Parte II – Das orientações metodológicas à recolha e análise dos dados empíricos
Capítulo 2 - Análise e interpretação dos dados
2.8. Construção da masculinidade e comportamentos de saúde
Vários autores afirmam que a humanidade é o resultado histórico-cultural, em que se vai modelando as diferenças entre homens e mulheres, não atribuídas à natureza, mas à cultura, efetivamente existem características encaradas como masculinas, nomeadamente a liberdade, o altruísmo, a força, características notórias nas expressões proferidas pelos reclusos.
“O meu problema de saúde é os dentes, está a atacar muito, isto foi derivado de andar à murraça, agora ando a tratar deles” (Recluso E – EP de Aveiro).
“Em liberdade aconteceu que devido aos consumos arranjei uma infeção no braço muito grande. O local onde habitualmente me injetava ficou infetado, um dia quando estava a tomar banho rebentou uma borbulhinha e eu sozinho espremi para retirar o pus todo.
Tentei curar para ver se passava, agora arrepio-me todo ao pensar, mas na altura queria ver se passava sem pedir ajuda (…)” (Recluso G – EP Covilhã).
Os comportamentos adotados revelam que os homens não têm cuidado consigo nem com os outros porque segundo Rice et al., (2011) são preocupações que não são colocadas na sua sociabilização, ou seja, para que a sua masculinidade não seja posta em causa, evitam demonstrar emoções, expressar dor ou procurar ajuda.
“Automediquei-me… e depois comecei a ter problemas de ataque de pânico.” (Recluso E – EP Caldas da Rainha).
“O melhor médico de cada um somos nós mesmos… acho eu… para um primeiro diagnóstico vá… pelo menos eu sou assim, só vou mesmo quando estou assim a precisar muito.
“(Recluso G – EP C. Branco);
“Eu nunca precisei de um médico.” (….) “eu próprio sei tomar conta de mim, sei quando preciso e quando não preciso”. (Recluso B- EP C. Branco)
Na trajetória de vida, os homens têm comportamentos, consumos e estilos de vida prejudiciais para a sua saúde que podem provocar doenças, lesões e por vezes a morte (Schraiber et al., 2005).
“mas quem está cá a primeira vez, muitas das vezes é influenciado a fazer coisas que nem sabe o risco que está a correr, porque é tudo novidade, eu também sou um deles porque também caí nisso, só que podia correr mal” (Recluso F – EP de Aveiro).
Segundo, Wall et al., (2016) os homens em geral, adotam mais condutas de risco, nomeadamente bebem mais, fumam mais e consomem mais drogas, mas também, recorrem menos aos serviços de saúde, até mesmo numa postura preventiva.
“um gajo está a fumar o outro diz dá-me a tua ponta, isso é um risco porque há doenças que são transmissíveis pela saliva.” (Recluso E – EP Aveiro).
Conclui-se que os comportamentos adotados pelos homens, não devem ser entendidos como algo natural à condição de ser homem, mas motivados em parte pelas normas sociais, adotando estratégias, normas e comportamentos, mesmo que estas ponham em causa a sua saúde (Silva et. al, 2013).
“(…) aos 14 anos sai da casa da minha mãe para ir viver com o meu pai, o pai não marcava consultas porque tinha problemas de álcool com consumos regulares, era como eu com o Haxixe, então nem eu nem ele” (Recluso H – EP Aveiro).
Na mesma linha de pensamento, Rice et al., (2011) salienta que as desigualdades de género têm inferências na saúde dos homens e das mulheres, sobretudo no que diz respeito à procura de ajuda quer nos comportamentos de risco, quer na proteção da sua saúde, existindo comportamentos estereotipados no que se refere ao masculino e feminino (Raposo et al., 2016), em que se constata que as mulheres reportam mais sintomas procuram mais cuidados médicos (Augusto, 2013; Macintyre et al., 1996)
“Sim eu estive internado quatro vezes em psiquiatria, porque a minha mãe marcou, pois ela percebia que eu não estava bem.” Recluso F – EP Caldas da Rainha).
“Eu a última vez que fui ao posto médico foi porque a minha mãe me marcou, há 10 anos que não ia lá... Sempre fui muito descuidado com a minha saúde, era a minha mãe que se preocupava comigo, aliás ela é que tem cuidado com os problemas de saúde, dos homens da casa, somos todos uns desleixados…” (Recluso A – EP Covilhã).
O mencionado está em conformidade com Augusto (2013), os homens constroem a sua masculinidade em contraste com crenças e atitudes positivas de saúde, visto que, estas, são entendidas como características de comportamento feminino. Nesta senda e segundo Rabasquinho & Pereira, (2012) também podemos referenciar que as mulheres estão mais atentas, logo, percecionam melhor sinais e sintomas, adotando uma postura ativa em relação à gestão da saúde. Estas adotam crenças e comportamentos de saúde mais preventivos do que os homens, tendo em consideração que, historicamente, por meio da socialização de género, foram encorajadas para tal postura.
“Acho que as mulheres são mais responsáveis nisso, até porque de hoje em dia as doenças que existem, são obrigadas a ir fazer rasteiros, assim como nós, com uma certa idade temos de fazer à próstata, mas muitas vezes ignoramos esses cuidados e poderemos vir a ter problemas graves.” (Recluso F - EP Aveiro).
“As mães e as mulheres são mais cuidadosas, dizem já marquei consulta e eu “Ó qui carago”
(Recluso C – EP Aveiro).
Os excertos corroboram a teoria de Couto et al., (2010) de que as mulheres representam melhor a clientela familiar, pois são elas que estão presentes nas consultas, nas salas de espera, nas filas de centros de saúde ou hospitais. Conclui-se que há homens que reconhecem e valorizam o género feminino, ao invés de outros que adotam ideias e comportamentos machistas desvalorizando o papel da mulher na sociedade, nomeadamente o recluso H do EP Caldas da Rainha menciona que o facto de ser atendido por uma médica passa a ser um obstáculo na procura dos cuidados de saúde.
“Eu médica de família tenho… e não vou ao médico de família porque odeio o meu médico de família, odeio a minha médica… isto é… são coisas pessoais, mas a nível, no trabalho fazia os checkups normais, na carrinha, onde faz análises ao pulmão… eletrocardiograma, sangue e à urina… e Hospital faço de ano a ano, mas também é a mulher que… que eu por mim nunca ia ao Hospital…(risos)”.
Verifica-se ausência dos homens como usuários dos serviços de saúde, este tipo de comportamento e de acordo com Couto et al., (2010) leva à invisibilidade dos homens nos serviços de saúde, postura transversal a todos os participantes.
“Eu nunca fui ao médico… eu nunca fui ao Hospital por estar doente… nunca estive…”
(Recluso G – EP Caldas da Rainha).
“Eu já não me lembro a última vez que fui ao médico, mas foi qualquer coisa do estilo, uma gastroenterite ou coisas assim…” (Recluso B – EP Caldas da Rainha).
“É assim, eu devia ter consultas de psiquiatria, mas não ia…” (Recluso F – EP C. Rainha);
“Eu nunca gostei de ir ao médico”. (Recluso D - EP C. Branco).
“Raramente… eu nem tenho médico de família… e posso dizer que nunca tive grandes doenças ou problemas… Quando ia era para ficar para ser operado ou ossos partidos.”
(Recluso G – EP C. Branco).
“A última vez que fui para exames de rotina, aqui dentro. Lá fora evitava ir ao médico, só se estivesse mesmo muito doente” (Recluso I – EP Covilhã).
Eu não… eu era o meu próprio médico… eu andava sempre fora muito longe. (Recluso G – EP C Branco).
Neste contexto verifica-se que os homens têm trajetórias sociais bem demarcadas, em que a construção social em torno da masculinidade pode gerar efeitos nefastos, na sua saúde Rice et al., (2011) mas ainda se pode afirmar que “Pouco se sabe sobre a forma como a socialização masculina, a pluralidade de masculinidades e as experiências socialmente relevantes dos homens influenciam a saúde no masculino” Wall et al. (2016). Certo é que os homens resistem aos convites para irem ao serviço de saúde e não seguem o tratamento como o esperado em Couto et al., (2010).
“Só ia ao médico de família na última” (Recluso G – EP Aveiro).
“Mesmo assim tentavas adiar” (Recluso F – EP Aveiro).
“Só ia ao médico na última porque a mulher e os filhos diziam vai, vai ao médico, eu gosto pouco de ir às médicas” (Recluso G – EP Aveiro).
Conclui-se que os comportamentos adotados pelos homens não devem ser entendidos como algo natural à condição de ser homem, mas motivados em parte pelas normas sociais (Augusto et al. 2013). Estes adotam estratégias, normas e comportamentos para o desenvolvimento, manutenção e reforço da masculinidade. Os homens são ativos na construção e reconstrução do modelo de masculinidade, Courtenay (2000), cit. em Augusto et al. (2013).