2 CONCEITO E ESTADO
2.1 CIÊNCIA DA LÓGICA E FILOSOFIA DO DIREITO
2.1.4 Liberdade particular e liberdade substancial
Uma das questões fundamentais deste capítulo diz respeito à formulação do lugar da liberdade particular no interior do Estado e a sua configuração estrutural, caso seja afirmada a sua existência. Uma postura quase generalizada entre os críticos da filosofia hegeliana sustenta a progressiva neutralização do indivíduo como um movimento diretamente proporcional ao caminho de construção do sistema.91 Essa crítica ainda se torna mais radical na concepção hegeliana de Estado em cujo interior o indivíduo seria impiedosamente massacrado e esmagado. Mas este tipo de crítica depende da leitura e interpretação feita da ética hegeliana. Na obra do autor, encontramos textos significativos que dizem exatamente o contrário, pois no contexto da substancialidade ética, o indivíduo fica mais forte, mais livre e mais consistente.
Hegel cria um novo conceito de indivíduo como membro de uma comunidade. Para H. Marcuse, “a verdade do indivíduo transcende sua particularidade e encontra uma totalidade de relações conflitantes nas quais a individualidade se perfaz. Somos, assim, levados, uma vez
90 “Assim a realização do fim pertence ao fim mesmo. Assim pertence também a primeira objetividade da
liberdade, o direito, originariamente à liberdade e não algo que vem de fora. Também as figurações seguintes, moralidade e eticidade, não devemos a desenvolvimentos contingentes da história. Elas são as expressões históricas dos homens como homens. O homem é sempre a unidade entre determinação e indeterminação. Colocar a si mesmo como objeto não significa a não objetivabilidade da representação de um eu abstrato, senão é uma ação em meio a uma situação de direito, uma ação moral ou ética. Em cada singular ato de apreensão dos homens reside a unidade de objetividade e não-objetividade.” LIEBRUCKS In: RIEDEL, 1974, b. 2, p. 36.
91 Eduardo Luft sustenta categoriacamente o caráter totalitário do pensamento político de Hegel já afirmada na Ciência da Lógica. O argumento é o necessitarismo político que elimina o indivíduo e o impede de fazer
livres escolhas. “Seguindo a lógica da eliminação da contingência própria à Idéia Absoluta, liberdade será compreendida por Hegel não por escolha entre alternativas possíveis para a determinação das estruturas ordenadoras da sociedade, mas como o processo de interiorização da legalidade imanente ao mundo e liberação por parte do indivíduo de todo elemento que o vincula a quaisquer condições externas na realização de sua atividade. Liberdade equivalerá ao processo de interiorização da necessidade proveniente da estrutura lógica da Idéia, com a correspondente identificação entre a ação individual e os desígnios do espírito (em primeira instância, espírito de um povo, em segunda instância, espírito do mundo).” LUFT, 2002, p. 191-2.
mais, ao universal, como a verdadeira forma da realidade.”92 É claro que desaparece um conceito de indivíduo fechado em sua liberdade interior, em sua personalidade imediata e não relacionada, em sua constituição independente das relações sociais e históricas. Na concepção hegeliana, o indivíduo autônomo e independente de uma teia de relações fica abstrato, indeterminado e incapaz de sustentar-se. Para o autor, um conceito não dialético de indivíduo é uma espécie de abstração e uma desconsideração pelas relações relegadas como algo meramente acrescentado, exterior e posterior à autonomia do indivíduo. Hegel conheceu uma antinomia presente no interior da sociedade de seu tempo e que precisava ser solucionada. Existiram concepções de Estado e de universalidade política neutralizadoras do indivíduo e havia concepções de indivíduo exteriores a qualquer referência política mais ampla. A solução proposta pelo autor na Filosofia do Direito segue o caminho de uma integração dialética e equilibrada entre a totalidade de um Estado e as liberdades individuais, entre liberdade particular e liberdade substancial. Por conseqüência, a concepção de indivíduo proposta é inseparável de sua integração numa comunidade política e num referencial mais amplo como a História. Para Hegel,
O Estado, como realidade moral, compenetração do substancial e do particular, implica que as minhas obrigações para com a realidade substancial sejam também a existência da minha liberdade particular, isto é, nele direito e dever se encontram unidos numa só e mesma relação (Rph, § 261, Zusatz).
Esse texto hegeliano é referencial para sustentar a mútua implicação da substancialidade e da individualidade. Nesse sentido, formulação hegeliana de uma concepção de indivíduo segue um critério lógico facilmente compreensível. Não se trata de um indivíduo estruturalmente determinado em si mesmo, compreendido como uma unidade substancial completa e que posteriormente estabelece relações com os outros e com o mundo. Nessa acepção clássica, as relações externas são secundárias, se o indivíduo é pensado em sua interioridade imediata. Por outro lado, a filosofia hegeliana também não segue o caminho de uma universalidade estrutural sobreposta e independente às instâncias particulares e aos indivíduos. Manfredo A. de Oliveira é claro ao sustentar a relação entre indivíduo e Estado: “Toda a problemáticada filosofia política de Hegel gira em torno da conciliação entre universal e indivíduo, sujeito, assim, que a elevação do sujeito à universalidade não deve significar a sua aniquilação.”93 Para Hegel, a construção da individualidade estrutural do sujeito e o estabelecimento das relações constituem dois pólos simultâneos que formam a
92 MARCUSE, 1978, p. 124.
autodeterminação da liberdade, a intersubjetividade do reconhecimento mútuo e a lógica da construção do mundo. Nesse contexto, o Estado é resultado das relações que os indivíduos estabelecem entre si e se universalizam na substancialidade política em que os mesmos indivíduos reconhecem a efetivação de sua liberdade. Por outro lado, a liberdade dos indivíduos que estabelecem entre si relações éticas, é a razão de ser do Estado impensável fora da liberdade dos indivíduos. Com isso, a compenetração do substancial e do particular se dá no equilíbrio dialético de deveres e direitos; os deveres do Estado correspondentes aos direitos dos cidadãos e os direitos do Estado correspondentes aos deveres dos cidadãos. Hegel expressa esta mesma compenetração do substancial e do particular num outro texto muito significativo da Filosofia do Direito: “Nesta identidade da verdade universal e da particular, coincidem o dever e o direito e, no plano moral objetivo, tem o homem deveres, na medida em que tem direitos, e direitos na medida em que tem deveres” (Rph, § 155). O indivíduo, considerado independente de uma relacionalidade constitutiva e integrante de sua formação, fica tão abstrato e vazio a ponto de lhe ser impossível a autosustentação como sujeito. Assim, tendo como premissa de que a individualidade somente é possível pela mediação da relacionalidade, o indivíduo se confronta com um outro sujeito pelo estabelecimento de relações recíprocas e pela dinâmica do reconheci mento mútuo. Nessas condições, a identidade somente pode ser pronunciada pela posição de uma diferença de outro indivíduo quando penetram mutuamente no espaço intencional do outro. Nesta estrutura relacional, reciprocamente, a identidade do outro é interiorizada conforme as condições da subjetividade do eu e se torna constitutivo do indivíduo como um fundamental movimento de sua determinação. Numa linguagem mais ética, a humanização do eu somente é possível quando passa pela humanização do outro e é por este humanizado, numa ação recíproca na qual o eu faz para si mesmo o que faz para o outro.
Como o indivíduo é, sistematicamente, aberto e só se constitui nesta condição, estabelece um movimento circular de universalização, circunscrito em várias esferas. Além da relação de intersubjetividade com análoga individualidade, o indivíduo integra uma comunidade ética, uma corporação, um Estado onde exerce a sua cidadania, um contexto histórico concreto e a história universal. Para Hegel, “o Espírito universal existe essencialmente como consciência humana” (Die Vernunft, p. 113). O sujeito não é apenas sistematicamente aberto a estas esferas integradas circularmente, mas elas se tornam constitutivas do mesmo. Isso significa dizer que o indivíduo é comunidade, é Estado e é História Universal, porque essas estruturas são subjetivadas por ele. Com a sua ação, participa da construção de uma comunidade, integra um Estado eticamente estruturado e interpreta a História, no tempo e no espaço onde vive. Neste movimento de ampliação, formado por
círculos cada vez universais e concretos, o indivíduo universaliza a sua subjetividade, porque essas esferas constituem formas de objetivação de sua personalidade. Para Marcuse, “a universalidade da vontade como uma universalidade do eu, significando com isto que a universalidade consiste no fato de que o eu, na sua auto-identidade, integra todas as condições ixistenciais [...] o universal se encontra no elemento mais individual do homem, no seu eu.”94 Por outro lado, esta figuração, muito mais do que colocar em risco a interioridade exposta ao esvaziamento, a torna mais consistente. O processo de universalização, como elemento típico da abertura fundamental do indivíduo ao universal, comporta o caminho regressivo segundo o qual se torna concreto e determinado, operando em sua interioridade a síntese entre a universalidade objetiva e a interioridade consciente.
Um dos componentes estruturais da Filosofia do Direito é a liberdade subjetiva.95 Esta obra não começa pelo indivíduo que posteriormente é esmagado de forma inexorável pela universalidade e pelo Estado. Cada estágio de efetivação da liberdade e cada instituição social são correspondentes a um estágio de liberdade alcançado pelo indivíduo. Assim, para Hegel, “no direito, o objetivo é a pessoa. Do ponto de vista moral abstrato, é o sujeito. Na família, é o membro da família. Na sociedade civil em geral, é o cidadão [...]” (Rph., § 190, Zusatz). Na medida em que a Filosofia do Direito avança na densificação da substancialidade e da universalidade, a liberdade do indivíduo se torna mais consistente e verdadeira. Evidentemente, não se trata de um paralelismo entre a eticidade do Estado por um lado, e por outro, a liberdade do indivíduo, mas a substancialidade do Estado é ética mediante a liberdade dos indivíduos e estes são livres na sua efetivação e universalização no Estado.
O indivíduo não realiza a integração desses elementos numa pura autodeterminação de uma subjetividade fechada na sua interioridade. Os componentes da estrutura do indivíduo somente são possíveis de serem identificados como tais, quando são determinados elementos relacionais correspondentes na objetividade da natureza ou na intersubjetividade do mundo e da História. A condição de autodeterminação do indivíduo na corporeidade é a sua correspondência com a natureza e com o mundo dos objetos materiais. Em outras palavras, é possível estabelecer uma analogia com a alma natural que capta os objetos pelos sentidos. A interioridade da consciência e da autoconsciência corresponde com o mundo e com a história transformados em objetos da razão que capta a sua racionalidade e universalidade e
94 MARCUSE, 1978, p. 177.
95 Jorge Dotti enfatiza a liberdade substancial e especulativa. Discordamos do autor argentino no destaque dado
à eliminação da finitude e da particularidade. “se a verdadeira universalidade é a da substância dinâmica que em seu movimento dissolve toda a oposição ao apresentar a diferença como momento interno à totalidade, então é evidente que o conceito hegeliano de liberdade coincide com o da realização do idealismo, quer dizer com a aniquilação especulativa da autonomia ontológica do particular e finito diante do universal e infinito.” DOTTI, 1983, p. 215.
transforma esta interiorização em conhecimento filosófico. Por outro lado, a subjetividade imprime sistematicamente no mundo e na história as suas determinações internas, quando são tomadas como seu prolongamento. O espírito, representado no homem pela inteligência e pelo pensamento, corresponde com a totalidade da história, do universo e do sistema. É pelo espírito que o homem capta a universalidade concreta como síntese da racionalidade lógica e da realidade da natureza e traduz estas estruturas num sistema filosófico resultante do trabalho de sistematização operado pela razão. Assim, com estas correspondências intencionais fundamentais fica impossível abstrair o indivíduo da realidade exterior e da própria totalidade, tida como o seu correspondente fundamental. Os principais componentes da estrutura do indivíduo não são postos em desenvolvimento se as correspondências relacionais são negadas e se o mesmo se fecha solipsisticamente em si mesmo. O conceito hegeliano de indivíduo só é possível de ser determinado se o mesmo é compreendido como aberto à totalidade da natureza e da História.
O conceito de indivíduo presente na Filosofia do Direito deixa muito claro a impossibilidade de separação e isolamento como uma estrutura irrelacionável e abstratamente autônoma. Muito mais do que compreender o indivíduo no contexto de uma intersubjetividade relacional que estende elos até a abrangência da história universal, o indivíduo constitui um pólo relacional onde são sinteticamente sistematizados os componentes do sistema. É possível sustentar que o indivíduo sintetiza concentradamente as diferenças encontráveis na totalidade do sistema, na medida em que ele é capaz de pensar logicamente (Ciência da Lógica), na medida em que é natureza (Filosofia da Natureza) e na medida em que é espírito (Filosofia do Espírito). O indivíduo também percorre um caminho sistemático de desenvolvimento de si mesmo correspondente a várias regiões da natureza e do espírito, e, ao mesmo tempo, esta progressiva universalização de si mesmo corresponde ao movimento oposto de uma maior reflexividade em si mesmo a partir da diferença. Na filosofia hegeliana, não cabe um indivíduo abstrato caracterizado por uma personalidade já definida pelo desenvolvimento de uma interioridade pura e, conseqüentemente, sobrevoar a concretude da realidade histórica. As diferentes regiões conceituais do sistema constituem, a nível micro- estrutural, determinações do indivíduo, nele se entrecruzando estrutural e relacionalmente. Partindo dessa leitura da filosofia hegeliana, não seria nada exagerado colocá-lo no topo mais elevado de fundamentação do universo, porque nele se concentram e se cruzam as determinações fundamentais de universalidade e particularidade, de sensibilidade e inteligibilidade, do relativo e do absoluto etc. Com tudo isto, Hegel tem muita clareza de que a liberdade e a autodeterminação do indivíduo somente são possíveis de serem sustentadas
através da inserção num contexto de relações e pela compreensão, enquanto síntese determinada e autodeterminada de grandes esferas do universo.
A conciliação dialética entre indivíduo e totalidade é realizada no contexto de uma organização política maior que é o Estado. Referindo-se à qualidade histórica dos Estados modernos e a sua relação com a subjetividade individual, Hegel escreve: “[...] o princípio da subjetividade se consome até chegar ao extremo independente da particularidade pessoal, para ao mesmo tempo ser reconduzido à sua unidade substancial, conservando assim esta naquele princípio mesmo” (Rph, § 260). Contrariamente a muitas críticas baseadas na hipótese de esmagamento do indivíduo, o mesmo não é eliminado no interior da substancialidade ética do Estado. Muito pelo contrário, o exercício livre da cidadania definida pela participação do indivíduo nos vários assuntos do Estado (trabalho, organizações comunitárias, educação, discussão política), caracteriza uma instância fundamental de autodeterminação da subjetividade e de substancialização da universalidade típica da ação política. Na filosofia política hegeliana, a recondução do indivíduo à substancialidade ética universal e a fundamentação da autonomia pessoal são elementos simultâneos de um único movimento de figuração da vida política. A substancialização do indivíduo na totalidade ética do Estado como introdução, nesta unidade, identifica-se com a universalização da subjetividade pessoal a reconhecer-se na substancialidade como a sua subjetividade universalizada. Nesta acepção, a totalidade substancial é exterior ao indivíduom porque se trata de uma objetividade real resultante do processo de universalização de um pensamento político, filosoficamente articulado, ao mesmo tempo em que é interior ao indivíduo como estrutura subjetivada no sentimento espiritual de pertença a uma comunidade ética. Por outro lado, a totalidade do Estado é personalizada e singularizada nas liberdades individuais, como uma das razões fundamentais de sua existência. O esvaziamento das subjetividades pessoais e a conseqüente instrumentalização das pessoas levaria ao enfraquecimento do Estado e à perda progressiva de seu fundamento ético.