3 AS EXPERIÊNCIAS TRANSPESSOAIS E O PERCURSO DOS EDUCADORES
3.2 A percepção dos educadores brasileiros e franceses à luz do paradigma transpessoal
3.2.2 A sistemática da análise e discussão dos dados
Nesta seção temos o intento de apresentar o mosaico metodológico que construímos para desenvolver a sistemática de análises, interpretações e compreensões das entrevistas realizadas. Com isso, estamos abordando o primeiro ciclo hermenêutico da metodologia que estabelecemos para a estruturação dessa tese. Isso implica em diferenciarmos cada uma dessas palavras-atividades que exprimem um tipo de avaliação e descrevermos como utilizaremos cada elemento desse ciclo hermenêutico para assegurar a investigação do percurso-formativo dos professores de IESs do Brasil e da França.
Chamamos como primeiro ciclo hermenêutico da formação humana multidimensional o processo que envolveu três etapas de compreensão das entrevistas realizadas. A primeira etapa desse ciclo corresponde às expressões do entrevistado, cujo intuito foi dar visibilidade ao leitor do processo da entrevista, a partir de fragmentos dos depoimentos dos entrevistados, e, com isso, instigar o leitor a uma análise prévia das entrevistas.
A segunda etapa, denominada as experiências do entrevistado, ocorreu a partir da análise lexicométrica das falas dos entrevistados. Nesse caso, exploramos a dimensão intragrupal, realizando uma comparação das respostas isoladas de cada participante dentro do grupo, Brasil ou França.
A terceira e última etapa, chamada de as reflexões do entrevistado, refere-se às interpretações das entrevistas. Buscamos subsídios nos fundamentos e procedimentos fenomenológicos (FERREIRA, 2007; BICUDO, 2011; RIBEIRO, 2014) para encontrar unidades de significados dos discursos dos participantes. Assim, exploramos a dimensão intergrupal, realizando uma comparação das respostas de todos participantes frente a cada categoria estudada.
3.2.2.1 Depoimento dos entrevistados
Inspirados na metodologia intuitiva de Anderson (2011), desenvolvemos essa seção com o propósito de que o leitor possa fazer suas análises preliminares acerca do percurso-formativo dos professores entrevistados, identificando as possíveis contribuições da transpessoal para o processo de formação humana, antes mesmo das nossas avaliações e discussões. Destacamos trechos dos depoimentos dos participantes a partir dos temas norteadores da conversa, ou seja, o percurso do entrevistado; a contribuição da transpessoal para a docência; a visão de homem, de mundo e as expectativas futuras; as mudanças dos alunos; a inserção da psicologia transpessoal nas universidades; a espiritualidade no contexto atual da sociedade; a análise dos vídeos com profissionais e alunos de pós-graduação da psicologia (específico para os entrevistados brasileiros); a diferença entre psicologia transpessoal e transpessoalidade (específico para os entrevistados franceses) e a síntese da experiência da entrevista.
A fim de sistematizar o recorte dessas entrevistas, selecionamos a primeira e a última ideia proferidas por cada participante, referente a cada temática abordada na conversa. Desse modo, o leitor será estimulado a compreender as entrevistas e os estudos lexicométricos e fenomenológicos que realizamos. Começamos com o grupo brasileiro e, posteriormente,
apresentamos os depoimentos dos participantes franceses, quando incluímos os extratos dos textos originais para assegurar a fidedignidade da entrevista.
3.2.2.1.1 Grupo brasileiro
O grupo brasileiro é composto por cinco professores de IES, de ambos os sexos e de diferentes formações, faixa etária e regiões do Brasil. Cada entrevistado foi apresentado ao tema central e aos objetivos do estudo, concordando em participar da entrevista e autorizando o registro da mesma em áudio, conforme descrito no termo de consentimento livre. O depoimento desses professores teve um guia norteador, envolvendo oito temáticas, que foram abordadas livremente durante a conversa.
Entrevistado 1
O primeiro professor entrevistado, E1_BR, “codificado” como ind_1 *sex_2 *nac_1 *for_2 *ida_1 *civ_2, é um indivíduo do sexo masculino, nacionalidade brasileira, graduação em psicologia, doutorado em ciências sociais, faixa etária entre 30 a 40 anos, casado com filhos. Essa entrevista teve uma duração de 46 minutos e 29 segundos com maior parte do tempo (45,5%) dedicado à descrição da trajetória do participante e ao interesse pela psicologia transpessoal.
Para falar do seu percurso, o entrevistado utilizou 21 minutos e 11 segundos. Ele inicia dizendo que: “Em 1995 eu entro na universidade federal para fazer o curso de psicologia, mas eu já tinha tido contato com temas relacionados à psicologia transpessoal ainda no ensino médio”. Discorre sobre a influência dos livros, das tradições religiosas, de professores e psicólogos transpessoais. Aborda sua inserção acadêmica, o intercâmbio com a sociologia clínica francesa e os trabalhos (formações) realizado(a)s no âmbito da transpessoal que contribuíram para seu processo formativo. Finaliza essa primeira temática, afirmando que:
Eu tinha gostado do trabalho do Dr. Roger Woogle, a perspectiva mais fenomenológica, a questão de não ficar fazendo enquadramentos muito forçados, e do trabalho da professora Aida e da professora Teda, que eu tentava pegar era a questão do corpo, que era uma contribuição muito importante delas, era trazer a transpessoal para algo concreto na vida do sujeito que era o corpo. Tanto o rico quanto o pobre têm corpo. E aí eu pensei que esse podia ser um caminho.
Quando indagamos sobre a contribuição da transpessoal para a docência, o entrevistado disse que “Foi fundamental porque a psicologia transpessoal é uma experiência, um experienciar”. De maneira objetiva e direta, ele justifica tal argumento e finaliza com a seguinte assertiva: “Então isso me faz buscar também componentes curriculares que não só prezam pela instrução teórico-racional, mas que também possam agregar experiências, vivências, atividades práticas com espaços xyz que proporcionem ao aluno também se experienciar”.
No que concerne às mudanças dos seus alunos, o professor entrevistado aponta que “Eu acredito que a grande questão é: como a gente consegue pensar uma psicologia transpessoal que seja a partir de uma ampliação da clínica tradicional”. Isso lhe conduz a expor sobre a importância da experiência com espaços comunitários, do processo de formação humana e da abrangência de atuação do profissional da psicologia transpessoal. Conclui essa visão, destacando: “eu acho que a transpessoal ajuda a gente enxergar o mundo de uma forma mais humana e a gente é muito mais preocupado de passar informações ou formar tecnicamente, de formar humanamente as pessoas”.
Nesse momento da conversa, uma ex-aluna do mestrado do professor entrevistado reconhece-o, e pede-lhe para dar um “cheiro”. Ele responde, dizendo, “Venha dar um cheiro no seu professor de mestrado. Venha! É um cheiro, não é beijo não. É um cheiro, que no final a gente beija”. Parece que, de alguma forma, nessa cena, há uma ilustração das palavras do entrevistado tanto em relação à contribuição da transpessoal para a sua forma de ser docente quanto para as mudanças nos seus alunos.
No que diz respeito à sua visão de homem, de mundo e as expectativas futuras, o entrevistado afirma que “Minha visão de mundo é a visão dessa psicologia transpessoal, uma visão de homem multidimensional, ou seja, um homem que vive uma dialogia”. Aponta a complexidade do ser, destaca que as dimensões transcendente e imanente não são excludentes e finaliza dizendo que “O ser espiritual é buscar dentro das tradições, dentro da experiência espiritual um contato maior consigo e um contato maior com o outro para pensar um mundo de forma mais cooperativa, de forma menos predatória e mais articulada possível”.
Quanto à inserção da psicologia transpessoal nas universidades, o referido professor acrescenta que “Eu enxergo que o cenário é ainda muito tímido”. Reconhece o aumento dos estudos e das publicações em torno da espiritualidade, mas admite que a participação da psicologia transpessoal com seu corpo teórico, epistemológico, é ainda muito tímida. No seu entendimento, “Quando se fala da espiritualidade como enfrentamento das doenças e vai aparecer lá na psiquiatria, mas a gente não tem isso na psicologia transpessoal dentro do conselho de psicologia”.
A espiritualidade no contexto atual da sociedade tem a seguinte perspectiva para o entrevistado:
Eu vejo como paradoxo [...] Ao mesmo tempo a espiritualidade aparece como objeto de estudo, de investigação cada vez mais interessante, dentro e fora da psicologia, por outro lado, fica um questionamento porque se a psicologia transpessoal já traz isso como objeto, como marca de nascença, a preocupação que ainda nos espaços acadêmicos têm disso não se espalhar.
Para justificar esses argumentos, remete-se ao discurso hermético-endógeno dos fundadores da transpessoal, o momento atual de transdisciplinaridade, e finaliza expressando que “Talvez seja um momento para se refletir sobre essa questão”.
A análise dos vídeos com depoimentos dos alunos de pós-graduação e dos profissionais de psicologia suscitou a seguinte verbalização, antes mesmo da apresentação de todos os vídeos. Pronto! É isso que ela pensa. Encerra, porque é isso que ela pensa. Ela não vai dizer mais nada do que isso. Apresenta suas considerações frente a cada um dos depoimentos registrados, destacando os motivos que levaram a tais posturas observadas e termina dizendo que “Isso mostra o quanto que a psicologia transpessoal é ainda muito pouco conhecida dentro da graduação brasileira”.
Estimulado a realizar uma síntese da experiência da entrevista, o professor participante fala que “Eu acho que esse é um momento de avaliação e reação porque a psicologia transpessoal está no momento aonde a gente precisa pensar para onde nós queremos ir”. Retoma alguns pontos abordados a partir dos depoimentos vistos nos vídeos e da inserção da psicologia no meio acadêmico, encerrando a entrevista com a frase: “Então eu acho que esse é um momento interessante para a gente pensar isso”.
Entrevistado 2
O segundo professor entrevistado, E3_BR, “codificado” como ind_2 *sex_1 *nac_1 *for_3 *ida_4 *civ_2, é um indivíduo do sexo feminino, nacionalidade brasileira, graduação em filosofia, doutorado em filosofia, faixa etária entre 60 a 70 anos, casada com filhos. Essa entrevista teve uma duração de 35 minutos e 58 segundos com maior parte do tempo (35,5%) dedicado à análise dos depoimentos dos mestrandos e dos profissionais de psicologia.
Para falar do seu percurso, a entrevistada utilizou 6 minutos e 55 segundos (19,2%). Ele inicia dizendo que: “[...] a minha formação de base é filosofia. Eu me formei em filosofia,
graduação em filosofia, mestrado em filosofia e doutorado em filosofia. Minha paixão. Acontece que a filosofia faz a gente ficar um cabeção, né? Mental demais e daí eu saltei para a psicanálise”. A partir daí, discorre sobre seu caminhar na psicanálise, destacando as instituições que criou, os 18 anos de psicologia transpessoal, desde a formação na ALUBRAT, as dificuldades dessa mudança, até a criação da CLASI. Termina essa primeira parte da entrevista expondo que: “[...] o CLASI é o Centro Latino Americano de Saúde Integral, que é essa instituição que eu criei em 2007 e que está até hoje. Que a gente está desenvolvendo e dando frutos já. Foi uma sementinha que eu plantei de novo, plantei várias sementinhas, essa é a que está mais frondosa”.
No que concerne à influência da transpessoal sobre a sua vida de docente, a entrevistada aponta que “Ela só não influenciou, mas continua influenciando porque no começo os meus vícios da filosofia que é aquela coisa de controlar o pensamento e ser muito lógico e certinho. Isso me atrapalhou porque eu queria que as aulas também fossem e seguissem este estilo”. Apresenta, em seguida, as características de sua personalidade, o depoimento de um aluno e as técnicas que acrescentou ao curso para facilitar a compreensão e a atuação dos alunos. Destaca: “Eu introduzi algumas técnicas e isso está sendo muito bom. Porque eles estão tendo a parte teórica, a fundamentação teórica, e alguma ferramenta para eles saírem de lá e já começarem até a trabalhar. Vários já saem de lá com consultório montado para começar a trabalhar”.
A mudança nos seus estudantes, nos seus orientandos, foi ilustrada inicialmente por meio de um depoimento. Ela começa explicando: “Eu tive um testemunho ontem de um aluno que é engenheiro e está aqui ainda. Ele comentou comigo: ‘o meu chefe [...] me perguntou, o que está acontecendo com você’?”. Com esse exemplo, a entrevistada aborda o comportamento dos demais alunos e finaliza essa temática dizendo que: “[...] como não fazemos uso de religião, nada, nenhum dogma, nada religioso; apenas as vivências de desenvolvimento, despertar da espiritualidade. Isso é o suficiente para despertar na pessoa o que ela tem de melhor”.
A inserção da psicologia transpessoal nas universidades é percebida pela entrevistada da seguinte forma: “É, agora você pegou porque a gente não sente abertura muito grande não. A gente sente abertura de pessoas, mas das instituições ainda não”. Reforça esse argumento com alguns exemplos e conclui com a seguinte reflexão: “Aqui, o CRP ainda não reconhece o curso de psicologia transpessoal. Então, eu acho que a gente ainda está na estaca zero neste ponto. Em termos institucionais, sabe?”.
A questão da espiritualidade no contexto histórico atual foi comentada, de início, pela professora participante, com a seguinte reflexão:
No processo educacional é mais fácil a abertura de pessoas, não da instituição em si. Pessoas que estão se abrindo mais pra isso. Mas, por exemplo, no caso do CRP, eu tenho várias alunas que sofreram processo por colocarem no cartãozinho, isso recente viu? Por colocarem no cartãozinho a psicologia transpessoal.
Desenvolve o raciocínio e encerra essa sessão falando: “A Vera tem conseguido muitos ganhos, sabe? Ela tem conseguido muitos ganhos. Mas institucionalmente, oficialmente, ainda não é, elas não podem colocar psicologia transpessoal, terapia regressiva, nem pensar, sabe?”
Para iniciar a explicação sobre sua visão de mundo, de homem e suas expectativas para o futuro, a referida professora utilizou dos seguintes argumentos: “Olha é, às vezes, eu fico tão desanimada, quando a gente vê o que está sendo feito aí. As guerras. Tem hora que eu fico meio pessimista, sabe?” Avalia essa situação atual, comparando com as teorias existentes e os aspectos ético-morais e conclui dizendo que: “Então, eu fico chateada comigo mesmo, como posso fazer uma coisa dessa? Como posso sentir isso? Então é o tempo todo. É aquilo que tem na Bíblia: Orai e vigiai. O tempo todo, enquanto a gente está aqui, né? É orai e vigiai”.
Quando convidada a analisar os depoimentos dos mestrandos e profissionais de psicologia, enquanto organizávamos a apresentação de tais vídeos, a entrevistada teceu o seguinte comentário:
Agora tem uma coisa, viu? Às vezes, eu penso: Meu Deus! Eu já podia estar nesse caminho há tantos anos e fui perder tempo com filosofia e psicanálise. Mas, não é, viu? Foi importante, importante, me deu uma base muito boa. Todos os dois. Foram muitos anos e me deram uma base muito boa. Até agora pra exigir mais da fundamentação teórica da transpessoal. Valeu.
Diferentemente dos outros entrevistados, essa participante fez seus comentários acerca de cada depoimento junto à exibição dos mesmos. Desse modo, temos a seguinte reflexão para o primeiro vídeo observado: “É aquilo que estávamos falando, ela (a psicologia transpessoal) não é mesmo regulamentada. Mas eu não sei se tem algum estado que já regulamentou. Você sabe?”. A análise do segundo depoimento observado começa com “Quer dizer, já tem uma noção, né? Do que se relaciona com o que”. Para o terceiro vídeo, a entrevistada inicia seus comentários com duas indagações e uma constatação positiva, “Quem é esse? O que será então? Muito interessante”. O quarto depoimento, de uma psicóloga-psicanalista, foi inicialmente
percebido pela entrevistada da seguinte forma “Eu acho que elas (psicanálise e psicologia transpessoal) se complementam. Ela não é, não é que é diferente, elas se complementam. Eu sinto assim”. Após o último depoimento, de um psicólogo transpessoal, a professora entrevistada comentou:
Então, aí tem de tudo. Você pegou um pessoal que não sabe nada, nunca ouviu falar e acha que tem que seguir o que a cartilha do CRP manda. Tem a pessoa que já sabe de alguma coisa, mas que não sabe exatamente o que é, mas já tem um chamadinho. Tem a postura da psicanalista, aquele senhor antes da psicanalista, eu não me lembro muito bem o que ele falou.
E conclui dizendo que “Eu já pensei assim, meu Deus, seria tão bom se a gente criasse uma psicanálise transpessoal, né? Mas quem sou eu para ousar uma coisa dessa” (risos).
Quando solicitamos à participante para sintetizar essa experiência da entrevista, ela explicou que “sintetizar, é um pouco difícil porque, bom, eu vou tentar. Eu acho que você me proporcionou quase que uma viagem, um passeio por toda essa história que eu vivi e que as vezes a gente nem guarda”. Teceu alguns comentários seguindo essa linha de raciocínio e encerrou a entrevista com a seguinte reflexão:
Parece que a gente abrange mais coisas, a gente cresce com isso. Isso melhora a gente. É algo muito positivo. Eu acho que é um caminho da evolução do ser humano mesmo, em direção a que, eu não sei. Nietzsche falava do supra-humano né? Quem sabe? Não sei (risos).
Entrevistado 3
O terceiro professor entrevistado, E2_BR, “codificado” como ind_3 *sex_1 *nac_1 *for_2 *ida_4 *civ_2, é um indivíduo do sexo feminino, nacionalidade brasileira, graduação em psicologia, doutorado em educação, faixa etária entre 60 a 70 anos, casada com filhos. Essa entrevista foi a mais longa que realizamos e teve uma duração de 88 minutos e 48 segundos com a maior parte do tempo (56,7%) dedicado à descrição da trajetória da participante.
Para discorrer sobre seu percurso, a professora entrevistada utilizou 50 minutos e 21 segundos, expondo todo o seu interesse pela psicologia transpessoal e a contribuição dessa abordagem para sua formação como docente-pesquisadora. Ela começa falando que: “Eu tinha
um interesse desde infância e adolescência numa visão mais integral do ser humano. E havia muitas leituras interessantes que eu sempre fiz nesta área”. Destaca também vários momentos e pessoas-referências de-para sua formação acadêmica e profissional, apontando inclusive a influência da abordagem transpessoal para sua docência. Finaliza essa seção com o seguinte pensamento:
Que se façam pesquisas em relação a transpessoal, a expansão de consciência, a esse processo de crescimento natural do ser humano, a esse despertar da consciência, a valores, porque é dentro da academia que se constrói o conhecimento. E a ciência não é nem contra e nem a favor. Ela é aberta. Nós podemos ter pessoas que talvez não tenham essa clareza.
No que se refere à contribuição da transpessoal para a docência, podemos encontrar em seu depoimento aspectos que justificam seu envolvimento com a educação há anos.
Eu acho que o meu primeiro elo com a educação já foi lá com Zerka Moreno, já foi com Moreno e já foi oficialmente dentro da FEBRAP, participando de um movimento, fazendo uma ação, levando essa bandeira de que era importante que pudesse ser ensinado psicodrama para professores, para pedagogos, para psicopedagogos.
Mas é com a observação-indagação do seu orientador de doutorado, destacada abaixo, que a educação e a psicologia transpessoal se unem por definitivo em sua trajetória.
Por que você não faz um trabalho em cima da didática transpessoal? Que eu diria que o que você faz, pelo que você me conta, é uma didática transpessoal. E aí, eu vou então para faculdade de educação, nessa linha de pesquisa, fazer um trabalho de como ensinar a psicologia transpessoal em coerência com os seus postulados teóricos.
As mudanças dos seus alunos são percebidas pela entrevistada da seguinte forma: “Bom, a primeira coisa que eu observo é assim, uma grande mudança do curso. Eles costumam dizer que é o antes e o depois. Eles até dizem, olhe tire uma foto”. Desenvolve essa ideia, apresentando a construção do conteúdo-experiencial do curso que elaborou e finaliza seus argumentos explicando que “essa metodologia te dá uma orientação transpessoal, mas ela não
é uma coisa engessada, não é só pra este ou pra aquele conteúdo, ela te dá essa compreensão metodológica que vai te facilitar no seu trabalho”.
Quando nos referimos à visão de homem, de mundo e as expectativas futuras, a participante se posicionou, afirmando que: “Eu tenho muita esperança. Eu acho que essa pulsão da transcendência é de todos nós. A gente só consegue viver face a tantos desafios porque nós nos sentimos realmente pertencentes a algo maior do que o si mesmo”. Todo seu discurso é pautado em valores, princípios éticos e na perspectiva da espiritualização do ser face aos desafios e às barbáries existentes no cotidiano. Recorre a pensadores como Morin, Régis Morais e Maslow para uma melhor compreensão dos seus argumentos e conclui essa seção dizendo que “Nenhum terapeuta transpessoal é guru, é orientador de ninguém porque a verdade e a dimensão essencial está dentro de cada indivíduo, e o psicoterapeuta é aquele que vai auxiliar o indivíduo a ser ele próprio, no seu melhor, e não dizer faça isso, faça aquilo, jamais”.
No que concerne à inserção da psicologia transpessoal nas universidades, a professora entrevistada diz que “É fundamentalmente a informação e o conhecimento que os professores da universidade têm. Por exemplo, como eu tive essa sorte de abrir uma linha de pesquisa na UNICAMP, todos os professores ali, eles tinham essa interlocução pra essa transpessoalidade”. Intensifica esse pensamento com exemplos de outras universidades como a PUC e UFMG, relatando o número de doutores e mestres em psicologia transpessoal no Brasil e a articulação com o Sistema Conselhos de Psicologia. Termina de abordar essa questão indicando que: