1. CONCEITUAÇÕES DE CONFESSIONALIDADE E ASPECTOS DISTINTOS DA
3.5 PRINCÍPIOS PARA UMA CAPELANIA VIRTUAL COLABORATIVA (CVC)
As intenções destas últimas partes da tese podem ser sumarizadas na forma
de questões a serem respondidas, as quais começam com a conceituação do que são
redes de colaboração e como estas podem ser utilizadas para a formação de valores
em contextos educacionais.
A partir dessa formulação, é necessário ainda entender de que forma esse
contexto de tecnologias de informação e conhecimento (TICs) favorece a formação
de redes de colaboração e, ao mesmo tempo, em sentido reverso, também
compreender qual é a utilidade da formação de redes de colaboração para o uso de
tecnologias de informação e conhecimento visando à formação de valores. Por óbvio,
a linha de base dessa análise é traçada a partir do impacto que já pode ser percebido
na relação dialógica das redes de colaboração e tecnologias de informação, com o
objetivo de formar valores, ou seja, qual é o estado da arte do uso de tecnologias de
informação na formação de redes de colaboração em ecossistemas educacionais, que
podem ser adaptadas ou aplicadas para a formação de valores. E, finalmente, quais
são os desafios para o uso de tecnologias de informação em redes de colaboração
voltados para a formação de valores em ecossistemas educacionais.
A articulação desta tese em três eixos – Confessionalidade, Formação de
Valores e Redes de Colaboração – tem como objetivo chegar a uma proposta de
adaptar conceitos oriundos dessa matriz de formulação teórica nas três áreas de
conhecimento, almejando, como se espera, a criação de uma Capelania Virtual
Colaborativa (CVC), de natureza inovadora, relevância acadêmica e social, a ser
esboçada nesta próxima seção do terceiro capítulo.
É importante ressalvar que, conforme entende Machado (1995 p. 138), a ideia
de uma rede virtual de colaboração, que é a essência da proposta da CVC não
“[...] se contrapõe diretamente à ideia de cadeia, de encadeamento lógico, de
ordenação necessária, de linearidade na construção do conhecimento, com as
determinações pedagógicas relacionadas com os pré-requisitos, seriações, os
planejamentos e as avaliações”, que já estão em curso no exercício tradicional dessa
formação de valores e de manifestação da confessionalidade nos diversos modi
operandi da Chancelaria e, principalmente, das Capelanias da instituição.
Assim, o primeiro princípio a ser afirmado é que um ambiente virtual de
aprendizagem colaborativa de valores é complemento e avanço do fenômeno da
virtualidade da presença não-corpórea e do ciberespaço, devido à incorporação de
novas abordagens típicas de uma sociedade em rede. Não se trata, por conseguinte,
de substituição, mas de complementaridade e inovação, assumindo a “[...] rede como
metáfora para a representação do conhecimento” (MACHADO, 1995, p. 140), em
vistas de que aprender a formar valores sempre será uma tentativa de apreender o
significado, e a melhor maneira de se fazer isso é por meio de feixes de relações das
estruturas e abordagens atuais, com as possibilidades abertas de realizá-las também
em redes colaborativas em permanente estado de atualização.
Portanto, é uma proposta de “enredamento” do que já se faz hoje nas atividades
de formação de valores propostas pela capelania da instituição, com novas tessituras
e dimensões só possíveis na medida em que a tecnologia se desenvolve, facilitando
esse serviço educacional em uma instituição confessional sesquicentenária.
É possível, utilizando-se de outra metáfora proposta por Pierre Lévy (1997),
entender CVC como uma espécie de “hipertexto”. Ele afirma que “O hipertexto é talvez
uma metáfora válida para todas as esferas da realidade em que significações estejam
em jogo” (LÉVY, 1997, p. 25), apontando seis princípios chamados de “conformadores
do hipertexto”, os quais podem ser transportados para caracterizar a metáfora da
formação de valores em rede, como se propõe ser a CVC.
Ele chama de princípio da metamorfose a constatação de que “A rede está em
constante construção e transformação e, a cada instante, pode-se alterar os feixes
que compõem os nós, atualizando o desenho da rede” (LÉVY, 1997, p. 26). Portanto,
esse ambiente, que não existe ainda, se for implementado, será uma “metamorfose
ambulante”, tanto quanto deve ser fluida o bastante toda abordagem ao conhecimento
no ciberespaço, ainda que ele seja necessariamente ancorado em uma
confessionalidade milenar e voltado para uma necessidade de formar valores que,
permanecendo ao passar das geração, apresenta-se cada vez mais emergente, posto
que as proximidades virtuais parecem não estar dando conta de tornar os seres
humanos mais humanizados e éticos.
É proposto também o princípio da heterogeneidade, pelo qual Levy articula que
as conexões de uma rede, que ele chama de “nós” são heterogêneos, ou seja,
possuem uma multiplicidade de possibilidade de interligação entre eles (LÉVY, 1997),
sejam elas lógicas, afetivas, analógicas, digitais, híbridas, sensoriais, multimodais,
multimídias, por meio de sons, imagens, palavras e muitas outras linguagens. Essa
heterogeneidade é típica de uma tentativa de abrir colaborativamente um serviço de
formação de valores tradicionalmente homogêneo, seja pela ancoragem
filosófica-teológica da confessionalidade institucional, seja pela uniformidade da participação
dos “nós” presenciais, até então utilizados na Capelania presencial – Chanceler,
Capelães e Auxiliares de Capelanias, considerando-se a necessidade de algum
controle de conteúdo e de abordagens, tanto para conservação dos princípios
institucionais, confessionais e missionais fundantes como pela preservação
institucional per se.
A CVC, como já assegurado ao longo da tese, não representa, por sua
heterogeneidade de atores – nós e conexões em rede –, ameaça a essas premissas
institucionais, porque não se propõe como uma rede distribuída, mas como uma rede
descentralizada com tutoria e facilitação de Capelães e Auxiliares de Capelania,
agrupados em clusters. Esses hubs personificados nos atores, por óbvio, precisarão
ser capacitados para o exercício dessas funções, incluindo-se aí a orientação dos
colaboradores e participantes das redes, para evitar o desvirtuamento tanto da
proposta em si como da identidade institucional.
O terceiro princípio, baseado na hipertextualização, é o da multiplicidade e do
encaixe das escalas, na medida em que a “grande rede” de um ambiente virtual
colaborativo para a aprendizagem de valores organiza-se de modo “fractal”, ou seja,
qualquer nó ou conexão, quando detalhadamente analisado em dimensão
microscópica, pode revelar-se como sendo composto de toda uma rede própria,
definida por participantes, temáticas e propostas de reflexão e mobilização, e assim
por diante, indefinidamente (LÉVY, 1997). Nesse sentido, a CVC também atende ao
princípio da mobilidade dos centros, pois pode ter vários centros que trazem ao redor
de si pequenas ramificações (LÉVY, 1997).
Na verdade, a CVC emula conceitualmente a própria internet e as redes sociais,
com o diferencial de se prestar à formação de valores lastreados pela
confessionalidade do Mackenzie e, nesse sentido, “obedece” às mesmas limitações
tecnológicas e outras, mas também visualiza horizontes quase infinitos e
inimagináveis, podendo se desdobrar em conexão com outras redes semelhantes em
nível global; assim, assume também o princípio da exterioridade, ou seja, é
permanentemente aberta ao exterior, à adição de novos elementos, a conexões com
outras redes, de modo que, na rede, o curso dos acontecimentos é uma questão de
topologia, de caminhos, exatamente para atender ao princípio da topologia.
Além desses princípios, baseados nas ideias de Lévy (1997), é possível
também adaptar a proposta de Genoveva Sastre e Montserrat Moreno (2002, p. 58)
para “[...] programas educativos que assumam a perspectiva de trabalhar os conflitos
e os problemas humanos como um elemento essencial de sua organização curricular
[...]”, de modo que também na CVC o fio condutor de todas as eventuais adaptações
e atualizações em suas propostas de trabalho e de oferta de serviços para a formação
de valores estejam atreladas inegociavelmente a seu propósito inicial de:
[...] formar os alunos, desenvolver sua personalidade, faze-los
conscientes de suas ações e das consequências que acarretam,
conseguir que aprendam a conhecer melhor a si mesmos e às demais
pessoas, fomentar a cooperação, a autoconfiança e a confiança em
seus companheiros e companheiras, com base no conhecimento da
forma de agir de cada pessoa e beneficiar-se das consequências que
estes conhecimentos lhes proporcionam. A realização destes
objetivos leva a formas de convivência mais satisfatórias e à melhoria
da qualidade de vida das pessoas, qualidade de vida que não se
baseia no consumo, e sim em gerir adequadamente os recursos
mentais... intelectuais e emocionais – para alcançar uma convivência
humana muito mais satisfatória. (SASTRE; MORENO, 2002, p. 49).
Essa é a primeira das salvaguardas, ou pontos de restauração, tomando de
empréstimo a terminologia dos sistemas operacionais, de modo que toda e qualquer
mudança, baseada nos princípios da hipertextualização apresentados anteriormente,
façam referência à proposta fundante. Assim, todos os programas e cursos de ação
desenvolvidos pela CVC, em momentos de atualização do sistema, poderão preservar
os princípios e as propostas originais, a partir de pontos de restauração definidos
pelos gestores das redes de colaboração. Esses pontos de restauração, por default,
terão sua configuração para manter o objetivo da CVC de formação de valores e o
lastro da confessionalidade do Mackenzie.
A segunda salvaguarda é a articulação com a comunidade, de acordo com a
Carta de Barcelona, também conhecida como a Carta das Cidades Educadoras, que,
mutatis mutantis, assume a “[...] construção de um ambiente ético que ultrapasse os
tempos, os espaços e as relações escolares [...]” e que “[...] vem se impondo como
ferramenta importante para que a educação seja ressignificada na
contemporaneidade [...]”. A articulação da CVC, por conseguinte, é proposta
utilizando-se exatamente os mesmos sentidos de identidade tratados nesta tese: o
individual articulando-se em sua rede (relação interpessoal – intragrupal), os clusters
de rede articulando-se em rede (relação intragrupal – intergrupal), as redes
articulando-se na Capelania Virtual Colaborativa (relação intergrupal – integrupal) e a
CVC articulando-se com a comunidade (relação integrupal – societal).
Essa salvaguarda considera como premissa a ampliação dos espaços
educativos em formação de valores, mas incorpora os recursos da comunidade
prioritariamente e do mundo global, na perspectiva conhecida como glocal, isto é,
pensar globalmente e agir localmente. Assim, o entorno da universidade no
desenvolvimento de projetos mobilizadores, baseados em valores formados em rede,
é contemplado como comunidade, espaço de aprendizagem e de mobilização de
ações, assumindo o papel social de instrução e formação das novas gerações.
A Capelania Virtual Colaborativa e as ações mobilizadores em rede propostas
na tese são articulações entre os diversos segmentos da comunidade, escolar e
não-escolar, os quais se dispõem a atuar no desenvolvimento de ações que mobilizem os
participantes a desenvolver projetos sobre conteúdos de ética e de cidadania nas
ambiências educacionais do Mackenzie em todas as suas unidades de ensino
superior, e também fora da comunidade mackenzista, atendendo assim ao que Puig
chama de “[...] melhores proposta para uma projeto de educação em valores [...]”,
quais sejam fazer da participação a melhor escola de cidadania e promover a
formação cívico-moral pela aprendizagem-serviço (PUIG, 2007, p. 101).
Dessa forma, é bom sempre lembrar que, no cenário complexo e
multidimensional da universidade, no qual incidem e se entrecruzam influências dos
mais diversos tipos, “[...] qualquer consideração que se queira fazer sobre os
processos que ocorrem na universidade exige uma contextualização” (ZABALZA,
2004, p. 10), especialmente quando se trata de formar e consolidar valores.
Essa reflexão sobre as diversas funções das universidades é trazida por José
Pacheco (2001, p. 27), ao afirmar:
[...] questionar a missão da Universidade é reconhecer que há
múltiplas funções que esta desempenha e que jamais poderão deixar
de estar subordinadas à discussão e problematização da própria
cultura. A Universidade, apesar dos ventos profissionalizantes que
sopram cada vez mais fortes nas orientações internacionais, será
sempre um espaço de cultura, de vivência democrática e de uma
aprendizagem crítica ou socrática.
Nessa mesma direção de apontar a missão da universidades, incluindo nela
aspectos relacionados à formação moral e cidadã, José Veiga Simão et al. (2005,
p. 26) dizem: “As instituições de Ensino Superior posicionam-se, neste desafio, como
fóruns de humanismo e de vanguarda de pensamento, integrantes do economicismo
imprescindível, sem perderem de vista a sua contribuição específica para a diminuição
de disparidades sociais e econômicas entre países e dentro de cada país”.
Diante desse desafio, as universidades enfrentam uma “nova ordem
educativa”, na expressão de Clara Coutinho (2006, p. 2), ao lembrar que:
De fato, o mundo globalizado em que hoje vivemos originou uma ‘nova
sociedade’ com múltiplas denominações na literatura, como seja a de
‘sociedade da informação’, a de ‘sociedade em rede’, a ‘sociedade da
aprendizagem’, a ‘sociedade do conhecimento’, a ‘sociedade
cognitiva’ e muitíssimas outras adjetivações, em que o denominador
comum é o reconhecimento do papel dos novos meios tecnológicos
(ou meios do conhecimento) na reconfiguração dos modelos.
E, nesse cenário desafiador, a formação de valores, conforme tem sido
proposta nesta tese, não poderia prescindir do uso da tecnologia disponível para
buscar o que Rué (2007) chama de “princípio da autonomia”, como termo unificador
de alguns princípios subjacentes, os quais favorecem o desenvolvimento da
autonomia da aprendizagem dos estudantes, que podem ser claramente aplicados à
formação moral, inclusive por meio de uma blended education.
No documento
A EDUCAÇÃO SUPERIOR E OS NOVOS AMBIENTES E REDES DIGITAIS DE FORMAÇÃO DE VALORES E EXPRESSÃO DA CONFESSIONALIDADE
(páginas 173-179)