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Indivíduo, grupo e processo de constituição do poder

No documento _DISSERTAÇÃO Armando mestrado (páginas 80-87)

O desenvolvimento do indivíduo ocorre nas relações grupais e práticas sociais, que são mediadoras do processo de aprendizagem, e no qual há uma apropriação e objetivação pelo indivíduo, do produto genérico humano. Com isso se caracterizam, também, as relações que o indivíduo tem com o grupo social do qual faz parte, relações que são permeadas pela construção ideológica e pelas relações de poder (LANE, 1994, p. 78-9).

Portanto, para se compreender os indivíduos em sua particularidade é necessário compreender o homem como totalidade, como gênero, e as relações que os indivíduos mantêm com essa totalidade no processo de seu desenvolvimento.

Considerando o gênero humano, compreende-se que no homem não se encontram características humanas inatas. O homem necessita, além das relações materiais que garantam a sua vida biológica, de relações grupais que garantam, da mesma forma, o seu desenvolvimento humano genérico, necessita de um processo que leve ao desenvolvimento das possibilidades de se constituir como ser humano. Essas relações ocorrem na forma historicamente organizada dos meios de produção da vida material e não material, na forma, também, da construção de significados e sentidos como processo educativo (VYGOTSKI, 2001; LEONTIEV, 1978).

Este processo educativo ocorre como forma universal de desenvolvimento humano e é caracterizado, de forma geral na sociedade, pelos grupos dos quais os homens fazem parte. Assim, para a compreender os homens, a compreensão das relações grupais é fundamental.

O grupo, do ponto de vista da psicologia, mostra-se como unidade de análise fundamental para a compreensão das relações entre os indivíduos, para a compreensão dos processos que engendram a construção cultural e histórica de forma dialética. No grupo se compreende o indivíduo como produtor e produto de suas ações.

Nesse sentido, passamos a compreender o grupo não como fenômeno independente da ação dos homens, mas como processo de humanização organizada pelos indivíduos; processo que se dá na relação objetividade/subjetividade da vida humana. O homem passa a ser compreendido como síntese de um complexo de relações que o caracterizarão como indivíduo, portador de características concretas das condições objetivas na qual se desenvolve. Como esclarece Lane (1994, p. 78), pode-se conhecer as relações grupais assim:

[...] o grupo não é mais considerado como dicotômico em relação ao indivíduo (indivíduo sozinho x indivíduo em grupo), mas sim como condição necessária para conhecer as determinações sociais que agem sobre o indivíduo, bem como a sua ação como sujeito histórico, partindo do pressuposto que toda ação transformadora da sociedade só pode ocorrer quando os indivíduos se agrupam.

Considerando a relação que existe entre o grupo e o processo de humanização, compreende-se que, para essa organização é fundamental que as relações se dêem por meio da construção de normas e regulamentos das atividades grupais, de forma que, nas atividades, as ações estejam direcionadas não só para a satisfação das necessidades individuais, mas também para os objetivos e finalidades para o qual o grupo se constitui. Como explica Martín-Baró (1989, p. 14): “Condição essencial para que exista uma sociedade é que se dê uma

coordenação mínima entre as ações das pessoas e grupos que a compõem. Co-ordenação significa precisamente uma forma de ordem[...]”. (tradução nossa)

Da mesma forma, pode-se pensar que a constituição de uma ordenação das relações grupais está em uma relação direta com a orientação e controle da atividade individual, e que essa atividade está dirigida a um determinado objetivo grupal. Isto define o lugar que cada indivíduo ocupa em determinado momento da atividade grupal e social, e também qual a sua função e a que objetivação se dirige a sua atividade. Portanto, pode-se dizer que a ordenação conduz a uma determinada forma de ser do indivíduo. Este adquire as qualidades dessa forma organizadora de sua atividade e, assim, torna-se um produto de sua própria atividade.

A constituição de uma ordem normativa das relações se apresenta, portanto, como um elemento mediador da objetivação humana, e da mesma forma como – afirma Heller (1977, p. 228) - um “sistema de referência” para as ações individuais que se desenvolverão nas atividades. Dessa forma podemos considerar que a atividade humana ocorre no grupo como forma de relacionamento do indivíduo caracterizada pela consecução de objetivos individuais e grupais. Essa atividade satisfaz necessidades humanas de manutenção e

desenvolvimento motivadas pelas práticas sociais e se submete à coordenação dada por uma ordem estabelecida.

Esse processo de organização e controle da atividade coletiva ocorre por meio da comunicação, que é uma atividade fundamental para a ocorrência da própria coletividade e para o processo de apropriação dos conhecimentos desenvolvidos pela humanidade (LEONTIEV, 1978, p. 170).

Nessa atividade comunicativa ocorre, conseqüentemente, o desenvolvimento da linguagem e das formações simbólicas como instrumentos para o pensamento que orienta a atividade dos indivíduos. Assim, com a linguagem e as formações simbólicas (THOMPSON, 1995, p. 185-6) há a constituição de um sistema de orientação e controle das atividades externa e interna que aparecem com a atividade coletiva, sendo também um sistema de organização das idéias que nos indivíduos reflete a realidade da qual fazem parte.

O estabelecimento de uma ordem de controle é caracterizado por meio da construção da ideologia como sistema de representação do real que envolve as relações sociais, suas práticas e atividades. Essas atividades controladas pela ideologia atendem interesses de grupos ou indivíduos e são cristalizadas sob a forma de relações de poder nas instituições.

A ideologia, segundo Thompson (1995, p. 76), refere-se aos modos pelos quais, nos processos comunicativos, os sentidos que ocorrem por meio dos significados estão direcionados para a manutenção de formas de relações “sistematicamente assimétricas” que se referem às relações de poder e, no caso de uma assimetria sistemática do “poder”, caracteriza-se como poder de dominação.

Referindo-se às diversas formas de se compreender e conceitualizar ideologia, Montero (1995, p. 84) lembra o quão importante se faz uma consideração sobre ideologia como participante na construção do psiquismo dos indivíduos, da sua influência sobre o comportamento e afetos, dizendo que também se pode pensar:

A ideologia como um construto geral, integrador de outros construtos, levando à formação de sistemas cognoscitivos nas pessoas e nos grupos. Neste sentido, a ideologia constituir-se-ia no nível mais abrangente de um sistema que inculca formas de representação, estereótipos, julgamentos, opiniões, crenças, atitudes e valores, que apresentariam influências sobre os aspectos afetivos do comportamento.

É pelo processo comunicativo que se transmite aos outros os sentimentos, as necessidades, vontades, desejos e fundamentalmente as idéias; a idéia como representação imediata da realidade concreta; a idéia como elaboração intelectual ou maneira particularizada

de ver as coisas; a idéia como “ideologia”, ou seja, como um conjunto de idéias que se relacionam na construção de formas simbólicas que possuem, a priori, uma intencionalidade, e desta forma, pela construção simbólica, a intencionalidade se mostra como expressão fenomênica de um “poder” (THOMPSON, 1995, p. 76).

Neste trabalho compreende-se poder sob uma concepção além de uma possível consideração do poder somente como uma forma de domínio político, compreende-se como uma forma de domínio sobre o outro em determinadas atividades e segundo a possessão diferenciada de recursos materiais que permite se impor a outro.

O poder não é uma ‘coisa’ ou um ente, não possui forma própria ou materialidade independente das ações humanas. Existe na natureza como potência inerente ao próprio movimento de formação e transformação dos fenômenos naturais. No entanto, o poder humano é próprio das relações engendradas pelo ser humano, circula entre os homens e o mundo material e adquire as formas que os próprios homens lhe emprestam ao agirem sobre o mundo material e social, trabalhando.

Ainda que o poder não seja algo como um ente real, os homens, ainda assim, adquirem poder. O poder humano, produto da relação humana, substancializa-se na forma de instrumentos. Tudo que se interpõe entre o homem e suas relações na consecução de atividades são instrumentos. Por exemplo, a linguagem, as idéias, o pensamento, as ferramentas, etc. O homem, ao adquiri-los e compreender seu uso, passa a possuir o poder de realização cristalizado neles – nos instrumentos.

Segundo Thompson (1995, p. 79), também se compreende poder como a capacidade que um indivíduo tem para realizar atividades para a produção de sua existência, para a satisfação de suas necessidades e desejos.

Esse poder como capacidade de realização se expressa por meio das potencialidades socialmente constituídas com a atividade humana, desenvolvidas pelo trabalho. Estas capacidades se constituem pelas relações sociais e são possibilitadas, por exemplo, pelo ensino no processo educativo e pela posição que o indivíduo ocupa no contexto social, configurando-se como um poder que lhe permite estabelecer relações com outros indivíduos.

A partir do momento em que as relações de poder se caracterizam como

“sistematicamente assimétricas” (THOMPSON, 1995, p. 80), ou seja, que os indivíduos

caracterizam como relações de dominação. Isso se dá nas práticas sociais do mundo do trabalho, na instrução, na construção de conhecimento etc.

A dominação aparece limitando ou direcionando o poder de realização dos indivíduos; limitando a constituição daquelas capacidades necessárias para o exercício do poder individual de realização que confere aos indivíduos a liberdade.

A dominação, assim compreendida, caracteriza-se pela “expropriação do poder

ou parte do poder” de um indivíduo ou organização, pela ação de um outro agente, com a

finalidade de manutenção de um modo de relações que privilegia e estabiliza a condição existente de um agente sobre outro (THOMPSON, 1995, p. 79-80).

Em conseqüência dessa forma historicamente desenvolvida da cultura humana, as relações que estruturam as organizações na nossa civilização são caracterizadas predominantemente por relações de “poder de dominação”, ou seja, predomina a capacidade de exercer atividades onde o poder de um agente expropria, controla ou direciona o poder de outro agente na realização de suas atividades.

Essas relações de dominação se instrumentalizam por meio de normas instituídas, que fundamentam a criação das instituições sociais, regulam o dinamismo das organizações e determinam, em parte, as atividades individuais. A atividade que deveria ser a expressão do

poder de realização individual e grupal passa a ser a expressão das relações de dominação por

meio de sua normatização.

Um dos meios de exercer “poder de dominação” também ocorre pela construção

simbólica ideologizada, que é transmitida no processo comunicativo – por meio da linguagem

como seu principal mediador -, a construção simbólica é interiorizada pelos indivíduos e processada subjetivamente como apropriação de conceitos e idéias.

Por meio da forma contextualizada da apropriação das construções simbólicas, produzem-se os sentidos pessoais que direcionam as ações dos indivíduos nas atividades das quais fazem parte (LEONTIEV, 1978; VYGOTSKI, 2001).

Considerando o que foi exposto até aqui, pode-se perceber o quanto é importante para o desenvolvimento do indivíduo a sua participação ativa na história em processo, que representa tanto a sua vida particular quanto o gênero humano.

Todas as qualidades humanas que aparecem no indivíduo como propriedades da sua consciência e expressam, na interação social, sua forma de ser particular, são as sínteses

desse movimento vivo de múltiplas determinações, cuja base é a organização social produtiva. Então, deve-se pensar na atividade educativa inserida nesse processo produtivo e como está vinculada a essa forma de organização dos interesses de classe, para se poder avaliar que qualidades humanas se formam nos indivíduos sujeitos a esse processo.

Foi possível compreender como a educação é um meio de garantir a reprodução da sociedade e suas formas de organização. Nessa reprodução, porém, o indivíduo não garante o seu melhor e possível desenvolvimento humano. Ao contrário, ele forma, nesse processo, uma consciência da realidade deformada pela alienação, uma consciência que não é autônoma para a orientação e controle das suas relações, antes, submete-se ao controle dos interesses ideológicos pela inadequação e desenvolvimento unilateral de suas capacidades psíquicas, o indivíduo não desenvolve outras capacidades que lhe permitiriam uma análise crítica, histórica de suas condições particulares.

O conhecimento produzido sob relações de dominação se constitui afetivamente pelas vivências particulares que cada um experimenta e, com isso, a orientação possível dada pelo conhecimento fica restringida pela qualidade afetiva e emocional produzida nessas relações. Assim, não só o conhecimento do mundo, dos objetos, das relações sociais, mas o auto-conhecimento, o auto-conceito, a consciência que o indivíduo adquire de si em relação ao mundo ficam comprometidas com essas relações. Neste trabalho, pretende-se enfatizar como conseqüência, que as funções psíquicas superiores assim desenvolvidas assumem as características da dominação e se apresentam parcialmente desenvolvidas nessas relações. Tais funções, ao contrário de se constituírem em instrumentos para o desenvolvimento, apresentam-se como limitantes das possibilidades de estabelecer relações com o mundo.

A dominação, como forma predominante das relações sociais, como forma que caracteriza o desenvolvimento do gênero humano, na nossa sociedade, produz, então, determinadas esferas de relações, lugares dos quais os indivíduos podem participar na vida social e pelos quais podem se considerar, lugares que ocupam como seres conscientes nas relações com os outros e consigo mesmos, nos quais podem se localizar psicologicamente.

CAP. III

DESENVOLVIMENTO DO INDIVÍDUO

Neste capítulo pretende-se demonstrar os lugares ocupados pela criança nas relações sociais, apontando para instâncias presentes no desenvolvimento da criança, as que, também, caracterizam, de forma geral, as relações sociais que contribuem para a formação individual.

Em relação a esses lugares, considera-se: o primeiro, como um lugar objetivo que representa uma posição ocupada pelos indivíduos na organização do processo produtivo da vida material, ou seja, um lugar no mundo prático da atividade material dirigida à produção da sociedade; o segundo, como um lugar criado pelo processo de subjetivação das condições objetivas, que representa um espaço ocupado pelo sujeito no mundo psíquico gerado pela consciência e que está dirigida à sua produção cultural. Tais lugares são instâncias dinâmicas que indicam o movimento do desenvolvimento e formação do indivíduo.

Essas instâncias são constituídas como um conjunto de fatores que envolvem valores e funções, perfazendo um determinado campo ou esfera de relações que circundam o desenvolvimento da criança e criam, dessa forma, diferentes lugares ocupados por ela em diferentes circunstâncias. Esse lugar não se refere exclusivamente a uma localização no espaço organizacional e, portanto, essas circunstâncias envolvem, além das condições objetivas, as condições afetivas caracterizadas como subjetividade, criando um lugar no espaço psíquico que se refere a um valor, agora não mais relacionado à atividade prática, porém, um valor atribuído a si mesmo como individualidade vivenciada.

Assim, estas instâncias podem ser compreendidas: primeira, a partir da esfera motivacional ideológica, como base da formação dos interesses sociais que delimitam as possibilidades de desenvolvimento e indicam um ideal de formação para os indivíduos, relacionada às formas de produção da vida material; segunda, como esfera criada pelas necessidades individuais que indicam a existência de motivos e interesses que são gerados pela própria atividade do indivíduo e se relacionam à experiência afetiva que os indivíduos têm de sua própria vida; e terceira, uma esfera de relações que se caracteriza como um campo de forças, no qual há uma qualidade especial da existência humana e com a qual se dá o movimento de transformações históricas – genéricas e ontogenéticas -, ou seja, o espaço criado pela contradição.

Essas esferas circunstanciais se inter-relacionam em uma unidade indivisível, na qual é possível localizar e compreender os lugares e momentos que são ocupados pela criança, e as implicações que resultam em um determinado desenvolvimento e formação psíquica. Assim, refere-se aqui a este problema como um problema do em torno, no sentido que Visgotski (1996, p. 264) atribuiu a ele, ou seja:

No início de cada período de idade a relação que se estabelece entre a criança e o em torno que lhe rodeia, sobretudo o social, é totalmente peculiar, específica, única e irrepetível para essa idade. Denominamos essa relação como situação social de

desenvolvimento em dada idade. Determina plenamente e por inteiro as formas e

trajetória que permitem à criança adquirir novas propriedades da personalidade, já que a realidade social é a verdadeira fonte do desenvolvimento, a possibilidade de que o social se transforme em individual. (tradução nossa)

Assim, refere-se às condições objetivas materiais e ideacionais que envolvem a criança como uma totalidade, na qual é possível compreender os diversos lugares ocupados por ela quando em desenvolvimento. Esses lugares são criados pela organização material na produção da atividade social e a criança ocupa um lugar nesse processo produtivo. Além disso, ocorre a construção de sua subjetividade como qualidade afetivo-emocional, que representa a síntese da atividade social e individual na formação do psiquismo.

No documento _DISSERTAÇÃO Armando mestrado (páginas 80-87)