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A SOMBRA DO ORALISMO 42

No documento 2013AndreiaMendiolaMarcon (páginas 43-46)

Na França, em 1789, mesmo ano da morte de L’Epee, deu-se início a um questionamento quanto ao método mais eficaz para a educação de surdos, evidenciando o método oral em detrimento da Língua de Sinais. Esse fato teve origem em uma crença da sociedade, que determinava o oralismo como o meio de comunicação mais indicado para os surdos, tendo em vista que tal comunicação poderia colocá-los na mesma condição das pessoas falantes. De acordo com Gesueli (apud SOUZA, 1998, p. 23): “No método oralista a linguagem é concebida como um código de regras estáveis que tem na fala precedência histórica e na escrita sua via de manifestação mais importante”. Dessa forma, as Línguas de Sinais foram avaliadas como inferiores às línguas orais.

Os profissionais que trabalhavam, na época (1789), com os surdos, viam na Língua de Sinais uma alternativa de comunicação precária para os surdos, que não conseguiam desenvolver a língua oral. Em síntese, esses educadores entendiam que a língua de sinais não alcançava a estrutura cognitiva do indivíduo surdo, razão pela qual este seria incapaz de processar o aprendizado.

Widell (1992, p. 26) explicita que:

Assim como os macacos eram considerados em estágio evolutivo revolucionário inferior aos seres humanos em um estágio superior, as outras culturas eram consideradas ainda mais inferiores que a civilização ocidental. Firmada nessa ideia, a LS era considerada estar num estágio mais inferior e tinha que ser irrevogavelmente abandonada em benefício de um estágio superior, a língua oral.

De fato, a Língua de Sinais era considerada inferior às línguas orais, na medida em que a sociedade a percebia como incapaz de desenvolver o processo comunicativo e de, tampouco, proporcionar o processo de aquisição do conhecimento pelo surdo.

No ano de 1774, Jean Marc Gaspard Itard19, médico psiquiatra francês, passou a se interessar pelo estudo da surdez, vendo-a como uma doença ou deficiência e inferiorizando o

19

Médico e psiquiatra alienista francês nasceu na cidade provençal de Oraison. Transferiu-se para Paris, onde foi discípulo do famoso médico Phillipe Pinel e praticou medicina pelo resto da vida, exercendo várias posições seguradas nos diversos hospitais da cidade. Foi cirurgião-chefe no Val de Grâce (1786) e médico no Instituto para Surdos-Mudos (1789). Morreu 15 dias após completar 64 anos, em Paris. De ótimo talento literário, editou vários diários médicos e publicou trabalhos importantes, principalmente em otologia, contendo resultados de suas pesquisas científicas baseadas em mais de 170 casos. Suas principais publicações foram De l'education d'un

surdo, ao julgá-lo como um indivíduo incapaz. Como médico, interessou-se em descobrir as causas da surdez, tendo iniciado algumas experiências médicas voltadas à reabilitação das pessoas surdas, tais como furar os tímpanos, utilizar descargas elétricas ou fazer experimentos com sanguessugas dentro dos ouvidos dos surdos. Esses procedimentos, justificados pela busca da causa da surdez, marcaram a progressão da ciência, uma vez que, até então, somente o ponto de vista religioso era considerado no tocante ao assunto.

Conforme Moura (2000, p. 27):

[...] Para realizar seus estudos, ele dissecou cadáveres de surdos e tentou vários procedimentos: aplicar cargas elétricas nos ouvidos de surdos, usar sanguessugas para provocar sangramentos, furar as membranas timpânicas de alunos (sendo que um deles morreu por este motivo). Fez várias experiências e publicou vários artigos sobre uma técnica especial para colocar no ouvido de pessoas com problemas auditivos, tornando-se famoso e dando nome à sonda de Itard.

Essas experiências eram realizadas na tentativa de curar o surdo, não importando qual fosse o preço, pois para a sociedade a surdez estava fora dos padrões da perfeição. Depois de muitos anos de tentativas frustradas no sentido de que o surdo ouvisse e falasse, Itard percebeu que nada adiantaria; os surdos não voltariam a falar ou a ouvir, apenas precisavam da Língua de Sinais para adquirir o aprendizado. É o que relata Moura (2000, p. 27)no trecho transcrito abaixo:

O próprio Itard, após dezesseis anos de tentativas e experiências frustradas de oralização e remedição da surdez, sem conseguir atingir os objetivos desejados, rendeu-se ao fato de que o surdo só pode ser educado através da Língua de Sinais. Ele continuaria defendendo a tese de que alguns poucos poderiam se beneficiar do treinamento de fala, mas mesmo para estes ele passou a considerar que a única forma possível de comunicação e de ensino deveria ser a Língua de Sinais.

Itard percebeu que suas experiências, além de não terem alcançado resultados positivos, acabaram por ocasionar problemas irreversíveis, tais como a morte de algumas pessoas, devido a inflamações, por exemplo. Sendo assim, ao médico não restou alternativa homme sauvage ou des premiers developpemens physiques et moraux du jeune sauvage de l'Aveyron (1801), Rapports et memoires sur le sauvage de l'Aveyron (1807) e Traité des maladies d'oreille et de l'audition, em dois

senão reconhecer que os surdos precisariam ser ensinados a utilizar a língua de sinais para se comunicar, pois somente assim poderiam ter um convívio social significativo.

Figura 5 - Experiências realizadas com pessoas surdas, na tentativa de fazê-las ouvir Fonte: FISCHER; LANE, 1993, p. 42.

Apesar dessa constatação, a língua de sinais como meio de comunicação das pessoas surdas ainda estava assombrada pelo o oralismo. Em 1876, surgiu Alexandre Graham Bell20, outro defensor do oralismo. Esse gênio tecnológico posicionou-se na defesa do método oralista e contra a Língua de Sinais na educação de surdos. Pelo fato de sua mãe ser surda, Graham Bell se interessou pelos estudos do som e da fala. Mais tarde, tornou-se professor de surdos, utilizando o método oral nos seus ensinamentos. Ficou conhecido por ter inventado o

20

Alexander Graham Bell, filho de Eliza Grace Symonds e Alexander Melville Bell, nasceu em 3 de março de 1847, em Edimburgo (Escócia). Sua mãe era surda desde a adolescência, e seu pai era especialista em problemas auditivos e instrutor de deficientes auditivos. A família era tradicionalmente conhecida por treinar portadores de deficiência auditiva e trabalhar com a correção da fala. Alexander era o filho do meio dos três filhos do casal. Em 1873, Graham Bell passou a lecionar Fisiologia Vocal na universidade de Boston. Foi então que deu início a suas pesquisas sobre como utilizar a eletricidade na transmissão de sons, idéias que vinha desenvolvendo desde os 18 anos. No ano seguinte, enquanto trabalhava em um telégrafo múltiplo, desenvolveu as idéias básicas do que seria o telefone. No dia 14 de fevereiro de 1876, entregou o pedido de patente de seu invento, o telefone, ao escritório responsável pelas patentes. Nesse mesmo ano apresentou sua invenção em uma exposição na Filadélfia, de onde a mesma foi lançada ao mundo. Em 11 de julho de 1877, Graham Bell casou-se com Mabel, ex-aluna em sua escola para surdos (havia ficado surda aos 5 anos). Em 1879, após fechar a recém lançada American Bell Telephone Company, fundou um laboratório no Canadá, onde continuaram suas experiências. Alexandre Graham Bell (INFO ESCOLA, 2012).

telefone, o que gerou muitos interesses públicos, embora a intenção do invento fosse tão somente servir de apoio na oralização dos surdos.

A polêmica quanto ao método ideal para a educação de surdos, já mencionada, culminou com a realização de um congresso. Goldefeld (1997) aponta algumas perspectivas distintas entre o Método oral e o Método Sinalizado que podem ser visualizados no quadro a baixo algumas.

Método Oral Método Sinalizado

A criança surda deve ser exposta à língua falada e aos sons, sempre usar aparelho de amplificação sonora, se possível, e sofrer treinamento auditivo.

Propicia ao surdo a função de suporte do pensamento e de estimulador do desenvolvimento cognitivo e social.

O trabalho começa com o treinamento de atenção para a leitura orofacial e inclui elementos sonoros isolados, combinações de sons, pala¬vras e finalmente a fala

Respeita a autonomia e experiência psicossocial e linguística da criança com surdez.

Os oralistas acreditam que todas as crianças surdas têm alguma audição residual que pode ser aproveitada

Possibilita a comunicação dos surdos de maneira satisfatória.

O surdo não é visto dentro de suas possibilidades e de sua diferença, mas no que lhe falta e que deve ser corrigido de qualquer forma para que ele possa se integrar e ser "normal" .

Percebe o surdo como individuo com identidade própria e capaz de protagonizar sua própria história.

Quadro 1 - Método oral e o Método Sinalizado Fonte: Goldefeld, 1997.

Verifica-se na próxima seção, na continuidade, a repercussão desse cenário sobre o método de comunicação indicado para a educação de surdos.

No documento 2013AndreiaMendiolaMarcon (páginas 43-46)