O século XX foi palco de profundas transformações no fazer teatral e no próprio entendimento dessa arte. A história do teatro ocidental, até então, era documentada a partir dos textos escritos, produção literária da dramaturgia de cada época. Isso perde a força quando eclodem, sobretudo na Europa, grandes encenadores, que passam a assumir a escrita da cena, ocupando esse lugar de destaque, antes conferido aos autores teatrais.
Como destaca Margot Bertold, “o diretor moveu-se para o centro da plasmação do espetáculo e da crítica teatral. Definia o estilo, moldava os atores, dominava cada vez mais o complexo mecanismo das técnicas cênicas” (2008, p. 452). Hodge (2000) associa, intimamente, o inicio das teorias da atuação e o surgimento da figura do diretor moderno. Segundo o autor, o “surgimento do moderno diretor teatral causou um abalo sísmico nas estruturas do teatro” (2000, p. 2).
Em companhias como a Commedie Française12, talvez a grande referência do modo ocidental de fazer teatro até a virada do século XIX para o XX, a construção da cena calcava-se em levar o texto à cena. As montagens favorecia a palavra falada em detrimento de movimentações e/ou interações, subordinadas às indicações demarcadas pelo texto dramatúrgico. Com essa mudança, os elencos passam a ser mais versáteis, quando deixa de vigorar uma tendência a manter os atores nos mesmos papéis característicos ditados por seus physique du rôle13. As lideranças artísticas das companhias teatrais da época eram comumente exercidas por seus donos, os produtores ou o primeiro ator. Cabia a eles mais a escolha do repertório do que efetivamente, elaborar um projeto estético para suas companhias ou teatros. Essas figuras passam a ser suplantadas pela presença e ascensão desse novo ideal de diretor, do qual fala Berthold (2008).
12 Companhia teatral estatal francesa fundada no século XVII por decreto do Rei Luís XIV. Marcou forte
influencia e ditou parâmetros do fazer teatral europeu e consequentemente, de todo o teatro ocidental dos séculos que se seguiram de sua fundação. (BERTOLD, 2000)
13 Termo em francês que significa literalmente “físico do papel”, difundido no contexto teatral ocidental
junto à dominante tradição teatral francesa. Indica a adequação dos atores a seus personagens tipo. É comum ainda hoje certa referencia ao termo para indicar se as características físicas de um ator correspondem às expectativas apontadas no texto para a personagem que esse pretende representar.
A partir de então, o próprio ideal de teatro foi sendo alterado ao longo do século, o que fez com que fossem se sucedendo estilos e mais estilos, do realismo ao teatro experimental, do épico ao pós-dramático. Dessa maneira, o trabalho do ator foi sistematicamente reconfigurado. Nesse sentido, Hodge (2000) indica assim uma sofisticação do fazer teatral a partir da inserção do diretor teatral moderno. Ao longo do século, essa concepção de diretor se firmou e esse se mostrou desde um profícuo facilitador que oferecia um olhar externo em auxílio ao trabalho do ator, até um tirano que impunha sua visão sem espaço para criações além da execução de suas próprias ideias.
Nas teorias modernas sobre a atuação, os processos, apesar de centrados na figura do ator em cena, foram, em geral, articulados por diretores. Essa dinâmica entre diretor e ator passa a ser a força motriz do fazer teatral.
Desde então, o trabalho do ator ficou, de certo modo, subordinado às propostas de direção. Se por um lado, foram muitos os processos colaborativos que se sucederam, com o ator representando um lugar fundamental na construção dos espetáculos, por outro lado,seu grau de contribuição estava, de uma maneira geral, condicionados a um projeto dos diretores e encenadores, que comportasse tal colaboração.
Roubine ressalta ainda uma ideia desse diretor moderno evoluindo como um regente, “aquele que conduz, que guia” (2000, p. 161), com domínio comparado ao de um maestro sobre seus músicos. Nessa passagem do texto à cena, isto é, a encenação enquanto linguagem autônoma, o diretor passa a ser a figura central que vai orquestrar as outras linguagens: visual, sonora e humana. A encenação é a relação entre elas e não especificamente uma linguagem exprimida somente na fala do ator, como no momento centrado no texto.
Com a “era dos encenadores”, surgem as mais diversas correntes de pensamento sobre o trabalho do ator, desde a supermarionete, de Gordon Craig, aos processos colaborativos com participação igualitária do ator na construção da poética da cena. Tudo isso, espelha determinadas visões de mundo de cada um desses grandes diretores, bem como de seus próprios projetos artísticos. Cabe ressaltar que esse é o período dos grandes coletivos, da descoberta do poder das grandes massas. E, no teatro, ocorre essa redescoberta do ator como um artista versátil, propositivo e possível coautor nas obras a partir da redescoberta do trabalho sobre si mesmo, e não só um talento inescrutável.
Novas possibilidades poéticas pediam novas abordagens com os atores e esse diretor, incumbido de guiar e trabalhar junto ao ator, ficou intrinsecamente marcado por
essa relação. Ainda hoje, é comum ouvir que alguém é bom diretor de ator, mas não é bom de encenação, ou é bom encenador, mas não é bom na direção de atores. Essa divergência reflete a autonomia dessas artes: a arte do ator; a arte do encenador; e ainda uma terceira, como um “diretor-pedagogo”, esse diretor de atores. Talvez, nesse ponto, encontremos a primeira fagulha de um preparador de atores, um olhar especializado e de fora responsável, no teatro, por tornar maleável os corpos no palco.