1. CONCEITUAÇÕES DE CONFESSIONALIDADE E ASPECTOS DISTINTOS DA
1.4 CONFESSIONALIDADE NO ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO
As Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras podem ser públicas ou
privadas, sendo as primeiras aquelas mantidas pelo Estado, em seus entes
federativos (União, Estados e Municípios), enquanto as últimas são administradas por
pessoas físicas ou jurídicas de direito privado, com ou sem finalidade de lucro. Por
sua vez, as instituições privadas sem finalidade de lucro podem ser comunitárias,
confessionais e filantrópicas, por prestarem serviços à população em caráter
complementar às atividades do Estado.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), Lei n. 9.394/96, em seu artigo
20 estatui:
As instituições privadas de ensino se enquadrarão nas seguintes
categorias: I – particulares em sentido estrito, assim entendidas as que
são instituídas e mantidas por uma ou mais pessoas físicas ou
jurídicas de direito privado que não apresentem as características dos
incisos abaixo; II – comunitárias, assim entendidas as que são
instituídas por grupos de pessoas físicas ou por uma ou mais pessoas
jurídicas, inclusive cooperativas educacionais, sem fins lucrativos, que
incluam na sua entidade mantenedora representantes da comunidade;
III – confessionais, assim entendidas as que são instituídas por grupos
de pessoas físicas ou por uma ou mais pessoas jurídicas que atendem
a orientação confessional e ideologia específicas e ao disposto no
inciso anterior; IV – filantrópicas, na forma da lei. (BRASIL, 2018).
Em artigo de investigação pós doutoral em Direito Público na Universidade
Nova de Lisboa, Portugal, fomentada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (CAPES), do Ministério de Educação e pela Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), Magno Gomes trata da
heterogeneidade das IES, no que se refere a seus diversos níveis de abrangência e
especialização existentes na Constituição da República brasileira de 1988 no
ordenamento infraconstitucional e nos atos administrativos normativos.
Para ele, a crítica eventualmente feita sobre os critérios de classificação legal
das IES é bem-vinda, pois
[...] é necessário apresentar classificações adequadas a um ensino
superior tão diverso e heterogêneo quanto o brasileiro, bem como
discutir a concepção de universidade. Ademais, devem ser analisados
a natureza, o regime jurídico das IES, a partir dos setores público e
privado, e seus níveis de abrangência ou especialização. (GOMES,
2010, p. 594).
Este funcionamento de IES de origem e natureza privada, particularmente as
confessionais e filantrópicas como o Mackenzie, é direito primariamente assegurado
pela Constituição Federal, conforme se vê na Lei de Diretrizes e Bases da Educação
(2018), que dispõe assim:
A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será
promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao
pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da
cidadania e sua qualificação para o trabalho [...] de acordo com
princípios que garantem a liberdade de aprender, de ensinar, de
pesquisar e de divulgar o pensamento a arte e o saber, além da
pluralidade de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de
instituições públicas e privadas de ensino.
Em estudo considerado um dos mais abrangentes sobre a educação superior
no Brasil, promovido pelo Instituto Internacional para a Educação Superior na América
Latina e no Caribe (IESALC), no qual é lançado um olhar sobre a história, a estrutura
e o funcionamento da educação superior brasileira, registra-se o surgimento da
primeira universidade confessional no país em 1946:
Desde 1934, no primeiro congresso católico de educação, realizado
no Rio de Janeiro, a Igreja manifestara seu interesse na criação de
uma universidade, subordinada à hierarquia eclesiástica e
independente do Estado, tanto assim que já havia criado cursos nas
áreas humanas e sociais, com o objetivo de ressocializar as elites
brasileiras com base nos princípios ético-religiosos da moral católica.
Coube, aos jesuítas, a incumbência de organizar, administrar e
orientar pedagogicamente a futura instituição universitária. Em 1946,
satisfeitos os pré-requisitos legais, com o Decreto n° 8.681, de
15/3/46, surgiu a primeira universidade católica do Brasil. No ano
seguinte, foi-lhe outorgado, pela Santa Sé, o título de Pontifícia.
Similar a outras congêneres no mundo, ela introduziu, em seus
currículos, a frequência ao curso de cultura religiosa e tornou-se
referência para a criação de outras universidades católicas no país.
(OLIVEN, 2002, p. 35).
A menção à criação da Universidade Presbiteriana Mackenzie nesse estudo do
IESALC é situada no período histórico da Nova República:
Durante a Nova República, foram criadas 22 universidades federais,
constituindo-se o sistema de universidades públicas federais. Cada
unidade da federação passou a contar em suas respectivas capitais,
com uma universidade pública federal. Durante esse mesmo período,
foram, também, criadas 9 universidades religiosas, 8 católicas e 1
presbiteriana. (OLIVEN, 2002, p. 2).
De fato, a UPM foi reconhecida como universidade pelo presidente Getúlio
Vargas em 1952, a partir de algumas faculdades Mackenzie já em funcionamento,
como a pioneira de Engenharia (1896), cujos diplomas ainda eram expedidos pela
Universidade de Nova Iorque, a de Filosofia, Ciências e Letras (1946), a de Arquitetura
(1947) e a de Ciências Econômicas (1950).
No entanto, como se verá à frente, quando se tratar da evolução histórica da
confessionalidade do Mackenzie, suas raízes confessionais remontam
essencialmente muito mais aos objetivos fundacionais daqueles que começaram a
Escola Americana e o Mackenzie College do que à mera classificação legal do Estado
brasileiro. No mesmo sentido, quanto ao aspecto cronológico, essa confessionalidade
é ainda mais anterior, pois remete à própria formação da identidade protestante
reformada calvinista emanada da Reforma Protestante do século XVI. Mesmo que
tenha passado por movimentos de refluxos de secularização em sua história, a
confessionalidade, por causa disso, é muito bem lastreada.
A bem da verdade, é preciso ressaltar que a discussão sobre o lugar da
confessionalidade e das instituições confessionais na educação superior brasileira
insere-se em um contexto de pontos de vista bastante diversos e, muitas vezes,
debatidos apaixonadamente, com apoio e discordâncias pelos mais diferentes
motivos. Alguns argumentam que o estado laico garantido pelo ordenamento jurídico
brasileiro deveria suprimir completamente a confessionalidade de qualquer política
pública de Estado ou de Governo, inclusive o ensino religioso na educação básica e,
até mesmo, a concessão estatal para o funcionamento de IES privativas
confessionais.
Gustavo Leite Castello Branco desenvolveu uma pesquisa sobre O modelo de
ensino confessional e o fortalecimento da concepção laica de Estado, na qual tratou
do modelo confessional de ensino religioso e de sua relação com o Estado Laico
Brasileiro “[...] no intuito de verificar se o mesmo apresenta-se apto a contribuir para
uma formação coerente com os princípios constitucionais de respeito à diversidade e
ao pluralismo de ideias” (BRANCO, 2017, p. 8).
Para Gustavo Branco (2017), o ensino religioso confessional em um Estado
Laico seria um ensino impraticável na iniciativa pública, tolerado dentro da iniciativa
privada, “[...] mas sempre aquém dos ideais de pluralismo e respeito à diversidade
cultural e religiosa, previstos na Constituição Federal de 1988” (p. 8).
O Ensino Confessional contemporâneo deve ser distinguido do Ensino
Catequético que fora praticado no passado histórico brasileiro. A
pesquisa conclui que o Ensino Confessional, além de viável dentro do
contexto da laicidade brasileira, é capaz de contribuir com a promoção
e o fortalecimento de valores fundamentais para o Brasil e para a
formação de seus cidadãos. (BRANCO, 2017, p. 8).
Outros entendem que a confessionalidade deve ser a exposição do desejo de
evangelizar e levar a todos sua confissão religiosa, em um processo assemelhado à
catequese de ordens religiosas católico-romanas ou a propostas dos chamados
religious colleges americanos.
Em vídeo-palestra do Reverendo Davi Charles Gomes, ex-Chanceler da UPM,
para a 10ª edição do Planejamento Estratégico do Instituto Presbiteriano Mackenzie
(2017) intitulada “Confessionalidade e Universidade: uma tentativa de taxonomia
inicial”, é proposto um espectro com várias tipologias de confessionalidade, a partir de
uma análise de autores como Duane Litfin na obra Conceiving the Christian College,
Manning Pattillo em Church-sponsored Higher Education in the United States, Robert
Benne em Quality with Soul e, finalmente, Douglas e Rhonda Jacobsen com a obra
TheAmerican University in a Postsecular Age (2008).
Esse espectro vai das instituições “nominalmente confessionais” até as
“defensoras da fé”. O chamado “umbrella model” citado nesta última obra ocorreria
uma confessionalidade patrocinadora, que cria uma tenda suficiente para abrigar uma
grande pluralidade abaixo dela, mas sem efeito restritivo no que é discutido nos
departamentos, no que se faz. A instituição tem uma confessionalidade como grande
guarda-chuva que abriga várias outras visões e perspectivas de mundo (JACOBSEN;
JACOBSEN, 2008, p. 34, tradução nossa).
Aparentemente, essa tem sido historicamente a melhor descrição de até onde
vai a confessionalidade na UPM, independentemente da análise de ser a
confessionalidade ideal, seja por razões de fidelidade histórica aos ideais
fundacionais, seja pela necessidade de oferecer um contraponto confessional à
crescente secularização da vida, da sociedade e da educação.
Para uma melhor compreensão dessas várias facetas e abordagens sobre os
desafios da confessionalidade e o ensino superior, especialmente em outros países,
é recomendável a leitura de obras como The Idea of a Christian College, de Arthur
Holmes (1999), dois volumes de George Marsden: The Soul of the American
University (1994) e The Outrageous Idea of Christian Scholarship (1997) e, finalmente,
da obra editada por Ronald A. Wells, Keeping Faith (1996).
Na discussão específica das compreensões do que seria laicidade no contexto
brasileiro, Thiago Rafael Vieira e Jean Marques Regina (2019, p. 5) consideramque
“[...] a conceituação do modelo de laicidade do Estado Brasileiro é fundamental para
o estudo do Direito Religioso e, sobretudo, para a plenitude da liberdade religiosa”. O
constitucionalista José Afonso da Silva (1999) explica os sistemas de organização
estatal quanto à religião, quais sejam: na confusão, o Estado se confunde com
determinada religião; é o Estado Teocrático, como o Vaticano e os Estados Islâmicos.
Na hipótese da união, verificam-se relações jurídicas entre o Estado e determinada
igreja, no concernente à organização e ao funcionamento, como a participação
daquele na designação dos ministros religiosos e sua remuneração.
Fica claro, dessa forma, que a compreensão sobre os direitos assegurados à
confissão de fé não estão restritos apenas aos indivíduos e aos locais de culto, mas
a outras relações sociais, inclusive a educação, razão por que a LDB reconhece as
instituições educacionais confessionais “instituídas por grupos de pessoas físicas ou
por uma ou mais pessoas jurídicas que atendem a orientação confessional e ideologia
específicas” (BRASIL, 2018, p. 16).
Nesse foco do direito legal de existência, a ação de inconstitucionalidade sobre
o acordo do Estado Brasileiro com a Santa Sé, julgada pelo Supremo Tribunal Federal
(STF) em 2017, propiciou que votos de alguns ministros de nossa Suprema Corte
pudessem ser vistos como emblemáticos no sentido de, por um lado, reafirmar a
laicidade do Estado brasileiro e da educação em todos os níveis e, por outro, garantir
a confessionalidade, inclusive em sua expressão educacional, condicionando-a, no
entanto, a certos critérios.
Embora, especificamente na ação, a Procuradoria Geral da República pedisse
a interpretação conforme a Constituição Federal, do dispositivo da LDB (caput e
parágrafos 1º e 2º, do artigo 33, da Lei 9.394/1996) e do artigo 11, parágrafo 1º do
acordo firmado entre o Brasil e a Santa Sé (promulgado por meio do Decreto
7.107/2010) no que se refere à não vinculação do ensino religioso nas escolas
públicas a uma religião específica e à proibição da admissão de professores na
qualidade de representantes das confissões religiosas, a discussão de fundo, no
arrazoado da ação e dos votos, versou sobre os conceitos de laicidade e
confessionalidade.
O ministro Marco Aurélio, acompanhando o voto do relator, ministro Luís
Roberto Barroso, pela procedência do pedido, entendeu que a laicidade estatal “[...]
não implica o menosprezo nem a marginalização da religião na vida da comunidade,
mas, sim, afasta o dirigismo estatal no tocante à crença de cada qual [...]”, e que
“[...] o Estado laico não incentiva o ceticismo, tampouco o aniquilamento da religião,
limitando-se a viabilizar a convivência pacífica entre as diversas cosmovisões,
inclusive aquelas que pressupõem a inexistência de algo além do plano físico”
(BRASIL, 2017).
O voto do relator, segundo suas próprias palavras, enfrentava, sumariamente,
a questão do cabimento da ação, tecia breve nota sobre a religião no mundo
contemporâneo e, “[...] quanto ao mérito, encontra-se dividido em duas partes: a Parte
I apresenta as normas que postulam incidência sobre a matéria e a evolução
legislativa ocorrida; e a Parte II procura resolver a controvérsia constitucional aqui
veiculada” (BARROSO, 2017, p. 5), afirmando que:
a discussão na presente ação envolve a harmonização entre as
normas constitucionais que preveem a liberdade religiosa, a laicidade
do Estado e a oferta de ensino religioso, de um lado, e as normas
infraconstitucionais que disciplinam o ensino religioso, de outro lado.
Tais normas incluem, como visto, a Lei de Diretrizes e Bases e o
Acordo Brasil Santa Sé. (BARROSO, 2017, p. 5).
Nada se revela mais nocivo e mais perigoso do que a pretensão do
Estado de reprimir ou de cercear a liberdade de expressão, inclusive
em matéria confessional [...] inquestionável, desse modo, que a
liberdade religiosa qualifica-se como pressuposto essencial e
necessário à prática do regime democrático. A livre expressão de
ideias, pensamentos e convicções, em sede confessional, não pode e
não deve ser impedida pelo Poder Público nem submetida a ilícitas
interferências do Estado.
O douto ministro, auxiliando-se dos escritos de Noberto Bobbio (2000),
relembra que a ideia de tolerância nasceu e se desenvolveu no terreno das
controvérsias religiosas, tendo como frutos, o reconhecimento da liberdade religiosa,
a formação dos Estados não confessionais e o surgimento do espírito laico, devido ao
respeito pela consciência alheia, que é definido por Bobbio (2002, p. 149) como “[...]
aquele modo de pensar que confia o destino do ‘regnum hominis’ mais à razão crítica
que aos impulsos da fé”. Essa concepção confere, em última instância, o direito a não
somente “[...] aqueles que professam uma religião, mas também daqueles que não
professam nenhuma”, relembra Bobbio (2002, p. 149).
O filósofo também desenvolve essa origem histórica da ideia de tolerância, pois
a ideia de tolerância nasceu e se desenvolveu no terreno das
controvérsias religiosas [...] depois da ruptura do universalismo
religioso por obra das Igrejas reformadoras e das seitas heréticas. [...]
a qual passou pouco a pouco para o terreno das controvérsias
políticas, ou seja, do contraste entre aquelas formas de religião
moderna que são as ideologias. (BOBBIO, 2002, p.149).
E conclui: “o reconhecimento da liberdade religiosa deu origem aos Estados não
confessionais; o reconhecimento da liberdade política, aos Estados democráticos. Um
e outro destes reconhecimentos são a mais alta expressão do esprit laïque que
caracterizou o nascimento da Europa moderna” (BOBBIO, 2002, p. 149).
Ainda no voto de Celso de Mello, é possível verificar a abrangência da
separação do Estado e da Igreja, consignada na Constituição de 1988 que, embora
mantendo – como se impõe – a separação formal entre Igreja e Estado (CF, art. 19,
I), não se revela anticlerical nem hostil a qualquer denominação religiosa. Para ele, a
Constituição de 1988 claramente:
Consagra a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença
(CF, art. 5º, VI), garante o livre exercício dos cultos religiosos (CF, art.
5º, VI), assegura a proteção aos locais de culto e às práticas litúrgicas
(CF, art. 5º, VI), estabelece que ninguém será privado de seus direitos
por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política,
salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta
(CF, art. 5º, VIII), impede que aquele que alega objeção de
consciência sofra privação de sua cidadania, desde que desempenhe
prestação civil alternativa (CF, art. 143, § 1º), concede imunidade
tributária aos templos de qualquer culto, assim neutralizando eventual
tentativa do Poder Público de valer-se, mediante manipulação de sua
competência impositiva, de medidas que impliquem censura fiscal
lesiva à liberdade religiosa (CF, art. 150, VI, “b”), permite a prestação
de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação
coletiva (CF, art. 5º, VII) e atribui eficácia jurídico-civil ao casamento
religioso (CF, art. 226, § 2º). (BRASIL, 2017, p. 24).
É necessário, a esta altura, discutir os dois aspectos desse breve cotejamento
legal, o qual alavanca o fulcro da questão abordada neste primeiro capítulo do
trabalho: a natureza da confessionalidade, especificamente, a confessionalidade do
Mackenzie. O primeiro aspecto de natureza legal que, mesmo extrapolando o teor
principal do presente trabalho, é útil à discussão, trata daquilo que Luís Roberto
Barroso chamou, no caso do julgamento da ADI referente ao acordo do Brasil com a
Santa Sé, de “controvérsia constitucional” entre a laicidade do Estado e as liberdades
de expressão e de confissão religiosa.
Esse enfrentamento entre direitos fundamentais pétreos é sumarizado por ele
em termos não necessariamente normativos, mas filosóficos, tomados da fonte
iluminista que propugna pela secularização da vida no sentido mais amplo possível,
cujos desaguadouros atendem pelo nome de pluralismo e relativismo:
O secularismo se manifesta na convivência respeitosa entre
cosmovisões distintas, sendo que no espaço público deve prevalecer
a razão pública, vale dizer, valores laicos que possam ser
compartilhados por todos e por cada um, independentemente de suas
convicções pessoais privadas. (BARROSO, 2017, p. 9).
Aplicado o argumento do ministro à expressão da confessionalidade de que
trata este trabalho, a questão residual passa a ser: uma universidade privada de
natureza confessional, mesmo sob concessão pública, tem o direito de, em seu
espaço privado de atuação, presencial ou virtual, manifestar sua identidade
institucional confessional?
A posição deste pesquisador, a despeito da discussão jurídica incluir aspectos
para além do alcance desta pesquisa, é que, diante dos pesos e contrapesos da
discussão, a confessionalidade se impõe como dever de cumprir o propósito
fundacional da criação da instituição e, em última instância, do próprio dever de, sendo
uma instituição cristã, não ocultar o que crê. Assim, desde que tal confessionalidade
seja bem definida nos termos de sua expressão, assegurada a liberdade de produção
de conhecimento e pesquisa, por meio de seus docentes e programas, é direito
inconteste que a confessionalidade seja assumida e manifestada por todos os meios
e modos legais.
Em resposta à pergunta “como ser confessionais em meio à pluralidade e
diversidade da universidade, à autonomia acadêmica e ao humanismo latente?”, o
então Chanceler Reverendo Augustus Nicodemus Lopes (2005) respondeu:
Pode-se dizer que a confessionalidade da Universidade cria o
ambiente onde a pesquisa acadêmica e a investigação científica são
feitas e onde o saber se processa e é transmitido. Embora nem todos
os que estudam e trabalham no Mackenzie confessem a fé cristã
reformada, trabalhamos para uma convivência administrativa pacífica,
e buscamos, juntos, manter os interesses acadêmicos e a qualidade
na educação. Essa postura sempre marcou a existência desta grande
instituição.
Porém, não deixou de pontuar que
[...] a neutralidade na educação é um mito. Se não podemos escapar
às premissas, adotemos ao menos aquelas que integram a nossa
origem, a nossa tradição e a nossa história. A fé reformada provê
premissas, referenciais e parâmetros para a academia. Tem feito isso
através dos séculos. Os grandes centros de ensino e pesquisa do
mundo nasceram sob a influência do cristianismo e, na maioria dos
casos, da fé reformada. (LOPES, 2005).
E concluiu: “O Mackenzie, que nasceu confessante, deseja prosseguir neste
caminho e fortalecer os rumos da confessionalidade reformada que tem marcado
grandes instituições de ensino em todo mundo” (LOPES, 2005).
Por óbvio, para os usuários dos serviços educacionais deve ficar claro, desde
o início da contratação da prestação destes serviços, que a instituição é confessional,
e que, nos termos do contrato, essa identidade institucional será evidenciada de
diversas maneiras, respeitando-se o direito à crença partícula.
Um texto sucinto, mas bastante didático, sobre laicidade, é “O Estado Laico
Brasileiro”, de Thiago Rafael Vieira na obra Direito Religioso: questões práticas e
teóricas (2019), no qual ele defende que “[...] o Estado Brasileiro tem como modelo o
sistema de laicidade aberta, distanciando-se totalmente do laicismo de combate e da
laicidade à francesa[...]”, no qual fica claro que “[...] o Estado Constitucional reflete os
axiomas e a vontade popular quando de sua promulgação, que varia de acordo com
a nação e seu consequente povo [...]”, visto que “[...] não há um modelo universal de
laicidade que se aplique indistintamente a todos os países que adotam o regime de
separação material entre Estado e Igrejas” (VIEIRA; REGINA, 2019, p. 88-89).
Os autores mencionam alguns textos que são fundamentais para a defesa da
liberdade de crença e de propagação da própria crença e consagram “[...] a liberdade
religiosa como base para qualquer Estado Democrático Constitucional” (VIEIRA;
REGINA, 2019, p. 88-89).
A Declaração Universal dos Direitos Humanos (2009, p. 10):
Artigo 18 – Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento,
consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de
religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença,
pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou
em particular.
O Pacto de São José da Costa Rica – Convenção Americana sobre Direitos
Humanos (1969):
Artigo 12 – Toda pessoa tem Direito à liberdade de consciência e de
religião. Este direito implica a liberdade de conservar sua religião ou
suas crenças, ou de mudar de religião ou de crenças, bem como a
liberdade de professar e divulgar sua religião ou suas crenças,
No documento
A EDUCAÇÃO SUPERIOR E OS NOVOS AMBIENTES E REDES DIGITAIS DE FORMAÇÃO DE VALORES E EXPRESSÃO DA CONFESSIONALIDADE
(páginas 47-57)