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AI-5 – Prisão e exílio

No documento pablodemelopeixoto (páginas 184-187)

Capítulo II – Panis et Circensis, ou gladiadores do campo musical brasileiro

II. 5 – Governo e censura

II.6 AI-5 – Prisão e exílio

Ainda em 1968, Caetano Veloso e Gilberto Gil apresentaram um espetáculo tropicalista na Boate Sucata que provocou a audiência da mesma maneira que a “Exploding Plastic Inevitable”, de Andy Warhol, fez alguns anos antes disso. Porém, o evento de Warhol era caótico e sombrio, o tropicalista era uma festa colorida e escandalosa. Parte da audiência ficava chocada com alguns slogans ou atitudes (como a postura feminina de Caetano).

Mas alguém contou ao exército que no Show da Sucata, Gil, Caetano e os Mutantes estavam tirando sarro do Hino Nacional brasileiro e incendiando a bandeira do país. Esta era uma versão deturpada do espetáculo: Caetano realmente cantava “La Marselleise117” e havia bandeiras que reproduziam alguns slogans criados pelo artista Hélio Oiticica, como “Seja marginal, seja um herói”.

Isso já era uma razão para a prisão dos baianos. Mas o que detonou a detenção da dupla foi quando em seu recém criado programa de TV, “Divino Maravilhoso”, Caetano cantou a marchinha “Boas Festas”, do baiano Assis Valente, em plena noite de Natal, com um revólver engatilhado, apontado para a própria cabeça: “Anoiteceu /

116 Entrevista para o documentário: Revolução Tropicalista da TV Cultura, dirigido por Fernando

Meirelles (1998).

O sino gemeu / A gente ficou / Feliz a rezar / (...) / Já faz tempo que eu pedi / Mas o meu Papai Noel não vem / Com certeza já morreu / Ou então felicidade / É brinquedo que não tem”.

Foi a provocação final. Alguns dias depois, a polícia batia na porta dos baianos. Na prisão, eles tiveram os cabelos cortados, mas não sofreram nenhuma tortura física - embora eles tivessem dividido cela com todo o tipo de prisioneiros, a maioria deles intelectuais, políticos e jornalistas. Dois meses depois, foram mandados de volta para Salvador, onde eles ficariam incomunicáveis, se apresentando diariamente à polícia até a metade de 1969. Neste período, lançariam dois discos, um de Caetano outro de Gil, antes de o exército lhes aconselhar a deixar o Brasil.

Exilados, foram para Londres, onde sofreriam diversas mudanças: Gil se engajou na cena de blues/jazz/psicodélico e Caetano ficou bastante deprimido. Eles lançariam dois álbuns na Inglaterra, antes de voltarem ao Brasil em 1972. O Tropicalismo histórico havia terminado. A ditadura se impunha cada vez mais à MPB e à indústria fonográfica. Gil e Caetano tiveram que começar novamente do nada, mas agora eles tiveram algo que antes não tiveram: eram nomes conhecidos, respeitados e proprietários absolutos do espólio tropicalista se auto-proclamando pais do movimento.

Não se sabe a razão pela qual Caetano e Gil radicalizaram suas posições e em uma descida caótica, que comumente se chama refluxo do tropicalismo ou retro- tropicalismo, praticamente se destruíram moralmente. Numa espécie de Potlatch118 tropicalista, Caetano e Gil abdicavam de tudo que haviam construído. Porém, tal qual na cerimônia estudada por Mauss, o ganho de prestígio da dupla no campo cultural cresceria exponencialmente.

118 O potlatch é uma cerimônia praticada entre tribos índigenas da América do Norte, como os Haida,

os Tlingit, os Salish e os Kwakiutl. Também há um ritual semelhante na Melanésia. Ele consiste de um festejo religioso de homenagem, geralmente envolvendo um banquete de carne de foca ou salmão, seguido por uma renúncia a todos os bens materiais acumulados pelo homenageado – bens que devem ser entregues a parentes e amigos. A própria palavra potlatch significa dar, caracterizando o ritual como de oferta de bens e de redistribuição da riqueza. A expectativa do homenageado é receber presentes também daqueles para os quais deu seus bens, quando for a hora do potlatch destes. Originalmente, o potlatch acontecia somente em certas ocasiões da vida dos indígenas, como o nascimento de um filho; mas com a interferência dos negociantes europeus, os potlaches passaram a ser mais freqüentes (pois havia bens comprados para serem presenteados) e em algumas tribos surgiu uma verdadeira guerra de forças baseada no potlatch. Em alguns casos, os bens eram simplesmente destruídos após a cerimônia.

Superado o impacto tropicalista, a tendência da música brasileira foi tropicalizar-se assumindo o habitus inaugurado pelos baianos e, conscientes das novas regras, reconquistar ou manter posições na hierarquia de poder. Elis Regina tentou se “tropicalizar” gravando “Não tenha medo”. Gal Costa continuou como porta-voz mor dos tropicalistas e apresentou London, London, canção que Caetano compôs na Inglaterra, além de “Você não entende nada” e “Deixa Sangrar” (em “Legal”, 1970). Erasmo Carlos ganhou “De Noite na Cama” 119, faixa de autoria de Caetano, abertura de seu mais notável trabalho (“Carlos Erasmo, 1971) e depois gravada também por Wilson Simonal (Jóia, Jóia 1971). Ronnie Von se lançava ao tropicalismo-pré- progressivo com álbuns arranjados pelo maestro tropicalista Damiano Cozzela (Ronnie Von de 1969 e Máquina Voadora 1970). Até mesmo Chico Buarque fazia concessões, aliando-se à Rogério Duprat (Construção, de 1971).

Acabada a “Guerra Santa”, o Tropicalismo se colocava definitivamente como vencedor do jogo de forças que se instaurou na MPB no fim da década de sessenta. A linha evolutiva da música nacional estava definitivamente restaurada. Porém, para muitos, o reinado, ou melhor, a ditadura do tropicalismo paralisaria por décadas o desenvolvimento do gênero e seria responsável por expô-lo a uma crise sem precedentes. É o que veremos adiante: quais as conseqüências desta possível vitória de Pirro 120 tropicalista.

119

Erasmo devolve a gentileza compondo para Caetano “Debaixo dos Caracóis do seus Cabelos”, música gravada por Roberto Carlos em 71.

120

Vitória pírrica ou vitória de Pirro, é uma expressão utilizada para se referir a uma vitória obtida a alto preço, potencialmente acarretadora de prejuízos irreparáveis. Têm origem em Pirro, general grego que, tendo vencido a Batalha de Ásculo contra os Romanos com um número considerável de baixas, ao receber os parabéns pela vitória, teria dito, preocupado: "Mais uma vitória como esta, e estou perdido."

Capítulo III – Panis et Serpentes, ou Tropicalismo toma o

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