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CAPÍTULO 3 ESTADOS SEVICIADOS PELAS SECAS: DISCURSO POLÍTICO,

3.1 UM PROBLEMA NACIONAL: PROJETO E JUSTIFICAÇÃO (1911)

Estudei a solução do problema da seca nos países onde ela existia ou havia existido, e em 1910 resolvi, a conselho de Afrânio Peixoto, ir ao Egito visitar suas grandes barragens e o sistema de irrigação perene que já havia quase substituído totalmente o plantio das lavouras nas bacias artificialmente inundadas. Faltava-me, porém, dinheiro para custear minha viagem. (SOUZA, E., 2008, p. 249)

O financiamento para a excursão veio por intermédio do coronel Miguel Faustino do Monte, um cearense nascido em Sobral que foi para Mossoró em busca de oportunidades. Por seu trabalho e por enlace matrimonial, cedo conseguiu posição de destaque como chefe de

poderosas organizações comerciais. Tornou-se comerciante de sal, algodão, cera de carnaúba, fibras e borrachas. O interesse comercial e o conhecimento político de Faustino, que de acordo com Eloy de Souza “conhecia a intimidade de minhas relações com Carlos Peixoto”, fizeram-no disponibilizar a quantia necessária a viagem de Eloy de Souza. Em 04 de agosto de 1910, Eloy recebia a concessão de sua licença na Câmara dos Deputados para viajar.

Em sua viagem ele visitou Paris, Jerusalém, Suíça e Egito, neste último buscou inteirar-se sobre a produção algodoeira, visitou as “poderosas usinas de beneficiamento do algodão” (SOUZA, E., 2008, p.254), a Sociedade Real de Agricultura e a barragem de Assuam, uma das maiores barragens do mundo. Além de realizar os passeios turísticos às Pirâmides, Esfinge e o Vale dos Reis (FIGURA 06).

FIGURA 06 – ELOY DE SOUZA NO EGITO

FONTE: ARQUIVO PESSOAL DE REJANE CARDOSO42

Afora as informações sobre o cultivo algodoeiro e os sistemas de irrigação do Egito, Eloy de Souza também visitou as salinas da região. Em Paris, buscou obras relativas aos temas de interesse político-econômico do Rio Grande do Norte, bem como aos demais “estados irmãos”. Em Lausanne, na Suíça, hospedou-se no “Palace Hotel”, onde encontrou

42 Eloy de Souza encontra-se ao lado de Francisco Mutie, o Embaixador do Ouro. Gaúcho, funcionários da Expansão Econômica.

Afrânio Peixoto, amigo, aliado político e também integrante do findo grupo, “Jardim de Infância”.

A Afrânio muito devo, no desempenho do meu mandato como deputado e senador. Se não fôra sua insistência clarividente eu não teria ido visitar no Egito suas grandes barragens e seu maravilhoso serviço de irrigação. Sem essa viagem de informação e estudo não me teria sido possível apresentar à Câmara do Deputados, em agôsto de 1911, um projeto sobre a matéria, posteriomente base da lei Epitácio Pessoa, [...] (RIBEIRO, 1950, p.104-105)

De volta ao Brasil, Eloy de Souza pôs-se a par da bibliografia produzidas sobre as secas, tanto nacional, quanto a legislação relativa as ações tomadas na Índia, pelo governo britânico. As informações levantadas, bem como o conhecimento prévio da região foram subsídios para a elaboração do projeto apresentado à Câmara dos Deputados em 11 de agosto de 1911 (SOUZA, E., 2008, p.266).

No discurso de apresentação e justificação do projeto, Eloy de Souza utilizou-se pela primeira vez da nomenclatura “nordeste” para definir a área de realização das obras necessárias ao combate as secas. Não foi a primeira vez que o “nordeste” apareceu em falas tanto políticas quanto intelectuais como já pudemos observar, mas a presença tanto do termo quanto da concepção dada a ele, - como uma região à parte do Norte do país -, torna forte a perspectiva do delineamento que se estabelecia. Publicado em 30 de agosto, o texto intitulado “Um problema nacional (projecto e justificação)”, trazia a defesa de obras contra as secas e a visão destas não como um problema regional, mas, sim, nacional. Além da busca pelo incentivo e valorização econômica do algodão, considerada como o “ouro branco”.

Eloy de Souza logo no início de sua fala ressalta a importância do projeto para a agricultura do país e enfatiza a utilização do conhecimento técnico-cientifico sobre o tema como fonte e embasamento para suas propostas. Ele dispõe-se das ideias relativas a “política da hydraulica agrícola”, na qual de acordo com os economistas estudados por ele, deve-se “[...] governar pela irrigação as culturas peculiares a cada região, pedindo e obtendo a terra o maximo que ella póde produzir valorizando em estabilidade, preço e tempo essa produção” (SOUZA, E,. 1911, apud, ROSADO, 1981, p.25). Mantendo a linha de raciocínio já apontada no discurso de 1906, em relação as perdas econômicas nacionais causadas pelas secas e pelas verbas não utilizadas a contento, Eloy de Souza aponta a possibilidade de ganhos econômicos para o país. Esses seriam resultantes de decisões mais acertadas sobre a questão. Afirma ele,

E’precizo, porém, reflectir que estamos diante de um problema para solução do qual gastar muito, e o mais depressa possivel, é obter mais cedo as vantagens das quantias só assim utilmente empregadas. Accresce que até aqui, para discutir no dominio dos factos, a região do nordeste brasileiro, onde as seccas periodicas determinaram a construcção de obras defensivas contra seus efeitos, têm consumido alguns milhares de contos sem proveito equivalente. Antes da presidencia de Rodrigues Alves era attribuida a improductividade dessas despesas á falta de systematização do serviço.[grifo nosso] (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.25)

A sistematização a que se refere, são as ações empreendidas desde o governo de Rodrigues Alves, no qual foram criadas várias comissões federais temporárias para tratar do problema. A este exemplo temos a Comissão de Estudos e Obras contra os Efeitos das Secas e a Comissão de Perfuração de Poços, em 1904. Além das medidas realizadas pela IOCS, que sob a direção do engenheiro de minas Arrojado Lisboa, reuniu uma equipe formada por engenheiros, agrônomos, botânicos, geólogos e hidrólogos e vários técnicos estrangeiros. Com o objetivo de estudar o meio físico daquele espaço, analisando as características do solo, da água e da flora nativa e a possibilidade de adaptação de outras espécies na região.

Dentre as ações da IOCS, tivemos a construção de barragens no Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba. Não obstante esses são os três estados mais citados nos relatórios, tanto das Comissões, quanto da Inspetoria. Estados, onde se apresentam o maior número de informações e estudos, bem como de contribuições financeiras para os serviços (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.26).

Contudo, as medidas tomadas até então não se apresentavam eficazes. A causa da ineficácia, segundo Eloy de Souza, estaria na “questão financeira”, ou seja, às limitadas verbas. Assim, o projeto de lei de 1911, tem como intenção sanar esse problema. A lei tinha por objetivo “apressar a construção dessas obras e de outras obras tendentes todas ao desenvolvimento agrícola do paiz, com recursos maiores e independentes das dotações orçamentarias annuaes.” (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.26). Mais uma vez o problema era elevado ao nível nacional. Nessa perspectiva, o discurso de Eloy de Souza, limita-se a apresentar os dados financeiros, os quais julgava mais interessar ao país e aos ouvintes, em detrimento dos benefícios sociais. Ele elucida acerca as contribuições financeiras que estariam divididas: entre os Estados, que colaborariam com 5% de suas receitas, e a União, que despenderia 2% de sua receita anual, para o financiamento das obras necessárias.

devolutas, accresciddos das taxas de irrigação e aforamento, produto da venda das terras irrigadas e das cedidas pelos Estados, além das taxas de conservação das obras, [...]” (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.26). Contudo, estes financiamentos, de acordo com o plano de Eloy de Souza, teriam o reembolso integral, estabelecidos conforme os artigos do projeto de lei.

Art. 6.º - A União terá a administração e exploração das obras, até pagar-se da importancia que houver dispendido, entregando-a a cada Estado, logo que a exploração de todas ou parte delas, houver coberto as despesas efetuadas.

Art. 7.º - O governo cobrará taxas anuais de arrendamento das terras irrigadas, taxas de fornecimento de agua para irrigação e taxas de conservação das obras.

Art. 8.º As taxas de irrigação serão calculadas sobre o custo total de cada obra, e dividida por anuidades fixas por hectar.

Parágrafo unico – Uma vez e por esta forma pago do custo total da obra, o governo deixará de perceber a taxa de irrigação respectiva. (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.34).

O projeto de Eloy de Souza também visa criar uma “caixa especial destinada a receber estas contribuições e pagar todas as depezas que tenham de ser effectuadas incluindo as de pessoal da Inspetoria e suas secções” (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.26). Caixa que foi nomeada de “Fundo de Irrigação”. As medidas propostas foram, segundo ele, inspiradas principalmente nas legislações da Argentina e dos Estados Unidos. Na perspectiva apresentada, os valores despendidos pela União tomavam aspectos de investimentos e não de gastos ordinários. A ideia consistia em angariar fundos para as obras de combate as secas, que seriam realizadas nos “estados seviciados” por ela, mas principalmente para o desenvolvimento agrícola da região.

A visão desse crescimento econômico, através da atividade agrícola, que já havia aparecido nas primeiras linhas do discurso, são em seu desenvolvimento fundamentados a partir dos dados apresentados por Eloy de Souza. Ele aborda o aumento da produção e da lucratividade advinda do cultivo do milho, feijão, arroz, cana, fumo e forragens, na medida que desconstrói a ideia de improdutividade do solo da região. Baseando suas afirmações nos estudos realizados pelo “Dr, Phillippe Guerra, a quem tão bons serviços devem os sertanejos desse ainda ignorado nordeste brasileiro, [...].” [grifo nosso] (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.28).

Felipe Nery de Brito Guerra foi mais uma das fontes utilizadas por Eloy de Souza. Memorialista e historiador das secas no Rio Grande do Norte, Guerra foi ainda fundador e

presidente, em 1915, da “Sociedade de Defesa do Nordeste” e Presidente da Comissão de Socorro aos flagelados da Seca, no mesmo ano. Juntamente com o seu irmão Teófilo Olegário de Brito Guerra redigiu a obra “Secas Contra a Seca”, em 1909, além de outros estudos sobre o tema43. No trecho resgatado por Eloy de Souza, em seu discurso, Guerra faz referência a

produtividade dos terrenos quando bem cultivados. Assim, em sua visão,

nos haveria de espantar a desproporção dessa relação, entre nós, se ella é constante por toda parte onde a mesma necessidade de melhorar as terras seccas tem levado os Governos a construirem as obras de irrigação que reclamo para o nosso Paiz. [grifo nosso] (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p. 28)

As obras propostas seriam não para uma região, mas para o país. Eloy de Souza segue discorrendo sobre os benefícios trazidos pela irrigação em relação ao valor das terras, utilizando-se de exemplos na Argentina e Estados Unidos. Por fim o último ponto abordado no discurso é o incentivo e valorização do cultivo do algodão, considerado por ele como o “ouro branco”. Uma possível e viável solução econômica à crise da borracha, o “ouro negro”. E é neste momento de sua narrativa que Eloy de Souza separa o “nordeste”, do Norte do país. Afirma ele, “Ha hoje, Sr. Presidente, um problema do Norte; mas ha tambem o problema do “nordeste”, e de um modo geral, há, principalmente, o problema agricola do paiz.” (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.29). Em muitos discursos o Norte e Nordeste aparecem como sinônimos. Nomenclaturas utilizadas para denominar um mesmo espaço, mas, na fala de Eloy de Souza, em 1911, são apresentados como regiões diferenciadas.

Eloy de Souza, aponta então o cultivo do algodão como uma saída para a restauração do “equilibro econômico”. As experiencias e informações levantadas, por ele, na viagem ao Egito, serviram para fundamentar a ideia da capacidade produtiva e da qualidade do produto brasileiro. Mais precisamente do “algodão do sertão do Rio Grande do Norte, principalmente o do Seridó [...]” (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.30). Assegura ele que,

Há Sr. Presidente, no Seridó, uma especie conhecida por “algodão mocó”, que é a preferida, sendo já muito raros os agricultores que plantem outra. [...]

Não só a qualidade deste algodão é excellente, como seu rendimento, conforme pude verificar pelo inquérito que fiz, dá uma média de 300 capulhos por arvore, porque é

43 Felipe Nery de Brito Guerra foi autor de várias obras sobre o tema das secas, dentre elas temos: Seca contra a seca. Rio de Janeiro. Livraria Cruz Coutinho, 1909; Ainda o Nordeste. Natal, A República, 1927; A seca de 1915 – crônica documentada. Rio de Janeiro, Tipografia do Jornal do Comércio. 1947; O Porto de Mossoró – 1947; Nordeste semi-árido. Mossoró, coleção Mossoroense, 1980; Seca do Nordeste – resumo histórico desde 1558 a 1948. Natal, Centro de Imprensa, 1951.

uma arvore, e por safra. (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.30-31)

A ideia foi anos depois endossada por um projeto de lei apresentado por Juvenal Lamartine, então deputado pelo Rio Grande do Norte. A proposta divulgada no ano de 1916, na Câmara dos Deputados, tinha como objetivo a criação de um “Instituto Agronomico” no Horto da Penha, em aproveitamento dos trabalhos realizados pelos laboratórios existentes no Rio de Janeiro. O conceito consistia em estudar, fazer levantamento de dados, realizar experiências e dar consultas nas mais “diferentes zonas de produção do paiz” (LAMARTINE, 1980, p. 68). Contudo, o foco de sua proposição estava voltado ao cultivo do “ouro branco” nos estados da região “nordeste”.

A preocupação com produção algodoeira da região é apontada no corpo do projeto, estando explicitado

Art. 3.º As Estações Experimentaes terão instalações modestas e serão dotadas de todos os aparelhos necessários ao seu bom funcionamento.

Paragrapho unico. Uma destas Estações Experimentaes terá a sua sede na zona do Seridó, no Rio Grande do Norte, por ser ali o centro da cultura do algodão mocó, de fibra longa sendo outra no Ceará e uma outra na Parahyba do Norte. (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.30-31)

Enquanto o projeto de Eloy de Souza, em 1911, buscava subsídios para a construção de obras de irrigação nas regiões que necessitavam, ou seja, no “nordeste” do país, o projeto de Juvenal vinha, em complemento, buscar apoio técnico para as produções agrícolas nos estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba. O projeto de lei, apresentado em 26 de junho de 1916, veio completar as ideias já esboçadas por Juvenal em 13 de junho do mesmo ano, na Conferência Algodoeira, sob convite de Miguel Calmon. O discurso foi realizado frente aos presentes, incluindo o então Ministro da Viação no governo de Venceslau Brás, o representante norte-rio-grandense, Augusto Tavares de Lyra. Falando como um “Filho do nordeste brasileiro, dessa região constantemente flagellada pela maior das calamidades – a seca” [grifo nosso] (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p.81), Lamartine defende a importância desse gênero para a região e para a economia do país.

Assim, aos poucos os interesses econômicos iam sendo esboçados através do discurso político e a região sendo destacada. O discurso de Eloy de Souza em 1911, teve muitos aplausos, mas pouca atenção na esfera política. Todavia, no campo intelectual houveram respostas, tanto do ponto de vista analítico, quanto em apoio ao projeto. Estas opiniões foram

manifestadas pelos geólogos Roderic Crandall, geólogo e G. A. Waring. Ambas as considerações publicadas no Jornal do Commércio, no dia 22 de setembro de 1911, sob o título de “O Problema do Nordeste”.

Roderic Crandal afirma,

Sr. Redactor – Em vista da importancia nacional que tem a medida a ser considerada pelo Congresso Nacional este anno e o pouco que é conhecido pelo publico o assumpto, desejaria pedir a publicação das seguintes notas, como observações de quem está muito interessado no assumpto, comquanto de modo alguém seja affectado pelos seus resultados.

Nesta ultima decada o Brasil deu um enorme impulso no sentido do desenvolvimento do paiz em geral. Os que olham para o Brasil e procuram ver o que ha por baixo das dissenções, que são constantemente trazidas as vistas do publico, reconhecem que estas são apenas uma parte essencial e desagradável deste despertar nacional.

Uma das provas mais importantes deste progresso manifesta-se no programma de desenvolvimento dos Estados menos favorecidos pela natureza, que foi recentemente apresentado ao Congresso pelo Dr. Eloy de Souza, Deputado pelo Rio Grande do Norte. [grifo nosso] (JORNAL DO COMMERCIO, RIO DE JANEIRO, 21/09/1911)

Discorrendo sobre a relevância do tema e analisando alguns dos artigos presentes no projeto, Crandall reforça a ideia da importância nacional da questão. Ao mesmo tempo que assinala o “programma de desenvolvimento”, voltado para os “estados seviciados pelas secas”, visto, como necessário do movimento de crescimento brasileiro.

Vale ressaltar que para além do interesse e conhecimento intelectual sobre o tema, Roderic Crandall, trabalhava para o Serviço Geológico e Mineralógico Brasileiro (SGMB), comandado pelo geólogo norte-americano Orville A. Derby. Órgão que teve uma comissão criada, sob o financiamento do IOCS, em 1909, composta por geólogos, topógrafos e auxiliares do SGMB. Tal comissão teve como coordenadores Horace Williams e o próprio Crandall. Portanto, podemos cogitar que ao contrário de sua afirmação, sobre o fato de não ser afetado pela aprovação do projeto, Crandall também possuía interesses acerca da efetivação dessas verbas. Visto a relação existente entre o órgão que trabalhava e o Inspetoria, que como afirmado no projeto de lei,

Art. 21.º Os estudos, projétos, construção exploração das obras ficarão a cargo da atual Inspetoria de Obras Contra as Sêcas, que passará a denominar-se “Inspetoria

de Irrigação”, continuando subordinada ao Ministério da Viação e Obras Publicas. Paragrafo único – O governo poderá aumentar o numero de secções regionais da Inspetoria, conforme a necessidade e desenvolvimento do serviço.” (SOUZA, E., 1911, apud ROSADO, 1981, p. 35)

Assim, pode-se conjecturar que a possibilidade de mais verbas para a Inspetoria, acarretaria em maiores condições para os estudos e perpetuação das comissões existentes. G. A. Waring, por sua vez, em carta dirigida a Arrojado Lisboa, afirma

Caro senhor. – Com grande interesse acabo de lêr o projecto de lei apresentado ao Congresso pelo Sr. Eloy de Souza, para a construcção de obras de irrigação no nordeste do Brasil.

Os lucros que elle apresenta como devendo ser obtidos pela irrigação são provavelmente dignos de confiança, mas o assumpto tende a crear a opinião de que uma grande renda immediata advirá dahi ao Governo Federal. Não acredito que isto aconteça, pois a população actual da região é muito exigua ara o cultivo de áreas extensas. Depois, porém, que esteja conhecido em outros paizes quanto é saudavel o clima do nordeste do Brasil, a região terá um rapido desenvolvimento agricola; é assim que as grandes obras comquanto só produzam uma renda pequenas durante alguns annos, mais tarde se tornarão grademente e permanentemente valiosas. [grifo nosso] (JORNAL DO COMMERCIO, RIO DE JANEIRO, 21/09/1911)

O hidrólogo estadunidense, também fez parte do IOCS, tendo sido designado chefe- hidrólogo, em 1910. Ele ainda visitou a região do “nordeste” brasileiro e das observações realizadas produziu algumas obras sobre o tema44. Apesar de sua concordância em relação as

irrigações como solução para a questão, Waring chama a atenção para a relação existente entre as expectativa econômicas decorrentes do projeto de Eloy de Souza e a demografia da região. E finda por apontar a imigração como uma possibilidade maior de crescimento, desenvolvimento econômico e de retorno finaceiro a União. As ideias presentes tanto discurso, quanto no projeto de lei, em 1911, e nos comentários posteriotes relativos a esse, trazem um perspectiva de comunhão entre ciência e política. Além de estabelecerem visões destes campos sobre a seca e o espaço acometido por elas.

Nessas visões o “nordeste” não é mais representado como uma região inculta e mendicante, lugar de vazão de receitas publicas, mas como um espaço de promissão. Um

44 Obras publicadas por Waring: WARING, G.A. Irrigation in Northeastern Brazil. San Francisco: From Western Engineering, 1912. WARING, Gerald. Suppimento dágua no nordeste do Brasil. Rio de Janeiro: IOCS, 1912.

terriório que recebendo a atenção e tratamento necessário tornarse-ia um forte centro de produção agrícola, uma grande fonte de lucros para o país. Apesar da tentativa de estabelcer o programa de desenvolvimento econômico dos “estados seviciados pelas secas” como uma questão de relevancia nacional, o projeto proposto não foi encarado como uma necessidade imediata. “Aplaudido depois que deixei a tribuna, focalizado o assunto na imprensa, nas colunas editoriais e apreciado pelos técnicos estrangeiros de renome com autoridade para opinar foi, todavia, esquecido pelo Poder Legislativo durante oito anos, de 1911 a 1919”(SOUZA, E., 2008. p. 266).

Podemos minimamente tentar estabelecer as razões deste “esquecimento” do projeto de Eloy de Souza. Delegando-o a duas possíveis questões: uma refere-se ao quadro da hegemonia econômica brasileira estar no Sul, pois como bem sabemos as atenções estavam voltadas para a cultura do café, sobretudo a produção agrícola paulista e a outra refere-se ao quadro político estabelecido no governo de Hermes da Fonseca (1910 – 1914), ocasionado,