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5. ASPECTOS METODOLÓGICOS

5.2 Abordagem da investigação: pesquisa qualitativa

Neste item, apresentamos os principais elementos relativos à abordagem qualitativa e às características que enquadraram esta pesquisa nessa perspectiva.

Inicialmente, consideramos que pensar em pesquisa qualitativa nos remete à ideia de ênfase na qualidade, no olhar atento para as particularidades mais subjetivas de um determinado fenômeno. À luz do referencial teórico de autores como André (2001), Bicudo (2011), Bogdan e Biklen (1994) e Turato (2005), assumimos essa abordagem não em oposição à pesquisa quantitativa, mas no sentido de “trabalhar com qualidades dos dados à espera de análise” (BICUDO, 2011, p.14). Para Bicudo (2011), mais significativo do que a nomenclatura é a exploração das sinuosidades e da complexidade da pesquisa, o que procuramos fazer na sequência deste texto.

Como ponto inicial, consideramos as proposições teóricas de Turato (2005). Segundo o autor, em uma pesquisa qualitativa, o objeto de estudo são os fenômenos, em que a visão de mundo preponderante é a fenomenologia, no sentido de assumir a diversidade implícita aos acontecimentos. Isso tende a levar o pesquisador a deixar as compreensões emergirem do próprio campo de investigação, pressupondo uma atenção especial para a interpretação dos fatos, considerando a multiplicidade de sentidos que eles podem carregar. Bicudo (2011) complementa, considerando que não existe uma busca pela verdade, mas a procura constante pela compreensão dos modos de ser e de se mostrar apresentados pelo fenômeno.

Argumentos similares são apresentados por Bogdan e Biklen (1994, p.291):

[...] um método de investigação que procura descrever e analisar experiências complexas. Partilha semelhança com métodos de relações humanas, na medida em que, como parte do processo de recolha dos dados, devemos escutar corretamente, colocar questões pertinentes e observar detalhes. Mas os seus objetivos não são terapêuticos.

Nessa abordagem existe um forte viés social, levando ao estabelecimento de uma relação entre o investigador e o contexto no qual a investigação ocorre. As múltiplas facetas oriundas do cenário encontrado constituem-se em elementos relevantes e significativos para o alcance das compreensões desejadas. Bogdan e Biklen (1994) levam em conta cinco pontos principais que definem e caracterizam uma investigação qualitativa, os quais resumimos a seguir.

Primeiro: a fonte dos dados é o próprio ambiente da pesquisa. Presume o conhecimento do local e da conjuntura na qual a proposta ocorrerá, bem como a identificação e o reconhecimento das particularidades oferecidas pelo cenário. Exige o contato direto com os

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sujeitos e movimentos interativos entre as partes, aumentando as chances de percepções dos detalhes a serem considerados na constituição do corpus de pesquisa.

Segundo: a investigação é descritiva. A busca consiste em descrever, tanto quanto for factível, a riqueza dos detalhes envolvidos. O foco concentra-se nas palavras e nas imagens, podendo ser incluídas transcrições de entrevistas, fotografias, vídeos, registros e outros. Existe a tentativa e a busca por uma análise plena, em que os aspectos mais singelos podem contribuir para uma compreensão mais completa possível.

Terceiro: o interesse está concentrado no processo. Existe a tendência pela concentração de esforços no entendimento do fenômeno na sua totalidade. Os resultados finais ou as respostas para as perguntas propostas aos entrevistados servem apenas como guias e são tão significativos quanto os primeiros passos dados ou mesmo as expressões faciais e os gestos. Pressupõem um redimensionamento das questões na medida em que a pesquisa vai se desenrolando, pois, uma vez conhecidas as distintas perspectivas do cenário, elas podem fornecer novos norteadores, tornando o processo muito dinâmico.

Quarto: a análise tende a ser fenomenológica. Esse ponto envolve a adoção de uma postura na qual o pesquisador deixa o fenômeno manifestar-se por si, permitindo o afloramento das compreensões no próprio cenário. Não há necessidade de confirmar ou refutar hipóteses, mas há a busca por entendimentos amplos sobre as manifestações presentes naquele contexto específico.

Quinto: o significado tem imprescindível relevância. Identificar e compreender a visão de mundo e os sentidos atribuídos pelos sujeitos acerca do fenômeno investigado constitui-se em um aspecto significativo para a investigação, estabelecendo-se em um dos eixos estruturantes da análise.

A teoria considerada indica que seguir essa perspectiva teórica implica abandonar a ideia de neutralidade do pesquisador frente aos fenômenos investigados. A intensa interação fomentada entre os atores e o cenário é marcada pelos valores, saberes e crenças das partes envolvidas − desde a escolha do tema até as delimitações e escolhas definidas, as marcas do pesquisador se evidenciam, refutando a crença de uma possível isenção.

A proximidade entre o pesquisador e o contexto tende a estimular um processo maleável, com a possibilidade do redimensionamento dos olhares a serem direcionados. Turato (2005) reitera esse argumento, arguindo que os procedimentos de pesquisa são ajustáveis e que o próprio projeto permanece em aberto durante o seu percurso. Na mesma direção teórica, Bicudo (2011) postula que a pesquisa qualitativa admite uma multiplicidade de procedimentos oriundas das concepções epistemológicas do pesquisador. O principal instrumento é o

pesquisador, com suas concepções, crenças e valores que interagem conjuntamente com o cenário e com os demais sujeitos, desencadeando assim todo o processo de maneira articulada e sistêmica.

Todavia, mesmo com a flexibilidade inerente à abordagem qualitativa, ainda é necessário planejamento e organização para a realização da pesquisa. André (2001, p. 57) considera

[...] que o trabalho seja devidamente planejado, que os dados sejam coletados mediante processos rigorosos, que a análise seja densa e fundamentada e que o relatório descreva claramente o processo seguido e os resultados alcançados.

Assim, existe o trânsito por duas perspectivas: a subjetividade presente nos pressupostos epistemológicos do pesquisador e a objetividade pertencente aos processos metodológicos, para a constituição de uma pesquisa científica que seja assim reconhecida pelos pares.

Nesta pesquisa, assumimos a abordagem qualitativa, pois entendemos que ela conta com elementos passíveis de assim caracterizá-la. Nos parágrafos seguintes, procuramos situar esses elementos.

O primeiro ponto considerado é a fonte de dados, sendo o contexto no qual o fenômeno estava imerso. No decorrer do processo, buscamos compreender as ações dentro das próprias IES, no universo acadêmico, assim consideramos as particularidades que cada cenário ofereceu. Tivemos um contato direto com as partes27, por intermédio de entrevistas e visitas, procurando o estabelecimento de uma relação dialógica. Nossos esforços foram mantidos na descrição e na interpretação, identificando como as ações desenvolvidas contribuíram para o desenvolvimento dos processos de ensino e aprendizagem de Cálculo.

O âmago da proposta foi a análise do fenômeno em sua plenitude. Mesmo que tenhamos sido norteados por um problema de pesquisa, o intuito não foi o de apenas respondê-lo, mas o de buscar um entendimento compreensível a toda complexidade do caso. No decorrer da investigação, tivemos o intuito de deixar o fenômeno falar por si, buscando o emergente, não significando a adoção da crença na neutralidade do pesquisador. Desse modo, adotamos um estado de vigilância epistemológica, que, segundo Sousa Santos (1989), consiste em conhecer as suas crenças e conceber as limitações que elas podem exercer em seus estudos.

As perspectivas levantadas até aqui nos levaram a classificar esta pesquisa como qualitativa, segundo a perspectiva apontada por Bogdan e Biklen (1994), Turato (2005) e

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Bicudo (2011). Findadas estas considerações, na sequência elencamos argumentos que justificam o tipo de pesquisa realizada.