• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 A SOLUÇÃO LOCAL

3.3 Os instrumentos de aplicação local

3.3.1 Estatuto da Cidade

A preocupação da interação do planejamento urbano com a questão ambiental não é nova: vige desde 1979 a Lei Federal nº 676637 que trata do parcelamento e uso do solo urbano, já abordando preceitos ambientais (ULTRAMARI, 2002).

Depois de mais de dez anos de tramitação, o Congresso Nacional promulgou a Lei Federal nº 10.257 em 10 de julho de 2001, vigente desde 10 de outubro de 2001, regulamentando os artigos 182º e 183° que integram a política urbana da Constituição Federal de 198838, ressaltando que esta foi a primeira Constituinte que abrigou tal assunto (BRASIL, 2001). Já não era para menos, dada a mudança de perfil demográfico ocorrida no Brasil, com 37

Foi atualizado/complementado/retificado pelas leis 9785/99 e 10932/04. 38

a migração intensa em direção às cidades. Tinha-se, já no ano 2000, conforme Brasil (2001), cerca de 82% da população brasileira vivendo nas cidades, quase o dobro do percentual de 1960.

O Estatuto da Cidade, um avanço social sem precedentes, tem por finalidade promover o planejamento urbano de forma sustentável, introduzindo algumas inovações na política urbana, como dispositivos de uso e ocupação do solo que procuram coibir a retenção especulativa de terrenos e disciplinando o potencial construtivo. O Estatuto também ampliou as possibilidades de regularização fundiária de áreas ocupadas, mas não tituladas. Já num terceiro conjunto de instrumentos, o Estatuto inova ao estabelecer a participação direta da sociedade nos processos decisórios, citando, em vários de seus artigos, a necessidade de se fazerem audiências, plebiscitos, referendos, estudos de impacto de vizinhança, orçamento participativo e implementação da presença social em Comissões Municipais.

Estes tópicos foram incorporados em um instrumento chamado de Plano Diretor que, conforme Meirelles (1997), é um complexo de normas legais e diretrizes técnicas para o desenvolvimento municipal desejado pela comunidade, abordando aspectos físicos, sociais, econômicos e administrativos.

Para organizar o crescimento urbano, o artigo 182º da Constituição Federal torna obrigatório que cada cidade, em função de seu número de habitantes (>20.000)39 tenha o plano diretor aprovado pela Câmara Municipal. Mesmo com um número menor de habitantes, deverá ter Plano Diretor o município que se situe numa região turística, ou que pertença a conglomerados urbanos, ou, ainda, que deseje fazer uso dos instrumentos como o imposto progressivo sobre propriedades, parcelamento compulsório, desapropriações ou outorga do direito de construir, entre outros, conforme o exposto no § 4º do artigo 182º da Constituição Federal.

Mesmo sem ter o número preconizado de habitantes ou de se inserir nos condicionantes acima, a consciência cidadã nos diz que todas as cidades devem procurar instrumentos regulatórios, mesmo que mais simples, de forma a promover uma expansão controlada, evitando futuros problemas. Assim, um planejamento municipal só é efetivo com a utilização do plano diretor como instrumento básico da política de desenvolvimento de expansão urbana, pois as normas sobre zoneamento, loteamento, o uso e a ocupação do solo,

39

índices urbanísticos, proteção ambiental, entre outros, são fundamentais para o desenvolvimento municipal, e devem seguir os princípios de desenvolvimento sustentável. Observe-se que o plano diretor determina toda a política de desenvolvimento, com abrangência em todo o território municipal e não apenas nas áreas urbanas (ESTATUTO DA CIDADE, 2001).

As estratégias propostas para a implementação da Agenda Habitat estão baseadas em cinco princípios gerais que em muito apontam na direção da Agenda 21, ou seja, a formação de parcerias com setores governamentais e principalmente privados; a ampliação da capacidade de ação por meio de sinergismos; o apoio dos novos enfoques, com destaque para a questão ambiental; o fortalecimento dos mecanismos participativos mediante o chamamento da população, e o monitoramento do progresso por meio de indicadores.

Ao se cotejar genericamente o Estatuto da Cidade com as linhas estabelecidas no tema de Cidades Sustentáveis da Agenda 21 (um dos seis do início da A21B), observa-se que há muito em comum. Não poderia ser diferente já que os problemas são os mesmos; cada vez mais, há consciência da validade dos preceitos da ecologia profunda, interconectando todos os pontos da teia da vida. Ressalte-se, ainda, que o tema “Cidades Sustentáveis” foi elaborado considerando as diretrizes da Agenda Habitat40 da ONU, e que no “Estatuto da Cidade” há cerca de vinte referências diretas à sustentabilidade e ao meio ambiente.

O Plano Diretor, instrumento de ordenamento territorial preconizado pelo Estatuto da Cidade, deve ser coerente e sinérgico com os planos de gestão ambiental, pois é impossível considerarem-se as perspectivas e propostas para o território do município sem considerar suas variáveis ambientais. Este é um enfoque que não foi observado em muitos dos planos diretores feitos anteriormente, quando não havia uma conscientização ambiental forte. Talvez tenha sido esta uma das razões pelas quais muitos planos diretores realizados nas últimas duas décadas tenham falhado em produzir cidades equilibradas (BRASIL, 2001).

O planejamento nos municípios deve levar em conta o meio ambiente, detectando os pontos de vulnerabilidade e as áreas de riscos ambientais para o assentamento da população e dos empreendimentos, as descontinuidades na malha urbana, os eixos de expansão e de restrições de uso devido a fatores ambientais, como fundos de vale, direção predominante dos ventos, áreas inundáveis ou de erosão, mananciais, entre outros (FRANCO, 1999).

40

Para incentivar a sustentabilidade urbana, o PNUD e o ICLEI (International Council

for Local Environmental Initiatives - Conselho Internacional para Iniciativas Ambientais

Locais) têm patrocinado, incentivado e divulgado uma série de experiências destinadas a desenvolver projetos e metodologias para promover “cidades saudáveis” (ICLEI, 2002).