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CAPÍTULO 4 – DETERMINANTES DA FECUNDIDADE NO HAITI: UMA

4.1 Escolaridade

O setor formal do sistema educativo haitiano é subdivido em 4 níveis hierárquicos (MENFP, 2010): 1) a pré-escola, destinada às crianças de 3 a 5 anos, que não tem caráter obrigatório; 2) o primário que tem duração de seis anos e teoricamente é o único nível obrigatório; 3) o secundário que exige sete anos de estudo; 4) o ensino superior ou estudos universitários. O setor formal também inclui uma quinta modalidade de estudos: a educação profissional, que seriam os cursos técnicos de capacitação. O indivíduo que se encontra nessa quinta modalidade já teria concluído, ou estaria cursando um dos níveis precedentes.

As pesquisas da DHS classificam o nível de escolaridade no Haiti em sete categorias (primário completo; primário incompleto; secundário completo; secundário incompleto; superior; sem instrução; e não sabe). Para facilitar a análise, essa variável foi reclassificada em três grandes categorias: 1. Sem escolaridade a primário incompleto; 2. Primário completo a secundário incompleto; 3. Secundário completo e mais. Entre 1994-95 e 2016-17, a proporção de mulheres de 15+ anos sem instrução a primário incompleto declinou de 75% para 47,8%. Em compensação, houve umaumento do percentual de mulheres de 15+ anos que possuem primário completo a secundário incompleto (21,1% em 1994-95 e 43,2% em 2016-17). Quanto àquelas com nível secundário completo ou mais, o percentual cresceu, passando de 2,1% a 8,9% entre 1994-95 e 2016-17 (Gráfico 9). Percebe-se que, de modo geral, apesar de certa melhoria na educação das mulheres haitianas de 15+ anos, a maior parte pertence ao grupo sem instrução a primário incompleto.

GRÁFICO 9 – Distribuição da população haitiana de 15+ anos segundo nível de escolaridade por

sexo em 1994-95 e 2016-17

Fonte: DHS (1994-96; 2016-17) (Microdados dos membros do domicílio).

Quando se atenta para a comparação entre os sexos, em 1994-95, enquanto 75% das mulheres de 15+ anos se encontraram na categoria sem escolaridade a primário incompleto, 65,1% dos homens de mesmo recorte etário se encontravam nessa categoria. Para o mesmo ano, 25,5% dos indivíduos de sexo masculino possuíram ensino primário completo a secundário incompleto. As mulheres dessa categoria representavam 21,1%. Quanto ao ensino secundário completo ou mais, os homens representavam 5,4%, enquanto apenas 2,1% das mulheres se enquadravam nessa categoria (Gráfico 9).

Em 2016-17, o gap entre os sexos diminuiu consideravelmente entre todos os níveis. Entre elas, 47,8% pertencem ao grupo sem instrução a primário incompleto, ao passo que entre eles, 41,9% se encontram nessa situação. Para o nível primário completo e secundário incompleto, 45,1% dos homens se enquadram nessa categoria, enquanto entre as mulheres, são 43,2%. Apesar de certa diminuição do gap educacional entre os sexos ao longo do período analisado, as mulheres estão em desvantagens em relação aos homens – tendência que permanece no nível secundário completo ou mais, onde 12,7% dos homens atingiram esse patamar educacional, em contraste com apenas 8,9% das mulheres (Gráfico 9).

Apesar da desigualdade educacional que existe entre homens e mulheres, o avanço das mulheres do ponto de vista educacional é evidente. Todavia, o baixo nível

65,1 75,0 41,9 47,8 25,5 21,1 45,1 43,2 4,1 2,1 12,7 8,9 5,4 1,8 0,3 0,1 0 10 20 30 40 50 60 70 80

Homens Mulheres Homens Mulheres

1994-95 2016-17

%

sem instrução a primário incompleto primário completo a secundário incompleto secundário completo ou mais não sabe

educacional da população de 15+ anos de ambos os sexos é consequência de um sistema educativo excludente, que impõe severas barreiras à escolarização dos mais vulneráveis. A educação pública está longe de oferecer uma cobertura que assegure o acesso a todos os cidadãos. Boa parte das instituições educacionais é privada, o que por vezes torna economicamente insustentável para as famílias manter seus filhos na escola.

Ademais, no sistema educativo haitiano existe um exame oficial durante o último ano do secundário (ciclo final de 7 anos) denominado “Baccalauréat”. Para facilitar a compreensão, ele seria em parte comparável ao Exame Nacional do Ensino Médio-ENEM no Brasil. Ser aprovado neste exame é condição necessária para o ingresso na universidade. Por outro lado, ele não garante por si só uma vaga na universidade, pois todos os candidatos aprovados no “Baccalauréat” devem ainda se submeter a uma espécie de vestibular. Na ausência de uma “boa” escola, a chance de reprovar neste teste é muito grande.

Em umapesquisa realizada sobre transição para a vida adulta dos jovens haitianos na cidade de São Paulo, já foi ilustrado que o “Baccalauréat” representa um obstáculo à continuidade dos estudos de muitos jovens haitianos (BAPTISTE, 2015). Sem a aprovação neste exame, os jovens veem estancadas todas as chances de progressão educacional e de qualificação profissional de nível universitário. Como foi ressaltado pela autora, a sensação é de que se tem no Haiti uma “dupla peneira” constituída pelo “Baccalauréat” e o vestibular. Os jovens haitianos percebem o “Baccalauréat” como um mecanismo de exclusão social, pois estudantes provenientes de escolas confessionais – a maioria de congregações religiosas e com maior rigor educacional e disciplinar – geralmente têm melhor desempenho no “Baccalauréat”, enquanto os demais tendem a ser rechaçados (BAPTISTE, 2015). Cabe destacar que essa situação não afeta exclusivamente às mulheres.Todavia, em um contexto no qual muitas vezes as famílias precisavam optar acerca de qual filho deveria receber investimentos, somado a um cenário onde as mulheres desde muito cedo constroem suas diretrizes de vida ao redor de projetos de constituição de família, o desfecho tende a ser a manutenção de um gap educacional favorável aos homens. Essa tendência geral pode vir a ser questionada pelas gerações mais jovens. De acordo com o gráfico 10, na faixa etária 20-24 anos em 2016-17, praticamente o mesmo percentual de moças e rapazes atingiu o nível educacional mais elevado aqui considerado (secundário completo ou mais). Na faixa 25-29 anos, embora os homens mantenham vantagens sobre as mulheres para aquele mesmo ano, nota-se que o gap é menor do que entre os grupos etários subsequentes.

GRÁFICO 10 – Proporção de homens e mulheres com secundário completo ou mais segundo grupo

etário quinquenal em 1994-95 e 2016-17

Fonte: DHS (1994-96; 2016-17). (Microdados dos membros do domicílio).

A educação é reconhecida como um determinante clássico da fecundidade. A literatura sobre fecundidade já mostrou há muito tempo evidências de que o número de filhos tende a cair com o aumento do nível de instrução da mulher. Aliás, a escolaridade das mulheres é um elemento fundamental da transição da fecundidade. Essa hipótese é também válida para o caso haitiano. O Gráfico 11 apresenta as taxas de fecundidade das mulheres haitianas de acordo com a escolaridade. Primeiro, nota-se uma tendência de redução nas taxas de fecundidade das mulheres das categorias sem escolaridade a primário incompleto; e primário completo a secundário incompleto. Nessa primeira categoria, a taxa de fecundidade passou de 5,4 filhos por mulher em 1994-95 para 4,4 filhos por mulher em 2016-17. A fecundidade das mulheres com ensino primário completo e secundário incompleto passou de 2,9 para 2,7 filhos por mulherno mesmo período. Quanto às mulheres com nível secundário ou mais, a mudança foi quase insignificante (1,2 em 1994-95 contra 1,3 filhos por mulher em 2016-17) (Gráfico 11). Essa tendência observada na fecundidade das mulheres em relação à escolaridadesegue a lógica da região latino-americana e caribenha na medida em que o ritmo da redução da fecundidade já é maior entre os grupos mais desfavorecidos (CHACKIEL; SCHKOLNICK, 2003).

GRÁFICO 11 – Taxa de fecundidade no Haiti de acordo com o nível educacional atingida: 1994-95 e

2016-17

Fonte: DHS (1994-95; 2016-170. (Microdados referentes a mulheres em idade reprodutiva).