Parte II – Das orientações metodológicas à recolha e análise dos dados empíricos
Capítulo 2 - Análise e interpretação dos dados
2.9. Saúde mental e comportamentos aditivos
2.9.1. Acompanhamento psiquiátrico e psicológico
Os dados do nosso estudo têm revelado que os homens evitam recorrer aos serviços de saúde em meio livre, para obterem acompanhamento médico, postura que se modifica em meio prisional, pois até consentem acompanhamento psiquiátrico e psicológico, que antes era impensável aceder ou aceitar.
“fui a uma consulta de psiquiatria duas vezes, nunca tinha tido antes, por isso não consigo avaliar, nunca fui a um psiquiatra, a primeira vez foi agora durante a reclusão.” (Recluso H – EP Aveiro).
Efetivamente a consubstanciar o já referido e no que concerne à doença mental registaram-se mudanças nas politicas de saúde, em que, a mas evidente foi a desinstitucionalização da doença mental, que de acordo com Hespanha (2012), os pacientes psiquiátricos que não tivessem problemas sociais ou comportamentais mantinham-se no seu ambiente socio-residencial, deixando de ter acompanhamento médico sistemático, a ausência de consultas desta especialidade leva a que os pacientes deixam de tomar a medicação ou então automedicam-se surgindo problemas de saúde que não conseguem solucionar.
“Automediquei-me… e depois comecei a ter problemas de ataque de pânico.” (Recluso E – EP Caldas da Rainha).
A consequência deste desequilíbrio leva à criminalização da doença mental que segundo Shenson et al., (1990) nalguns sujeitos com perturbações mentais, o facto de não terem apoio familiar/comunitário/médico ou por impulso da própria doença, tornaram-se muito vulneráveis, acabando por se envolver em delitos e muitos foram detidos.
“A falta de acompanhamento psiquiátrico acabou por diretamente meter-me aqui dentro, se tivesse acompanhamento não tinha vindo preso. Na altura e nos primeiros meses que entrei para aqui achava que não era relevante, o acompanhamento psicológico só passado meio ano e após tomar medicação que me ajuda a descansar melhor é que percebo, o trabalho ajuda a manter-me uma rotina, praticar desporto.” (Recluso E – EP Aveiro).
“Eu vou crer que acontece na maioria dos casos… se não a maioria das pessoas não estariam aqui… porque há um défice de acompanhamento psicológico ou sociológico para que não se cometam certos erros… por isso estamos aqui.” (Recluso D – EP de C. Branco).
Existe consonância com a ideologia de Marques-Teixeira, (2004) que menciona que pelo facto de os indivíduos não procurarem acesso às necessidades básicas, optam por se envolver no mundo do crime. Constatando-se que as prisões funcionam como “depósito” de sujeitos com doença mental (Marques-Teixeira, 2004; Teplin, 1990). Contudo e na perspetiva de Chiles et al., (1990), os doentes são os principais prejudicados, pela dificuldade que têm em gerir a sua vida e garantir os cuidados de saúde necessários.
“Teve, teve! Eu estou aqui porque estive três dias sem tomar a medicação, tive um… sei lá, um surto psicótico ou qualquer coisa assim.” (Recluso F – EP Caldas da Rainha).
Também devido aos apoios sociais que não chegam a todos os que necessitam ou pela escassez dos meios ou mesmo por desconhecimento e ou desinteresse, dos cidadãos na forma como podem aceder ao acompanhamento psicológico e ou psiquiátrico.
“Isso também é uma diferença que agente tem daqui lá para fora, se… tem consultas de psicologia, lá fora ninguém se preocupa muito com esse fato, aqui é mais frequente termos acompanhamento.” (Recluso F – EP Aveiro).
Ainda segundo o mesmo autor e conforme os depoimentos recolhidos, alguns reclusos em meio livre não sentem necessidade de recorrer a consultas e ou tomar medicação, contudo procuram aceder a cuidados de saúde, apoios e benefícios sociais através do sistema de justiça.
“Antes de estar preso fui uma ou duas vezes, mas não gosto de ir a psiquiatras porque penso que sou capaz de dar a volta sozinho. Mas não às vezes é mesmo preciso ir ao psiquiatra e tomar alguma medicação.” (Recluso A – EP Aveiro).
Nesta senda uma sucessão de acontecimentos provocou, uma verdadeira crise no sistema prisional (Marques-Teixeira, 2004), tendo de adequar serviços de saúde psiquiátrica à população reclusa (Shenson et al., 1990). Uma vez preso, o doente mental acede aos cuidados de saúde através dos serviços e recursos disponibilizados pela instituição prisional, o que lhe garante cuidados a que em liberdade seria difícil aceder. Este funcionamento poderá levar ao entendimento que é mais fácil de receber tratamento mental em situação de reclusão (Chaimowitz, 2012).
“Não, não gostava de… não estava aberto… aqui demorei um pouco a abrir… a aceitar ajuda, estava muito fechado em mim próprio… não, eu achava que os outros é que estavam mal, que toda a gente é que tinha de mudar menos eu e… aos poucos fui percebendo que não é assim… que eu posso receber ajuda de… das outras pessoas… e… e beneficiar muito com isso.”(Recluso F - EP de Caldas da Rainha).
Nesta citação também se verifica que o recluso tem relutância em aceitar qualquer tipo de intervenção na área da psiquiatria, pelo estigma que está associado ao recurso desta especialidade. Contudo verifica-se que os reclusos reconhecem os benefícios do acompanhamento que têm na área da psiquiatria e psicologia em meio prisional.
“Sim, porque é uma pessoa que podemos sentirmo-nos ali à vontade e poder descarregar um pouco a nossa carga emocional… isso faz aliviar um bocadinho. (…) Sim, sim, sem dúvida tem-me ajudado bastante, principalmente a psicologia (…). Sinto-me bem a falar com ele… aquela pessoa tem ajudado imenso, por acaso” (Recluso L – EP Caldas da Rainha).
“Enquanto recluso é uma situação a favor o facto de haver cá um psicólogo…” (Recluso E – EP Caldas da Rainha).
Em meio livre os indivíduos não procuram os serviços de saúde, nomeadamente as áreas da psiquiatria e psicologia, por desinteresse, por desconhecimento da própria doença,
pela escassez de meios, falta de acompanhamento, estigma pela procura da especialidade ou outros motivos impeditivos, ao invés em meio prisional acedem aos tratamentos e às consultas da especialidade e acompanhamento, reconhecendo-lhe benefícios que em meio livre não conseguiriam percecionar.