CAPÍTULO 2 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SEUS INSTRUMENTOS
2.3 A sustentabilidade e suas dimensões
Sustentabilidade, nos dicionários, indica algo capaz de ser “suportável, duradouro e conservável”, apresentando uma imagem de continuidade, sendo difícil, conforme Jara (1998), definir desenvolvimento sustentável partindo da perspectiva dos países pobres, sendo, assim, uma definição de característica mutante conforme um ponto de vista específico.
Genericamente, o conceito de desenvolvimento sustentável tem:
“dimensões ambientais, econômicas, sociais, políticas e culturais, o que necessariamente traduz várias preocupações: com o presente e o futuro das pessoas; com a produção e o consumo de bens e serviços; com as necessidades básicas de subsistência; com os recursos naturais e o equilíbrio ecossistêmico; com as práticas decisórias e a distribuição do poder e com os valores pessoais e a cultura. O conceito é abrangente e integral e, necessariamente, distinto, quando aplicado às diversas formações sociais e realidades históricas” (JARA, 1998, p.35).
Sachs (1993) acrescenta a dimensão espacial, referindo-se à necessidade de um equilíbrio dos assentamentos e a distribuição rural-urbana. Já a dimensão política, ele a inclui
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”Each generation is entitled to the interest of the natural capital, but the principal should be handed on unimpaired” - Canadian Conservation Commission, 1915.
dentro da dimensão social. Buarque (1999; 2002) agrega a dimensão tecnológica a este rol. Outros, como Guimarães (apud MMA, 2002b), definem outras dimensões, como:
a) sustentabilidade ecológica, que tem como objetivos a conservação e o uso racional do estoque de recursos naturais incorporados às atividades produtivas;
b) sustentabilidade ambiental, que é relacionada à homeostase (capacidade de suporte dos ecossistemas associados de absorver ou se recuperar das agressões derivadas da ação humana);
c) sustentabilidade demográfica, que revela os limites da capacidade de suporte de determinado território e de sua base de recursos;
d) sustentabilidade cultural, relativa à necessidade de manter a diversidade de culturas, valores e práticas existentes;
e) sustentabilidade social, que objetiva promover a melhoria da qualidade de vida e a reduzir os níveis de exclusão social;
f) sustentabilidade política, que é relacionada à construção da cidadania plena dos indivíduos por meio do fortalecimento dos mecanismos democráticos de formulação e de implementação das políticas públicas;
g) sustentabilidade institucional, relacionada à necessidade de criar e fortalecer instituições.
Em Agenda 21 Local (2004), ocorreram manifestações no sentido de serem incorporadas as dimensões Institucional e a Política, já que estas poderiam, de certa forma, estarem relacionadas com o empoderamento local.
Vê-se, pois, que há vários enfoques para as dimensões de sustentabilidade, decorrentes de pontos de vista diferenciados sobre a mesma questão, o que é tônica recorrente nas discussões da sustentabilidade. Assim, neste enfoque de Guimarães, por exemplo, se nota que as duas primeiras, a ecológica e a ambiental, são diferenciadas, quando na maioria dos outros enfoques, a dimensão ambiental é uma só. Assim, em que pese essas múltiplas classificações, consideraremos genericamente as dimensões econômica, ambiental e social.
A Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional (CPDS), conforme MMA (2002b), procura firmar o conceito de sustentabilidade de forma a se tornar um paradigma:
“A sustentabilidade pode ainda ser enunciada como uma qualidade que se passa a identificar e a exigir dos distintos processos sociais, desde aqueles que se dão na esfera privada – reduzir o consumo individual e reciclar produtos no espaço doméstico, por exemplo – até os que se desenvolvem na esfera pública, no terreno da implantação e da gestão de políticas públicas. Essa capacidade de a tudo se referir, imprimindo a todos os processos uma qualidade que os torna diferentes do que eram antes, faz com que a sustentabilidade possa ser afirmada como um paradigma”.
Ainda, ressalte-se que a A21B (MMA, 2002b) estabelece uma diferença entre desenvolvimento sustentável e desenvolvimento sustentado, já que o primeiro, mais abrangente, internaliza a dimensão da sustentabilidade em todos os níveis; o segundo, é apenas um pré-requisito ao crescimento, normalmente se referindo à macro-economia. Todavia, na literatura há referências da utilização de ambos os termos, se referindo ora às questões econômicas, ora no sentido expresso pela Comissão Brundtland.
Em 1987, a Comissão Brundtland publica um relatório com o nome “Nosso Futuro Comum” (Our Common Future), também denominado de “Relatório Brundtland”, conforme citado antes, onde foram expostas as falhas no modelo de desenvolvimento então adotado, como problemas no aumento da degradação do solo, expansão de áreas desérticas, poluição atmosférica crescente, entre outros. Em contraposição, mostrou índices favoráveis na expectativa de vida crescente, alfabetização, mortalidade infantil decrescente, produção de alimentos e inovações técnicas e científicas.
De acordo com Brüseke (1998), o relatório “Nosso Futuro Comum” parte de uma visão complexa das causas dos problemas socioeconômicos e ambientais da sociedade global, interligando economia, política, ecologia, sociedade e tecnologia, dentro de uma visão de ecologia profunda, introduzidos que foram por Arne Naess, na qual os fenômenos estão intrinsecamente interconectados e interdependentes. Devido a esta interligação, há de se ter uma ética solidária espacial, onde regiões mais ricas auxiliam as mais desfavorecidas, sendo todos responsáveis pelo patrimônio natural. Ressalta, ainda, a necessidade de uma postura ética solidária de responsabilidade entre gerações e na geração contemporânea, consubstanciada na definição de Desenvolvimento Sustentável como sendo “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras de atenderem as suas próprias necessidades”.
Este Relatório aponta corretamente, embora de forma diplomática para evitar confronto, que o subdesenvolvimento no hemisfério sul é resultado do crescimento contínuo dos índices consumistas dos países industrializados.
Apesar da postura crítica, o Relatório Brundtland não tinha a intenção de ser pessimista e catastrófico, apontando, até, a possibilidade de crescimento econômico apoiado em práticas conservacionistas, com a solução dos problemas ambientais podendo ser obtida por meio de medidas tecnológicas, financeiras e institucionais. Conforme Boff (1996) e Leis
(1999, p.149), o Relatório lançou o ideal de desenvolvimento sustentável, como definido anteriormente, e complementando de que é “um processo de mudança no qual a exploração de recursos, a orientação de investimentos, os rumos do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional estão de acordo com as necessidades atuais e futuras”.
A ênfase do Relatório foi a de que pobreza e poluição andam juntas, corroborando os dizeres de Indira Gandhi, na Conferência de 1972, de que “a pior das poluições é a miséria” (ANDRADE et al., 2000; SACHS, 2000a). Também neste sentido, Leonardo Boff (1996) considera o pobre como “o ser mais ameaçado da natureza”, corroborado, ainda, por Gomes (2003).
Não é um problema novo, pois sobre a pobreza nas cidades já se manifestava Platão, cerca de 400 a.C. (SHEEHAN, 2003), sendo que em 2,5 milênios o problema apenas se acentuou. Para Jara (1998), a drástica deterioração devido ao desmatamento das florestas e o uso exagerado das terras marginalizadas são evidências de comportamentos condicionados pela miséria, onde a tensão existente entre sobreviver e preservar o meio ambiente, leva à opção pela poluição.
Conforme MMA (2002b), para contemplar aspectos como os abordados por Leonardo Boff (opus cit.), os Altos Comissariados da ONU para o desenvolvimento sustentável, desenvolvimento social e de direitos humanos, ajustaram a definição de sustentabilidade para sustentabilidade ampliada, que associa a Agenda desenvolvimentista de observância ambiental com a Agenda social, estabelecendo a indissociabilidade entre os fatores sociais e os ambientais e a necessidade de que a degradação do meio ambiente seja enfrentada juntamente com o problema mundial da pobreza. Porém, a questão continua: como fazê-lo?