CAPÍTULO 3: A realidade conquistada
3.7. O trauma mitológico
Diante da impossibilidade de estabelecer a realidade da cena traumática como um fato vivenciado na infância, Freud formula a hipótese de uma herança arcaica informar a percepção da experiência individual, ou seja, um fato histórico da vida do individuo sofre influência de uma reminiscência mitológica, um passado imemorial, um enigma renitente das origens da espécie.
Acredito que essas fantasias primitivas, como prefiro denominá-las, e, sem dúvida, também algumas outras, constituem um acervo filogenético. Nelas, o individuo se contacta, além de sua própria experiência, com a experiência primeva naqueles pontos nos quais sua própria experiência foi demasiado rudimentar. Parece-me bem possível que todas as coisas que nos são relatadas hoje em dia, na análise, como fantasia – sedução de crianças, surgimento da excitação sexual por observar o coito dos pais, ameaça de castração (ou então, a própria castração) – foram, em determinada época, ocorrências reais dos tempos primitivos da família humana, e que as crianças, em suas fantasias, simplesmente preenchem os claros da verdade individual com a verdade pré- histórica. (FREUD, 1916-17[1915-17]/2006, p.373)
Deste modo, haveria uma fantasia originária que irrompe nas lacunas históricas como sustentáculo da realidade presente, organizando valores e crenças em torno de um axioma, uma verdade inverificável e inconsciente que sustenta todas as certezas.
A consciência é a percepção interna da rejeição de um determinado desejo a influir dentro de nós. A ênfase, contudo, é dada ao fato de esta rejeição não precisar apelar para nada mais em busca de apoio, de achar-se inteiramente „certa de si própria‟.(FREUD, 1913c/2006, p.80)
O princípio transcendental projetado na idéia de Deus exerce esta função e segundo a hipótese de “Totem e Tabu” (1913) se origina no parricídio na horda primitiva. Cabe lembrar que o contexto da redação de “Totem e tabu” guarda afinidade com a situação da horda primitiva, pois é a época da dissidência de dois discípulos, Adler e Jung. O primeiro pretendia enfatizar os fatores culturais na formação do individuo, e o
segundo enveredava pelos caminhos da religião.
A polêmica resulta na pesquisa dos dados levantados pela etnologia da época, entre os quais Freud escolhe os aborígenes australianos, com base em seu reduzido grau de civilização. Estariam portanto mais próximos das condições originais que seus contemporâneos, oferecendo uma possibilidade de reconstrução da origem mais fidedigna, ainda que refratária à comprovação histórica.
Os indícios levam à conclusão de que a instituição totêmica visa impedir a relação incestuosa entre filho e mãe, e o tabu adquire uma função de fixar os resíduos do desejo incestuoso e agressivo no inconsciente.
A relação do totemismo com a escrita e a simbolização é indicada no levantamento bibliográfico que Freud realiza acerca da função nominalista da instituição:
A humanidade exigiu, tanto das comunidades quanto dos indivíduos, um nome permanente que pudesse ser fixado pela escrita (…) Assim, o totemismo não surgiu das necessidades religiosas dos homens, mas de suas necessidades práticas e cotidianas. O âmago do totemismo, a nomenclatura, é o resultado da técnica primitiva de escrita. Em sua natureza, um totem assemelha-se a um pictograma facilmente desenhável. Entretanto, uma vez portadores do nome de um animal, os selvagens passaram a formar a idéia de um parentesco com ela.‟ (FREUD, 1913c/2006, p.81)
O tabu, por sua vez, cujo caráter restritivo estaria na origem da consciência moral, seria uma interiorização eficaz da norma, e segundo a lógica da formação reativa, a restrição seria proporcional ao desejo proibido. O tabu do incesto, como na teoria estruturalista, seria portanto o ponto zero da civilização e a condição para a cultura, por representar a instituição mais eficaz para coagir as pulsões.
A reconstrução leva a horda primitiva, onde habitam hominídeos sob o regime tirânico do Pai primêvo (Urvater).
A raiz de outro mecanismo é elucidada em relação ao tabu, o da projeção. Os tabus referentes aos mortos, aos inimigos e aos líderes emanam de uma necessidade de solução da ambivalência e da contenção da agressividade. Os mortos por instigarem nos vivos o medo de vingança, os inimigos por, depois de satisfeita a agressividade, suscitarem compaixão, e os líderes por estarem envolvidos por uma força mágica que os protegem contra a hostilidade do grupo. Neste momento teórico ainda não havia sido nomeada a pulsão de morte.
Pois a Lei proíbe o ato (direito) e a consciência o desejo (religião). A culpa é a lei internalizada de um crime que não é mais adjudicado, um crime de descendência cuja repercussão alcança a todos num estrato inconsciente que objetivando-se deu início à história da civilização.
A teoria expressa em “Totem e Tabu” é a representação da aculturação do homem, um modelo sintético do conflito entre a incidência da pulsão e a ordem social, transgressão e lei. A analogia entre história da civilização e história individual, psicologia do “primitivo” e do neurótico, busca dar forma ao antecedente filogenético que se repete no trauma individual e culmina no complexo de Édipo. A herança genética de disposições psíquicas foi admitida para dar conta do que não poderia ser transmitido pela tradição, mas para que seu efeito tenha repercutido na fantasia individual, e necessário que o evento do parricídio seja real, ainda que só a linguagem do mito possa apreendê-lo.
Gostaria, ao fim desta investigação condensada ao extremo, de enunciar este resultado: no Complexo de Édipo convergem os começos da religião, da moralidade, da sociedade e da arte, em perfeita concordância com o que constata a psicanálise, a saber, que o complexo forma o núcleo de todas as neuroses, tanto quanto elas se deixaram compreender, por nós, até aqui. Aos meus olhos, é uma grande surpresa que os problemas da vida da alma dos povos sejam susceptíveis de serem resolvidos, eles também, a partir de um único ponto concreto, como o da relação com o pai. (FREUD, 1913c/2006, p, 156)
Compreendido como imaginarização do recalque originário, o mito do parricídio na horda primitiva fornece uma compreensão da estruturação da consciência em torno de um núcleo organizador da realidade. As crenças compartilhadas que são o laço da comunidade humana, provém de substitutos diretos da representação primordial, crenças não verificáveis, não obstante, sustentáculos da ordem social, que fundamentam a vida em comunidade e reconciliam o homem com sua origem e destino. Nesse sentido, o parricídio na horda primitiva seria o equivalente filogenético do recalque originário, e a idéia de Deus, uma representação que seria o fundamento da realidade psíquica.
Ora, o assassinato do pai, relatado em totem e tabu, apresenta-se como a imaginarização do recalque originário. De onde emerge que a figura de Deus é o primeiro avatar ocorrido na cena do mundo do pai morto e que a este título constitui a pedra angular dos “ideais” e, para além, da “realidade psíquica” às quais o homem concede sua “crença”. (LE RIDER, 2002, p.17)
A relação com o pai primêvo, projetada posteriormente no deus da religião monoteísta, tornará possível a fixação da pulsão, a separação efetiva entre os dois sistemas Ics e Pcs-Cs, o desenvolvimento da linguagem e conseqüentemente a distinção entre conteúdos da percepção e da memória.
Dessa maneira parece provável que também a consciência tenha surgido, numa base de ambivalência emocional, de relações humanas bastante específicas, às quais essa ambivalência estava ligada e que surgiu sob as condições que demonstramos se aplicarem ao caso do tabu e da neurose obsessiva, a saber: que um dos sentimentos opostos envolvidos seja inconsciente e mantido sob repressão pela dominação compulsiva do outro. Esta conclusão é apoiada por várias coisas que aprendemos da análise das neuroses. (FREUD, 1913c/2006, p, 81)