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A universalidade do conceito

1 CONCEITO, MÉTODO E SISTEMA

1.3 A LÓGICA DO CONCEITO

1.3.1 A universalidade do conceito

Agora passamos a analisar separadamente cada categoria do conceito para, na seqüência, explicitar o conjunto do desenvolvimento lógico desta unidade estruturante do sistema, estendendo posteriormente este caminho para a objetividade, para a Idéia e para o sistema como um todo. Este caminho contribuirá para investigar as partes na perspectiva do todo e a indicação de um caminho de investigação apontado para as partes da Filosofia do Real que são o objeto da presente tese.

Do ponto de vista lógico, a universalidade aparece como primeiro momento e uma das formas de determinação do conceito21. Mas, neste momento o conceito é determinado em sua indeterminação, ilimitação, transcendência e incondicionalidade, afastando-o de qualquer forma de conteúdo ou limitação. O conceito em seu momento lógico de universalidade caracteriza-se pela indeterminação indiferenciada, pela pura potencialidade de determinação e pela pura e imediata auto-reflexividade sobre si mesmo. Mas, o conceito expressa, por outro lado, a intrínseca e diferenciada dialetização de seus momentos que são determinações estruturantes do conceito. Para Hegel, “o conceito é a compenetração dos momentos seguintes, a saber, que o qualitativo e o existente originário existem só como um pôr, e só como retorno a si mesmo, e que esta pura reflexão sobre si mesmo representa de maneira absoluta o devir-outro” (WL II, p. 33). A ilimitada idealidade ínsita ao universal indica a necessidade de diferenciação expressa na autodeterminação de si. A pura reflexividade sobre si mesmo do conceito em sua universalidade não acaba num exotérico saber distanciado do real, mas a autodeterminação reflexiva do conceito engendra a própria diferenciação interna como estabelecimento de um conteúdo determinado. Neste sentido, a universalidade expressa uma dupla perspectiva de infinitude. Por um lado, a infinitude do conceito universal consiste

21 “A universalidade é a racionalidade primeira do real. Falar de qualquer realidade a partir da categoria de

universalidade significa que essa realidade situa-se no nível do sentido, e de um sentido que pode ser exposto, explicitado, desdobrado. O processo de conhecimento de qualquer realidade nada mais é do que o desdobramento, a explicitação dessa racionalidade originária. O movimento do pensamento como explicitação do sentido originário é um movimento de autodeterminação imanente: o conceito como a identidade da identidade e da diferença traz consigo uma exigência de explicitação: ele é, fundamentalmente, processualidade interna, puro movimento de mediação de si”. OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e

na transcendência ilimitada em relação a qualquer determinação ou limitação, subsistindo em sua incondicionalidade transcendente em relação a qualquer determinação concreta. Por outro lado, a infinitude ou ilimitação intrínseca ao conceito consiste na sua ilimitada capacidade de determinação concreta, não se esgotando em nenhuma forma específica de particularização. A ilimitada capacidade de particularização diz respeito às múltiplas formas de especificação na Lógica, na Natureza e na História Universal. A transcendência ilimitada da universalidade não cristaliza nenhuma determinação como definitiva ou como expressão adequada da Lógica, mas dissolve as particularidades no ato de constituição de novas formas de particularidade.

Originariamente, o conceito universal fundamenta a identidade na multiplicidade como inteligibilidade imanente de toda a determinação e forma sistematizadora da multiplicidade que compreende a multiplicidade e a particularidade. Referindo-se ao conceito universal, Hegel diz que é “a alma de todo o concreto, em que está ínsito, sem ser impedido e sendo igual a si mesmo, em sua multiplicidade e diversidade com respeito àquele concreto” (WL II, p. 34). A universalidade do conceito contém aquela qualidade da identidade irredutível consigo mesma, conservando a sua forma inteligível no confronto com o finito e particular. Com a aparente limitação do finito e a possível oposição que isto representa, o universal não se perde no devir das coisas e não é absorvido na multiplicidade que caracteriza o real. Neste sentido, o universal é portador de um fluxo de racionalidade capaz de configurá- lo como racionalidade unificadora da diversidade22. O universal é portador de forças infinitas capazes de se traduzir em determinações concretas e, por outro lado, uma racionalidade capaz de autodeterminação como retorno a si mesmo, conservando a sua infinitude. Este poder de autodeterminação é dado como racionalidade imanente de todo o real quando suprassume o vazio de sua indeterminação e o apriorismo em relação ao determinado. Para Hegel, não há nenhuma incompatibilidade entre o conceito universal como instância maximamente inteligível e as determinações que se transformam no conceito universal em seu ser outro. Neste sentido, “o universal está posto como essência de sua determinação, como a própria natureza positiva daquela” (WL II, p. 34). A unicidade do conceito evita a dispersão de determinidades acidentais jogadas de forma assistemática, mas se trata de uma estrutura conceptual onde as determinidades são mediadas pela racionalidade que as fundamenta como

22 “A auto-relação é suprassunção da esfera da essência, que mesma negou o ser, significa negação da negação.

Na identidade absoluta do conceito consigo mesmo como a infinita unidade da negatividade consigo mesmo subsiste para Hegel a universalidade do conceito. Esta universalidade não é uma identidade analítica de algo nas diferenças da multidiversidade, mas a estrutura da unidade do sujeito ou do eu consigo mesmo na multidiversidade própria. Hegel põe a universalidade do conceito por meio de determinações, o fundamento da substância espinozista. A universalidade figura para ele como livre poder, que compenetra o seu outro, que o outro, o multidimensional, põe e suprassume, não exprime nenhuma violência e nela fica em si mesma, se pensa como amor e beatitude.” DÜSING, 1976, p. 244-5.

seu ser outro expresso nas determinações concretas. Neste sentido, as determinações particulares são fundamentalmente idênticas porque estabelecidas pelo mesmo princípio inteligível e se tornam diferentes pelo princípio de diferenciação inerente ao conceito. No coração do sistema hegeliano, desenha-se uma estrutura inteligível e filosoficamente articulada de uma formulação sistemática da unidade na diversidade e da diversidade na unidade. As determinações múltiplas ínsitas no universal não são caracterizadas como acidentes de uma substancialidade ou fenômenos sem vida, mas são estruturas fundamentais de reflexividade e autodesenvolvimento intrínseco do conceito. Isto eleva as determinações à inteligibilidade conceptual cujo resultado será a reflexão imanente do conceito e a veracidade da multiplicidade.

A Lógica do conceito não está revestida de uma espiritualidade sublime e puramente transcendental para posteriormente inerir a matéria caótica e informe, no sentido de um acréscimo posterior e extrínseco. Não se trata de uma divindade pura que viria em socorro de uma matéria morta e sem racionalidade, ou, percorrendo o caminho inverso, o de incorporar uma matéria extrínseca para suprir a pura indeterminação do universal que chegaria à determinação. Para Hegel, como será analisado mais adiante, espírito e matéria pressupõe-se mutuamente, resultando progressivamente numa substancialidade concreta na qual subjetividade e objetividade estão intrinsecamente determinados. Para Hegel, “o universal é a livre potência; é o mesmo que invade o seu outro; não como algo que viola, senão que se encontra tranqüilo naquele em si mesmo” (WL II, p. 35). Uma das principais características do conceito em seu momento de universalidade, é permanecer em si mesmo na diferença e na multiplicidade enquanto racionalidade imanente das diferenças. Assim, na medida em que se aprofunda a universalidade e inteligibilidade do conceito, simultaneamente, o mesmo vai se densificando e concretizando imanentemente. A determinação também não é um acréscimo secundário em relação à universalidade, mas a expressão e explicitação de sua própria autodeterminação intrínseca. Para Hegel, “por conseguinte a determinação não está acrescentada desde o exterior, quando se fala dela a propósito do universal [...] Portanto, o universal é a totalidade do conceito: é um concreto” (WL II, p. 35). Assim, o conceito não compreende apenas a universalidade da forma que imanentiza o conteúdo, mas a totalidade internamente constituída pela inteligibilidade da forma e o próprio conteúdo. Para Hegel, abstrair a universalidade do conceito em relação à particularidade é o procedimento inverso em relação ao processo lógico que caracteriza a totalidade da Ciência da Lógica. Por outro lado, isto não deve induzir a uma interpretação fácil segundo a qual o conceito universal simplesmente se identifica com um conteúdo determinado.

Um resultado significativo da Ciência da Lógica é que a universalidade não é unívoca e simplesmente transcendente ao múltiplo. O referido conceito é portador do caráter de universalidade porque penetra no conteúdo determinado e porque sistematicamente renova e atualiza a sua inteligibilidade na mediação da particularidade. Isto significa dizer que o outro de si da universalidade não é mero instrumento, mas princípio de autodeterminação no limite da particularidade. Na formulação hegeliana, não é possível abstrair a universalidade do conteúdo determinado, visto que, nesta hipótese, perderia as suas características fundamentais. Para Hegel, “esta determinação, como se encontra no conceito, é precisamente a reflexão total, a dupla aparência: uma vez é aparência para o exterior, quer dizer, a reflexão em outro; outra vez é aparência para o interior, quer dizer, a reflexão sobre si” (WL II, p. 36). A reflexão para o exterior compreende um dinamismo de racionalidade segundo o qual o universal desenvolve a sua reflexividade nas determinações compreendidas em sua especificidade, como um autodesdobramento na multiplicidade. A reflexão para o interior caracteriza-se pela dimensão racional enquanto autodesenvolvimento imanente que unifica as determinações como estruturas imanentes articuladas relacionalmente e compenetradas pelo universal. A reflexão para o exterior se dá a partir da diferenciação e a reflexão para o interior se dá pela identificação a partir da diferenciação. A determinação também é portadora de uma dupla racionalidade na medida em que desenvolve a reflexividade em outro, retornando reflexivamente sobre si mesmo. Isto nos leva a suspeitar do autodesdobramento e da reflexividade da determinação a partir de si mesma, sendo a determinação a intrinsecidade do universal e este a interioridade do conteúdo. Neste autodesdobramento interno, o universal organiza-se sistematicamente em círculos concêntricos que exprimem a racionalidade do conceito universal de forma determinada e específica.

Do movimento de desdobramento do conceito resulta a compenetração entre a universalidade e a determinação, ultrapassando a unilateralidade no sentido de que aquela se identifica com a forma ilimitada e esta com o conteúdo. Para Hegel, “a determinação, como conceito determinado, está compenetrada sobre si mesma desde a exterioridade; é o próprio caráter imanente, que é um caráter essencial, posto que, acolhido na universalidade e compenetrado por ela, e tendo uma extensão igual àquela, e sendo idêntico com ela, a compeentra também” (WL II, p. 36). Na estrutura geral do real, o universal e a determinação assumem cada qual a dupla função de imanência e de exterioridade. Como o conteúdo se desenvolve no seio do universal, aquele caracteriza-se como a própria interioridade deste no sentido de ser o resultado e a mediação do autodesenvolvimento e da conseqüente reflexão do universal. No dinamismo de autodeterminação do universal, o conteúdo é envolvido desde o

exterior, recebendo, por esta razão, uma determinação conceitual. Neste sentido, o conteúdo determina essencialmente o universal como constitutivo fundamental do mesmo. A “exterioridade” da particularidade caracteriza-se pelo próprio resultado de autodeterminação do universal. Considerando esta estrutura do ponto de vista do conceito universal, este substancializa o conteúdo determinado através de seu roteiro de desenvolvimento intrinsecamente racional como forma do mesmo. Neste sentido, é possível identificar nesta mútua compenetração uma tríplice estrutura de universalidade que se pressupõe mutuamente. A primeira expressão de universalidade é a ilimitação indeterminada do universal transcendente a toda a limitação, enquanto não passível de ser esgotada por uma determinação. A outra determinação de universalidade está na estrutura de totalidade formada pelo conjunto de determinações sistematizadas pelo universal e com extensão igual a este. Uma outra noção de universalidade inerente a este processo é a inteligibilidade do conceito como imanência presente na determinidade, embora restrita enquanto determinada.

A universalidade do conceito desempenha uma função precisa no conjunto da

Ciência da Lógica, não no sentido de um lugar fixo na obra quando aparece na Lógica do

conceito, mas está presente em todo o processo de desenvolvimento da mesma. Como já apontamos, a universalidade exerce a função de fio condutor ou inteligibilidade imanente como organizadora dos conteúdos que vão aparecendo ao longo de toda a estrutura da Lógica. Ela não aparece no mesmo grau de efetividade e no mesmo nível de intensidade ao longo de toda a obra, mas a sua importância depende da unidade específica a que nos referimos. A

Ciência da Lógica é formada por uma multiplicidade de categorias e modelos de oposição

distribuídos ao longo de toda a obra e por unidades temáticas denominadas de Lógica do ser, Lógica da essência e Lógica do conceito. A universalidade do conceito é portadora da reflexividade estrutural e estruturante capaz de organizar a multidimensionalidade dos conteúdos e categorias inerentes ao vasto continente da Lógica. Assim, considerando a obra como um todo e das funções básicas da universalidade, é constituída por múltiplas categorias nas polissêmicas atribuições de lógica, ontologia e filosofia especulativa, por unidades categoriais específicas e por uma síntese final dada pela Idéia absoluta. Graças à universalidade do conceito, no interior da Lógica estabelecem-se oposições categoriais e estruturais que levam a sínteses mais qualificadas, não apenas dadas como somatórias das determinações anteriores opostas, mas como formadora de um novo universo conceitual que ultrapassa as limitações e paradoxos registrados anteriormente. Além do mais, este sentido dado à universalidade possibilita distribuir ao longo de toda a Ciência da Lógica elementos específicos de disciplinas filosóficas centrais, quais sejam, a ontologia, a psicologia racional, a cosmologia e a teologia natural, ou as grandes determinações do universo na alma racional, no mundo e em Deus, as grandes partes que estruturam o conceito. Em poucas palavras, a

inteligibilidade do universal, configurado na multidimensional composição de transcendência de sentido e de imanência de fundamentação, pode ser interpretada como estrutura transcategorial em meio à qual acontece esta multiforme estruturação.