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CAPÍTULO 4 – DETERMINANTES DA FECUNDIDADE NO HAITI: UMA

4.8 Aborto

O aborto é o quarto fator, mas não menos importante, que pode impactar a fecundidade segundo o modelo de Bongaarts (2015). Por aborto entende-se a interrupção de maneira prematura do processo de gestação e, pode ocorrer de forma espontânea (aborto espontâneo), mas pode ser causado também por intervenção humana por razões médicas ou outras motivações: desejo de não ter filho em determinado momento ou sob condições consideradas socialmente adversas, por exemplo. Esses tipos de intervenções humanas podem afetar tanto o feto quanto a mãe (DHS, 1994-95). Esse último tipo de aborto é chamado de aborto provocado. Nas pesquisas da DHS, os abortos provocados, espontâneos e os natimortos compõem a categoriagravidezimprodutiva30. É importante ressaltar que esses dados podem ser subestimados pela simples questão de memória especialmente nos casos de aborto espontâneo e natimortos, ou por omissão voluntária no caso dos abortos provocados, por conta da criminalização do aborto de acordo com a legislação de diversos países. Como ocorre em outros países, também no Haiti, é muito provável que mulheres que tiveramum aborto provocado prefiram declararque tiveram um aborto espontâneo ou natimorto, visto que o aborto provocado émalvisto socialmentee éproibido no país. Em 1994-95 o percentual de haitianas que declararam ter tido um aborto provocado era igual a 2,1%. No entanto 11,3% das mulheres afirmavam ter sofrido pelo menos um aborto espontâneo, e 4% disseram que

tiveram ao menos uma gravidez que resultou em um natimorto. Já em 2016-17, 4% das mulheres admitiam ter passado por um aborto induzido, cerca de 6,3% sofreram um aborto espontâneo e um percentual de 2,6% tiveram pelo menos um natimorto ao longo da vida (Tabela 11).

Como pode-se observar, no período estudado, houve uma diminuição no percentual das mulheres que declaram ter tido pelo menos um aborto espontâneo e natimorto. Todavia, ao considerar as três categorias (incluindo aborto induzido), o percentual de aborto espontâneo foi sempre maior. Destaca-se que enquanto a proporção de gravidezes terminadas em “aborto espontâneo” e “natimorto” tendem a diminuir ao longo do tempo, o percentual das gravidezes que cujo desfecho foi um aborto provocado aumentou durante o período de tempo estudado, passando de 2% a 4%. Como já foi ressaltado, apesar de haver uma proporção maior de abortos induzidos, o percentual permanece relativamente baixo, como já dito, devido à criminalização do aborto e à censura social sofrida por quem o pratica no Haiti. Outra possível hipótese teria a ver com a forma como a informação foi coletada. Tanto em 1994-95 quanto em 2012, a pergunta sobre quantos abortos provocados a mulher teve durante a vida foi formulada de maneira bem direta. Logo, a mulher pode omitir a ocorrência de abortos por conta das razões já citadas acima.

TABELA 11 – Gravidezes em (%) que não chegam ao termo em 1994-95 e 2016-17

Tipo de perda fetal 1994-95 2016-17

Aborto induzido 2,1 4,0

Aborto espontâneo 11,3 6,3

Natimorto 4,3 2,6

Fonte: Cayemittes et al (1995) e IHE (2018).

Como as outras variáveis, a ocorrência do aborto provocado varia de acordo com certas características sociodemográficas, sobretudo a faixa etária, o lugar de residência e o nível de escolaridade. Não importa a categoria de aborto, isso aumenta com a idade. De modo geral, para os dois anos, o aborto espontâneo e o parto de natimorto são mais frequentes na região rural e entre as mulheres de menor escolaridade. Em contraponto, o aborto provocado é mais comum na região urbana e entre as mulheres com maior nível educacional. Mais uma vez, isso fazpensar que talvez a baixa ocorrência de aborto no meio rural entre as mulheres menos educadas ocorra justamente por medo do rechaço social. Uma segunda hipótese possível é de que as mais escolarizadas sintam que têm mais a perder se tiverem um filho em um momento que não consideram oportuno, ou ainda que elas simplesmente são mais

propensas a declarar que recorreram a um aborto provocado. Há muito ainda a ser estudado sobre os diferenciais na prevalência do aborto ou mesmo sobre a qualidade da informação declarada.

O procedimento mais usado entre as mulheres haitianas durante o último aborto induzido foi o misoprostol31 (45% dos casos), seguido pela dilatação ou curetagem (42%)32. O procedimento usado varia com a idade, o lugar de residência, a escolaridade. A dilatação/curetagem foi utilizada pelas mulheres mais velhas (49% entre as mulheres de 30-39 anos contra 38% entre as mulheres de 20-34 anos). Nas regiões urbanas, quase metade das mulheres (49%) utilizam a dilatação ou curetagem, contra apenas 29% no meio rural. Esse procedimento é mais usado pelas mulheres que possuem nível secundário e mais (46%) do que aquelas que possuem um nível primário (34%). As mulheres entre 20 e 24 anos (48%) e aquelas com ensino secundário (47%) ou mais são mais propensas a usar o Misoprostol no seu último aborto provocado. Já a ingestão deplantas, chás e infusões (métodos abortivos tradicionais) émais usada pelas mulheres entre 20 e 29 anos do meio rural (23%) e de escolaridade primária (26%).

Quanto ao lugar onde ocorreu o último aborto, não importa a característica demográfica da mulher, a maioria dos abortos teve lugarno domicílio. Cerca de 53% das mulheres r que realizaram um aborto provocado responderam que o último aborto ocorreu no seu próprio domicílio ou em domicílio de conhecidos, cerca de 32% em uma instituição privada e 14% em uma instituição pública ou mista. No meio rural, e entre as mulheres de menor escolaridade, o percentual de abortos ocorridos em domicílio próprio ou em outro domicílio representaquase dois terços do total (64% e 65%, respectivamente). Essa situação lança luz sobre a problemáticado aborto inseguro no Haiti. Não há dúvida de que, o fato de o aborto ocorrer nos domicílios, muitas vezes sem ajuda de um profissional de saúde, coloque em risco a vida de muitas mulheres. A sugestão aqui é ver o aborto inseguro como um problema de saúde pública. Isso certamente não vai zerar a taxa do aborto, no entanto poderia contribuir para uma diminuição do aborto inseguro no país.

31 O Misoprostol é um medicamento anti-úlcera. Há pesquisas que apontam que o Misoprostol tem entre 75 e

85% de chances de sucesso no aborto induzido quando é realizado no primeiro trimestre da gravidez. Em muitos lugares, inclusive Haiti, este medicamento pode ser encontrado nas farmácias sob o nome de Cytotec, sem necessidade de receita, mas algumas farmácias podem pedir uma prescrição médica para permitir a compra (INTERNATIONAL WOMEN’S HEALTH COATITION, 2016).

32

A curetagem é uma operação cirúrgica que se caracteriza pela raspagem do interior do útero ou por aspiração de seu conteúdo, com o objetivo de esvaziá-lo. É um procedimento que também pode utilizado após um aborto espontâneo. Não é um procedimento exclusivo de abortos provocados.