Parte I – Enquadramento teórico
Capítulo 2 – Sistema prisional e saúde
2.1. Evolução do sistema prisional saúde e sociedade
O mundo em que se vive está em constante mudança, muitas destas mudanças são positivas, mas outras não. Para avaliar, temos de perceber como algo começou, o que se modificou e quais os efeitos que causou. Neste contexto, passaremos a mencionar como se alterou o sistema prisional, nomeadamente na área da saúde, face às transformações que surgiram na sociedade. Saliente-se que todas as sociedades têm o seu sistema e cuidados de saúde, que se constituem, em torno de respostas socialmente organizadas para a doença, num contexto cultural específico (Bäckström, 2006).
Iniciando um breve enquadramento histórico, dir-se-á que no século XVII os países europeus, marcados pelo colapso feudal, foram confrontados com populações rurais que, para fugir à fome e falta de trabalho, procuravam os asilos para obterem comida. Estes locais serviam de refúgio aos mendigos, doentes, deficientes mentais e idosos que não tinham quem os cuidasse.
Refira-se que as prisões tiveram origem nos asilos, tendo sido no século XVIII que a distinção entre os asilos e os hospitais se verificou - “(..) durante o século XVIII, as prisões, os asilos e os hospitais tornaram-se gradualmente diferentes entre si” (Giddens, 2004, p.232).
No que concerne às prisões, diremos que por todo o mundo, no século XVIII, a punição era realizada através de castigos corporais, tendo como objetivo proceder ao controlo da ordem social, interferindo diretamente com a saúde do individuo: “o condenado, ou mais propriamente o seu corpo, constituem quase que exclusivamente a razão de ser de toda a justiça” (Gonçalves, 1993, p.79).
Ainda segundo o mesmo autor, as punições serviam para definir o poder instituído, ou seja, garantir a ordem e o controle social. O condenado tinha um duplo papel: era considerado um exemplo didático para o povo e também representava a submissão em relação ao poder instituído. No final do século XVIII e princípio do século XIX, vai-se debelando a “festa da punição” (Foucalt, 2003, p.14), ou seja, a punição deixou de estar centrada no corpo do condenado. Este era exposto em praça pública, subjugado à humilhação do povo, e o culminar de todo sofrimento era a confissão pública do crime, terminando com o conhecimento da sua condenação.
Segundo Gonçalves, (1993), com o decorrer dos anos o ato de punir foi-se alterando e os castigos e as penas usadas também sofreram reformulações, como é o caso da prática de torturas, suplícios, penas de morte, exílio, trabalhos forçados e a privação da liberdade.
No que concerne à saúde em contexto prisional, Esteves (2010) refere que foi um problema que preocupou a população em geral e os responsáveis pelos cárceres. No Antigo Regime, os detidos levavam uma vida desprovida de higiene e de qualquer conforto, e ingressavam nas cadeias sem qualquer verificação do seu estado de saúde. Esta situação manteve-se inalterada durante séculos. As condições precárias das cadeias faziam proliferar rapidamente as doenças.
No século XIX, surgiram as primeiras démarches para a defesa dos direitos do cidadão/delinquente/recluso (Gonçalves, 2002). Neste âmbito deve-se evidenciar a abolição dos suplícios, devolvendo ao condenado a sua dignidade. Mas Santos (1999) refere que foram marginalizados todos os indivíduos que ameaçavam em termos de segurança, saúde e de bem-estar público e que se encontravam em situação de pobreza, marginalidade, crime. Com o intuito de separar todos esses indivíduos, surgem as cadeias, as casas de correção, os asilos e os presídios. Suportada nesta ideologia, as prisões surgem devido à necessidade de isolar e excluir da sociedade os doentes e os condenados, ou seja, impõe-se a separação dicotómica do normal e o anormal, entre o louco e o não louco, do criminoso e o não criminoso (Gonçalves, 1993).
A autora Catarina Frois, na sua obra “Mulheres Condenadas” descreve a dicotomia da sociedade e dos estabelecimentos prisionais de outrora e da atualidade, em que se registava a falta de cuidados básicos, tais como a alimentação, higiene e implicitamente saúde, contrapondo com paradoxo da realidade atual.
“Da primeira vez vinha com medo. Pensei que ia encontrar aqui... como é que hei-de dizer? Uma bodega. Porque eu lembro-me de como era a prisão na vila quando eu era miúdo e as mulheres e os homens estavam todos esfarrapados, tinham os braços de fora das grades e pediam esmola. Eu pensei que era igual. Agora imagine o meu espanto quando chego aqui e vejo as mulheres bonitas, bem arranjadas, bem pintadas, a cantarem e a dançarem”. (Frois, 2017, p.236)
Ainda na mesma página, a autora refere que lera descrições em relatórios dos arquivos da direção dos serviços prisionais, sobre a primeira “prisão” de Odemira sita no centro da vila, no edifício do tribunal, com homens na cave, mulheres no primeiro andar, expostos ao olhar de quem passava, a mendigar comida ou dinheiro. A partir do momento em que foram instalados no local onde agora se encontra a cadeia – e que na época era apenas um monte num descampado – os reclusos desapareceram do olhar e do quotidiano dos habitantes. Com a expansão de habitações e serviços, a prisão já não está isolada, enquadrando-se na paisagem, mas na verdade continua arredada das zonas frequentes da vila, vedada ao público.
Goffman (2001), descreveu “instituições totais”, onde inclui as prisões, como locais separados da sociedade onde as pessoas permanecem por um período de tempo considerável, por imposição, e onde as suas vidas são institucionalmente dirigidas, ou seja, os diferentes aspetos e tarefas da vida quotidiana são realizados num mesmo espaço, com um grupo de pessoas sob uma mesma autoridade e todas as atividades obedecem a regras rígidas, uniformizadas, com horários totalmente definidos. Na mesma linha de pensamento, Foucalt (2003) menciona que as prisões disciplinam os corpos, moldam-se os hábitos, disciplina-se o querer e o ter.
Pese embora se mantenham as regras básicas descritas por Goffman e Foucault, no sistema prisional, todavia muitas alterações surgiram na sociedade e no sistema prisional.
2.1.1. As prisões no século XX
No século XX, a prisão, passou a ser encarada como a ausência de liberdade e esta por sua vez considerada como a forma de punição adequada para quem cometesse crimes;
sendo também, a oportunidade para capacitar os criminosos de comportamentos adequados à vivência em sociedade. Nesta sequência ideológica, dá-se início à organização do sistema penitenciário português, que com base na relevância das alterações legais, passou-se a considerar três marcos importantes. O primeiro marco, reporta-se ao regulamento das cadeias civis do continente e das ilhas adjacentes, de 21 de setembro de 1901, em que a preocupação era regular o modo de execução da pena de uma forma uniforme, em todas as cadeias, o principal objetivo era acabar com o trabalho desempenhado por presos, de tarefas especificas dos estabelecimentos prisionais, ou seja, acabar com os empregados das cadeias;
“descreve-se cuidadosa e minuciosamente as atribuições e deveres dos empregados da cadeia; determinou-se o modo como havia de ser ministrado o ensino, tão útil para o aperfeiçoamento intelectual e moral dos presos; atendeu-se à sua educação moral, incutindo-lhe no ânimo os princípios religiosos e morais, confiando-se especialmente ao professor e ao capelo da cadeia, e cuidou-se por ultimo do
tratamento dos enfermos, organizando-se devidamente as enfermarias das cadeias (…)”(cit. por Ministério da Justiça, 2004, p. 9).
Estabeleceu-se os deveres dos presos e as penas a aplicar, caso não cumprissem com o imposto pela instituição. A segunda Reforma da Organização Prisional é publicada no Decreto-Lei n.º 26 643, de 28 de maio de 1936, incide em dividir as cadeias em estabelecimentos prisionais para acolher preventivos e estabelecimentos prisionais para cumprimento de pena, que se subdividiam consoante o tipo de pena. Todavia o sistema prisional, não descura o ensino e a saúde, criando prisões especiais onde se incluíam as prisões-sanatórios (destinadas a tuberculosos) e as prisões-escola (para menores de dezasseis anos).
A terceira Reforma Penitenciária, resulta da publicação do Dec. Lei nº 265/79, de 1 de agosto de 1979, veio a ser revogado pela Lei n.º 115/2009, de 12 de outubro, que aprovou o Código de Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade (CEPMPL) , este por sua vez, reuniu toda a legislação relativa à execução das penas e medidas de internamento, constituindo, a primeira lei de execução das penas autónoma, quer em matéria processual, quer substantiva, que vigora presentemente no sistema prisional.
Refira-se que o CEPMPL defende a ideia da reclusão como a manutenção da segurança social, o princípio da corrigibilidade do recluso e a defesa dos direitos do recluso, nomeadamente, a pretensão de que este usufrua, no seu quotidiano prisional, do que seria mais próximo da sua vida em liberdade, tendo em conta as limitações inerentes à sua pena.
Para o efeito, vão-se criando mecanismos dentro dos estabelecimentos prisionais que tornam a pena mais socializadora. Ao longo dos anos, o sistema prisional português tem procurado adaptar-se, indo ao encontro das mudanças que surgem, na população prisional, quanto à tipologia de crimes, duração da pena, para o efeito desenvolve programas escolares, educacionais, formativos, desportivos e ocupacionais que permitam o desenvolvimento das capacidades pessoais, sociais e profissionais de cada individuo.
A saúde do cidadão recluso, também está patente no CEPML, bem como, na ideologia da DGRSP: “Tratando-se de cidadãos em situação de privação de liberdade, cabe aos estabelecimentos prisionais garantir que lhes sejam assegurados cuidados de saúde adequados, quer no plano de tratamento médico e medicamentoso quer no plano da prevenção ” (Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais - Ministério da Justiça, 2018). Contudo a Organização Mundial de Saúde (2014), afirma que as prisões não são lugares saudáveis. Os problemas da saúde prevalecentes na comunidade prisional estão quase sempre ligados ao seu percurso de vida, às condições sociais desfavoráveis, à baixa escolaridade, ao índice de pobreza, aos desequilíbrios psiquiátricos, à doença mental e às doenças infeciosas associadas, direta ou indiretamente, ao consumo de drogas (Ministérios da Justiça e da Saúde, 2006).
Verifica-se que a população prisional é uma população com carências de saúde específicas e distintas, como na área da saúde mental, infeciologia e estomatologia (Ministérios da Justiça e da Saúde, 2006, p.14).