1. CONCEITUAÇÕES DE CONFESSIONALIDADE E ASPECTOS DISTINTOS DA
3.3 A RELAÇÃO DA APRENDIZAGEM E DA AFETIVIDADE
Diversos autores analisam comparativamente as várias abordagens ao
processo de ensino e aprendizagem, destacando-se Bordenave, Libâneo, Saviavi e
Mizukami, os quais classificam algumas correntes teóricas, segundo critérios
diferentes.
Bordenave (1984, p. 41) classifica as abordagens em três pedagogias: a
pedagogia da transmissão, a pedagogia da moldagem e a pedagogia da
problematização, usando o fator educativo que cada abordagem mais valoriza para
distingui-la das demais. Libâneo (1982, p. 12), por outro lado, tem como critério de
diferenciação entre as abordagens as finalidades sociais da escola, dividindo-as entre
pedagogia liberal em suas versões conservadora, renovada progressista e renovada
não diretiva, e a pedagogia progressista, em suas versões libertadora, libertária e de
conteúdos. Saviani (1983, p. 9) classifica as correntes teóricas pela “[...] criticidade da
teoria em relação à sociedade e o grau de percepção da teoria dos determinantes
sociais [...]”, chegando a dois grupos, as teorias não críticas (tradicional, nova e
tecnicista) e as teorias crítico-reprodutivistas (sistemas de ensino enquanto violência
simbólica, escola enquanto aparelho ideológico do Estado e escola dualista), e,
finalmente, Mizukami (1986, p. 2) toma por base, para classificar em tradicional,
comportamentalista, humanista, cognitivista e sociocultural, as três características das
teorias do conhecimento, quais sejam o primado do sujeito, o primado do objeto e a
interação sujeito-objeto, e as diferentes combinações possíveis entre esses três
fatores.
Para aquém de uma análise mais completa dessas teorias, abordagens e
propostas sobre a temática relacionada aos processos de ensino e aprendizagem
humana, é importante lembrar que, para outros autores como Miguel Zabalza (2004),
Paul Ramsden (1992) e John Biggs (1987), o foco dos três está nos estilos pessoais
de aprender, influenciados pelas estratégias usadas por cada um. Todavia, Biggs
(1987), particularmente, propõe que esses estilos sejam o superficial, o profundo e o
estratégico.
O estilo superficial baseia-se em uma postura do aluno que é mais receptiva do
que propositiva, mais passiva do que ativa, do tipo “mínimo esforço possível”, ou seja,
“O estudante encara a aprendizagem sem o interesse de entendê-la ou aprofundá-la,
[...]. Esta aprendizagem é, portanto, reprodutiva”, tal como também Zabalza (2004,
p. 208) a caracteriza.
O estilo profundo difere-se do superficial pelo interesse do aprendente em
enfrentar com profundidade a tarefa proposta ou o conteúdo a ser assimilado, por
meio de competências cognitivas mais complexas e superiores ao mero assentimento
da aprendizagem superficial. Essas competências podem ser identificadas como a
capacidade de realizar sínteses, análises, comparações e confrontações, a partir do
próprio repertório cultural e cognitivo, para chegar a um “nível transformador e
criativo”.
Na sequência, o autor descreve o estilo estratégico, o qual, em termos de
formação de valores, seria o ideal, pois se baseia na realização pessoal com a “[...]
intenção de obter o máximo rendimento ou as melhores classificações por razões
intrínsecas ao sujeito” (ZABALZA, 2004, p. 208). No caso de essa razão intrínseca ser
aderente à confessionalidade do Mackenzie, significa também a possibilidade de
descobrir e atingir o propósito maior de vida, em sua essência transcendental,
claramente estabelecida pela missão institucional, que é a de “educar o ser humano,
criado à imagem de Deus, para o exercício pleno da cidadania, em ambiente de fé
cristã reformada”.
Assim, esta tese identifica-se com as teorias de desenvolvimento e de
aprendizagem que favorecem a interação e a troca, de modo que o aluno seja
envolvido a ser protagonista de seu processo de aprendizagem, apoiado, como
referencial teórico, em alguns autores específicos para descrever o entendimento do
que seja aprendizagem.
Primeiramente, a Teoria da Aprendizagem Significativa, proposta por David
Ausubel e difundida no Brasil por Marco Moreira (1982, 2008). Nessa teoria,
aprendizagem implica um processo pelo qual uma nova informação é relacionada a
um conteúdo ou aspecto relevante da estrutura cognitiva do indivíduo. Moreira (2008,
p. 16-17), ao conceituar a aprendizagem significativa proposta por Ausubel,
estabeleceu o seguinte:
A aprendizagem significativa é aquela em que o significado do novo
conhecimento é adquirido, atribuído, construído, por meio da interação
com algum conhecimento prévio, especificamente relevante, existente
na estrutura cognitiva do aprendiz. Interação é a palavra-chave:
interação entre conhecimentos novos e conhecimentos prévios. Na
aprendizagem significativa, o aprendiz inicialmente capta os
significados aceitos para os conhecimentos novos, mas então os
internaliza ou reconstrói internamente, agregando aspectos
indiossincráticos. Os novos conhecimentos são incorporados à sua
estrutura cognitiva e esta tem muitos aspectos conotativos.
Esse tipo de aprendizagem apenas se dá quando o novo material ou conteúdo
interage com conceitos relevantes e inclusivos, claros e disponíveis na estrutura
cognitiva. Cabe, portanto, tanto ao aluno ter motivações intrínsecas quanto ao
educador buscar interações que acionem os conteúdos existentes e possivelmente
inclusivos nas estruturas cognitivas de seus alunos.
De modo semelhante, Vygotsky (1998, 2008) propõe que a aprendizagem se
dá por processos de interação entre indivíduos que interferem na Zona de
Desenvolvimento Potencial uns dos outros. Para ele, todo aprendente tem a zona de
desenvolvimento real, ou seja, aquilo que já se sabe, e a zona de desenvolvimento
potencial, aquilo que se sabe com a ajuda de alguém que já se apropriou do que se
está aprendendo. Dessa forma, aprende-se na realização de tarefas utilizando apoio
colaborativo e auxílio como se fossem andaimes.
No que se refere aos referenciais teóricos e metodológicos oriundos das
concepções dos interacionistas Vygotsky (1998, 2008) e Wallon (1979), assim como
da teoria da aprendizagem significativa de Ausubel apresentada por Moreira (1982,
2008), aplicações importantes têm sido demonstradas em situações de ensino e
aprendizagem (Almeida, 1999; Almeida & Mahoney, 2004), como contribuintes
fundamentais, inclusive na formação de valores.
Certamente que, fora do escopo desta tese, fazer uma análise exaustiva sobre
os processos motivacionais e conativos que colaboram para um melhor aprendizado,
um cotejamento introdutório, precisa ser feito, a fim de lançar bases e garantir sucesso
no desenvolvimento e na formação de valores, visto que estão relacionados
claramente com aspectos da formação moral, especialmente no que concerne à
empatia e afetividade.
A relação entre afetividade e os processos de aprendizagem do adulto
propostos e aplicados a contextos diversos por autores como Dirkx (2001), Larrosa
(2014), Silva et al. (2015) são também referências importantes para se entender como
essa relação no âmbito das redes de colaboração pode ser útil para o tema proposto
neste estudo, visando à formação de valores. A premissa básica é a de que a
aprendizagem no adulto, especialmente o adulto jovem, parte de uma tomada de
consciência e de uma atribuição de significado ao que está sendo apreendido como
conhecimento e formação mais ampla. Parte dessa consciência atributiva de
significado passa por um processo afetivo e emocional vivenciado e pelo
reconhecimento daquela experiência vivida. O caminho pessoal e significativo de
aprendizagem é fruto da conexão emocional do eu do adulto com o mundo social e
cultural em que ele vive.
Dirkx (2001, p. 64) converge para o entendimento de que “[...] nosso conceito
de nossas próprias emoções são integrantes de nosso autoconceito mais amplo e são
usadas para significarem e explicarem nossas vidas”. Aqui, dois aspectos são
importantes: quais experiências estruturantes ajudam nesse processo e qual é o papel
do professor/facilitador nessa relação.
No que tange às experiências, Jorge Larrosa (2014, p. 28) entende que
experiência é “[...] aquilo que ‘nos passa’, ou que nos toca, ou que nos acontece, e,
ao nos passar, nos forma e nos transforma”, e que “[...] somente o sujeito da
experiência está, portanto, aberto à sua própria transformação”. Isso se constitui em
um primado importante no processo de aprendizagem do adulto, qual seja de que
ensinar é tarefa do educador, mas aprender é prerrogativa do aprendente, visto ser
impossível que se aprenda o que, mesmo sendo devidamente ensinado, não se
deseja aprender.
Por conta desse papel de autonomia do estudante adulto, a aprendizagem
verdadeira é essencialmente a aprendizagem que se demonstra significativa para
cada sujeito e, assim, o atrai e o motiva a querer saber, fundamentando-o em
conceitos e emoções pessoais e intransferíveis.
No artigo Afetividade em ambientes virtuais de aprendizagem, Lopes e Vieira
(2017) também comentam sobre o lugar da experiência nessa ambiência virtual:
Trata-se de compreender que a experiência traz consigo algo que não
se pode captar unicamente com a lógica racional. Por meio da
percepção da experiência o sujeito toma consciência de si como
agente de sua própria transformação e, em processos educacionais,
de sua própria aprendizagem. Ao estabelecermos relação entre
experiência e aprendizagem, as dimensões da emoção, a afetividade
e o sentimento, são entendidos como elementos da construção da
aprendizagem do sujeito adulto, uma vez que são associadas a
experiências profundamente significativas na sua aprendizagem.
Segundo Silva et al. (apud LOPES; VIEIRA, 2017), a abordagem
Vygotskyniana considera a separação entre intelecto e afeto como uma deficiência da
psicologia tradicional. Sua crítica é apoiada no pressuposto de que o “[...] pensamento
não é um fluxo independente, dissociado das experiências e interesses pessoais
imediatos do sujeito” e, por conseguinte, pode-se deduzir que a interação interpessoal
nas redes de colaboração, conforme disponibilizado em ferramentas como chat, fórum
etc. propicia a ambiência favorável à manifestação da afetividade entre os pares, e
consequentemente, ao lado de outros fatores, também fomenta a aprendizagem:
É nessa relação com outras pessoas do grupo social que o sujeito vai
se apropriando das significações socialmente construídas. Como não
é possível isolar a afetividade da cognição, aprendizagem e afeição
estão imbricadas e, assim, as relações sociais, sobretudo, as de
ensino-aprendizagem marcadas por manifestações (aversivas ou
prazerosas), que afetarão de alguma forma o desempenho desse
aluno. (SILVA et al., 2015 apud LOPES; VIEIRA, 2017).
Segundo Henri Wallon (1959, p. 288),
Afetividade é o termo utilizado para identificar um domínio funcional
abrangente e se manifesta de diferentes formas: desde as primeiras,
basicamente orgânicas, como as manifestações iniciais de
tonalidades afetivas, até as mais elaboradas como as emoções, os
sentimentos e as paixões.
Assim, a afetividade é o motor propulsor das relações do sujeito com o meio,
sendo tal entendimento de fundamental importância no desenvolvimento e no
processo intencional de ensino-aprendizagem promovido pelo educador. Ele terá de
afetar ao educando, atendendo à sua necessidade, fundamentado em suas
experiências de vida e desafios enfrentados, de modo a promover andaimes que
sirvam para ele aprender de modo significativo. Para o educador, nessa relação de
experiência afetiva propiciando a aprendizagem significativa – cria-se o desafio que é
o de motivar aqueles que já deveriam, a princípio, estar automotivados, pois, segundo
Moreira (2008), ninguém aprenderá significativamente se não quiser aprender, como
já se mencionou.
Por isso, o papel do professor-facilitador da aprendizagem se torna ainda mais
relevante, quando se pensa em formação de valores em redes de colaboração
virtuais, encontros e mobilizações presenciais. Nesse prisma, a importância da
afetividade no processo de ensino e aprendizagem, no processo de desenvolvimento
e formação moral é fundamental. Essa afetividade, porém, não significa, necessária e
exclusivamente, demonstrações físicas de afeto ou sorrisos e palavras carinhosas.
Para um adulto se desenvolver, ele necessita sentir-se respeitado em sua inteligência
e motivado a crescer e se desenvolver mais. Ter suas necessidades atendidas. Isso
é afetividade no processo de desenvolvimento e aprendizagem no ensino superior
(LOPES; VIEIRA, 2017).
Portanto, a mediação é fundamental para a aprendizagem, sendo
indispensável para o desenvolvimento do psiquismo humano, inclusive do
amadurecimento moral, por envolver a formação de valores. Assim, é entendimento
desta proposta de criação de uma Capelania Virtual Colaborativa que se leve em
consideração tais aspectos do desenvolvimento do adulto, da aprendizagem
colaborativa e do b-learning, e, consequentemente, o que isso significa para o
responsável pela organização de processos que favoreçam o desenvolvimento de
valores. As redes de colaboração serão os espaços de significação, de troca e de
estabelecimento de vínculos que se expandirão para outras redes com capilaridade
exponencial.
Destarte, o modo de trabalho pedagógico é que será o fator diferencial do uso
do b-learning para a formação de valores, visto que o mais importante e, por
conseguinte, o que interessa eliciar nos participantes dessas redes de colaboração
são as motivações para a formação de valores, a mobilização para que tais valores
sejam praticados em diversos cenários e contextos, o desenvolvimento moral que
promova autonomia, cooperação e integração social, entre outros produtos
desejados.
No documento
A EDUCAÇÃO SUPERIOR E OS NOVOS AMBIENTES E REDES DIGITAIS DE FORMAÇÃO DE VALORES E EXPRESSÃO DA CONFESSIONALIDADE
(páginas 166-171)