Faz-se necessário um conceito sobre o desenvolvimento no qual a vivência, a consciência e a atividade possam ser compreendidas em sua interdeterminação complexa dada pelo meio social e cultural. Uma forma para essa compreensão ocorre por meio do conceito de Zona de Desenvolvimento Próximo, elaborado por Vygotski.
Segundo Beatón (2005, p. 229), o conceito de Zona de Desenvolvimento Próximo sintetiza e explica, de forma unitária, o desenvolvimento psíquico, representando a dinâmica entre os diversos componentes do desenvolvimento humano em sua complexidade, o que inclui compreender tanto os aspectos estritamente psicogênicos quanto os sociogênicos em sua integralidade. Mais adiante, Beatón (2005, p. 237) também enfatiza que:
Esta idéia acerca da interdeterminação do afetivo e o cognitivo, implícito na noção e conceito de vivência e ela como elemento complexo e unidade básica do psicológico, é uma explicação essencial para compreender a operacionalização geral do desenvolvimento e formação psicológica e a dinâmica da ZDP. (tradução nossa)
Com o conceito de ZDP é possível compreender a integração entre os desenvolvimentos afetivos, cognitivos e da atividade do indivíduo – tanto a sua participação na vida social prática quanto sua atividade intelectual expressa em suas ações.
Por este conceito percebe-se como os indivíduos inseridos em atividades sociais, nas quais se observa um processo educativo e de aprendizagens, necessitam de uma determinada condição contextual e de um determinado tempo para a aprendizagem e formação de novas estruturas psíquicas que configurem o desenvolvimento.
Esse caráter processual e sistêmico do processo de desenvolvimento ocorre na ZDP, de forma que os indivíduos, sendo autônomos para determinadas capacidades já desenvolvidas, apropriam-se de novas capacidades humanas, que neles estão em processo de
desenvolvimento e para isso precisam da ajuda do “outro”, em uma relação de mediação, para que possam proceder de forma independente.
Assim, a ZDP se apresenta como um espaço de mediação. Compreende-se esta mediação não como uma propriedade inerente a objetos e indivíduos, mas como um conjunto de relações que ligam uma multiplicidade de fatores numa complexa rede de interdeterminações, que, como vistas neste trabalho, promovem o desenvolvimento da atividade, do processo cognitivo e da consciência.
Porém, as ações dos indivíduos envolvidos no processo de mediação que ocorrem na ZDP não são sempre e necessariamente produtivas no sentido do desenvolvimento humano, nem quanto à sua quantidade nem quanto à sua qualidade.
Para o pleno desenvolvimento das capacidades humanas, na ZDP e pela mediação, é necessária a existência de uma rica e suficiente estimulação, coerente com os objetivos a que se dirige determinada atividade educativa. Porém, a riqueza a que se refere a necessidade sócio-educativa não se refere somente a conteúdos cognitivos, à formação de capacidades intelectuais. A riqueza das relações educativas se encontra na qualidade das relações afetivas. Beatón (2005, p. 237) exemplifica, tomando como referência uma experiência concreta de sua atividade de pesquisa, a importância desta relação para a formação dos indivíduos:
O que move e estimula, o que mediatiza a dinâmica da ZDP é o emocional e o afetivo. É tão assim que em estudos feitos com crianças em idade pré-escolar, podemos constatar que a ZDP se altera, se faz mais efetiva ou menos efetiva, em dependência das relações afetivas adequadas ou inadequadas às que está acostumada a criança e a atitude que isto cria, através da realização da nova tarefa e o lugar que o menino ou a menina em desenvolvimento outorga ao “OUTRO”. (tradução nossa; grifo do autor)
O que interessou neste trabalho em relação à ZDP não foi tanto uma exploração teórica sobre seus processos e desenvolvimento, porém, a importância do desenvolvimento afetivo em relação ao desenvolvimento das capacidades psíquicas e da consciência dos indivíduos sujeitos ao processo educativo.
O desenvolvimento afetivo pode ser compreendido como um processo que se inicia nas condições primitivas estruturais e instintivamente impulsoras do comportamento que reflete alguma necessidade básica, biológica. Nesse momento inicial, o afeto representa a qualidade da estrutura das funções sensoriais e motoras e liga essas funções com a atividade perceptiva para a satisfação das necessidades biológicas (VYGOTSKI, 2001, p. 297).
Esse afeto primitivo, como qualidade instintiva, predomina nas reações da criança no momento inicial de sua vida. Como apresenta Vygotski (1996, p. 282), “na percepção
inicial do recém-nascido todas as impressões exteriores estão indissoluvelmente unidas com o afeto que lhes matiza ou o tom sensitivo da percepção.” (tradução nossa)
Com o desenvolvimento social da criança, o afeto passa a representar a qualidade das relações externas com objetos e situações sociais, resultantes do processo perceptivo matizado, também, pela qualidade sensitiva das estruturas materiais objetivas. Vygotski (1996, p. 342) afirma que o afeto participa no desenvolvimento psíquico como fator essencial, modificando-se com as etapas de desenvolvimento e formação da personalidade, que, como se sabe, são caracterizadas pelas condições sociais de desenvolvimento cultural. Assim, Vygotski (1996, p. 299) apresenta uma importante consideração sobre o afeto, afirmando que:
Os impulsos afetivos são o acompanhante permanente de cada etapa nova no desenvolvimento da criança, desde a inferior até a mais superior. Cabe dizer que o afeto inicia o processo do desenvolvimento psíquico da criança, a formação de sua personalidade e encerra esse processo, culminando assim, todo o desenvolvimento da personalidade. Não é casual, portanto, que as funções afetivas estejam em relação direta tanto com os centros subcorticais mais antigos, que são os primeiros a se desenvolver e encontram-se na base do cérebro, como com as formações cerebrais mais novas e especificamente humanas - lóbulos frontais -, que são os últimos a se configurar. Neste fato encontra-se a expressão anatômica daquela circunstância que o afeto é o alfa e o ômega, o primeiro e o último elo, o prólogo e o epílogo de todo o desenvolvimento psíquico. (tradução nossa)
Há, portanto, um desenvolvimento social do afeto que acompanha o desenvolvimento das funções psíquicas e imprime, nestas, as qualidades das relações que as engendram. Vygotski (2001, p. 24-25), ao discutir sobre as relações entre pensamento e linguagem e os outros aspectos da consciência, aponta para as conexões entre o intelecto e o afeto como a primeira questão a ser considerada. E em sua análise explica que há “um sistema
semântico dinâmico, representado pela unidade dos processos afetivos e intelectuais.”
Afirma, ainda, que isso mostra como “qualquer idéia encerra, transformada, a atitude afetiva
do indivíduo para com a realidade representada nessa idéia.” (tradução nossa)
Pode-se, assim, pensar que o desenvolvimento humano está fundamentalmente determinado pelas condições afetivas, mas a criança, estando em relação social, sempre haverá para ela alguma forma de desenvolvimento que pode não ser positivo em relação à afetividade. A positividade do desenvolvimento necessita de formas de organização das relações educativas adequadas e o lugar que a criança ocupa nessas relações deve ser pleno das condições afetivas como fonte de desenvolvimento, da cognição e da consciência, e de todas as outras capacidades humanas necessárias ao seu desenvolvimento.
Deve-se considerar, ainda, que o desenvolvimento na ZDP ocorre em colaboração com o outro; que esta relação é afetivamente caracterizada pelos modos como o outro se apresenta na relação e, portanto, este modo de se apresentar determina o envolvimento afetivo da criança com a atividade e, assim, torna mais complexa as possibilidades de aprendizagem dadas por esta vivência em relação à percepção e à compreensão dos objetos do processo de ensino.