3. Implementação do LARCI
3.2 Registro dos dados
Organizei três fontes básicas para o registro das atividades. A primeira delas foi o registro em vídeo, totalizando vinte e uma horas de gravação que abarcam todos os encontros de planejamento e ensaio.
Como segunda fonte, durante os ensaios com as crianças uma das/os estagiárias/os ficaria responsável por observar e registrar por escrito, numa espécie de diário de aulas, como havia sido o desenvolvimento das atividades. Também
realizaríamos a leitura destes relatos nos planejamentos seguintes para deflagrar o debate. Por fim, como terceira fonte e associando estes dois tipos de registros, semanalmente eu mesmo redigi um diário de campo de caráter mais pessoal, onde, após a visualização dos vídeos, relatei os assuntos debatidos, as falas dos participantes e análises prévias do que havia ocorrido tanto no ensaio quanto no planejamento.
O diário de campo foi um instrumento de registro de dados realizado de forma intermitente durante todo o tempo de realização da pesquisa para ser analisado posteriormente. Embora seja desenvolvido para relatar as ações ocorridas, também abre espaço para análises e interpretações imediatas, além da enumeração das ocorrências. Nesta pesquisa a enumeração das ocorrências também ficou sob encargo dos registros de ensaio das/os estagiárias/os realizados semanalmente. Deve-se destacar que nesse montante de registros escritos as notas descritivas tendem a ser mais extensas comparadas às reflexivas. Porém, foi importante que as reflexões já estivessem no diário, mesmo que elas tivessem um caráter mais interrogativo, tendo sido colhidas praticamente no “calor da hora”. Isto porque, segundo Roese, a partir das interrogações do/a observador/a e organizador/a do diário, o/a pesquisador/a tem a oportunidade de avaliar e alterar suas próprias ações e conceitos. (ROESE, 2006)
A autora Roese (2006) destaca seis aspectos para serem considerados na construção de um diário de campo: retrato dos sujeitos; reconstrução dos diálogos; descrição do espaço físico; relatos de acontecimentos particulares; descrição das atividades e comportamento do observador. Estes aspectos também foram utilizados como temas geradores da categorização para análise do diário e são mais bem detalhados a seguir:
Retrato dos sujeitos: apresenta os aspectos físicos, etários, culturais,
particularidades dos sujeitos. A ideia é descrever todos os aspectos significativos que influenciem de alguma forma suas ações. Nesta pesquisa, para a análise do diário, estes dados descrevem as/os estagiárias/os e as crianças, buscando relacioná-los;
Reconstrução dos diálogos: descreve as falas e expressões corporais que
Busca-se valorizar as/os participantes da pesquisa como ativas/os no desenvolvimento da mesma. No LARCI, as/os estagiárias/os são o grupo que foi mais atentamente observado, embora não se descarta a importância da observação e participação das crianças na construção das relações e, consequentemente, no desenvolvimento dos ensaios e planejamento; Descrição do espaço físico: relatam as estruturas físicas dos espaços
buscando relacionar as influências que estas condições impõem para o dado analisado;
Relatos de acontecimentos particulares: descrevem casos pontuais que
foram observados como geradores de fatos relevantes de análise, a partir da observação do relato do diário. No caso particular desta pesquisa, foram anotadas as ocorrências que geraram debates ou atividades relevantes durante os ensaios e planejamentos. Destaca-se que normalmente o que acontecia no ensaio determinava o que seria debatido ou praticado no planejamento;
Descrição das atividades: detalham todas as atividades incluindo reflexões
relevantes à pesquisa. No ensaio, foram descritas como as/os estagiarias/os conduziam suas propostas, avaliando a participação das crianças. Já no planejamento foram apresentados os temas debatidos e as propostas práticas, tais como aquelas realizadas nos ensaios musicais;
Comportamento do observador: apresentam como as ações do observador
interferiram na pesquisa. Ou seja, como eu atuei e me autoavaliei na coordenação do projeto. É interessante destacar que ao longo da construção do diário tive a oportunidade de ver nos vídeos como eu me comportava normalmente nas aulas e pude, aos poucos, ir buscando referências para a minha auto avaliação (isso quis dizer, em resumo, buscar outras formas de agir que eu entendi que seriam mais eficientes na coordenação do LARCI). Todos o diário foi organizado pelo seu dia, realizado semanalmente e divido em duas partes: ensaio e planejamento. Para a análise foram determinadas categorias, buscando agrupar, a partir dos temas geradores propostos pela autora Roese (2006), as similaridades das ocorrências e assuntos, organizadas nos principais tópicos:
Estrutura do ensaio: apresenta as discussões dos momentos de planejamento (tais como horário e sequência de atividades) focado em desenvolver as atividades que aconteceriam com as crianças.
Debate das atividades: foram descritas todas as propostas e análises dos planejamentos a partir dos ensaios conduzidos pelas/os estagiárias/os com ou sem a minha interferência. Buscou-se relacionar como a organização e as ocorrências do planejamento foram influenciadas pelo ensaio;
Mais reflexões do observador: apresenta as observações, ações e reflexões realizadas pelo autor desta pesquisa.
Estas categorias serão apresentadas em 4 etapas. A primeira (PRIMEIRO PLANEJAMENTO) retrata o primeiro encontro com as/os estagiárias/os em que somente foi realizado o planejamento do primeiro ensaio com as crianças, além da apresentação dos principais objetivos e conceitos que envolviam o projeto. A segunda etapa (PRIMEIRO ENCONTRO COM AS CRIANÇAS) observa o primeiro dia com as crianças, dando início aos ensaios reais. A terceira (OFICINAS EXPERIMENTAIS) discute os cinco encontros seguintes nos quais as/os estagiárias/os já conduziram as atividades, porém, as crianças eram conduzidas pelas professoras de sala até o local do ensaio). A quarta e última etapa (ENSAIOS ABERTOS) apresenta a segunda fase do projeto na qual as crianças, com autonomia, começariam a frequentar os ensaios e começaríamos de fato buscar desenvolver um grupo fixo coral no PRODECAD. Também nesta fase as funções dentre as/os estagiárias/os já estariam mais bem estabelecidas e já conheceríamos o perfil básico das crianças daquele espaço.
A seguir, a tabela apresenta as datas (1º semestre de 2018) de realização de cada uma das etapas analisadas:
ETAPA DATA
Primeiro planejamento 20/02
Oficinas experimentais 06/03 até 03/04
Ensaios abertos 10/04 até 22/05
Tabela 12: calendário dos ensaios.
Observe que o texto escrito em itálico representa a transcrição direta do diário de campo, isto é, copiei as informações que foram escritas por mim durante a execução do mesmo. O texto escrito em negrito são as transcrições das falas. As análises são apresentadas a seguir.