da comédia para a comedia
7. A tradução indirecta: uma norma consentida
É hoje reconhecido que qualquer tentativa para definir o que se entende por tradução já não pode assentar numa compreensão restrita deste fenómeno complexo, que não se reduz a um mero processo inter-linguístico ou de passa- gem do texto escrito na língua original A para a língua de chegada B, a fim de ser compreendido por destinatários desprovidos do conhecimento da língua A... Pertence aos Estudos de Tradução que, desde os anos 1970, se têm afir- mado progressivamente como disciplina autónoma com essa designação no campo dos estudos literários (Holmes 1988), terem iniciado uma renovação do estudo das relações estabelecidas pela tradução entre as literaturas e as cultu- ras. Essencialmente apoiados em estudos descritivos e históricos, produziram também um salutar questionamento teórico de alguns conceitos relacionados com a tradução e, até à data, menos cientificamente estabelecidos.
Assim, a problemática da “tradução intermédia” anunciada no título deste estudo ocupa hoje um lugar importante nos debates suscitados em torno da tradução. Por ser duma relativa complexidade, o processo assim designado será tratado apenas numa perspectiva metodológica, propondo uma descrição deste tipo de prática - e de texto - a partir do caso de uma tradução recente (1985) para a língua portuguesa da comédia The Alchemist (1610) do drama- turgo isabelino Ben Jonson (1572-1637). Além dos dados empíricos relacio- nados com este caso específico, procurar-se-á delinear em termos sistémicos em que medida o processo da tradução indirecta é revelador de um tipo de estratégia da tradução teatral em Portugal num determinado contexto histó- rico-literário, com base num estudo descritivo e comparativo dos textos, que visa também pôr em relevo alguns problemas na investigação em tradução.
Convém assinalar que o que torna o estudo desta tradução um caso repre- sentativo (Hermans 1999:69-70) da importante dimensão cultural da prá- tica da tradução é o carácter recorrente deste procedimento no âmbito do repertório em que é incluída. A comédia de Ben Jonson The Alchemist, surgiu em tradução para a língua portuguesa em Évora, em 1985, para ser encenada pela companhia profissional de teatro aí residente. Desde a sua criação em
1975, nota-se que, no conjunto das peças anualmente escolhidas para a tem- porada e para a candidatura ao financiamento estatal, a componente de peças estrangeiras, clássicas ou contemporâneas, dessa companhia é muito impor- tante e que de acordo com o modo de produção dos espectáculos, o recurso à tradução indirecta é frequente, em particular com obras de língua alemã (Brecht, Weiss, Dorst) ou russa (Gogol, Tchekov), ou ainda nórdica (Ibsen, Strindberg), cuja leitura requer competências linguísticas pouco comuns na cultura portuguesa. Na prática da companhia, o trabalho da tradução é geralmente assumido pelos intervenientes mais envolvidos na selecção e na produção do espectáculo, ou seja pelos encenadores, cuja formação e cultura teatral é em grande parte de influência francesa. Tal circunstância tende para privilegiar nas opções de tradução escolhidas uma orientação de tipo teatral, e não literário, que costuma ser preferida no caso da tradução teatral para a edição e a leitura. Assim, o trabalho em torno do texto de chegada pode surgir em vários momentos do processo de construção do texto/espectáculo final, ou seja desde a selecção do texto, o primeiro esboço da tradução, a tradução pronta para ser entregue aos actores, a passagem pelo trabalho de dramaturgia à mesa e pelos ensaios no palco até à estreia.
Ao consultar o cartaz e o programa do espectáculo, ou seja elementos do paratexto (Genette, 1987), constata-se que o recurso à tradução intermédia não é referido, o que revela uma tolerância perante a tradução intermédia, provavelmente entendida como um processo indispensável para aceder aos textos e produzir um texto português. Assim, o texto-fonte utilizado, ou seja a tradução intermédia em língua francesa, poderá assim ser entendido como equiparado a qualquer texto susceptível de entrar, pela sua selecção e tradução, para o repertório teatral da companhia, reforçando a posição cen- tral deste texto intermédio e da cultura do sistema intermédio – o francês, relativamente ao outro sistema envolvido: o inglês Em termos funcionais, a tradução indirecta é produzida aparentemente como uma tradução directa que funciona apenas com um único par de línguas.
Antes de entrarmos no estudo propriamente dito da tradução de The
Alchemist, voltemos à tradução intermédia. Também denominada por vezes
“retradução”, ou ainda “tradução em segunda mão” ou tradução indirecta, ela é geralmente considerada, por parte da crítica ou dos próprios traduto- res, como um dos processos menos aceitáveis e, por essa razão, até no âmbito da tradutologia, ainda é um dos menos compreendidos, ou mesmo conheci- dos. Todavia sabe-se que corresponde a um tipo de tradução frequentemente
adoptado e praticado, se bem que, ao mesmo tempo, silenciado ou raramente referido nos textos de chegada. O não-reconhecimento deste tipo de opção deve-se, em grande parte, à persistência da percepção e concepção da tradução ainda dominante que privilegia o conceito problemático de “original” com base em premissas teóricas que desenvolvem uma determinada concepção da tradução, considerada como inferior ao texto de partida evidentemente con- sagrado pelo seu valor de “autenticidade”, ao qual se associa a “originalidade”. A diversidade do modo de a ela se referir é, de resto, reveladora da dificuldade objectiva que até hoje acompanha toda a tentativa de clarificação do seu esta- tuto e da sua especificidade entre as diversas normas adoptadas no processo de produção textual que se costuma designar pelo termo “traduzir”.
De acordo com uma definição de tipo enciclopédico, a tradução indirecta é, para o Dictionary of Translation Studies a cargo de Mark Shuttleworth e Moira Cowie: “A term used to denote the procedure whereby a text is not translated directly from an original ST, but via an intermediate translation in another language” (1999:76). Mais precisamente, o termo aplicar-se-ia não tanto e somente a um tipo de textos assim denominados, mas preferencialmente aos processos e às relações envolvidos na produção de tais textos de chegada. Segundo a teoria polisistémica na qual se apoia este tipo de investigação, baseada no estudo da tradução tal como existe em determinados contextos (ver nomeadamente as teses de Even Zohar, Toury, Lambert, Hermans), a tradução indirecta é um processo que existe, por exemplo, em polissistemas fracos que dependem de outros sistemas mais fortes enquanto modelos literá- rios, em particular onde a língua do sistema dominante é bem conhecida.
Na tradução indirecta, os textos assim produzidos são mais frequentemen- te do tipo aceitável ou próximos de um texto original da literatura de chegada, não sendo o texto de partida muitas vezes sequer acessível para consulta. Uma consequência do recurso a este tipo de tradução é a de desenvolver uma maior disposição do tradutor para introduzir modificações no texto de chegada, dado que os parâmetros de um texto-fonte que em si é considerado (diríamos “ape- nas...”) como uma tradução se afiguram como menos invioláveis.
Tratando-se da língua inglesa, para o caso analisado aqui, o da tradução para a língua portuguesa da comédia de Ben Jonson The Alchemist, a língua do texto fonte não representa um verdadeiro obstáculo, apesar do evidente envelhecimento da componente linguística da peça, reflectida na lingua- gem datada das personagens. Com efeito, como o veremos a seguir, o texto inglês de partida também foi utilizado para a produção do texto de chegada.
Acrescente-se que o uso paralelo do texto fonte e do texto intermédio em tradução é também uma característica da maior parte das traduções que compõem o repertório teatral no qual a tradução desta comédia de Ben Jonson se insere.
Todavia, e como procurarei mostrar, o que interessou aos autores da tra- dução e da encenação da peça que recorreram à tradução indirecta, neste caso à adaptação francesa, foi sobretudo o acesso e a aplicação de um determinado modelo de teatro e de política teatral de origem cultural francesa.
A importância do estudo da tradução intermédia, até na especificidade de alguns dos traços apresentados no caso considerado, é justificada pelos investigadores em tradutologia que a ela se dedicam, como é o caso de G. Toury que definiu a tradução intermédia como uma das normas50 que regem
o processo da tradução e o texto daí resultante. É, para ele, um dado objectivo que o recurso a uma tradução já existente numa outra ou terceira língua e uti- lizada como texto de partida, é geralmente tolerado por numerosos sistemas literários, se bem que em grau diverso de aceitação de acordo com as épocas e as culturas. E a pertinência do estudo da tradução intermédia é reafirma- da recentemente por ele: “I would go so far as to argue that no historically oriented study of a culture where indirect translation was practiced with any regularity can afford to ignore this phenomenon and fail to examine what it stands for” (1995:130). Enquanto fenómeno histórico e variável: “(It) should be approached (...) not as an issue in itself, but as a juncture where syste- mic relationships and historically determined norms intersect and correla- te” (1985). Assim, os textos traduzidos deverão ser considerados, em qual- quer circunstância da sua elaboração ou produção, fontes privilegiadas para o estudo das implicações culturais da tradução, enquanto sintomas para uma
50 A noção de normas, que passou a ser fundamental para a investigação em Estudos de Tradução, foi introduzida por Toury para designar regularidades de comportamentos em tradução dentro duma situação sociocultural específica. Enquanto factor intersubjectivo, a norma situa-se entre a regra e a idiossincrasia, entre a “competence” e a “performance”. Toury distingue três categorias de normas. As normas preliminares intervêm na escolha do repertório ou na política adoptada para a importação dos textos, assim como na decisão de recorrer ao processo de tradução directa ou não (1995, p.58). O segun- do tipo, designado por normas iniciais, consiste na segunda opção geral a ser seguida e designada pela alternativa entre adequação ou aceitabilidade, ou seja, coloca o problema da naturalização ou “domesti-
cation” do texto. Finalmente, as normas operacionais reenviam ao nível de intervenção do tradutor na
matriz do texto fonte ou na sua componente linguística.
Assim, a descrição e a análise, no texto de chegada, das diversas manifestações de superfície dos “cons-
traints” que pesam na tradução na sua dimensão cultural e social, devem levar a explicar a diversidade
série de fenómenos menos aparentes mas que, em profundidade, constroem o campo literário onde se processa a sua inclusão51.
No caso em análise, a tradução indirecta aparece-nos como uma chave para a compreensão da posição da literatura portuguesa em relação a outras línguas ou literaturas como a francesa, enquanto mediada e mediadora respectivamente. A tradução da comédia O Alquimista de Ben Jonson de que nos ocupamos aqui, situa-se num período de mudança política e cultural acentuada, responsável em parte pelo enfraquecimento da produção literária nacional em língua portugue- sa e/ou de autores portugueses para o teatro. Simultaneamente, é um momento histórico que representa uma fase de dinamismo e de inovação no conjunto da vida cultural. São os anos 1970/80, durante os quais o teatro, na sua dupla vertente textual (de repertório) e formal (de criação artística), teve um papel de grande relevo. Num contexto em que a produção nacional é fraca ou inapta para responder à procura dos agentes e das instituições existentes ou criadas no novo contexto, ou ainda pouco adequada quanto ao repertório existente para se ajustar à nova situação histórica, social e cultural, a tradução surge como uma necessidade, não só para a importação de textos isolados, mas também para introduzir repertórios coerentes associados a práticas teatrais programáticas.
Assim, é pela tradução que é implementada no campo teatral, no caso concreto no trabalho da companhia profissional de Évora, uma estratégia tea- tral definida em termos inovadores e concebida em articulação com um con- junto de obras na sua maioria desconhecidas do repertório teatral português, ou seja o repertório do chamado “théâtre populaire”, modelo já consagrado em alguns países da Europa no pós-guerra como em França, sendo assim asso- ciado a uma cultura prestigiada.
É importante notar que a conhecida tradição de importação da cultu- ra francesa e de língua francesa pela tradução, um processo historicamente consagrado na e pela cultura de recepção, a portuguesa neste caso, é confir- mada num contexto novo, a contemporaneidade. Um estudo histórico mais completo da tradução teatral em língua portuguesa deveria permitir medir as consequências no sistema teatral e literário de tais relações inter-literárias. Um dos casos históricos mais representativos da função central que pode ser assumida pelos textos traduzidos é o conhecido repertório dito ao gosto portu-
guês, produzido no século XVIII, e que permitiu realizar na cultura portugue-
51 Ver as investigações realizadas até hoje nesse campo desde os já históricos estudos feitos em Göttingen nos anos 1980 por Jürgen von Stackelberg ou Harald Kittel.
sa clássica e moderna as transformações históricas pretendidas pela importa- ção de repertórios e de modelos estrangeiros.