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Principais desafios do sistema de saúde haitiano

CAPÍTULO 2 – O PLANEJAMENTO FAMILIAR NO HAITI: O APARENTE

2.2 Principais desafios do sistema de saúde haitiano

Embora já mencionado de certa forma no tópico anterior, vale frisar que existe um conjunto de problemas de governança e de coordenação que pode explicar a fraqueza do sistema de saúde, por isso vamos detalhá-los um pouco mais nessa seção. Na prática o sistema de saúde está passando por problemas significativos de atuação (funcionalidade), de organização, de gestão e de controle. O resultado de tudo isso é um atendimento fragmentado, pouco acessível e de baixa qualidade (HAITI, 2013). De acordo com o Plan Directeur de santé2012-2022, vários fatores podem explicar a baixa qualidade do atendimento à saúde no Haiti: a falta de capacidade e de responsabilidade do Ministério da Saúde no sentido de controlar o funcionamento do sistema; a pluralidade dos financiadores e dos programas verticais (pensados e estruturados de cima para baixo); interrupções de fornecimento e falta de estoque frequentes de materiais médicos. Isso contribui para o acesso limitado da população à saúde e para uma forte insatisfação dos pacientes (HAITI, 2013).

Ao longo desse texto, nos referimos diversas vezes às fraquezas observadas na governança do setor de saúde haitiano. Essas fraquezas podem ser explicadas por quatro principais fatores:

“1. Uma estrutura organizacional do Ministério da Saúde que não lhe permite cumprir suas funções fundamentais;

2. A deficiência quantitativa e qualitativa tanto em recursos humanos quanto em materiais;

3. A pluralidade de atores com motivações e filosofias diferentes;

4. A baixa capacidade ou a incapacidade de planejamento e de coordenação intra e intersetorial” (HAITI, 2013, p. 16).

Em colaboração com os inúmeros atores existentes, é fundamental o Ministério da Saúde exercer liderança efetiva, chamando para si a coordenação, a gestão e a regulamentação do sistema.

2.2.2 Problemas de gestão de recursos humanos

Junto com os problemas de governança e de coordenação, existem também importantes desafios no que diz respeito à gestão de recursos humanos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza uma razão de 25 profissionais de saúde para 10.000 habitantes. O Haiti contabiliza em média 5,9 médicos(as) ou enfermeiros(as), e 6,5 profissionais de saúde para cada 10.000 habitantes (HAITI, 2013).

A disponibilidade e o desempenho dos recursos humanos no setor de saúde são condicionados pelos seguintes elementos:

1. Ausência de planejamento estratégico das necessidades do setor;

2. A fraqueza do sistema de credenciamento das escolas privadas de formação de profissionais de saúde;

3. A aplicação de currículos pouco adaptados às necessidades do sistema de saúde, além de a formação de profissionais não corresponder ao perfil exigido para a prestação de cuidados de saúde21;

4. Ausência de políticas para o desenvolvimento de recursos humanos e de retenção de quadros no setor público, em uma conjuntura fortemente marcada pela

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A publicação dos últimos resultados dos exames nacionais dos estudantes de Enfermagem é uma prova disso. Mais uma vez, os resultados foram catastróficos com a reprovação de 81% dos novos profissionais (LE NOUVELLISTE, 2018).

atração do setor privado e das ONGs, que oferecem melhores condições laborais como, por exemplo, oportunidades salariais mais atraentes;

5. Ausência de um sistema de registro para médicos e afins, sendo o número exato de profissionais que trabalha no setor privado desconhecido e fora de qualquer controle ou regulação;

6. A inexistência de clara divisão de tarefas e responsabilidades entre os profissionais de saúde, ou seja, tarefas que seriam esperadas de um médico podem ser exercidas por auxiliares sem qualquer supervisão, o que é um risco para a vida dos pacientes (HAITI, 2013).

Esse cenário mostra que o sistema de saúde é incapaz de responder às necessidades da população. Os artigos 19 e 23 da constituição haitiana de 198722, que garantem à populaçãoo direito à saúde, não são aplicados. Até nos grandes hospitais da capital, as condições mínimas não são cumpridas. E como é de se esperar, a situação é mais trágica nas regiões mais isoladas, onde muitas vezes a população residente deve andar horas para encontrar um centro de saúde.Em 2016-17, entre as 78% das mulheres que haviam declarado ter encontrado obstáculos em relação ao acesso à saúde, 37% mencionaram a longa distância entre o domicílio e o centro de saúde mais próximo (IHE, 2018). Apesar da contribuição de organizações internacionais, principalmente de ONGs, com menos de 5% do orçamento votado pelo parlamento sendo destinada à saúde em 2017-18, a situação não poderia ser melhor. Esse cenário faz com que muitos profissionais de saúde formados no Haiti deixem o paíspara exercer a sua profissão. Os que resistem e permanecem em sua terra natal, organizam greves sem fim nos hospitais públicos com o objetivo de solicitar um salário digno e condições de trabalho.

2.2.3 Problemas de recursos materiais

Como já foi visto, ao lado das dificuldades de coordenação, de gestão e de recursos humanos, existem sérios problemas de gestão de recursos materiais no setor de saúde. Um grande desafio é a descontinuidade nos projetos. Há pouco investimento no setor. Pior ainda, existem equipamentos de saúde que não conseguem funcionar para atender a população em necessidade. Um primeiro exemplo disso é o Hospital da Universidade do

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Artigo 19:O Estado tem a obrigação imperativa de garantir o direito à vida, à saúde, o respeito à pessoa humana, a todos os cidadãos sem distinção, de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (tradução literal).

Artigo 23: O Estado é obrigado a fornecer a todos os cidadãos de todas as comunidades locais os meios apropriados para garantir a proteção, a manutenção e o restabelecimento de sua saúde através da criação de hospitais e centros de saúde (tradução literal).

Estado do Haiti (HUEH), o maior centro hospitalar do país, que está continuamente em crise financeira.

Outro exemplo é o hospital de Delmas 2 em Porto-Príncipe que deveria receber os casos de urgência do HUEH, cuja inauguração estava prevista para ocorrer em 2017, imediatamente após a instalação dos equipamentos. Contudo, não abriu as suas portas até os dias atuais. De acordo com o médico Jean Hugues Henry, então membro do gabinete do Ministério da Saúde, a estrutura física responde às exigências de um centro hospitalar, no entanto, o principal problema desse centro tem a ver com o financiamento. Financiado pelo Banco Interamericana de Desenvolvimento (BID), o custo previsto para a reabilitação do local e aquisição de equipamentos são estimados em dois milhões de dólares americanos. Segundo as previsões do médico especializado em saúde pública, o custo do primeiro ano de funcionamento é estimado em 300.000 dólares americanos.

Um terceiro exemplo é o hospital de Croix-des-Bouquets, construído pelo governo turco em 2012. Atualmente, a construção está tomada pelo mato e por animais, como foi descrito por Saintus (2018). De acordo com o autor, com um investimento de 1,7 milhões de dólares americanos, o hospital possui grande parte dos equipamentos necessários para atuar. Todavia, uma parte importante de materiais está retida na alfândega há anos. No bairro onde fica o hospital, a maioria da população ignora a sua existência. Quando um jornalista pediu a um morador do bairro para indicar-lhe o caminho até hospital, ele respondeu “lopital sa La toujou?” (Esse hospital existe ainda?). Uma garagem que fica na frente da construção é o principal ponto de referência. Saintus (2018) descreve sua visita à obra com as seguintes palavras:

Son entrée comme son intérieur ne laissent présager qu’il s’agit d’une infrastructure devant abriter un centre hospitalier. La cour est envahie par les mauvaises herbes. On y remarque de la crotte de bique, une dizaine de poules qui grattent, picorent et circulent librement.À l’intérieur du bâtiment, des équipements et matériels entassés sont couverts de poussière. Pour quelqu’un qui a visité l’immeuble dans le temps, le changement saute aux yeux. Autrefois, il y avait les drapeaux des deux pays (Turquie et Haïti) estampillés sur la façade principale de l’immeuble. Aujourd’hui, il ne reste que le bicolore national. Le mur a été repeint avec une peinture plus vive, capable de couvrir le drapeau rouge étoilé de la Turquie23.

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Sua entrada como seu interior não sugere que seja uma construção para servir como um hospital. O quintal está cheio de ervas daninhas. Notamos excremento de bichos, uma dúzia de galinhas que se coçam, bicam e circulam livremente. Dentro do prédio, equipamentos e materiais empilhados estão cobertos de poeira. Para alguém que visitou o prédio há tempos, a mudança é óbvia. Antigamente, havia bandeiras dos dois países (Turquia e Haiti) estampadas na fachada principal do prédio. Hoje, apenas a cor nacional permanece. A parede foi repintada com uma tinta mais brilhante, capaz de cobrir a bandeira vermelha da Turquia (Tradução literal).

O governo turco teria considerado que depois de algum tempo, o Ministério da Saúde poderia assumir a instituição e trazer médicos especialistas turcos para fazê-lo funcionar, como foi combinado entre os dois governos. Dificuldades de todos os tipos fizeram com que a Turquia abandonasse esse projeto. Os agentes de segurança que zelavam pelo prédio não são mais pagos pelo consulado turco no Haiti, pois desistiram de investir em algo que não funciona. Hoje, esses agentes recebem um salário do Ministério da Saúde. Como os turcos, o governo haitiano abandonou o hospital. Todas as vezes em que foi questionado sobre o fechamento do hospital, a única resposta possível dada pelo governo foi “FALTA DE FINANCIAMENTO” como se fosse um mantra. Enfim, muitos hospitais não conseguem funcionar, quando funcionar não atua de forma adequada; há faculdades de Medicina que estão lutando para cumprir a sua missão com pouco orçamento; há escolas que formam profissionais de saúde que não tem credenciamento, há funcionários que fazem greves sem fim. Como foi destacado por um dos editores do jornal Le Nouvelliste, no “Haiti a saúde está doente” (SAINTUS, 2018). Eis a situação do sistema de Saúde geral no Haiti. Já que o nosso objeto de pesquisa é a fecundidade, vejamos a situação da saúde da mulher e mais especificamente sua saúde sexual e reprodutiva.