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AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 2011002021819-

No documento rdj098 (páginas 75-83)

Relator - Des. Lécio Resende Primeira Turma Cível

EMENTA

AGRAVO DE INSTRUMENTO - POLÍCIA CIVIL - GREVE - LEGALIDADE - DECISÃO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL - EXAME - PREJUDICIALIDADE - ASTREINTE - VALOR EXCESSIVO - ALTERAÇÃO - PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E RAZOABILIDADE - LIMITE MÁ- XIMO - RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. Decidido em liminar pelo Supremo Tribunal Federal a legalidade da paralisação dos policiais civis do Distrito Federal, resta prejudicada a análise perante essa egrégia Corte de Justiça. A multa diária imposta para o cumpriomento da ordem judicial deve atender aos critérios de proporcionalidade e razoabilidade, não podendo servir como modo de enriquecimento sem causa. A multa diária não deve ser fixada sem a imposição de limite, sob pena de desobediência ao Princípio da Razoabilidade. A multa poderá, mesmo depois de transitado em julgado o decisum condenatório ser modificada, conforme seja insuficiente ou excessiva, indicando que o valor da astreinte não faz coisa julgada material.

ACÓRDÃO

Acordam os Senhores Desembargadores da 1ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, Lécio Resende - Relator, Lecir Manoel da Luz - Vogal, Teófilo Caetano - Vogal, sob a presidência do Senhor Desembargador Lecir Manoel da Luz, em proferir a seguinte decisão: conhecer e dar parcial provimento, unânime, de acordo com a ata do julgamento e notas taquigráficas.

Brasília (DF), 18 de abril de 2012.

RELATÓRIO

Trata-se de Agravo de Instrumento interpostos pelo SINDICATO DOS POLICIAIS CIVIS DO DISTRITO FEDERAL em desfavor do MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS, em face da r. decisão proferida

pelo MM. Juiz de Direito da 8ª Vara Cível da Circunscrição Especial Judiciária de Brasília, que concedeu a tutela antecipada nos autos da ação declaratória de ilegalidade de greve c/c ação de preceito cominatório de obrigação de não fazer - Processo nº 2011011205362-8.

Requer o provimento do recurso para que seja reformada a r. decisão e, alternativamente a redução da multa fixada no limite máximo para cominação, conforme orientação jurisprudencial.

Sustenta, em sítnese, que o direito de greve é garantia constitucional absoluta, prevista nos arts. 9º e 37, VII da Carta Magna, que não pode ser negada ao trabalhador celetista e nem ao servidor público, ainda que inerte o Poder Legislativo para disciplinar a questão.

“Vistos, etc.

Cuida-se de agravo de instrumento, com pedido liminar, interpos- to pelo SINDICATO DOS POLICIAIS CIVIS DO DISTRITO FEDERAL, contra a decisão proferida pelo MM. Juiz de Direito da Oitava Vara Cível da Circunscrição Especial Judiciária de Brasília, Dr. Leandro Borges de Figueiredo, que, nos autos da ação declaratória de ilegalidade de greve c/c ação de preceito comina- tório de obrigação de não fazer (Processo nº 2011011205362-8), concedeu a tutela antecipada para determinar que o ora agravante suspenda a greve e comunique aos integrantes das carreiras da Polícia Civil do Distrito Federal para que retornem imediatamente ao trabalho, independentemente de nova assembleia, sob pena de pagamento de multa diária de R$ 100.00,00 (cem mil reais), bem como determinou a retirada de todos os policiais que se encontram à frente da DPE, permitindo a entrada de todas as pessoas que procurem o departamento (fls. 38/40).

Alega o recorrente que o direito de greve é garantia constitucio- nal absoluta (arts. 9º e 37, inciso VII, da CF), que não pode ser negada ao trabalhador celetista e nem ao servidor público, ainda que inerte o Poder Legislativo para disciplinar a questão, pois o que o Constituinte delegou ao legislador infraconstitucional fora apenas a regulamentação quanto aos limites da paralisação. Aduz que na Reclamação 6.568-STF o pedido consistia na suspen- são da tramitação do dissídio coletivo acerca do direito de greve dos policiais no âmbito do TRF em detrimento da competência da Justiça Estadual, e não o exercício desse direito por determi- nada classe de servidores, sendo que a interpretação da Corte

Constitucional acerca do direito de greve dos policiais civis fora feita de forma incidental por três Ministros, bem como a ementa do acórdão induz a erro, como o cometido pelo MM. Juiz a quo. Afirma que a discussão acerca do direito de greve ocorreu no âmbito do julgamento dos Mandados de Injunção 670, 708 e 712. Ressalta que a Polícia Civil é a polícia judiciária, não sendo responsável diretamente pela segurança do cidadão, cabendo tal incumbência à polícia militar.

Destaca que todo o efetivo está à disposição nas delegacias de polícia, compondo o seu referido plantão e que na própria car- tilha grevista está prevista a manutenção de percentual mínimo para realização das atividades essenciais, não havendo qualquer prejuízo relevante ao serviço ou de magnitude tamanha que po- deria motivar a decisão de tutela antecipada no sentido da que fora deferida.

Assinala que não tem o condão de determinar aos servidores o comparecimento ou não ao trabalho, mas sim de deliberar nas esferas competentes quanto à decisão do movimento como um todo e não como decisão de uma única pessoa.

Argumenta que o valor da multa diária fixada para o caso de descumprimento da decisão é exorbitante, sendo que sequer foi fixado um limite.”

O pedido limine foi em parte deferido para determinar a ampliação do contingente de filiados ao Sindicato recorrente, para o percentual de 70% (setenta por cento), reduzindo, outrossim, a multa diária fixada na quantia e R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) até ao limite máximo de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), fls. 155/159.

O MM. Juiz de Direito prestou as informações de fls. 164, esclarecendo que o agravante cumpriu o disposto no art. 526, do Código de Processo Civil e que manteve a r. decisão por seus próprios e jurídicos fundamentos.

Consta às fls. 168/173, Ação Cautelar intentada pelo agravado junto ao Supremo Tribunal Federal, suspendendo, em parte, a decisão liminar proferida no presente recurso.

Contrarrazões às fls. 185/196, onde o agravado pugna pelo desprovimento do recurso.

O douto Ministério Público, em parecer de fls. 199/207, manifesta-se pelo conhecimento e desprovimento do recurso.

VOTOS

Des. Lécio Resende (Relator) - Cuida-se de agravo de instrumento, com

pedido liminar, interposto pelo SINDICATO DOS POLICIAIS CIVIS DO DISTRITO FEDERAL, contra a decisão proferida pelo MM. Juiz de Direito da Oitava Vara Cível da Circunscrição Especial Judiciária de Brasília, Dr. Leandro Borges de Figueiredo, que, nos autos da ação declaratória de ilegalidade de greve c/c ação de preceito cominatório de obrigação de não fazer (Processo nº 2011011205362-8), concedeu a tutela antecipada para determinar que o ora agravante suspenda a greve e comunique aos integrantes das carreiras da Polícia Civil do Distrito Federal para que retornem imediatamente ao trabalho, independentemente de nova assembleia, sob pena de pagamento de multa diária de R$ 100.00,00 (cem mil reais), bem como determinou a retirada de todos os policiais que se encontram à frente da DPE, permitindo a entrada de todas as pessoas que procurem o departamento (fls. 38/40).

Alega o recorrente que o direito de greve é garantia constitucional absoluta (arts. 9º e 37, inciso VII, da CF), que não pode ser negada ao trabalhador celetista e nem ao servidor público, ainda que inerte o Poder Legislativo para disciplinar a questão, pois o que o Constituinte delegou ao legislador infraconstitucional fora apenas a regulamentação quanto aos limites da paralisação.

Aduz que na Reclamação 6.568-STF o pedido consistia na suspensão da tramitação do dissídio coletivo acerca do direito de greve dos policiais no âmbito do TRF em detrimento da competência da Justiça Estadual, e não o exercício desse direito por determinada classe de servidores, sendo que a interpretação da Corte Constitucional acerca do direito de greve dos policiais civis fora feita de forma incidental por três Ministros, bem como a ementa do acórdão induz a erro, como o cometido pelo MM. Juiz a quo.

Afirma que a discussão acerca do direito de greve ocorreu no âmbito do julgamento dos Mandados de Injunção 670, 708 e 712.

Ressalta que a Polícia Civil é a polícia judiciária, não sendo responsável diretamente pela segurança do cidadão, cabendo tal incumbência à polícia militar.

Destaca que todo o efetivo está à disposição nas delegacias de polícia, compondo o seu referido plantão e que na própria cartilha grevista está prevista a manutenção de percentual mínimo para realização das atividades essenciais, não havendo qualquer prejuízo relevante ao serviço ou de magnitude tamanha que poderia motivar a decisão de tutela antecipada no sentido da que fora deferida.

Assinala que não tem o condão de determinar aos servidores o comparecimento ou não ao trabalho, mas sim de deliberar nas esferas competentes quanto à decisão do movimento como um todo e não como decisão de uma única pessoa.

Argumenta que o valor da multa diária fixada para o caso de descumprimento da decisão é exorbitante, sendo que sequer foi fixado um limite.

Consta dos autos comunicação feita pelo egrégio Supremo Tribunal Federal, fls. 197, decisão liminar proferida na Ação Cautelar nº 3.034, de relatoria do eminente Ministro Cezar Peluso, fls. 168/173, suspendendo a decisão proferida em sede liminar no presente agravo, na parte em que permite a realização de greve pelos policiais civis do Distrito Federal, restabelecendo-se, assim, nesse tema, a tutela antecipada pelo Juízo da 8ª Vara Cível da Circunscrição Especial Judiciária de Brasília.

Outrossim, a greve deflagrada foi encerrada, estando prejudicado o exame do recurso quanto ao tema concernente à legalidade ou não do movimento.

Resta, portanto, analisar os pedidos formulados pelo agravante, quanto à multa aplicada, quais sejam, a redução do valor estipulado e a fixação do limite máximo para cominação.

A r. decisão agravada aplicou a pena de multa diária de R$ 100.000,00 (cem mil reais) caso a greve não fosse suspensa.

O legislador concedeu ao Juiz de Direito a prerrogativa de impor a multa diária ao réu com vistas a assegurar o adimplemento da obrigação de fazer, autorizando- lhe, também, em qualquer tempo ou grau de jurisdição, a faculdade de rever o seu valor, de modo a prevenir o enriquecimento sem causa, sendo certo que por força do art. 461, § 6º, do codex, é possível a redução das astreintes, mesmo de ofício, pelo Tribunal, quando o valor arbitrado mostra-se excessivo em relação à natureza e às circunstâncias da causa, inobservando os Princípios da Proporcionalidade e da Razoabilidade.

Trago à colação ementas de julgados, verbis:

“A Multa poderá, mesmo depois de transitada em julado a sen- tença, ser modificada, para mais ou para menos, conforme seja insuficiente ou excessiva. O dispositivo indica que o valor da astreinte não faz coisa julgada material, pois pode ser revisto me- diante verificação de insuficiência ou excessividade. O excesso a que chegou a multa aplicada jusdtifica a redução.” (Resp 705.914, rel. o em. Min. Gomes de Barros, apud Theotônio Negrão e José Roberto F. Gouvêa, Código de Processo Civil e legislação pro- cessual em vigor, 39ª edição, atualizada até 16.1.2007, Saraiva, p. 552, nota 11c.).”

E ainda daquela c. Corte, tirado da mesma obra, página e da referida nota 11c: “A multa pelo descumprimento de decisão não pode ensejar o enriquecimento sem causa da parte a quem favorece, como no

caso, devendo ser reduzida a patamares razoáveis.” (Resp 793.391, rel. o em. Min. César Rocha).”

Outrossim, verifica-se que a multa no caso em questão foi fixada sem imposição de limite, em afronta ao Princípio da Razoabilidade aplicável ao caso.

Colaciono ementas de julgados sobre o tema em questão, verbis:

“PROCESSO CIVIL. CAUTELAR. EXIBIÇÃO DE DOCU- MENTO. DEMONSTRAÇÃO DE RECUSA. DESNECESSI- DADE. COMINAÇÃO E LIMITAÇÃO DE MULTA DIÁRIA. POSSIBILIDADE. OBEDIÊNCIA AO PRINCÍPIO DA RAZO- ABILIDADE. DOCUMENTO INCINERADO. ELISÃO DO DEVER DA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA DE INFORMAR. INOCORRÊNCIA. APLICAÇÃO DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR.

1. A comprovação de recusa na apresentação dos documentos não é requisito necessário para a propositura da ação cautelar de exibição judicial, bastando, para tanto, a demonstração de vínculo jurídico entre as partes, assim como da necessidade e utilidade dos documentos pleiteados para a propositura de ação de cobrança. 3. É possível a cominação de astreintes para o caso de descumpri- mento do dever de exibição de documentos.

4. A multa diária não deve ser fixada sem a imposição de limite, sob pena de desobediência ao princípio da razoabilidade. 5. O banco tem a obrigação de exibir em juízo a documentação que deve guardar, relacionada com o desempenho de sua atividade. Não há como admitir a recusa daquele que tem o dever legal de exibi-la ou mesmo quando o documento, por seu conteúdo, for comum às partes (art. 358, I e III, do CPC).

6. Impõe-se a redução dos honorários advocatícios quando fixa- dos em desconformidade com as disposições constantes do § 4º do art. 20 do CPC, mormente quando a causa apresenta pouca complexidade.

7 . A p e l a ç ã o c o n h e c i d a e p a r c i a l m e n t e p r o v i d a . (20070110591909APC, Relatora NÍDIA CORRÊA LIMA, 3ª Turma Cível, julgado em 18/06/2007, DJ 05/08/2008, p. 50)” “DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRU- MENTO. AÇÃO EXECUTIVA. MULTA DIÁRIA (ASTREIN- TES). ALTERAÇÃO DO VALOR. DECISÃO MANTIDA.

1. A multa diária imposta para o cumprimento da ordem judicial deve atender aos critérios de proporcionalidade e razoabilidade, não podendo servir como reparação por eventuais danos morais ou como modo de enriquecimento sem causa.

2. O Juiz pode, a teor do § 6º do art. 461 do Código de Pro- cesso Civil, de ofício, modificar o valor ou a periodicidade da multa, caso verifique que se tornou insuficiente ou excessiva, não havendo, por isso, diante da autorização legal, que se falar em preclusão.

3. Recurso desprovido. (Acórdão n. 317526, 20080020063297AGI, Relator MARIO-ZAM BELMIRO, 3ª Turma Cível, julgado em 16/07/2008, DJ 22/08/2008 p. 58)”

“PROCESSUAL CIVIL. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. RESTITUIÇÃO DE VEÍCULO. DEMORA. MULTA (AS- TREINTE). ONEROSIDADE EXCESSIVA. REDUÇÃO. POSSIBILIDADE.

1. Não pode a parte devedora tentar se eximir da responsabilidade pela demora no cumprimento da obrigação de restituição do veí- culo imposta na sentença, quando verificado pela documentação carreada aos autos que inúmeras foram as tentativas frustradas para localização do bem.

2. Nos termos do artigo 461, § 6º, do Código de Processo Civil, “o juiz poderá, de ofício, modificar o valor ou a perio- dicidade da multa, caso verifique que se tornou insuficiente ou excessiva”.

3. Agravo de Instrumento conhecido e parcialmente provido. (Acórdão n. 298111, 20070020132658AGI, Relator NÍDIA CORRÊA LIMA, 3ª Turma Cível, julgado em 12/03/2008, DJ 27/03/2008 p. 19)”

Tendo em vista o contido na vasta jurisprudência colacinada, entendo que a multa arbitrada expressa valor exorbitante, além de não ter sido estipulado o limite máximo.

Assim, dou parcial provimento ao recurso para reduzir a multa diária, fixando-a na importância de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), até ao limite máximo de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais).

Des. Lecir Manoel da Luz (Vogal) - Com o Relator. Des. Teófilo Caetano (Vogal) - Com o Relator.

DECISÃO

Conhecer e dar parcial provimento, unânime.

No documento rdj098 (páginas 75-83)