CAPÍTULO 1 – TRANSIÇÃO DA FECUNDIDADE, FAMÍLIA E GÊNERO NO HAIT
1.3 Transição da fecundidade e desigualdade de gênero
McDonald (2000a) ao tentar entender a transição da fecundidade, vai mais além dos fatores sociais e econômicos comumente usados por outros autores, ressaltando que nas teorias da transição da fecundidade (independentemente da fase) a equidade de gênero é um elemento fundamental para entender as mudanças na estrutura familiar contemporânea. Por definição, a equidade de gênero tem a ver com as expectativas socialmente construídas do comportamento feminino e masculino encontradas em uma determinada sociedade (MCDONALD, 2000a). De acordo com Mason (1997), a questão de gênero funciona como um sistema. Esse sistema é, por sua vez, subdividido em estratificação e em papel de gênero. Enquanto a estratificação de gênero tem a ver com a inequidade institucionalizada entre homens e mulheres em uma determinada sociedade, o papel de gênero tem a ver com a divisão sexual do trabalho.
Na verdade, é quase impossível estudar a fecundidade sem falar de relações de gênero, pois o grau de igualdade de gênero dentro de uma sociedade vai inevitavelmente influenciar a sua taxa de fecundidade. Para McDonald (2000a), existem duas formas amplas de equidade de gênero. A equidade de gênero em instituições orientadas para a família, e aquela em instituições orientadas para o indivíduo. De acordo com o autor, nos países desenvolvidos, durante o século XX, houve uma revolução nos níveis de equidade em instituições de orientação individual. Consequentemente, o século XX terminou com altos níveis de equidade de gênero, especialmente naquelas instituições. Como resultado, os altos níveis de equidade usufruídos pelas mulheres como indivíduos fazem com que muitas delas tenham menos filhos do que aspiravam quando eram mais jovens. Uma outra possibilidade é que também ocorra melhoria da equidade de gênero nas instituições sociais orientadas para a família. Na verdade, nessa situação a queda da fecundidade está associada ao fato de as mulheres adquirirem direitos dentro da família – o que lhes permite reduzir o número de nascimentos para níveis mais desejáveis segundo as aspirações delas (MACDONALD, 2000a). Salienta-se que mudanças na instituição familiar tendem a ocorrer de maneira mais lenta, pois o sistema familiar costuma estar fortemente vinculado a instituições conservadoras, como a religião. Esse estudo busca trazer elementos sobre o estado da (in)equidade de gênero no Haiti no âmbito público (oportunidades escolares e laborais) e no âmbito privado (família), tomando em conta que isso influencia os níveis da fecundidade.
Uma das críticas de McDonald (2000a) aos estudos sobre gênero e fecundidade é a falta de centralidade na transição da fecundidade. As críticas do autor se fundamentam no uso apenas dos dados quantitativos. O autor chama atenção que, sobretudo no campo da
Demografia, os estudos convencionais se baseiam no modelo dicotômico ou unidirecional buscando correlação entre o status da mulher e o nível da fecundidade. Como aponta McNicoll (1980), a principal crítica desse modelo dicotômico é a não utilização do contexto cultural e institucional nesses estudos. Como foi visto anteriormente, não considerar a dimensão sociocultural prejudicaria o entendimento. Por exemplo, como veremos no tópico seguinte e no Capítulo 2, é obvio que existe uma forte desigualdade educacional entre homens e mulheres haitianos. No entanto, entender o porquê dessa desigualdade é outro assunto. Outro dado de contexto que pode influenciar o nível da fecundidade é a visão compartilhada por muitos homens haitianos de que se sua companheira utiliza métodos contraceptivos, isso seria sinal de que ela deve ter outros parceiros afetivo-sexuais.
Sem dúvida, a consideração desses contextos é uma ponte para se chegar a um melhor entendimento das percepções dos casais sobre o assunto. Como foi ressaltado por McDonald (2013), em muitas sociedades a inequidade de gênero é um problema que não tem nome. Portanto, é difícil obter medidas das suas percepções. Em um país como o Haiti onde as mulheres crescem com a ideia de que seja o homem, na maioria das vezes, que faça e cuide de tudo, em uma sociedade onde é muito difícil para a mulher se afirmar social e economicamente, independentemente de sua classe social ou escolaridade, as métricas demográficas tradicionais contam apenas parte da história. Para lançar luz sobre a realidade vivida, o caminho do entendimento nos leva a reforçar a importância de estudos antropológicos a fim de preencher as lacunas sobre percepções, atitudes e valores (MCDONALD, 2013). Apesar do alinhamento desse trabalho aos estudos demográficos, a literatura antropológica serve de base para uma contextualização mais robusta.
Segundo McDonald (2000a), a equidade de gênero pode ser avaliada pela perspectiva dos direitos sociopolíticos e reprodutivos. Em outras palavras, como aponta Fraser (1994), o nível de equidade nesses direitos pode, em algum caso, determinar o nível de desigualdade de gênero. Em um país como o Haiti, onde a população, e mais especificamente as mulheres, não usufruem de seus direitos sociais, políticos e reprodutivos, o nível de desigualdade de gênero é alto – o que, sem dúvida tem um impacto no processo de transição da fecundidade no país.
McDonald (2000b) afirma que a equidade de gênero é um conceito que implica questões nas quais os valores devem ser considerados. Nas teorias de transição da fecundidade, os valores e as percepções compartilhadas por mulheres e homens que decidem sobre os nascimentos, são importantes. Logo, o nível da fecundidade e a condição feminina se correlacionam, ou seja, uma impacta a outra. Tendo em vista isso, e dado esse panorama
apresentado acima sobre inequidade de gênero e a importância da percepção das mulheres e dos homens, vejamos em que contexto se insere as mulheres haitianas do ponto de vista educacional, laboral e familiar, o que pode nos ajudar a entender melhor o processo de transição da fecundidade no Haiti.