7. ANÁLISE DA SEGUNDA FASE DA PESQUISA
7.1 Elementos da sociointeratividade
7.1.2 Interatividade e aprendizagem
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Nesta subcategoria emergente, centralizamos elementos relativos ao desenvolvimento do processo de aprendizagem vinculado à relação social entre os sujeitos envolvidos na monitoria. O argumento centralizador dessa categoria é: o espaço da monitoria, ao ser permeado por uma forte interação entre estudantes e monitores, oferece condições propícias para que a aprendizagem se realize.
Como já dissemos anteriormente, é desejável um nível de bidirecionalidade na relação social, pressupondo o envolvimento de ambas as partes, em movimentos de questionamento e problematização em relação aos conceitos de Cálculo. Essa relação é passível de ativar a ZDP, levando o potencial embrionário para aprender do sujeito a se desenvolver a partir da relação com o outro.
O estímulo ao estabelecimento da sociabilidade está relacionado à consolidação da monitoria enquanto um local de estudo, que incentive o hábito de estudar com uma frequência regular, visando à construção do conhecimento e não servindo apenas para equacionar dúvidas pontuais. O monitor pode tornar-se um parceiro de estudos, alguém mais versado em Cálculo e auxiliar a pensar sobre os conceitos envolvidos, sugerindo materiais e dando dicas de pesquisa.
Ilustrando os argumentos acima, trazemos uma fala de M2a: “ela fica umas 5 horas aqui dentro. Nessas 5 horas, ela vem, te pergunta uma coisa, outra, essas pessoas ficam estudando aqui dentro e, quando surgem dúvidas, elas vêm conversar. Essas pessoas são as que têm o melhor desempenho geralmente”. A verbalização descreve um sujeito que vem à monitoria, permanecendo por um longo tempo dentro dela, e, no decorrer desse tempo, busca equacionar suas incertezas, estuda, conversa com os colegas, ou seja, tem uma vivência social dentro do espaço fornecido pela instituição. Essa vivência é um fator decisivo para a aprendizagem a partir da teoria de Vygotsky (1998): o contato com o outro pode levar ao desenvolvimento dos processos mentais superiores. Assim, entendemos ser pertinente a proposição de atividades em grupos, pautadas, por exemplo, pela resolução de problemas, que levem os envolvidos a interagir, a trocar ideias e a compartilhar signos.
Entretanto, destacamos que a permanência no ambiente da monitoria não é condição suficiente para a ocorrência da aprendizagem, é necessário o envolvimento do sujeito nas atividades propostas. Segundo a teoria considerada, a aprendizagem está relacionada com a postura ativa, que possibilite a “ideia de reconstrução, de reelaboração por parte do indivíduo, dos significados que lhe são transmitidos pelo grupo cultural” (OLIVEIRA, 2001, p. 65). Isso pressupõe abandonar a ideia da monitoria entendida como um local para a simples realização de exercícios e fomentar uma concepção de espaço para a construção do pensamento matemático a partir das relações estabelecidas entre colegas.
A ideia de socializar, pesquisar e estudar está relacionada à permanência na monitoria. O corpus de pesquisa trouxe indícios de limitadores dessa perspectiva, destacando-se o fato de muitos discentes dividirem suas atividades entre trabalho e estudo. Disso, emerge a necessidade da realização das ações em horários diversificados e alternativos, a fim de possibilitar a frequência e a permanência desses estudantes.
Em contraponto, Cavasotto e Viali (2011) enfatizam que, mesmo com uma diversidade de horários, a infrequência ainda é um fator preocupante, vinculado à falta do hábito de estudos fora da sala de aula. Esse entendimento nos leva a considerar a necessidade da construção de uma cultura de estudo, na qual a monitoria seja visualizada como um local destinado à construção do conhecimento, sendo permeada pelos elementos teóricos de Vygotsky (1998).
A construção e a consolidação da monitoria enquanto espaço de estudos estão relacionadas a diversos fatores, de ordem física, cultural e pedagógica. A análise do corpus nos permitiu compreender alguns desses elementos, expostos na sequência.
Primeiramente, entendemos ser necessária uma estrutura física adequada, permitindo a permanência pelo tempo necessário para que a socialização, o estudo e a pesquisa se efetivem. Esse aspecto foi enfatizado pelos entrevistados, cujas falas mais significativas estão no quadro que segue, e as ideias são discutidas na sequência:
Quadro 9 – Falas sobre a estrutura física
“Os alunos que chegam a conhecer o laboratório, eles observam que tem um espaço para estudo, um espaço agradável para estudar. Então se tu for ver eles nas mesas sentados agora, nem todos estão demandando dúvidas” (PROFM2c).
“Então ter esse local de estudo também é algo interessante. Nesse sentido a IES2 está em processo de mudança. E uma série de questões que estão sendo discutidas e vão sendo implementadas, que vão nessa direção, de ter um espaço maior para os alunos” (PROFM2c). “ (...) que não tenha tantos ruídos, não é talvez, por mais que o saguão da engenharia seja um espaço que tem um monte de mesas e que seja legal, mas sempre tem gente passando, conversando, tem ruídos, então tu não consegues te concentrar a pleno, vamos chamar assim” (PROFM2c).
“(..) sala de estudo para os alunos estudar, e que tenha espaços mais diversificados, com uma condição assim, de silêncio, com uma condição de um espaço agradável para eles, então tá sendo pensando nessa direção” (PROFM2d).
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“ (...) e a gente tá vendo como a estrutura vai se acomodar de acordo com as necessidades e aí a gente tá fazendo reuniões, vendo o que pode melhorar” (PROFM2d).
Fonte: Corpus de pesquisa
A constituição de um ambiente agradável para estudar é um ponto fundamental para a monitoria. Entendemos “agradável” como climatizado, com espaços adequados para transitar- se, com acesso aos computadores conectados à internet, com material para consulta, etc. Também envolve aspectos mais subjetivos, relacionados ao “sentir-se bem”. Isso aumenta as chances de permanência do discente por um tempo prolongado nesse espaço e potencializa as chances de socialização com os colegas, trocando ideias e, por que não dizer, aprendendo e ensinando. Esse tipo de ambiente não garante, mas favorece a interação que pode levar à aprendizagem.
A interação é entendida como “o veículo fundamental para a transmissão dinâmica (de inter para intrapessoal) do conhecimento social, histórica e culturalmente construído” (MOREIRA, 2010, p. 112). Isso está vinculado às trocas de signos entre sujeitos em contato social, envolvendo reciprocidade no sentido de ambas as partes estarem envolvidas, mesmo que em um nível diferente (MOREIRA, 2010).
A IES2 entende a relevância do espaço físico na monitoria como a constituição de um espaço de estudos, e, apesar de, segundo nossas observações, a estrutura ser apropriada, ainda está em curso um processo de melhora. Existe uma preocupação especial com a questão do ruído, e estão sendo buscadas alternativas para minimizar esse problema. Os barulhos externos são entendidos como fatores capazes de roubar a concentração, diminuindo as chances de estudo e pesquisa. Esse ponto é significativo, o local no qual monitoria será instalada. É desejável um local menos propenso a ruídos, com acesso facilitado, conhecido pelos estudantes.
Compreendemos que a estrutura física por si só não oferece qualquer garantia para a aprendizagem de Cálculo no contexto da monitoria. No entanto, é um fator inicial, de modo que é oportuna a sua consideração para potencializar as possibilidades oferecidas, e formar o “ambiente de estudo”. A criação desse tipo de ambiente não depende apenas da estrutura física, mas das concepções pedagógicas subjacentes às ações desenvolvidas. Entendemos que, quando os pressupostos teóricos de Vygotsky (1998) permeiam as atividades, são aumentadas as chances de aprendizagem.
Pensar a monitoria partir de uma dimensão social nos leva a assumir a formação de grupos de estudos como algo expressivo nesse contexto. Essa dimensão foi identificada na
IES2, como podemos observar na fala PROFM2c: “eles vêm ali estudar 2 ou 3, estão em grupos de 2 ou 3 alunos, vêm discutir algum assunto”. Essas ideias também são compartilhadas por PROFM2d: “(...) formam-se grupos de estudos também. Essa coisa de estimular eles de estudarem extraclasse”.
É oportuna a formação de grupos de estudos na monitoria, uma vez que o trabalho coletivo orientado pelo monitor oferece oportunidades para o desencadear de uma cadeia comunicativa na qual estão envolvidas trocas simbólicas passíveis de ativarem a ZDP. O contato com alguém mais experiente na tarefa, no caso um monitor ou mesmo um colega mais adiantado, é um fator relevante no sentido de promover o andaimento, ou seja, oferecer um suporte para o colega. Esse apoio levará a uma futura realização autônoma, com a retirada do andaime referido por Wood, Bruner e Ross (1976).
O estudo realizado em grupos orientados pode se constituir em um fator relevante para a aprendizagem. Cury e Cassol (2004) indicam que os estudantes de Cálculo não sabem exatamente como estudar e desconhecem as suas limitações. O comparecimento na monitoria pode minimizar esse problema, a partir de interações em equipes de estudo orientadas pelo monitor, pautadas pela discussão, problematização, representação de conceitos, resolução de exercícios, com o fomento à compreensão dos algoritmos e aos proceitos envolvidos.
Pesquisas, como as de Soares e Sauer (2004) e de Cabral (2015), sinalizam que os pressupostos do último parágrafo nem sempre ocorrem na sala de aula, o que traz a perspectiva da monitoria como um espaço privilegiado para o desenvolvimento do pensamento matemático. Os grupos também podem ser usados para discutir e problematizar os aspectos formais inerentes à disciplina, que, por fatores pedagógicos ou epistemológicos, muitas vezes, não são abordados de maneira suficiente nas aulas.
A prática de estudos em grupos liga-se intimamente com os conceitos da teoria de Vygotsky (1998), pois a experiência com os colegas e com o monitor proporcionará um desenvolvimento maior do nível potencial do sujeito, quando comparado ao que ele atingiria sozinho. Assim, o monitor é um agente ativo no processo de ensino, com a incumbência de mediar situações direcionadas à ativação da ZDP.
Mais uma vez, destacamos que o acerto nas práticas de ensino do monitor está associado ao seu envolvimento em constantes movimentos de formação, nos quais sejam pensados aspectos didáticos e pedagógicos. Cabe à instituição oferecer essa formação e promover a percepção da atuação do monitor para além do fornecimento de respostas para dúvidas pontuais, abarcando a esfera de questionar, problematizar e promover debates, práticas mais relacionadas à teoria de Vygotsky (1998).
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A ação do monitor nesse sentido aumenta as chances de redimensionar as concepções dos estudantes em relação à monitoria, que, segundo os entrevistados, ainda a visualizam como um local de resolução de exercícios. Observemos a verbalização de M2b: “ah não, peraí, tu não pode fazer para mim” (...) “e o monitor diz: ‘não, tu vai fazer sozinho, com a minha ajuda, eu vou te dar dicas, e a gente vai pensar juntos’”. Na conversa relatada, percebemos a intensão na realização do exercício e a percepção do monitor em não o realizar, mas em promover um pensamento conjunto. Evidencia-se, na fala, o auxílio de alguém mais experiente, capaz de promover a atuação de zonas cerebrais relacionadas à socialização oportunizar a ocorrência da aprendizagem.
Relato similar é trazido por M2a, quando expõe um diálogo que ele tem comumente com estudantes frequentadores da monitoria: “entendeu, a gente não é aquele cara que vai fazer para ti, a gente vai te ajudar a trabalhar contigo para melhorar a tua aprendizagem”. Aqui também identificamos a dimensão do trabalho conjunto, que ultrapassa a dimensão da transmissão de informações e adentra na esfera de sociabilidade para a ocorrência da aprendizagem.
As verbalizações referidas nos últimos parágrafos, bem como outras falas dos entrevistados, indicam a permanência da cultura de subutilização da monitoria, com a visualização do monitor como alguém que irá resolver exercícios ou as tarefas propostas em aula. Gradativamente, na IES2, essa perspectiva tem sido redimensionada, com a ideia do trabalho coletivo, pois existe um auxílio que irá proporcionar o pensar sobre determinados conceitos. Assim, o monitor pode oferecer um suporte, ou andaime (WOOD; BRUNER; ROSS, 1976), o qual será posteriormente retirado, levando o estudante ao pensamento autônomo.
Isso é conquistado a partir da formação e da orientação do monitor. No decorrer das ações, o monitor irá passar essas concepções aos seus colegas, levando-os a entender que o caminho para a aprendizagem, apesar de ocorrer em contato com o próximo, é autônomo.
Considerando que, para Vygotsky (1998), a interação social é o meio fundamental para a reconstrução interna de conceitos, é essencial que o monitor seja capaz de colocar em curso tais movimentos. Se isso não ocorrer, não haverá participação na monitoria, pois a aula expositiva, conforme o indicado por autores já referidos, não é o suficiente para a promoção da aprendizagem de Cálculo.