Parte I – Enquadramento teórico
Capítulo 2 – Sistema prisional e saúde
2.2. A saúde nos estabelecimentos prisionais
2.2.1. Articulação Protocolar entre Justiça e Saúde
Pese embora a DGRSP, desenvolva esforços para prestar bons cuidados de saúde, certo é que, com um número tão significativo de pessoas detidas e cada um com diferentes condições de saúde, torna-se imperioso realizar protocolos de articulação com o Sistema Nacional de Saúde (SNS), com a intenção de melhorar os cuidados de saúde prestados aos reclusos, em doenças que se consideram mais prevalentes em meio prisional. Com este desígnio, o ano de 2017, foi um ano em que ocorreram avanços importantes na articulação, e consequentemente assinatura de protocolos entre o Ministério da Justiça e o Ministério da Saúde, incrementando uma melhoria nas respostas, de prestação de serviços de saúde, aos reclusos.
Desta articulação deve destacar-se a vacinação contra a gripe, poderemos dizer que até 2017, só foram vacinados 3.000 reclusos gratuitamente, por pertencerem a grupos de risco. No ano de 2018 e 2019 a Direção-Geral de Saúde disponibilizou vacinas gratuitas a toda a população reclusa, e pela primeira vez, aos guardas prisionais. Como consequência desta medida a DGRSP passou a ter disponíveis, gratuitamente mais 14.000 vacinas. Esta medida originou que a DGS criasse a norma n.º 018/2018, de 03/10/2018, em que no ponto 2, refere pela primeira vez, que para os estabelecimentos prisionais a vacina contra a gripe é fortemente recomendada e gratuita aos reclusos, guardas e funcionários civis.
As doenças infeciosas mais prevalentes em meio prisional, foram consideradas como prioritárias pelo grupo de trabalho interministerial encarregue da avaliação dos constrangimentos existentes no acesso da população reclusa ao Serviço Nacional de Saúde (despacho conjunto MJ/MS n.º 1278/2017). Com o intuito de erradicar a hepatite C e atacar a infeção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), nas prisões, facilitando o acesso dos reclusos aos serviços de saúde, leva a que no dia 28 de julho de 2017 fosse publicado um Despacho conjunto MS/MJ (despacho nº 6542/2017), que determinou a conceção e implementação de um modelo de prevenção, diagnóstico e tratamento da população reclusa, enquanto utentes do SNS, em matéria de doenças infeciosas, como sejam a infeção pelo (VIH) e a infeção pelos vírus da hepatite, tem que ser uniforme e equitativo e de abrangência nacional.
Nesta subsequência “a Direção-Geral da Saúde apresentou uma proposta de rede de referenciação hospitalar do SNS no âmbito da infeção por VIH e pelas hepatites virais, para a população reclusa (estabelecimentos prisionais do continente), publicada no despacho conjunto MS/MJ nº 283/2018, de 5 de janeiro de 2018. A 16 de julho de 2018 foram
assinados, numa cerimónia conjunta, 28 protocolos11 entre a Direção-Geral da Reinserção e Serviços Prisionais (abrangendo 40 estabelecimentos prisionais do continente) e 28 instituições hospitalares do SNS.” (Relatório de Atividades e Autoavaliação DGRSP, 2018 p.79 e p.80.)
Dissecando o conteúdo dos protocolos, podemos mencionar que as Unidades Hospitalares ficam obrigadas a prestar consultas pelos médicos especialistas, em que estes profissionais se deslocam ao estabelecimento prisional, mantendo a periocidade das consultas de acordo com critérios clínicos em vigor para a especialidade e respetivo quadro clínico. Por fim, todas as consultas realizadas, resultados de exames e procedimentos realizados ao recluso, ficam registados no sistema informático do SNS, no portal de hepatite C e no SI. VIDA.
A tuberculose, há muito considerada um problema de saúde pública de grande importância à escala mundial. Em Portugal, a situação epidemiológica da tuberculose tem vindo a melhorar nas últimas décadas, no entanto, os fenómenos da co-infeção tuberculose/VIH, das resistências aos antibióticos é uma realidade no nosso país, pelo que, deve ser encarada como preocupação. Em meio prisional, a tuberculose constituí um problema acrescido de saúde pública, pelo contexto epidemiológico existente e pela dificuldade de implementar medidas preconizadas para o seu controlo e eliminação, justificando o esforço adicional, por parte da DGRSP na uniformização de procedimentos.
De acordo com o preconizado pelo Programa Nacional de Tuberculose, pelo que, a 24 de setembro de 2004 foi assinado um protocolo12 entre a DGRSP e a DGS, ficando determinado quais os procedimentos a adotar para se detetar e prevenir a tuberculose nos estabelecimentos prisionais. Para o efeito deve-se rastrear sistematicamente todos os reclusos e funcionários dos EP´s de modo a detetar mais precocemente possível um novo caso. O rastreio radiológico é realizado a todos os reclusos entrados nas duas primeiras semanas, a sua realização passa a ser sequencial (anual) no Centro de Diagnóstico Pneumológico (CDP) mais próximo do EP.
O grupo de trabalho interministerial, que tinha a seu cargo a avaliação dos constrangimentos no acesso da população reclusa ao SNS, considerou a saúde oral dos reclusos como prioritária (despacho conjunto MJ/MS nº 1278/2017), tendo em consideração que é uma população vulnerável, com necessidades específicas nesta área.
Mais se refere que a DGRSP tem 22 gabinetes de medicina Dentária em Estabelecimentos Prisionais, alguns desativados; contudo no ano de 2018 a DGRSP efetuou um levantamento de todos os gabinetes de medicina dentária dos estabelecimentos prisionais e respetivas
11 Anexo 5 - Protocolo de Cooperação entre DGRSP (Estabelecimentos Prisionais de Guarda, Covilhã, Castelo Branco) e o Centro Hospitalar Cova da Beira EPE.
12 Anexo 6 - Protocolo entre a DGS e a DGRSP para a definição dos procedimentos de deteção e prevenção da Tuberculose nos estabelecimentos prisionais.
necessidades. Em 2019 ambos os ministérios realizaram esforços para ativar todos os Gabinetes de Medicina Dentária dentro dos Estabelecimentos Prisionais e ainda com base no Manual de Procedimentos para a Prestação de Cuidados de Saúde em Meio Prisional, elaboraram rede de referenciação interna13 com o intuito de dar resposta ao sistema prisional.
Por fim, a saúde mental também foi considerada prioritária pelo mesmo grupo de trabalho, através de (despacho conjunto MJ/MS n.º 1278/2017). “Em articulação com o diretor do Programa de Saúde Prioritário na área da Saúde Mental da DGS foram propostas medidas no sentido de melhorar/incentivar a articulação dos cuidados especializados de saúde mental com os estabelecimentos prisionais (...). Foi sinalizada a necessidade de uma rede de referenciação externa para os estabelecimentos prisionais no âmbito dos cuidados especializados de psiquiatria.” (Relatório de Atividades e Autoavaliação DGRSP, 2018, p.80,81.).
A realização de protocolos entre os dois Ministérios, também pode surgir a nível regional, da articulação entre a Direção do Estabelecimento Prisional e os Centros de Saúde ou Hospitais mais próximos do EP. Cabendo à Direção dos EPs tomar a iniciativa de dinamizar o protocolo. Nesta senda a Direção do EP da Covilhã estabeleceu protocolo14 com o Centro de Saúde mais próximo que dispõe de uma Unidade de Cuidados de Saúde Personalizado (UCSP), esta tem por missão a prestação de cuidados de saúde primários nomeadamente no tratamento dos utentes com problemas ligados ao álcool. A celebração deste protocolo teve como objetivo racionalizar o tempo e a utilização dos meios materiais e humanos da DGRSP e da Equipa de Alcoologia da UCSP. Ficou definido que as consultas são mensais e o EP da Covilhã envia documento com listagem nominativa dos reclusos, que tem de ser acompanhada da ficha psicossocial, onde contém dados relevantes para a história clínica do utente.
Ainda devido à proximidade entre as duas instituições, também se realizou um protocolo com o Centro Hospitalar Cova da Beira (CHCB)15, com o propósito de resolver de forma célere os problemas de saúde na área de estomatologia que assolam os reclusos afetos ao EP da Covilhã, rentabilizando o tempo e a utilização dos meios materiais e humanos da DGRSP. O protocolo refere que as consultas são marcadas semanalmente, através de documento enviado pelo médico de clínica geral do estabelecimento prisional reportando as necessidades, a prioridade do atendimento será triada e indicada pelo médico especialista do CHCB.
13 Anexo 7 – Quadros da rede de referenciação interna da DGRSP sobre a assistência prestada aos reclusos afetos ao EP e a outros EP´s na área da estomatologia e psiquiatria.
14 Anexo 8 – Protocolo de Cooperação entre a DGRSP e a Administração Regional de Saúde do Centro (ARSC) para a prestação de cuidados de saúde a utentes com problemas ligados ao álcool.
15 Anexo 9 – Protocolo de cooperação entre a DGRSP e o Centro Hospitalar Cova da Beira (CHCB) para a realização de consultas externas na especialidade de estomatologia
Pese embora o flagelo de saúde pública que atualmente se vivência a nível mundial devido ao COVID–19, certo é que a estreita articulação entre os dois ministérios é crucial para a elaboração e constante atualização de Plano de Contingência a implementar nos estabelecimentos prisionais com o intuito de prevenir situações de eclosão da pandemia.
Entre as inúmeras medidas tomadas e despachos a especificar ações e comportamentos a seguir, orientações que também se verificavam em meio livre, passa-se a referenciar algumas medidas estruturais incrementadas neste contexto específico que é o sistema prisional; procedeu-se à criação de duas enfermarias de retaguarda, denominadas de covidários, uma no Estabelecimento Prisional do Porto e outra no Hospital Prisional de São João de Deus (HPSJD) em Caxias, para internamento de reclusos que eventualmente venham a acusar positivo.
Desde o dia 9 de março suspenderam-se as visitas na área do grande Porto, sendo esta medida paulatinamente incrementada a outras áreas geográficas. No dia 16 de março cessaram as visitas em todos os estabelecimentos prisionais do país. Por orientação da DGS16 intensificou-se a limpeza e higienização dos diferentes espaços prisionais, uso obrigatório de máscaras, luvas sempre que se tenha de contatar com reclusos, restringe-se a entrada de pessoas do-meio-livre, pelo que, ficaram suspensas as atividades escolares, formativas e de ocupação de tempos livres. Definiu-se por zonas, quais os estabelecimentos17 prisionais que têm de receber reclusos vindos da liberdade e que aí deverão permanecer em isolamento profilático, com o devido acompanhamento clínico, pelo período de 14 dias. Em uníssono, também teve de se contemplar espaços de alojamento para funcionários infetados.
Determinou-se que, cada estabelecimento prisional, de acordo com as suas especificidades, tem de proceder à reafectação (alojamento no mesmo setor), dos reclusos que a DGS considera mais vulneráveis, tais como, os que tenham idade superior a 60 anos, com imunossupressão ou doença crónica, designadamente respiratória, cardíaca, diabetes e neoplasia maligna ativa.
Neste contexto o direito à saúde, é um direito fundamental de todos os cidadãos, pelo que, a 10 de Abril do corrente ano a Assembleia da Républica, promulgou a Lei n.º 9/20218 que se reporta ao “regime excecional de flexibilização da execução das penas e das medidas de graça no âmbito da pandemia da doença COVID-19”. Todas as medidas pretendem, que os reclusos possam lograr de liberdade definitiva ou liberdade condicionada
16 Anexo 10 – Orientação n.º 16/2020 de 23/03/2020 da DGS aos Serviços Prisionais e Tutelares, referente à SARS- Cov-2 (COVID-19).
17Anexo 11- Despacho do Diretor Geral de Reinserção e Serviços Prisionais sobre a admissão de reclusos em contexto de pandemia.
18Anexo 12 - Lei n.º 9/2020 - “regime excecional de flexibilização da execução das penas e das medidas de graça no âmbito da pandemia da doença COVID-19”.
a regras especificas, pelo período de 45 dias, podendo o Diretor Geral renovar por igual período.
Em todas as situações e de acordo com o Manual de Procedimentos para a Prestação de Cuidados de Saúde em Meio Prisional, fica acautelada a medicação para oito dias, para assegurar a continuidade do tratamento. Também são enviados para os centros de saúde da área de residência dos reclusos, os processos clínicos, onde constam todos os atos médicos e de enfermagem executados durante a sua permanência no EP.