3. Implementação do LARCI
3.1 Acesso ao PRODECAD
Após a minha qualificação, iniciei a reestruturação desta pesquisa. Durante a qualificação foi evidenciado que o LARCI seria o principal objeto de análise e que, pela sua implementação, eu teria mais clara as questões mais relevantes para serem abordadas no desenvolvimento da tese. Já que defendo a formação prática da regência em ambientes reais, seria necessário vivenciar o Laboratório para observar as principais demandas deste processo. A partir da produção e do desenvolvimento dele, recolheria os dados que trariam as contribuições para responder e justificar o potencial deste tipo de espaço no Ensino Superior em Música.
O projeto para o desenvolvimento foi previsto para ser implementado no primeiro semestre de 2018, desta forma, iniciei a sua produção no segundo semestre do ano anterior. Inicialmente precisei escolher um espaço onde haveria a possibilidade em organizar um coral infantil que aceitasse que eu realizasse a pesquisa.
Para a escolha do local do LARCI, a princípio, foi importante considerar se o coral seria criado em um local onde já houvesse as crianças, como escolas ou espaços de educação não formal, ou se ele seria proposto via um curso de extensão da Unicamp, para convidar a comunidade no entorno a se matricular nele, de modo que se criasse um espaço novo de formação. Acordou-se que a primeira opção seria mais viável, já que garantiria que as alunas e alunos já estivessem alocadas/os, evitando assim a necessidade de divulgação de um curso novo, correndo o risco que não houvesse inscritos, além de diminuir a tramitação burocrática e de produção deste curso.
Integração da Criança e do Adolescente (PRODECAD), espaço da Unicamp onde é oferecida a educação complementar das alunas e alunos de 6 a 14 anos, em sua maioria matriculados na E. E. Sérgio Pereira Porto, exclusivamente direcionado aos filhos e filhas das/os funcionárias/os e discentes da Unicamp e da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (FUNCAMP). O PRODECAD foi criado em 1987 pertencendo à Divisão de Educação Infantil e Complementar da Unicamp (DEDIC).
Solicitei uma possível reunião com a intenção de apresentar uma proposta de oficina de música para as crianças. Neste primeiro encontro, fui recebido pela Coordenadora de Projeto Socioculturais daquele período e durante essa conversa falei brevemente sobre o meu projeto de doutorado e sobre o interesse em criar um coral com as crianças matriculadas. Neste mesmo dia foi solicitado que o meu projeto fosse enviado para ser avaliado pela coordenação pedagógica e que a princípio, havia o interesse de implementação da proposta. Seria importante também que eu propusesse o número de crianças no coral, quantos encontros aconteceriam por semana e a duração dos ensaios, isto é, estruturasse melhor a minha proposta.
O PRODECAD, além de ser vantajoso por já oferecer um público de crianças matriculadas e tanto a instituição quanto as próprias crianças estarem habituados a proporem oficinas como parte de sua rotina pedagógica, também fica dentro da Unicamp, fato que facilita aos graduandos e graduandas a participação no LARCI, evitando custos e tempo de locomoção.
Para a estrutura do projeto foram discutidas as seguintes questões:
1. A faixa etária dos cantores e cantoras foi estabelecida para no máximo 10 anos, já que este projeto está direcionado para coros infantis, sendo que inicialmente não havia a intenção em abordar com profundidade os assuntos que envolvem os aspectos da adolescência e juventude. Para também determinar um perfil do grupo foi sugerido que fosse para aquelas crianças que estivessem pelo menos no 2º ano do Ensino Fundamental I, cuja média etária é de 7 anos de idade. A ideia foi reduzir o número de crianças que não estivessem alfabetizadas, já que também foi pensado o uso de partituras musicais como parte do ensaio, e h á
a leitura das letras das músicas do repertório, pois não haveria sempre muito tempo para memorização do repertório. Apesar de não se necessário ser letrado para a prática coral, já que as canções também podem ser aprendidas exclusivamente por memorização, sem o recurso do uso da leitura, no caso de grupos em que a maioria das crianças não sabe ler, a estrutura do ensaio precisa ser elaborada à luz deste contexto, é normalmente é necessário fazer mais repetições para que as letras das canções sejam memorizadas;
2. Acordamos que após o carnaval seria o momento ideal para iniciarmos os ensaios. Na minha avaliação, quanto mais perto do início do semestre letivo da graduação, que geralmente ocorre em março, maior seria a chance de as/os integrantes do LARCI já estivessem disponíveis, devido à proximidade com o fim das férias de verão da graduação na Unicamp. Para a Coordenadora de Projetos Sociais, após o carnaval as crianças já estariam mais adaptadas, retomando as suas atividades e rotinas no PRODECAD. Combinamos então de iniciar o projeto na última semana de fevereiro. Necessitaríamos também de um encontro de planejamento para este primeiro ensaio com as crianças, dessa, também aconteceria, alguns dias antes do início das atividades com as crianças, uma reunião com as/os integrantes do LARCI já no PRODECAD, para observarmos o espaço;
3. Para a escolha do dia da semana em que aconteceriam os ensaios no PRODECAD foi importante destacar que as/os integrantes do LARCI precisariam de dois momentos de encontro, um para planejamento e estudo e outro para o ensaio com as crianças, para a prática. Verifiquei os horários das disciplinas que seriam fornecidas no primeiro semestre de 2018 do curso de graduação em música. Também conversei com uma docente desse mesmo curso buscando uma sugestão de horário e dia da semana com menos aulas oficiais do curso, para que pudéssemos escolher esse dia, para que houvesse mais disponibilidade e, possivelmente, mais inscritos no LARCI. Nessa conversa com a docente do curso decidimos: que as alunas e alunos da licenciatura provavelmente se interessariam em participar do LARCI e que, por isso, seriam convidados; e que daríamos preferência para aqueles que estariam no começo da graduação, ou seja, os que normalmente têm mais disponibilidade de horário, já que ainda não tiveram
muito tempo para se envolverem em outros projetos. Assim, investiguei melhor o horário do 3º semestre da licenciatura em música, este é o período em que se iniciam os estágios obrigatórios do curso. A grade do curso de bacharelado em regência, outro público-alvo desta pesquisa, também foi utilizada como referência para esta escolha. Terça-feira foi então a data escolhida e pensei inicialmente no horário das 10h às 11h. Tendo decidido isso com base nas informações que obtive dos cursos, comecei a divulgar um primeiro encontro para quem estivesse interessado em desenvolver um coral infantil, com postagens no Facebook, grupos de e-mails e cartazes pelo Instituto de Artes da Unicamp.
Recebi 18 e-mails de pessoas interessadas e para cada uma delas enviei a seguinte resposta:
Olá NOME DA PESSOA!
Tudo bom? Sou aluno do doutorado e supervisor do Projeto Primeira Nota. Minha pesquisa é voltada aos currículos no Ensino Superior em formação de Regência Coral. Como proposta prática criarei este laboratório, onde os integrantes regerão.
momento de planejamento e formação, onde serão discutidos os assuntos que envolverão os ensaios e a formação teórica e prática nas questões acerca da prática de regência coral infantil no geral.
Aguardo você na nossa reunião. Assim que eu confirmar quantas pessoas irão, aviso em qual sala será!
Desde já, obrigado!
No dia do encontro, estavam presentes quatorze pessoas, incluindo o meu orientador. Recebi três e-mails justificando a ausência. Éramos cinco homens e nove mulheres, em sua maioria da licenciatura em música, duas pessoas do bacharelado em regência e uma ingressante no Mestrado em Música. Uma das alunas da licenciatura também cursava a modalidade combinada com o curso de bacharelado em piano.
Em roda, iniciei falando sobre minha pesquisa justificando as intenções de começar um coral infantil no PRODECAD. Ao meu ver, naquele momento todas e todos se demonstraram interessadas/os. Expliquei que ainda não havia sido completamente decidido o horário dos ensaios, porém, das 10h até as 11h (como informado no cartaz de divulgação) aconteceria um dos encontros: ou o planejamento ou o ensaio. Assim, ter esta disponibilidade de horário seria impreterível para participar. Acordou-se que após o dia 23 de novembro (data que seriam divulgados os horários das disciplinas da graduação) eu enviaria uma planilha com as propostas de horários e que aquela que tivesse o maior número de inscritos disponíveis seria a escolhida para o segundo encontro semanal.
Eu havia confirmado uma segunda reunião com a coordenação do PRODECAD e já haviam me enviado um documento que oficializava a viabilização do projeto, aprovando minha proposta. O coral que imaginei para o LARCI teria um ensaio por semana de uma hora e meia de duração. Seria um grupo fixo de no máximo trinta integrantes, considerando também que poderia haver evasões ou novas crianças interessadas ao longo do semestre. Provavelmente aprenderíamos três ou quatro canções, além de alguns jogos cantados. Esse repertório seria escolhido junto aos discentes inscritos do LARCI, mas eu levaria uma canção para o planejamento do primeiro
dia.
Nessa reunião no PRODECAD fui recebido por uma professora que já havia organizado variados projetos de música com aulas de instrumentos e musicalização com as crianças. Informalmente, ela me orientou sobre a rotina do espaço, me contando um pouco de sua trajetória naquele lugar. Cordialmente ela me ofereceu sua ajuda e aceitei imediatamente. Em seguida, fui recebido pela coordenação do espaço e iniciamos oficialmente a reunião esclarecendo algumas dúvidas sobre o projeto.
As crianças no PRODECAD não têm uma rotina obrigatória de oficinas a toda semana, isto é, elas podem circular livremente pelas as atividades que estiverem acontecendo, o que impossibilitaria, a princípio, a existência de um grupo fixo. Explicaram-me que anteriormente houve um projeto que obrigava a participação das crianças e que não gerou resultados positivos para as crianças e nem para o docente proponente. A coordenação tinha receio que o coral se tornasse desgastante e pouco motivador, tornando-se diferente das propostas implementadas normalmente neste espaço. Sendo assim, o coro não teria um grupo de participantes fixo. Todas as semanas teríamos que aceitar, provavelmente, crianças diferentes, o que exigiria que os ensaios tivessem o caráter de oficinas de curta duração. Isto é, mesmo que algumas crianças pudessem se interessar e ir a todos os encontros, algumas poderiam ir somente alguns dias. Por conta dessa situação específica não poderia haver canções no repertório que demorassem muito tempo para serem apreendidas. Explicaram-me que normalmente quando as crianças gostam das atividades, costumam frequenta-las com frequência. Na expectativa que o LARCI pudesse desenvolver ensaios eficientes e envolventes, parti da premissa que tínhamos potencial para isso, já que o resultado positivo do laboratório favoreceria a minha pesquisa.
Também discutimos que as crianças não conheciam exatamente a proposta. Então haveria uma chance que iniciássemos o projeto com um grupo itinerante e, na medida que houvesse um número relevante de crianças fixas, poderíamos repensar o modelo ou mesmo ampliá-lo.
Decidimos então que começaríamos como uma oficina livre. Este tipo de oficina requer que o grupo de crianças aprenda a realizar algum tipo de performance vocal em
um único ensaio. Mesmo que as canções se repetissem ao longo dos encontros seria importante que o repertório não requeresse muitos encontros para assimilação. Sendo assim, canções muito curtas e jogos que associassem o uso da voz ou algum tipo de performance cênico-corporal seriam fundamentais. Importante destacar que o objetivo inicial seria cativar as crianças para que se interessassem pela prática coral e, futuramente, caso fosse bem-sucedido, pudéssemos criar um coro com crianças definidas e constantes. Entendi a importância das questões oferecidas pelo PRODECAD e, mesmo com esses aparentes limites, decidi que poderíamos tentar. De qualquer maneira as/os inscritas/os no LARCI teriam a possibilidade de praticar a condução dos ensaios. Não seria o que normalmente acontece, ou seja, quando a/o regente programa um longo período de ensaios para o aprendizado do repertório; mas tínhamos que começar de algum lugar. Também considerei que quanto mais adversas fossem as condições, mais questões surgiriam para o debate, situação que poderia ser positiva para a coleta de dados.
Para facilitar a frequência das/dos estagiárias/os nas reuniões e nos ensaios, decidimos que ambos os encontros aconteceriam no mesmo dia, e a coordenação do PRODECAD disponibilizou uma sala para que ficássemos toda a manhã realizando as atividades do LARCI. Às terças-feiras pela manhã poderíamos ensaiar às 9 horas, com duração de 50 minutos. Em seguida, também faríamos o planejamento no próprio PRODECAD. Também foi considerada a possibilidade de algum funcionário ou funcionária do espaço que também quisesse participar do projeto nos ensaios.
Como ampliação do LARCI, foi proposto que ocorresse quinzenalmente uma oficina com as próprias professoras do PRODECAD, buscando aproximá-las do projeto. Discutimos naquele momento a importância de toda a comunidade escolar se envolver com a proposta, promovendo maiores vínculos com a atividade coral. A ideia era que fossem proporcionadas vivências com as professoras similares às das crianças durante os ensaios, discutindo a relevância dos processos de ensino na prática coral. Desta forma o LARCI começaria atuando em três frentes: o coral com as crianças, a formação das/os regentes e um curso de educação musical para as profissionais da educação do PRODECAD.
Aproveitamos esse encontro e marcamos uma apresentação às professoras da proposta para o início do mês seguinte. Pensamos que seria interessante realizar a apresentação básica do projeto e proporcionar algum tipo de vivência prática, aproximada daquelas previstas para os ensaios do coral. O principal objetivo era justificar a minha pesquisa para elas e também, caso elas gostassem, poder contar com a ajuda delas em sua implementação com relação às crianças. Também naquele momento, elas seriam convidadas a se integrar ao projeto.
Organizamos, então, a seguinte estrutura:
• 07h30 às 08h20: formação quinzenal com as professoras e professores do PRODECAD;
• 08h40 às 09h: chegada das/dos integrantes do LARCI para produção do ensaio;
• 09h às 09h50: ensaio com as crianças; • 10h às 11h30: planejamento do ensaio.
Estando então o período estipulado, com a divulgação aos interessados iniciais recebi 13 fichas de inscrição preenchidas. A ficha seguia o seguinte modelo:
3.1.1 Ficha de Inscrição LARCI
1. Nome:
2. Curso e período:
3. Instrumento:
4. Experiência com o canto coral:
5. Qual a razão que levou você a se interessar pelo LARCI?
O objetivo foi organizar os dados básicos das/dos participantes e levantar hipóteses de motivação da participação no LARCI para poder avaliar, após o fim deste
semestre de implementação, se as expectativas e intenções da participação no laboratório seriam atendidas ou transformadas ao longo do processo.
Incialmente tivemos dez mulheres inscritas e três homens. Dez participantes eram graduandas/os de variados semestres da licenciatura, com exceção de duas pessoas já formadas, sendo uma delas ingressante no mestrado em música nesse mesmo período. Também houve uma inscrição de uma aluna já formada no bacharelado em flauta transversal. Nesse grupo havia também três pessoas que cursavam a modalidade combinada da licenciatura com o bacharelado em cursos diferentes. As habilidades instrumentais deste grupo eram compostas por pianistas, cantores, flautistas transversais e violonistas.
Todas as pessoas relataram experiência como cantores em grupos corais amadores e sete deles haviam cantado em coros quando crianças ou adolescentes, preservando uma memória da vivência nesta prática como coralista. Destaca-se também que a intenção geral do grupo de participar do laboratório era desenvolver a prática de regência com vistas à profissionalização nesta área. Uma das participantes também se inscreveu para desenvolver seu Trabalho de Conclusão de Curso associado ao laboratório; e ainda outra tinha interesse em enviar um projeto para o PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da CAPES).