1.5 CPC/2015
1.5.4 A regra do art 139, inc IV, do CPC/2015
Inovação digna de destaque se apresenta com o disposto no art. 139 do CPC/2015, que trata dos poderes do juiz. O dispositivo corresponde ao art. 125 do CPC/1973 e teve o rol de medidas que podem ser adotadas pelo magistrado amplamente alargado. Importa para o presente estudo a dicção constante do inc. IV que autoriza o juiz a “determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub- rogatórias necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária”.
Da leitura do indigitado dispositivo é facilmente possível perceber que o rol de medidas que podem ser adotadas pelo juiz é amplíssimo, compreendendo a possibilidade de imposição de astreintes. Mas a nova lei processual foi ainda mais longe: passou a permitir, expressamente, a possibilidade da imposição desta medida nas ações que tenham por objeto o pagamento de quantia.
Antes mesmo da sanção do CPC/2015 já se discutia a respeito desta possibilidade. Ainda que se entenda que a imposição de multa nas obrigações de pagamento de quantia não se mostra adequada, é certo que, diante da nova disposição, não se podem mais fundamentar tais argumentos na falta de autorização legal.
Marcelo Lima Guerra adota posicionamento favorável, há muito. Nas palavras do mencionado autor:
“Como vem sendo reiteradamente afirmado, o emprego de medidas
coercitivas para assegurar a prestação de tutela executiva em forma específica, inspira-se, justifica-se, e está a concretizar o valor constitucionalmente protegido da efetividade da tutela jurisdicional. Desse modo, a utilização de tais medidas não pode ser obstada nem por expressa disposição infraconstitucional, muito menos pelo silêncio dessa legislação.
§ 2.º Do mandado de citação constará ordem para imissão na posse ou busca e apreensão, conforme se tratar de bem imóvel ou móvel, cujo cumprimento se dará de imediato, se o executado não satisfizer a obrigação no prazo que lhe foi designado.
[...]
Art. 814. Na execução de obrigação de fazer ou de não fazer fundada em título extrajudicial, ao despachar a inicial, o juiz fixará multa por período de atraso no cumprimento da obrigação e a data a partir da qual será devida.
Apenas quando se chocar com outros valores igualmente protegidos pela Constituição, tais como a dignidade da pessoa humana, especificamente a do devedor, no processo de execução, o uso de medidas coercitivas encontraria um verdadeiro limite.”82
As afirmações do autor, sem dúvida, merecem elogios. Mas há que se fazer uma observação: ao tratar do assunto, Guerra faz referência a possíveis “obstáculos que podem comprometer [...] uma prestação efetiva da tutela executiva”,83 trazendo, como exemplo, a hipótese na qual o devedor deixa de indicar onde se encontram os bens sujeitos à execução. Em suas interessantes ponderações, o autor ainda faz o cotejo da multa coercitiva com aquela disposta no art. 601 do CPC/1973, esclarecendo que, em face de suas naturezas distintas, não há óbice à imposição de ambas.
Na hipótese aventada pelo autor, entretanto, a multa não serviria como meio de coerção para realizar o pagamento devido, mas sim para o cumprimento de ordens judiciais diversas, destinadas ao escorreito desenvolvimento do processo. Parece-nos que, nesses casos, a possibilidade do emprego de medidas coercitivas – entre elas a multa – é, sem dúvida, uma possibilidade que serve à efetividade do processo. Nesse contexto, a previsão legal contida no art. 139 do CPC/2015 é louvável.
Muito longe de discordar das lúcidas observações de Guerra, objetiva- se uma reflexão sobre a possibilidade de imposição de multa nas obrigações de pagar quantia com o fim de compelir o devedor ao cumprimento desta obrigação. Por outras palavras, o cerne da questão é saber se o juiz pode ordenar ao réu que “pague, sob pena de multa”.
Tradicionalmente, o dinheiro sempre recebeu tratamento diverso daquele relativo às demais obrigações. Na execução mediante o emprego de meios sub- rogatórios, é indiferente a vontade do devedor de querer ou não pagar. Em não cumprindo espontaneamente o comando estatal, o patrimônio do devedor será expropriado, com ou sem a sua colaboração, pela execução direta.
82 GUERRA, Marcelo Lima. Execução indireta. São Paulo: Ed. RT, 1999. p. 185-186. 83 GUERRA, Marcelo Lima. Execução indireta. São Paulo: Ed. RT, 1999. p. 186.
Diferentemente, tomando-se como exemplo as obrigações de fazer, em especial aquelas cuja prestação seja infungível, o ponto principal, parece-nos, está na interpretação que se dá à vontade individual do devedor e na possibilidade de ele ser compelido ao cumprimento da obrigação, uma vez que a sua atitude é contrária ao direito. Então, até que ponto pode-se obrigar alguém ao cumprimento de uma obrigação personalíssima?
Confira-se, a esse respeito, as palavras de Luis Eulalio de Bueno Vidigal:
“Aliás, é preciso lembrar que é um pouco exagerado esse religioso respeito à
vontade individual. A vontade humana em si não merece proteção apenas por ser uma vontade humana. Protege-a o Estado quando ela é conforme ao direito. Não se compreende em virtude de que princípio devesse ser protegida a vontade que se obstina em não cumprir a obrigação.”84
Assim, na impossibilidade de se proceder à execução direta no caso, o magistrado pode fazer uso de meios de coerção, através dos quais o devedor se vê ameaçado de sofrer um mal caso não cumpra a sua obrigação, como, aliás, já se viu.
Nas obrigações de pagamento de quantia, como se disse, o emprego de meios sub-rogatórios se dá independentemente da vontade do devedor. Daí porque, na sistemática do CPC/1973, não há previsão legal para o emprego de meios coercitivos, tal como ocorre em relação às ações nas quais se visa ao cumprimento de obrigações de fazer, não fazer e entregar coisa. Nestas, o juiz pode determinar, forte nos arts. 461 e 461-A, independentemente de pedido da parte, o emprego de meios de coerção, cujo fim é o de compelir o demandado ao cumprimento de obrigação.
Por outro lado, em se tratando de sentença que determine o pagamento de quantia, a execução se dá com base no que dispõem os arts. 475-I e seguintes, que não trazem qualquer previsão de emprego de tais meios. Portanto, a teor do que estatui o CPC/1973, o juiz não está autorizado a lançar mão de medidas coercitivas nas ações em que se visa o pagamento de quantia. Ainda que se entenda existir viabilidade na hipótese, importa lembrar que não há lei autorizadora para tanto.
Nesse sentido, sem negar que a multa coercitiva é um mecanismo excelente para fins de efetividade, há que se reconhecer que são muito lúcidas as ponderações de Guilherme Rizzo Amaral sobre a imposição de multa sem lei que o autorize.
Nas palavras do mencionado autor:
“[...] se de um lado, o processo precisa estar dotado de ‘celeridade’, bem
como ser capaz de permitir o ‘aproveitamento dos atos processuais’ e a busca da ‘tutela específica’ – características essas ligadas à esfera valorativa da ‘efetividade’, de outro, o processo precisa ser ‘previsível’, ensejar a ‘confiança legítima’ do cidadão, preservar a ‘estabilidade das situações jurídicas’, a ‘busca pela verdade’ e, da mesma forma, ‘o respeito à lei (dignidade da legislação)’ – características ligadas à esfera valorativa da ‘segurança’.”85
Não obstante, há quem entenda pela necessidade de se dar interpretação às regras do CPC em conformidade com as muitas reformas pelas quais passou a legislação e, nesse passo, admite-se o emprego das astreintes.86
Assim é que, em relação ao regramento do CPC/1973, não nos parece ser possível a imposição de multa nas obrigações de pagamento de quantia. Porém, a disposição constante do CPC/2015 autoriza expressamente o emprego de medidas coercitivas “inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária” (inc. IV do art. 139).
85 AMARAL, Guilherme Rizzo. As astreintes e o processo civil brasileiro: multa do art. 461 do CPC e
outras. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010. p. 122-123.
86 “Não há dúvida de que as inúmeras reformas pelas quais passou o Código de Processo Civil brasileiro
nos últimos anos foram capazes de alterar substancialmente a estrutura inicialmente proposta para tal diploma instrumental. [...]
Seja como for, a verdade é que, após todas essas alterações, hoje encontramos um diploma processual civil absolutamente retalhado, um verdadeiro mosaico legislativo de normas elaboradas em diferentes momentos e com ideologias diversas. [...]
Nas situações onde a forma tradicional de execução não se mostrar adequada, evidenciando-se o preenchimento de certos requisitos, poderá o magistrado valer-se da técnica diferenciada coercitiva para fazer valer sua decisão, isto é, poderá emitir ordem para cumprimento de decisão proferida em prazo razoável, sob pena de o obrigado responder por uma sanção. A sanção a ser aplicada para o caso de descumprimento da decisão deverá ostentar efeito verdadeiramente coativo e inibitório, vale dizer, deverá ser contundente o suficiente a fim de atuar psicologicamente sobre a vontade do devedor, mostrando-lhe que mais vale cumprir a decisão que se sujeitar aos efeitos da sanção que incidirá no caso de seu descumprimento.” (CARPENA, Márcio Louzada. Da execução das decisões de pagar quantia pela
Na verdade, a nova legislação vai muito mais além: tomando-se em conta que a disposição em questão está localizada na parte geral do Código, é adequado concluir que a imposição de tais medidas pode se dar em qualquer procedimento. É o que afirma Minami:
“[...] estando ele situado na ‘parte geral’ do Código, significa ser aplicável
em todo o restante dele (inclusive aos procedimentos de execução e especiais. É dizer: as medidas de efetivação podem ser utilizadas tanto nas execuções ‘fundadas em título executivo judicial’ como naqueles fundadas em ‘título executivo extrajudicial’ [sic].” 87
A questão que impende reflexão, no entanto, é a de saber se a imposição de multa para o pagamento de quantia – sem questionar a sua possibilidade, como já dito alhures – é medida que tem o condão de se mostrar eficaz, na hipótese.
Em nosso sentir, a imposição de astreintes nas ações visando prestação pecuniária não parece ser a medida mais adequada. Não estamos, com isto, querendo dizer que o legislador não andou bem ao permitir que o juiz faça uso da medida em tais ações. A previsão legal é, sem dúvida, digna de elogios e aplicável a muitas outras hipóteses. E não se pode negar que há casos nas quais a imposição da multa pode se mostrar intimidatória para o devedor e compeli-lo ao cumprimento da ordem.
Todavia, a nosso ver, a imposição de astreintes em casos onde se objetiva o pagamento de quantia pode não ter a força intimatória – que é de sua essência – necessária. Se alguém, mesmo sendo devedor de quantia, ou seja, já havendo expectativa de diminuição patrimonial, não cumprir com a sua obrigação, por que haveria de ser intimidado por uma ameaça idêntica?
De outra parte, se o devedor de quantia se vê na iminência da ameaça de outro mal, há que se concluir que a coerção terá mais força. Gajardoni traz exemplos interessantes de imposição de medidas coercitivas pelo juiz:
87 MINAMI, Marcos Y. Breves apontamentos sobre a generalização das medidas de efetivação no
CPC/2015 – Do processo para além da decisão. In: DIDIER JR., Fredie (coord.) et al. Doutrina
“Ilustrativamente, não efetuado o pagamento de dívida oriunda de multas de trânsito, e superados os expedientes tradicionais de adimplemento (penhora de dinheiro e bens), seria lícito o estabelecimento da medida coercitiva/indutiva de suspensão do direito a conduzir veículo automotor até pagamento do débito (inclusive com apreensão da CNH do devedor); não efetuado pagamento de verbas salariais devidas a funcionários da empresa, possível o estabelecimento de vedação à contratação de novos funcionários até que seja saldada a dívida; não efetuado o pagamento de financiamento bancário na forma e no prazo avençados, possível, até que se tenha a quitação, que se obstem novos financiamentos, ou mesmo a participação do devedor em licitações (como de ordinário já acontece com pessoas jurídicas em débito tributário com o Poder Público); etc.”88
Assim, a ameaça de outro mal, que não implique necessariamente no atingimento do patrimônio do devedor, pode se mostrar mais efetiva. É, claro, que a medida mais adequada deve ser eleita pelo juiz conforme o caso concreto, não sendo possível, em nosso sentir, afirmar que as conclusões ditas linhas acima se referem a todos os casos. Imperiosa, também, a adequada fundamentação da decisão proferida pelo juiz, nos moldes estabelecidos na lei, conferindo-lhe legitimidade.