DETERIORADA
Ainda como parte do exercício imaginativo proposto pela alegoria da Máquina
(BECKER, 2007) e de posse dos constructos apresentados até aqui (quadros 3, 4 e 5), olhemos
para alguns casos reais compartilhados pelos orientadores que participaram desta pesquisa.
Dentre os 106 estudantes que tiveram atributos depreciativos associados às suas identidades,
alguns detiveram uma atenção maior. Esses estudantes eram apresentados de forma mais
contundente pelos orientadores e orientadoras. Nos relatos feitos, era possível observar as
consequências vividas em função do lugar simbólico que ocupavam. Eram, portanto,
alunos-problemas (GOMES, 2020a)10. Dentre esses estudantes estavam Lucas, Matheus, Giovana,
Mayara, Lívia e Keyla, destacados neste estudo por concentrarem uma quantidade significativa
dos atributos depreciativos considerando seus respectivos gêneros.
O primeiro estudante apresentado é Lucas. Matriculado na Escola 22, já não estava
frequentando as aulas quando fui à sua escola, embora sua presença ainda estivesse viva na
memória de Juliana, a Orientadora que o tinha acompanhado durante todo o ano.
Os texto a seguir foram construídos a partir de fragmentos das entrevistas
concedidas por orientadores. Os trechos entre aspas representam transcrições literais dos termos
usados.
Lucas era aluno da Escola 22. Com 11 anos no segundo ano, ele era o “caso mais
gritante que a escola teve” em 2017. Bastante pobre, “ele era claramente envolvido
com o tráfico e tudo mais”. Os moradores próximos haviam relatado para a escola
que ele estava envolvido com a criminalidade local e que já havia sido visto
portando arma. Ele não só conseguia causar problemas na sala, mas, ao sair da
sala, causava “problema na escola inteira”. Se envolvia em “muito conflito com
funcionários, de chegar a agredir”. Teve um episódio em que ele agrediu um
inspetor quando o mesmo tentava separar uma briga sua. Ele “ia embora sem
autorização de ninguém”, “não entrava em sala, ficava uma hora aqui embaixo”.
“Agredia verbalmente”! “Agressão física também, um colega se queixa e ele vai e
‘ah, ele tava implicando comigo!’ Aí xinga e bate. Essas coisas.”. “Fugia da
escola”, furtava objetos. Ele chegou a furtar uma bicicleta na escola, que depois
devolveu, mas demandou uma intervenção grande. Se envolvia em situações “de
bater, ou de pegar as coisas; ou de empurrar”. Sempre que questionado, justificava
sua atitude ou a negava, dizendo não ter feito. Teve uma situação, que não se sabe
se é verdade ou não, onde foi falado que ele tinha levado uma arma para a escola.
A Orientação e a Direção tentaram verificar a história, mas no dia não
conseguiram encontrá-lo. Lucas tem grande defasagem, “distúrbio de
aprendizagem”. Ele também “não lia”. Chegou a ser encaminhado ao Ministério
Público e para o Conselho Tutelar devido à baixa frequência. Ele também tinha
outros irmãos na escola e devido ao envolvimento com a criminalidade e com a
violência, todos tiveram que sair da escola e se mudar. Em 2016 a mãe era presente
na escola, mas sempre com a fala “de que não sabia o que fazer” e parecia que ela
nunca tomava uma atitude. O padrasto do Lucas foi assassinado e a “casa que eles
moravam já não existia mais”. Era um barraco que foi destruído. Depois que eles
se mudaram, apesar de continuarem matriculados, começaram a faltar e a escola
não conseguiu estabelecer contato com nenhum responsável. Depois de um tempo
a mãe conseguiu ir à escola antes que fossem evadidos para solicitar a
transferência dos filhos. Como não conseguiu matriculá-los em uma escola, ela
acabou retornando com todos de novo para a escola, só que ninguém mais estava
frequentando.11
Matheus, este matriculado em momentos diferentes em duas das escolas analisadas,
primeiro a Escola 11 e depois a Escola 26, também é bem representativo como estudante cuja
identidade encontrava-se depreciada. Ao ser transferido de uma escola para a outra, teve novos
símbolos depreciativos acrescidos ao seu estigma de estudante “problemático”.
Matheus é um menino que passou por duas escolas ao longo do ano de 2017.
Estava, primeiro, matriculado na Escola 11. Estava com 16 anos no sétimo ano e
era um estudante bastante problemático. “Não realizava as tarefas”, “desacatava
professores”, e “desacatava debochando”! Era daqueles que “tocavam o terror
na sala de aula!”. Por outro lado, ele “não é um cara agressivo”. Na Escola 11,
ele ainda era “um bom malandro; o cara que levava na conversa”, “extremamente
inteligente”, que “não liderava as pessoas pelo medo, porque “ele era simpático”.
Ele “tinha uma habilidade de liderança às vezes muito maior que a liderança que
os professores tinham com a turma”. Acontece que essa liderança aparecia de
“forma negativa”, de “conquista literalmente só pra fazer besteira”. Era um líder
e sua liderança poderia ser aproveitada para auxiliar na mediação de conflitos.
Mas os professores comentavam “que ele tinha sempre um bando que o seguia,
porque ele que distribuía drogas”. Ele já tinha desmentido essa história dizendo
que ele conseguia dinheiro trabalhando com pintura de carros em uma oficina.
Mas não adiantava, “todo mundo ia atrás do Matheus, e o que acontecia de bom e
de ruim, caía na conta dele”. Ela tinha virado um “exemplo negativo”. A escola já
tinha tentado “vários vezes contato com a mãe, com o pai, e ninguém aparecia.”.
Era um menino “muito abandonado pela família” e que tinha “aprendido a se virar
sozinho”. Depois de um tempo na Escola 11 ele acabou sendo transferido para a
Escola 26, que era perto da casa do pai. Ele já tinha sido aluno de lá anos atrás.
Zenaide, sua nova orientadora também o conhecia desde antes. Ela lembra que
“ele nunca quis nada com os estudos”, mas que, mesmo assim, “ele era um aluno
super de boa. Super!”. Seus problemas eram menores: “fugir da escola”, se
recusar a ir para a sala de aula, “fugir pra quadra”. Ela conta que ele era um
menino que se podia sentar e bater “altos papos”, era “super dócil”. “Eu morria
de rir e [ele] ia lá na sala [da orientação], e a gente ria!”, conta Zenaide. Mas ele
tinha mudado. Ele tinha voltado para a Escola 26 diferente, “outra pessoa”:
“superagressivo na fala” e “arredio”. Zenaide conta que, pelas referências que
ele tinha, “tio e um primo preso”, “parente que foi solto”, outro que era “dono do
tráfico”, ele devia ter “achado bonito”, “achado a facilidade” em se envolver com
o tráfico e por isso estava daquele jeito. Antes mesmo dele chegar, o GEP
[Grupamento de Educação Preventiva da Guarda Municipal] já tinha alertado que
ele tinha sido transferido por ter “arrumado muito problema por lá” na outra
escola; por ter traficado dentro da escola. A mãe de Matheus negava essa história.
Dizia “que não, que ele os amigos queimaram um papel dentro da sala de aula e
falaram que o filho dela tava usando droga na escola, traficando droga na escola.”
Mesmo assim, no “primeiro dia dele” na escola, “depois que (...) soube disso,
Zenaide fez ele abrir a mochila pra ver o que tinha dentro. “Fiz ele abrir a
mochila!” "Ah, não! O que?! Fiz”. E fez para ele saber que a escola sabia do que
tinha acontecido e que ficaria de olho nele! Senão, “ele ia achar que tava tudo
bem...” O pai, na tentativa de remediar a situação, tinha conseguido a guarda do
filho, e pela proximidade com a Escola 26, pensava que ia conseguir acompanhar
mais de perto. Mas aí ele começou a fugir para a casa da mãe, que era perto da
Escola 11. Zenaide achava que ele fazia isso porque o pai era mais firme, que
prendia e o colocava para trabalhar em sua oficina. Ela achava que por isso
Mateus desejava viver com a mãe, “por causa da facilidade”. Com o tempo, o “pai
largou de mão”! Ele passou a morar com a mãe e a trabalhar “como radinho na
[boca de fumo]” mesmo ainda matriculado e frequentando a Escola 26. Zenaide
fala que, na tentativa de ajudar, ela “chamou essa mãe pra mostrar a realidade:
onde é que ele [Matheus] estava estudando, quem comandava a área e o que ele
estava fazendo.” Era perigoso. Ele estava transitando como traficante em uma
região que era comandada pela milícia. Para tentar remediar, a diretora, com o
objetivo de evitar que ele transitasse de uma área a outra, optou por autorizar que
ele realizasse as avaliações em casa, “pra dispensar logo e deixar pra lá”. E assim
ele fez. Parou de ir para a escola e recebeu as avaliações em casa. O que não
adiantou muito, porque ele “não passou mesmo, porque praticamente não tinha
nota!”. Zenaide sentia porque Matheus “era bonito” e “era inteligente”. Mas não
tinha jeito. Ela nem sabia se “aquele garoto chegaria [vivo] no ano que vem”,
porque ele estava “muito encalacrado”. Ela chegou a falar isso pra mãe:
Zenaide - “Tá, você vai deixar ele ficar vindo lá do Jardim Éden
pra o Parque das Flores, do outro lado da [rodovia]? E outra,
aqui é área de milícia, a área que você mora é área do terceiro
comando, não tá seguro pro seu filho ficar circulando por aqui!’
Aí ela: ‘É, mas ele também não pode estudar no CIEP, porque na
Ponte Coberta é outra facção. Ele também não pode...’ Eu falei:
‘Esse é seu filho que a senhora falou que já tudo resolvido? Seu
filho não tem liberdade de se locomover!’ Falei: ‘Mãe, pensa
bem!’ Ela não quer enxergar. Ela não quer enxergar. O pai já
enxergou. O pai já viu que não vai ser na conversa que ele vai
resolver a situação dele. Mas a mãe não quer enxergar. A
situação daquele garoto tá complicada. Aquele garoto eu não sei
nem se chega até o ano que vem. Ele tá muito encalacrado. Aí eu
falei pra ele: ‘tá... então estuda pelo menos no centro, na Escola
09!’ ‘Ih, no 09 não posso nem passar naquela rua!’ Aí eu falei:
‘Meu filho, então tá difícil pro teu lado! Isso porque tua vida tá
ótima! Isso, porque tu encontrou Jesus!”
Matheus ficou reprovado no final do ano por notas. Suas faltas tinham sido
justificadas pela medida adotada pela diretora com apoio da Orientadora
Educacional.12
Parte das características depreciativas apresentadas nos Quadros 3, 4 e 5 está
presente nas narrativas produzidas pelas orientadoras sobre a trajetória desses dois alunos. Em
ambos os casos, é possível observar a convergência de aspectos comportamentais, familiares e
escolares que justificam o fato deles dois terem sido destacados. Embora por óticas diferentes,
o comportamento agressivo, a defasagem entre idade e série, a relação estabelecida de forma
insuficiente com a família (Lucas tem a família ausente, enquanto Matheus tem a mãe que o
acoberta) e o envolvimento ativo com o tráfico de drogas atravessam as duas trajetórias. Lucas,
da Escola 22, agrega uma quantidade significativa das características comportamentais
depreciativas enquanto é possível observar em Matheus um aumento delas quando ele sai da
Escola 11 e vai para a Escola 26. Os dois são associados ao tráfico, Lucas com destaque à
12
Texto construído a partir de fragmentos da entrevista concedida por Zenaide, orientadoras das escolas 26 e
Graça, orientadora educacional na Escola 11.
evasão, e Matheus, pela suposta entrada no crime a partir dos parentes que, na visão da
orientadora, integravam o mesmo grupo criminoso. Ambos tinham, portanto, a identidade
deteriorada. Em função disso, eram vistos como estando em risco sendo, Matheus, de forma
mais incisiva, dispensado das aulas em função da percepção que se tinha na escola acerca do
seu envolvimento com o tráfico.
A versão contada pelos professores da escola anterior sobre Matheus era contestada
pela orientadora Graça, enquanto que na Escola 26, Zenaide não só acolhe a ideia do
“envolvimento”, como, no primeiro dia de aula, converte suas certezas em ação ao pedir para
que o menino mostrasse o que trazia dentro da mochila. O “ficar de olho” a que ela se refere
condiz com a condição de destaque e diferenciação do menino frente aos demais colegas, o que
justificaria, mais tarde, a medida de dispensá-lo das aulas sob o pretexto do risco.
Lucas, por sua vez, também é destacado antes de evadir-se. Além do texto
produzido a partir da entrevista da Orientadora Juliana, dois registros podem ser referenciados.
O primeiro deles foi um relatório individual produzido pela escola e enviado para o Conselho
Tutelar e o segundo registro foi feito por um membro do Grupamento de Educação Preventiva
da Guarda Municipal (GEP) no Livro de Ocorrências da escola e faz menção aos procedimentos
adotados diante de um evento protagonizado por Lucas.
“Relatório individual do aluno
O aluno Lucas, do 2º ano-D, vem apresentando um comportamento
bastante disperso em todas as situações de aprendizagem. O aluno não detêm
sua atenção quando a professora está dando as diretrizes para que possa
realizar independentemente as atividades propostas.
Durante as atividades de registro não usa o tempo adequado para
copiar os exercícios, sente necessidade de desviar sua atenção e sair de sala
constantemente. Comportamento este que vem nos preocupando pois em
algumas situações, onde haja qualquer conflito ou necessidade de se estabelecer
limites, por mais simples que sejam, se não for confortável para ele, é um
transtorno, tendo uma reação explosiva com atitudes fortes como verbalizar
suas insatisfações com palavras inadequadas, gestos e agressividade com todos
os funcionários da U.E.
Amoreiras, 26 de fevereiro de 2016”
(Assinam professora e Diretor Geral da escola)
Fonte: Pasta do aluno Lucas consultada no arquivo da escola.
Nós [GEP] acionamos a Conselho Tutelar a mando da coordenadora
Deise que no referido fato que o aluno Lucas, 11 anos da 2D, xinga os
funcionários da escola, fica rebelde nos corredores da Escola, atira cascas de
bananas no refeitório e o mesmo informou a[sic] Sala de Operações que o
Conselho Tutelar atua mediante agreção [sic] e a maus tratos do aluno é [sic]
o mesmo [conselho tutelar], mediante a alegação, informou que não é de sua
competência e falou para o GEP conduzir a [sic] criança DP50. A guarda
conversou com o aluno [Lucas] e sua mãe, á Sr [sic] Santina Amaral, o menino
se desculpou e forão [sic] liberados”
(Assinatura da diretora)
* Texto produzido no livro de ocorrências da escola pelo Guarda Municipal integrante do
Grupo de Educação Preventiva (GEP) e anexado ao relatório anterior.
Fonte: Pasta do aluno Lucas consultada no arquivo da escola.
No primeiro registro, de caráter mais descritivo, são apontadas as características
comportamentais e escolares do aluno ao Conselho Tutelar, o que, de alguma forma, corrobora
para esgotar o leque de ações possíveis diante dos problemas causados pelo menino. O segundo
registro, anexado ao relatório como uma forma de referendar os problemas que Lucas causava
na escola, tratava de uma divergência. O Conselheiro dizia não poder atuar e recomendava que
a escola conduzisse o menino até a delegacia de polícia, o que não foi feito, pois se reconhecia
a idade mínima de 12 anos para tal procedimento. A medida, além do registro, que em um
segundo momento é usado no relatório, marca também a ação imediata dos Guardas
Municipais, que “liberam” a mãe e Lucas, depois que ele se desculpa pelo feito na escola.
Esses dois registros contribuem para a deterioração da identidade do Lucas, assim
como a transferência de Matheus, da Escola 11 para a Escola 26, colaborou para que ele tivesse
seu estigma ainda mais consistente.
Ainda nesse sentido, mas respeitando as diferenças observadas, algumas meninas
referenciadas pelas orientadoras também podem ser destacadas enquanto alunas-problemas.
Aproximam-se das características depreciativas expressas nos Quadros 3 4 e 5. Dentre as quatro
aqui mencionadas, a primeira delas é Giovana, estudante da Escola 23. Ela foi mencionada por
Sueli durante sua entrevista. Além de falar sobre o caso, a orientadora também permitiu acesso
ao texto do relatório que havia sido produzido e enviado ao Conselho Tutelar.
Giovana é uma menina que foi abrigada e que vive “uma situação de risco social
na família”. É uma menina bastante pobre. Uma mãe de uma outra aluna que não
é sua parenta realizou sua matrícula na escola, mas Giovana dizia estar morando
com a irmã. Por mais que tentem, a escola não tem contato com ninguém da família.
A menina tem uma deficiência na perna, usa prótese e vem caminhando de longe.
Sueli sinalizava: “quando a gente chama e diz que quer conversar com a família,
ela some!”. A menina já fez algumas ameaças a uma professora e a escola produziu
um documento que foi encaminhado para o Conselho Tutelar em função disso e das
faltas. Depois de ameaçar a professora, ela não compareceu mais à escola. 13
O texto do relatório produzido e enviado para o Conselho Tutelar traz mais detalhes sobre o
comportamento da menina:
“Relatório
Aluno: Giovana Nascimento
Filiação: Marina Bretas
Data de nascimento: 17/01/2001
End: Sem informação
Tel de contato: sem tel de contato
Informamos ao Conselho Tutelar de Amoreiras, que a aluna
supracitada, está devidamente matriculada no 5º ano, turma B, no 1º turno, no
Ensino Fundamental I. É uma aluna com algumas repetências no 5º ano, não
obtendo conceitos na média ou acima, nas diversas áreas do conhecimento,
podendo ser considerada com um rendimento abaixo do esperado para um aluno
do 5º ano. A aluna conversa o tempo todo, não realiza as tarefas propostas, o
teor de suas conversas é sempre de cunho sexual, demonstra um conhecimento
amplo com relação à comunidade do entorno e as lideranças da mesmo. No dia
31 de maio do corrente ano, a aluna Giovana foi ao bebedouro que fica ao lado
da sala da Professora Jussara e pensou que a mesma havia batido com a porta
“em sua cara”, assim passou a xingá-la e a ameaçá-la de morte, cabe dizer que
segundo informações a aluno tem um irmão na comunidade do “Pardal”, em
Santa Marta. A aluna também conversou com a professora da sala de Recursos
que confirmou a história. No mesmo dia, ao retornar à escola, Giovana falou
em alto e bom som em sua sala de aula, que falaria com seu irmão para dar um
sumiço na professora Jussara, pois segundo Giovana, a professora bateu a
porta da sala na sua mão enquanto ela se penteava no bebedouro, ainda sobre
o sumiço da professora, houveram (sic) relatos que a aluna além de pedir para
dar um sumiço na mesma pediria ao irmão para deixá-la num local ermo e
13
Texto construído a partir de fragmentos da entrevista concedida por Sueli e acesso ao relatório produzido pela
escola e que foi enviado ao conselho tutelar.
afastado, após roubá-la e que ela, Giovana, iria conferir se o serviço tinha sido
feito. A aluna vem solicitando uma transferência para o Escola 07 várias vezes.
Em outra ocasião, perguntou à professora regente o que precisaria fazer para
ser expulsa da Unidade Escolar e ir estudar na Escola 07. A professora Jussara
ficou muito preocupada com a atitude da aluna.
Após o ocorrido a aluna, até a presenta data, não tem comparecido à
unidade escoar.
Amoreiras, 01 de junho de 2017.”
Assinatura: Diretora e conselheiro que recebeu o relatório.
Fonte: Pasta do aluna Giovana consultada no arquivo da escola 23.
Giovana aparece depreciada por aspectos semelhantes aos dos meninos. No entanto,
além do comportamento considerado agressivo e o envolvimento com a criminalidade na figura
do irmão - que é da comunidade e por isso poderia “dar um sumiço” na professora - aparece
como complemento solto no texto do relatório, quase como uma norma a ser atendida, o aspecto
sexual (“conversas de cunho sexual”). Esse enquadramento é comum a todas as meninas cuja
identidade de estudante foi depreciada. Na escola 15, Rina fala sobre Mayara evocando também
este símbolos:
Mayara, da Escola 15, está no quarto ano com 14 anos. Ela “começou a ter uma
liberdade maior para sair”, por isso, ela costuma ir ao baile no domingo e
frequentar sonolenta a escola no dia seguinte. A menina “fazia uso de bebidas
alcoólicas”, e ia “com roupas inapropriadas pra idade e para a escola” e que,
ainda por cima, “ficava fora de sala de aula”. Ela “não queria nada” e era
“totalmente desinteressada”! Mayara “desrespeitava a todo mundo”, “gritava,
xingava”, inclusive o diretor da escola. Ela “não queria obedecer”, e parecia que
“ela não tava nem aí”. “Tava num ponto que ela não ouvia mais as pessoas”. Há
pouco tempo, na escola, começou-se “a ouvir que [Mayara] estava se envolvendo
com prostituição.” E a menina “tava faltosa”. Rina ainda suspeita que ela faça
uso de outras drogas. Ela diz: “Não sei se ela tá fazendo uso de bebida alcoólica e
mais alguma coisa”. A família dela “é desestruturada”. “A mãe é conivente”.
Mayara foi encaminhada para o Conselho Tutelar no ano de 2017 porque era “uma
situação extrema que extrapolava os muros da escola”.14
Graça, orientadora da Escola 11, também comenta sobre uma menina destacando
alguns atributos que lhe preocupavam:
Keyla estuda na Escola 11 e está no quarto ano. Ela tem “doze anos”. é “muito
bonita”, mas “se veste vulgar”. Ela tinha se mudado para Amoreiras, porque “os
traficantes já haviam ido na casa dela (da mãe) dizer que iriam levar a menina dela
No documento
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO EDSON SOARES GOMES
(páginas 82-93)