CAPITULO 1 MEMÓRIA E POLÍTICA: A REPÚBLICA NO RIO GRANDE DO
1.3 A REPÚBLICA PROCLAMADA NO RIO GRANDE DO NORTE
Como toda gente sabe, a proclamação da República operou-se quase por um golpe de mágica. Foi um golpe imprevisto a que o Povo, na frase de Aristides Lobo, “assistiu bestializado”. Durante algum tempo a paz continuou a reinar em todo território do Brasil [grifo nosso]. Os antigos presidentes foram transformados em governadores. Suas assembléias legislativas após a promulgação da Constituição que
traçou normas para eleições gerais e estaduais elegeram normalmente sues representantes e o poder executivo. (SOUZA, E., 2008, p. 193)
O novo regime proclamado, em 15 de novembro de 1889, pelas mãos dos militares, como bem se sabe, chegou sem a participação popular e não trouxe grandes mudanças sociais. Nas palavras de Eloy de Souza o regime recém instaurado chegou sem perturbar o “ritmo do passado” (SOUZA, E., 2008, p. 193). Um “golpe de mágica” realizado claramente por interesses e articulações políticas.
A dinâmica política local e nacional foi aos poucos estabelecida, os interesses vigentes defendidos e as questões mais sérias “[...] resolvidas da maneira mais conveniente à expectativa dos políticos mais credenciados” (SOUZA, E., 2008, p. 193). Na medida em que os debates sobre a organização do novo regime surgiam, as alianças, os conchavos e as indicações políticas foram sendo instituídas.
À época da proclamação da República brasileira, Eloy de Souza estudava em Recife, de onde acompanhou as agitações. Ingressando na política apenas após a convocação feita pelo chefe do PRRN, Pedro Velho. O Partido Republicano do Rio Grande do Norte foi fundado em 27 de janeiro de 1889, alguns meses antes da Proclamação da República, por Pedro Velho d’Albuquerque Maranhão (CASCUDO, 2010, p. 464). O representante da “Organização Familiar” Albuquerque Maranhão, foi também o responsável por anunciar o Novo Regime no Estado e instaurá-lo.
Vários autores versaram e estudos foram produzidos acerca do período, alguns dos quais apresentaram o que caracterizamos anteriormente, como discursos construtores de uma memória política norte-rio-grandense. Tais falas tendem a uma linha interpretativa que vê o movimento republicano como parte de um processo inevitável da política e da sociedade brasileira no final do século XIX e início do século XX. Nestes discursos a inevitabilidade do “progresso” era vigente e o regime foi instaurado com “paz” e naturalidade. Narrativas que colocam Pedro Velho como um elemento crucial no processo, atrelando sua figura a de um herói da República norte-rio-grandense.
Nesta perspectiva Eloy de Souza, afirmou que o “chefe político”
Não visou à consolidação propriamente partidária porque, evidentemente, quando atingiu esta culminância já era chefe onímodo da política do Estado desde o Seridó até às fronteiras do Estado do Ceará. Por que motivo e também pela compreensão que nele madrugou no tocante às necessidades e à marcha ajustada dos negócios do Estado, foi buscar para o exercício dos cargos administrativos conterrâneos os mais
competentes, embora adversários. (SOUZA, E., 2008, p. 334)
Tavares de Lyra, por sua vez, registrou que
Estabelecido o regime republicano, dissolveram-se os antigos partidos, congregando-se em torno e sob a direção de Pedro Velho as maiores influências políticas e eleitorais da ex-província. Dele só ficaram afastados alguns dos elementos que tinham acompanhado Amaro Bezerra nos últimos tempos ou aqueles a quem incompatibilidades pessoas com representantes em evidência da nova situação impediam uma aproximação imediata. (LYRA, 2008, p. 328-329)
Faz-se importante salientar que dentro do campo político as alianças e as ações dos homens não devem ser simploriamente categorizadas como heroísmo ou vilania. O que temos são sujeitos dentro de uma dinâmica política na qual circundam interesses, sejam particulares ou de grupos, que devem ser analisados dentro da sua estrutura. Portanto, longe de desconsiderar a importância dos registros e das ações ministradas por tal político norte-rio- grandense, ou de sua “organização familiar”, o que procuramos explicitar é a discussão acerca destas obras. Bem como suscitar um diálogo acerca das revisões já elaboras sobre este período. Movimento de grande importância à compreensão do campo político norte-rio- grandense.
“O regime republicano foi proclamado em Natal às quatro horas da tarde de 17 de novembro de 1889 [...]” (CASCUDO, 2008, p.29), por Pedro Velho de Albuquerque Maranhão. O líder do PRRN passou, assim, a fazer parte de um restrito grupo, composto por figuras políticas que articulavam o futuro administrativo do país, através da escolha dos candidatos aos governos dos Estados e a presidência da República. Estes últimos escolhidos a maioria das vezes dentre os “republicanos históricos”. Pedro Velho, logo conviveria com as grandes figuras do mundo político brasileiro. Aliado a sujeitos como o general Pinheiro Machado20, “um dos orientadores da política nacional” (SOUZA, E., 2008), José Bernardo e
Manoel Vitorino21. Posição alcançada, mas não sem antes passar por um período de
20 Pinheiro Machado participou ativamente do cenário político brasileiro, chefe do Partido Republicano do Rio Grande do Sul.
21 José Bernardo de Medeiros, conhecido como bispo do Seridó, integrou-se, na Proclamação da República, ao Partido Republicano do Rio Grande do Norte, chefiado pelo o líder republicano Pedro Velho de Albuquerque Maranhão. Com a convocação das eleições para o Congresso Nacional Constituinte, em 15 de setembro de 1890 foi eleito senador na legenda da agremiação; Manuel Vitorino assumiu a secretaria do diretório do Partido Liberal na Bahia, em abril de 1885. Foi empossado como governador do mesmo estado em 23 de novembro. Em 1891, ocupou uma cadeira no Senado Federal, na vaga aberta pela renúncia de José Antônio Saraiva. A partir de então, aproximou-se do grupo político do vice-presidente Floriano Peixoto, afastando-se de Rui Barbosa, que lhe fazia oposição. Em 1893 participou ativamente da reunião de fundação do Partido Republicano Federal (PRF), o primeiro partido criado com o objetivo de obter representatividade
instabilidade registrado durante o processo de transição política. Como afirmou Itamar de Souza,
A instabilidade política do novo regime transformou cada província num carrossel de governadores nomeados e, logo depois, substituídos. Dentro desse contexto político, Pedro Velho, qual marinheiro navegando em mar revolto, fez tudo para conquistar o timão do poder. (SOUZA, I., 2008, p. 157)
Na contramão desta visão de instabilidade política, Tavares de Lyra, afirma que a proclamação da República no Estado deslizara sem grandes agitações e, assim, permaneceu até à eleição indireta do primeiro presidente da República realizada, em fevereiro de 1891 (LYRA, 2008, p. 329). O autor da primeira obra sobre a História do Rio Grande do Norte trouxe em seu discurso uma perspectiva que, como já afirmamos, foi partilhada por outros autores como Rocha Pombo e o próprio Eloy de Souza. Faz-se importante salientar, ou melhor, elucidar as relações, bem como o lugar da fala de Tavares de Lyra.
Augusto Tavares de Lyra (1872- 1958) era natural de Macaíba, filho de Feliciano Pereira de Lira Tavares e de Maria Rosalina de Albuquerque Vasconcelos de Lira Tavares. “Aluno do colégio do Dr. Pedro Velho, diretor de métodos revolucionários naquele tempo, ali se conduziu calmo, metódico, aplicado e por tais qualidades ficou vivo na memória dos professores.” (SOUZA, E., 2008, p. 324-325). Estudou à mesma época de Eloy de Souza na Faculdade de Direito do Recife e logo após sua formação, por sugestão de Pedro Velho, habilitou-se em concurso para a cadeira de História do Ateneu22, na qual lecionou. Foi
governador do Estado em 1889 -1890 e 1892 - 1896, deputado federal de 1891 a 1892 e 1896; senador de 1897 a 1907 e ministro no governo de Afonso Pena.
O “segundo bem amado do Dr. Pedro Velho” (SOUZA, E., 2008, p. 324), tornou-se seu genro ao casar com Sofia Eugênia de Albuquerque Maranhão, filha do “grande chefe político”. Era formado pela Faculdade de Direito de Recife e como Eloy de Souza e muitos outros da época atuou como jornalista, político e intelectual. Tavares de Lyra foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Nacional, do qual recebeu a incumbência de escrever sobre a história, a geografia e a etnografia do Rio Grande do Norte. Pesquisa que terminou transformando-se na obra “História do Rio Grande do Norte” (ROCHA, 2009, p.03). Sua
nacional. Informações fornecidas pelo Dicionário histórico-biográfico da Primeira República, produzido pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV), versão on-line, 2010.
22 Carta de Eloy de Souza à Manoel Rodrigues. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, v. 52. p. 46 -50.
História do Rio Grande do Norte, que aborda o período colonial ao início do período republicano, buscou legitimar a participação da “organização familiar” a que estava atrelado, na formação do província e desenvolvimento do estado. Para tanto Tavares de Lyra utilizou- se do próprio testemunho, visto seu posicionamento privilegiado, para favorecer a escrita, dando-lhe uma a ideia de verdade absoluta.
Integrante da “organização familiar” Albuquerque Maranhão, membro do PRRN, Tavares de Lyra, registrou a ideia de uma República implantada de forma quase que natural. Deixando de lado a efervescência política e os impasses da instauração do Novo Regime no Estado. Ele afirmou que após a criação do Partido Republicano, “[...] os efeitos do movimento iam se manifestando a cada passo” (LYRA, 2008, p. 324). Dentro dessa mesma linha de interpretação Rocha Pombo afirmou que,
[...] a proclamação da República na capital do paiz não foi, portanto, uma surpresa ali senão para os incrédulos que viviam desapercebidos na comodidade das posições e dos empregos. Naturalmente houve espanto geral e, até entre os próprios republicanos, diante de um acontecimento que não se julgaria tão propinquo. Mas o directorio de Natal não se deixou immobilizar de susto, como aconteceu em muitas províncias, onde só elemento militar tomou atitude decisiva. (POMBO, 1921, p.458 -459)
José Francisco da Rocha Pombo (1857-1933), autor da segunda “História do Rio Grande do Norte”, era natural de Morretes no Paraná, apesar de não ter concluído o ensino superior foi autor de muitos trabalhos. Professor, político, historiador, poeta, jornalista, também foi membro do IHGB. Rocha Pombo redigiu uma “História do Rio Grande do
Norte”, sob encomenda do Governo do Estado, no mesmo ano que Tavares de Lyra.
Podemos nos questionar: porque escrever duas Histórias do Estado, em um mesmo ano? A resposta à esta questão está nas disputas políticas locais. Primeiramente, é preciso saber que a ideia da escrita de uma História do Rio Grande do Norte, fazia parte de um plano traçado pelo IHGB, no qual cada estado deveria apresentar sua própria história, em razão dos preparativos para a comemoração do centenário da Independência (GALVÃO, 1959, p.75).
Neste movimento, Tavares de Lyra, membro do Instituto e da “organização familiar” Albuquerque Maranhão, formulou sua obra. Composta pelas “Notas históricas sobre o Rio
Grande do Norte”, um conjunto de informações pesquisadas sobre o Estado para a Questão
Grossos23, somadas a outros documentos levantados com a ajuda de Vicente Lemos, Antônio
23 Estas Notas, foram fruto de um trabalho Tavares de Lyra e Vicente Lemos, os quais foram incumbidos da pesquisar e adquirir documentos para a defesa dos interesses estado na disputa territorial com o Ceará pela
de Souza, Antônio Soares e outros (GALVÃO, 1959, p. 75). Contudo, "[...] político em plena ascenção, encontrava-se nesse tempo em oposição, e o govêrno queria fazer sua própria história, convidando Rocha Pombo, historiador eminente, autor de uma notável história do Brasil em seis volumes"(GALVÃO, 1959, p.75). A posição política referida no trecho, deu-se devido o rompimento de Joaquim Ferreira Chaves, com os Albuquerque Maranhão, em seu segundo mandato como Governador do Estado, nos anos de 1914 a 1920. Tavares de Lyra afirmou que,
Ao publicar o primeiro volume das “Notas Históricas”, não me animava o propósito de escrever uma história completa do Estado. Outros que a escrevessem. Meu objetivo era mais modesto: evitar que se perdesse o material que acumulara em penosas pesquisas. Modifiquei-o por motivos supervenientes. Pouco antes da publicação daquelas <<Notas>> me desligara do situacionismo local e a alguém, dominado pelo espírito partidário, pareceu que a mim, oposiciónista, não devia pertencer, ainda que cronologicamente, o título de primeiro historiador do Estado [...]. O caso foi discutido em rodas oficiaes, e como consequência, comvidado Rocha Pombo para preparar, às pressas, uma história da ex-província. Dêle informado, resolvi encarregar-me de trabalho de idêntica natureza que me fôra solicitado pelo Instituto Histórico Brasileiro. E puz mãos à obra, refundindo minhas produções anteriores e adicionando-lhes subsídios novos, adquiridos, aqui e ali, com paciência de beneditino. Publicado, em 1921, o livro, - História do Rio Grande do Norte - ,que tem mais de oitocentas páginas impressas, ofereci um exemplas a Rocha Pombo, meu amigo de muitos anos. Deu-me suas impressões de leitura, em longa e honrossissima carta, cujo fecho é êste: <<uma obra definitiva>>. Exagêro de sua bondade, pois nela há enganos e imperfeições que eu mesmo corrigiria, si pudesse publicá-la em edição revista e aumentada... (LYRA, 1951, p. 19-20)
Assim, obra de Tavares Lyra não se trata apenas de uma construção narrativa sobre a história norte-rio-grandense. Trata-se, sobretudo, de uma autoafirmação da participação e do poder político dos seus pares no desenvolvimento e na história do Estado. Ou seja, ao relatar os acontecimentos republicanos, ele também mostrava a história exitosa do seu partido, do seu grupo. De acordo com Tavares de Lyra, Rocha Pombo teve contato com a obra, antes de ter a sua publicada. Podemos, portanto nos questionar o quanto ele fora influenciado por ela e o quanto as informações levantadas pelas “Notas” de Tavares de Lyra, fizeram-se presentes em seu trabalho. Não há como precisar tal influência, mas diante dos indícios relativos aos tons e similaridades presentes nos discursos esta hipótese não pode ser descartada.
porção de terra que se estendia da atual fronteira do estado do Ceará até a cidade de Grossos, no Rio Grande do Norte.
Distante das disputas políticas em torno da primeira História do Rio Grande do Norte, mas não alheio a política norte-rio-grandense, Luís da Câmara Cascudo, nos dá uma outra visão sobre o processo de mudança de regime governamental. Vale ressaltar que a relação de Cascudo com a política do Estado, ou melhor com o grupo político Albuquerque Maranhão, vem, assim como a de Eloy de Souza da influência de seus pais.
Francisco Justino de Oliveira Cascudo e Ana Maria da Câmara Pimenta, nativos da vila de Campo Grande, interior do Rio Grande do Norte, pais de Luís da Câmara, mudaram-se para Natal no início da década de 1890. Ao chegarem a cidade aproximaram-se da “Organização Familiar” que administrava o governo e geria a economia local (SALES NETO, 2009). Essa proximidade rendeu a Francisco Cascudo, por diversas vezes, cargos públicos, como o de alferes do Batalhão de Segurança do Estado, em 1892. No ano de 1898, ano de nascimento de Luís da Câmara Cascudo, a relação entre sua família e os Albuquerque Maranhão já eram bem estreitas (SALES NETO, 2009).
Nessa perspectiva, assim como Tavares de Lyra e Eloy de Souza o espaço de sociabilidade, bem como lugar social de fala de Câmara Cascudo estavam diretamente relacionados a cultura política deste grupo. De acordo com Renato Amado Peixoto,
Os historiadores posteriores, dos quais Luís da Câmara Cascudo é o de maior relevância, receberam a influência e/ou repetiram os principais temas da narrativa fundada por Tavares de Lyra a partir dos interesses aos quais se coligavam. Organizações estaduais instituídas e coligadas com o arranjo político como o IHGRN possibilitaram a produção, construção, disseminação e reelaboração do discurso historiográfico (PEIXOTO, 2012, p. 11-36)
Assim, por diversas vezes em seus discursos, Câmara Cascudo reitera o que havia sido dito pelos outros autores, sobretudo, no que se refere construção da figura de Pedro Velho como o articulador da República no estado. Afirma ele,
A Comissão Executiva parecia gabinete de Ministros. Os membros eram as criaturas mais sérias, circunspectas e cultas da época. Mostravam a habilidade de Pedro Velho, congraçando os conservadores, republicanos mais íntimos e liberais não- amaristas.
Amaro Bezerra era o único inimigo interno capaz de enfrentar, pela astúcia, o jovem Presidente aclamado que se tornou a seguir Governador. (CASCUDO, 1995)
familiar” Albuquerque Maranhão, apropriando-se por vezes de parte da obra de Tavares de Lyra, do qual foi leitor. Contudo, ao escrever a História da Cidade do Natal, em 1947, o autor mostra-nos parte dos impasses políticos que ocorreram pós-Proclamação e antes da instauração do regime no Estado. Cascudo escreve,
A 16 de novembro, 24 horas depois do Brasil ser uma República, Umbelino Freire de Gouveia Melo, liberal amarista, então no Recife, recebeu um telegrama do dr. Amaro Bezerra comunicando a vitória da revolução militar e aconselhando-o a aderir e fazer com que os amigos aderissem. Umbelino retransmitiu o telegrama para Antônio Basílio, vice-presidente em exercício. Não faltou quem sugerisse a Antônio Basílio dar o golpe nos republicanos históricos. Consistia a manobra em fazer proclamar a República por um correligionário liberal menos visado. Afastaria dos postos administrativos o grupo de Pedro Velho.” [Grifo nosso] (CASCUDO, 2010, p. 465)
O quadro é que nos dias 16 e 17 de novembro de 1889 ainda haviam muitas incertezas. José Murilo de Carvalho referindo-se aos momentos que sucederam a proclamação da mais nova República no Rio de Janeiro, afirmou: “Pela expectativa despertada, pelas lutas a que deram início e mesmo por razões diretamente vinculadas à política, os primeiros anos da República foram de repetidas agitações e de quase permanente excitação para os fluminenses.” (CARVALHO, 1987, p.22).
Não longe dessa realidade, no Rio Grande do Norte pairava uma certa dúvida sobre quem tomaria posse do governo do Novo Regime no Estado. De acordo com Câmara Cascudo, o padre João Manuel havia procurado o Aristides Lobo, ministro da pasta do Interior, requerendo os direitos de dirigir a política republicana local. Ato que foi impedido pelo prestígio de José Leão Ferreira Souto, que intercedera pelo PRRN.
Souto era companheiro de chapa de Pedro Velho e para ele conseguiu um telegrama do ministro, ordenando que fosse o chefe do PRRN a assumir o governo em Natal (CASCUDO, 2010, p. 466). No entanto, Pedro Velho não foi o único a receber um telegrama a este respeito. Filipe Bezerra Cavalcanti, também havia sido notificado, por Benjamim Constant, ou por Floriano Peixoto, Cascudo não informa precisamente.
O fato é que, Cavalcanti autorizado a tomar o poder, ofereceu o posto à José Paulo Antunes, que desconfiado recusou (CASCUDO, 2010, p. 466). É bem verdade que a desconfiança sobre a consistência do movimento republicano e sua instauração ainda pairava no ar. Existia um receio de resistência e represálias do Antigo Regime, que não ocorreram.
Movidos por cautela alguns políticos aguardaram.
Assim, mesmo após ter recebido o telegrama de Aristides Lobo, Pedro Velho, não assumiu de imediato o governo. Não sem antes consultar alguns líderes políticos. No entanto, para a surpresa de seus correligionários, buscou conselho com “conservadores decaídos e liberais”. O que já demonstrava os traços e sua forma de articulação política.
Não consultando “os poucos republicanos que haviam na capital” (CASCUDO, 1965, p.209), Pedro Velho buscava apoio para instituir as bases de seu governo. O “organizador do governo do Rio Grande do Norte” (SOUZA, E., 2008, p. 334), como bem veio a destacar Lindoso “Compôs o seu secretariado com elementos que representavam facções dos Partidos Liberal e Conservador e alguns republicanos mais ligados pessoalmente, como seu primo, João Avelino Pereira de Vasconcelos, e fez alianças com os grandes “coronéis” do Seridó e do Oeste do Estado, firmando, assim, bases eleitorais seguras” (LINDOSO, 1992, p.09).
A tática política de Pedro Velho era de agregar forças que pudessem ser úteis na construção de uma base aliada forte. Assim, finalmente, na tarde do dia 17 de novembro de 1889, Pedro Velho compareceu ao palácio, onde foi “aclamado Presidente e não Governador pelo Capitão dos Portos” (CASCUDO, 2008, p.30), Filipe Cavalcanti. Apesar de passadas as confusões sobre o momento oficial de instauração do Novo Regime, a instabilidade política