CAPÍTULO 3: A realidade conquistada
3.1. A versão moderna do trauma: O romance
As crises políticas, industriais e financeiras atingem círculos muito mais amplos do que anteriormente. Quase toda a população participa da vida política. Os conflitos religiosos, sociais e políticos, a atividade partidária, a agitação eleitoral e a grande expansão dos sindicalismos inflamam os espíritos, exigindo violentos esforços da mente e roubando tempo à recreação, ao sono e ao lazer. A vida urbana torna-se cada vez mais sofisticada e intranqüila. Os nervos exaustos buscam refúgio em maiores estímulos e em prazeres intensos, caindo em ainda maior exaustão. A literatura moderna ocupa-se de questões controvertidas, que despertam paixões e encorajam a sensualidade, a fome de prazeres, o desprezo por todos os princípios éticos e por todos os ideais, apresentando à mente do leitor personagens patológicas, propondo-lhe problemas de sexualidade psicopática, temas revolucionários e outros. (FREUD, 1908b/2006, p.170)
A descrição acima refere-se às vertiginosas transformações que marcaram a entrada na modernidade. O avanço científico, a revolução industrial, a urbanização, a crise religiosa, os conflitos políticos, e até mesmo as tendências estéticas assomam como excesso inassimilável de estímulos. Retomando a concepção que se afigura precocemente no “Projeto”, a experiência traumática diz respeito ao fracasso em barrar esses excessos. Esta apresentação da modernidade como traumática traz em seu bojo a literatura como psicopática e perversa, sintoma do mal-estar específico da vida moderna.
Freud, em auxílio à pesquisa sobre a origem do material legendário que nutriu as obras de Homero e dos dramaturgos áticos, no texto “Moisés e o monoteísmo”, conclui
que “quanto mais vaga uma tradição, mais útil ela se torna para um poeta” (FREUD, 1939[1934-38]/2006, p.85). Ou, seja, o material para os poemas épicos da antiguidade grega, advieram dos despojos da perecida cultura minóico-miceniana, que sucumbira ante uma remota e misteriosa catástrofe. A lição que Freud apreende é que a epopéia pertencia à aurora da oralidade e que organizava a tradição em torno da catástrofe que a originou. Logo, a historiografia seria a razão da derrocada da epopéia como gênero literário15. A aquisição de novas técnicas lingüísticas de registro da história enrijeceu os meios de transmissão, o que acarretaria em obsolescência da tradição oral e épica. Ainda no texto “Moisés e o monoteísmo, Freud detém-se nesta questão de maneira que a analogia entre escrita e traço mnêmico, fulcral para o presente trabalho, é colocada de maneira emblemática numa consideração acerca do enfraquecimento da tradição oral:
Sua fidedignidade (da tradição), contudo, padecia do fato de ser menos estável e menos definida do que a descrição escrita, e exposta a numerosas mudanças e alterações quando era transmitida, de uma geração para outra, através da comunicação oral. Uma tradição dessa espécie poderia defrontar-se com variados tipos de destino. O que deveríamos esperar mais, seria que ela fosse esmagada pelo relato escrito, incapacitada de erguer-se contra este, se tornasse cada vez mais esmaecida e, finalmente, passasse para o esquecimento. Mas ela poderia defrontar-se com outros destinos: um deles seria o de que a própria tradição terminasse num registro escrito, e ainda teremos de lidar com outros, à medida que progredimos (FREUD, 1939[1934-38], p.83).
Desde a primeira concepção do recalque como falha na tradução o irrepresentável comparece no pensamento freudiano. Assim como na objeção de Tamuz às vantagens do dom da escrita oferecido por Thoth, de que o registro não está à serviço da memória, mas do esquecimento, a relação observada por Freud entre o fim da epopéia e o surgimento da historiografia esclarece sobre a função poética: a poesia recupera o que a escrita não fixa. A hipótese de Freud pode encontrar respaldo na concepção de autores como Frye, Vico, Peacock, Shelley e Lukács no que se refere às determinantes das fases da
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“Sentiu-se surpresa por que a epopéia, como forma artística, se tenha extinguido em épocas posteriores. A explicação pode se que sua causa determinante não existe mais. O velho material foi utilizado e, para todos os eventos posteriores, a escrita histórica tomou o lugar da tradição. Os maiores feitos históricos de nossos dias não foram capazes de inspirar um poema épico, e mesmo Alexandre, o Grande, tinha direito a se lamentar de não encontrar um Homero”. (FREUD, 1939 [1934-38]/2006, p.85)
linguagem poética. Para Vico e Frye (2004) são três as eras da linguagem: a era dos deuses, a era dos heróis e a era dos homens, ou a metafórica, a metonímica e a descritiva. O romance será o gênero por excelência da era dos Heróis por ser a expressão mais exata da tensão que constitui a individualidade nos tempos da razão instrumental e a busca de um princípio transcendental que ocupe o lugar do deus logos: “Teologia e ciência se chocaram de tal modo que as ciências particulares só poderiam oferecer sentidos díspares e parciais para a orientação da vida. A literatura oferecia a possibilidade de oferecer respostas de abrangência geral” (COSTA LIMA, 2000, p.371).
O jogo de insciência e onisciência entre as personagens e o narrador refletem a capacidade de agir e de se observar no agir, de engendrar a síntese do Eu que Fichte postulava como possibilidade transcendental para o enfrentamento da realidade empírica. Transcendental e empírico, ideal e real, podem se unificar na forma romanesca de maneira que o mais individual contenha o caminho para o universal. A filosofia transcendental encontraria no romance a sua exteriorização, a sua face prosaica, em consonância com a etimologia da palavra “Romantismo”, que remete a vulgarização.
Estes eram os tempos da Bildung, que celebrava os ideais formativos como reação contra a dissolução dos valores. A forma do romance moderno se originará da busca de si mesmo, do enfrentamento do mundo e da conciliação ou não das expectativas do individuo e da realidade do mundo. A crise do Bildungsroman documenta o fracasso do sujeito solar e o abismo intransponível entre indivíduo e sociedade.