pedra.

Uma não! Milhares! Penso eu, já professora efetiva, cansada daquele dia, daquele ônibus que não chega nunca, daquela bolsa cheia de trabalhos para corrigir. Parada no ponto do ônibus, movo-me em pensamentos sobre o que sou, onde estou, por que e para que estou ali.

“Ninguém dá valor ao nosso trabalho, ninguém vê as horas que gastamos para preparar uma atividade pensando em uma aula legal, lendo. Ninguém contabiliza as horas gastas na correção de exercícios, na leitura de redações e trabalho”, penso eu, chutando as pedras que incomodam no meu caminho.

Lembro-me das aulas daquele dia: nas oitavas e na 6.ª B. As oitavas são um desafio a qualquer especialista em motivação de adolescentes. Os alunos já chegam perguntando: “Algum professor faltou hoje? Tem aula vaga? Vamos sair mais cedo?” As oitavas já tinham me colocado em “modo de segurança”.

Quando isso acontece, evito sorrir, falo menos, já chego em sala colocando os objetivos da aula na lousa. Agora, era a vez da 6.ª B: depois do recreio, alunos suados e recarregados. Respirei fundo.

Entrei na sala sem dizer muita coisa. Apaguei a lousa e dei algum tempo para que eles se sentassem, se acalmassem. Comecei a aula pedindo atenção, silêncio: umas dez vezes para começar. Comecei a chamá-los pelos nomes:

― André! Volte para o seu lugar que a aula já começou! ― Luana! Você já ouviu o que eu disse? Luana!

Cheguei bem perto e apelei para nossa amizade, em tom mais duro: ― Luana, por favor!

Daí por diante, ela ficou em silêncio total. Não adiantava eu chamar para que ela participasse do debate da aula: a Luana tinha ficado muda.

Chegou o ônibus, começou o trajeto que duraria 50 minutos até a minha casa. A bolsa estava pesada sobre a minha perna. Então, lembrei-me dos trabalhos que ali estavam para serem corrigidos. Abri a bolsa e logo vi um envelope feito à mão endereçado a mim. Abri. Era um bilhete da Luana.

Nele, ela pedia desculpas pelo seu comportamento. Ela disse que gostava das aulas, mas não conseguia parar de falar. Ela disse que era assim com sua mãe também: ela brigava com a sua mãe sem saber por quê. E terminou dizendo:

— Um beijo, te amo, Luana.

Guardei com cuidado aquele bilhete. Guardei. Não vou corrigir, não vou devolver. E a beleza daquele momento inundou a minha vida inteira.

2

Professora da Rede Municipal de Cam- pinas - SP.

Passo 3 – Trabalho em grupo

Trabalhar em pequenos grupos, se possível fazendo bem pouco barulho, para não atrapalhar a concentração dos demais. São sugeridos os passos abaixo.

1. Mostre o seu esboço a um colega e, por sua vez, receba o que ele trouxe para ser trabalhado. 2. Com relação ao texto que você recebeu para ler, seja muito generoso. Ou seja, não se limite a

dizer algo genérico como “está ótimo”, mas ajude o seu parceiro a construir um bom produto escrito. Lembre-se que agora não é a hora de trabalhar na correção do texto, mas na sua idéia. Em uma folha à parte, anote:

as sensações que o texto lhe causou;

as eventuais estranhezas no encadeamento das idéias; o que você julga ser o ponto alto;

as coisas que você eventualmente não teria escrito, uma vez que estão sobrando no texto; as lacunas percebidas por você, no sentido de colocar a idéia de forma mais precisa. Devolva o texto e suas anotações ao seu parceiro e receba o seu.

3. Desfaça esse primeiro grupo de trabalho. Solitariamente, considere as anotações recebidas e escreva no papel sulfite um primeiro esboço, um pouco mais elaborado, de seu texto.

4. Monte novo grupo de trabalho com um novo parceiro, que ainda não leu seu texto. Peça a ele para revisar cuidadosamente o que você escreveu e faça o mesmo com o texto dele. Na dúvida, agora é a hora de usar os dicionários e as gramáticas. Seu parceiro usou palavras repetidas, ajude-o a encontrar sinônimos. Ele usa sempre a mesma estrutura (por exemplo, começa todos os parágrafos com “então”), ajude-o a encontrar alternativas. Uma frase ou parágrafo ficou “chata” de se ler, pense em uma nova formulação que possa torná-la mais interessante. Usando um lápis, rabisque à vontade o texto do parceiro. Ele também está fazendo isso no seu – logo, não há motivos para se envergonhar. Colabore e trabalhe ativamente, não tenha preguiça, não pule pedaços. Após vocês dois terminarem, conversem sobre as mudanças sugeridas. Reflitam conjuntamente sobre as sugestões feitas.

5. Solitariamente, pense sobre tudo que ouviu e decida como é que você vai transcrever a versão final do seu texto no papel almaço. Escreva lá um pequeno currículo seu. Se tiver vontade, coloque um meio de contato, para as pessoas poderem encontrar você. Entregue sua versão final ao monitor.

Passo 4 – Finalizando individualmente o trabalho

O monitor de sua turma deve organizar um sistema de revezamento por meio do qual todos possam ter a oportunidade de transcrever a versão final de seus textos no livro de ouro. É a hora de pensar em sua forma! Você prefere transcrever em uma única cor ou vai usar várias? Vai fazer um pequeno desenho ou caricatura como ilustração? Vai desenhar uma bela borda para separar as informações de seu currículo do texto? Vai usar lápis de cor para tornar o fundo de sua página (ou páginas) diferente das demais? Vai colar uma foto sua no cabeçalho? Isso tudo é você quem decide.

O importante agora é trabalhar na imagem do seu texto para deixar a sua página do livro “com a sua cara”. Como ninguém melhor do que você para saber como ela é, torne-a sua, editando do seu modo.

Leia o fragmento em que Calkins reflete sobre a formação de professores das séries iniciais do Ensino Fundamental.

Às vezes, as pessoas perguntam-me o que penso ser a mensagem mais importante a transmitir para os professores de crianças pequenas. Minha resposta é simples: quero que os professores saboreiem aquilo que os alunos fazem. (CALKINS, 1989, p. 58).

Você concorda com o que ela diz?

CALKINS, Lucy McCormick. A arte de ensinar a escrever: o desenvolvimento do discurso escrito. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

Tematizando o “ensino de redação”, trata-se de um livro muito abrangente, escrito de um modo simples, bastante agradável para se ler. Está repleto de sugestões que podem ser colocadas em prática, desde a pré-escola até o segundo grau, por todos aqueles que desejam ensinar a escrever. Contem capítulos sobre o ensino de poesia, ficção e escrita de relatórios, consistindo, portanto, em leitura imperdível para todos que estão preocupados com o desenvolvimento do discurso escrito de seus alunos.

CALKINS, Lucy McCormick. A arte de ensinar a escrever: o desenvolvimento do discurso escrito. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

KLEIN, Lígia Regina. Alfabetização: quem tem medo de ensinar? São Paulo/Campo Grande: Cortez/ Editora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, 1997.

MAGNANI, Maria do Rosário Mortati. Os sentidos da alfabetização: a questão dos métodos e a constituição de um objeto de estudo – São Paulo, 1876-1994. Presidente Prudente, 1997. Tese de Livre-docência. Unesp.

MITSUMORI, Nanci Miyo. Matizes da educação inclusiva: um diálogo psicanálise-educação. São Paulo, 2005. Tese de Doutorado em Educação. Feusp.

RIOLFI, Claudia Rosa. O discurso que sustenta a prática pedagógica: Formação de professor de língua materna. Campinas, 1999. Tese de doutorado. IEL/Unicamp.

_____. Ensinar a escrever: considerações sobre a especificidade do trabalho da escrita. Revista da

Associação de Leitura do Brasil. Campinas, n. 40, p. 47-51, jan./jul. 2003.

_____. O declínio do império da letra: implicando-se na invenção de uma “nova transa” com a escrita.

In: TRIVELATO, Sílvia L. Frateschi. Alfabetização e letramento: um compromisso de todas as

áreas. São Paulo: Fafe/Feusp, 2004.

RIOLFI, Cláudia Rosa et al. Ensinar a língua portuguesa no século XXI: desafios e perspectivas para o Ensino Fundamental II. São Paulo: Fafe/Feusp, no prelo.

No documento Linguagem e Pensamento (páginas 127-132)