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PARA PENSAR O ALUNO-PROBLEMA NO CONTEXTO BRASILEIRO

No Brasil ainda da era Vargas, mas situado no âmbito do movimento Escola Nova, a

presença dos alunos considerados “perturbadores” foi apontada primeiro por Arthur Ramos em um

estudo publicado pela primeira vez em 1939. Nele, o autor propunha a substituição do termo

“anormal”, que entendia o desajuste à escola como consequências de aspectos biológicos, pelo

conceito de “criança problema”. A “criança problema” seria, portanto, um conceito mais adequado

para se referir aos estudantes que não apresentavam deficiências físicas, cognitivas ou mentais, mas

que, em função do meio social, predominantemente marcado pela pobreza, não se adequavam à escola

e ao seu currículo. O autor propunha um deslocamento na forma de abordar o desvio na escola,

deixando de lado concepções mais normativas baseadas na hereditariedade, para propor uma

abordagem sociológica e antropológica. Ainda que baseada na busca por explicações causais para o

desvio, colocava como pano de fundo a psicanálise de Freud no que diz respeito ao desenvolvimento

afetivo e sexual da criança e a vertente analítica de Jung, considerando o inconsciente coletivo como

algo determinante para o desenvolvimento da psique.

Nesses termos, os que não se adequavam à escola e se convertiam em preocupação para

Arthur Ramos e para o trabalho que desenvolvia no Serviço de Ortofrenia e Higiene Mental do

Distrito Federal que ele havia fundado, eram as crianças que não aprendiam e que agiam com

“insubordinação”, que eram “instáveis”, “mentirosas”, “fujonas”, que praticavam pequenos delitos

ou eram “agressivas”. Estes estudantes, “crianças problemas”, precisavam ser submetidos a

intervenções de forma preventiva e corretiva “em busca da perfeita adaptação à vida adulta”

(RAMOS, 1954, p. 21). A criança bem ajustada seria aquela capaz de se conduzir com autonomia em

um espaço de liberdade regulada. Caberia às Clínicas de Higiene atenderem escolas do até então

Distrito Federal com o objetivo de contribuir para que essas crianças fossem ajustadas à escola.

Esse trabalho, contudo, não chegou a ser implementado e não deixou de ser um projeto,

embora algumas escolas tivessem sido atendidas de forma experimental por uma equipe

multiprofissional composta por médicos, professores, psicólogos e psiquiatras. Com o afastamento de

Anízio Teixeira da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro, e frente ao advento do Estado Novo, o

Serviço de Ortofrenia e Higiene Mental fundado por Arthur Ramos foi extinto e todo o trabalho

interrompido. No entanto, já estavam dadas as contribuições e, em função disso, o autor foi durante

os anos subsequentes a principal referência no Brasil de estudos sobre desvio na escola, contribuindo

para conformação de um campo teórico que buscava entender a indisciplina e o comportamento

desviante considerando os aspectos sociais e relacionais presentes nele.

Dentre as causas levantadas por Arthur Ramos (1954) para o comportamento desviante

destas crianças, a principal delas, entendida como primária, era a pobreza e as condições precárias no

ambiente familiar em que as “crianças problemas” viviam. A “criança problema” era, portanto, aquela

que rompia com as regras da escola devido à ausência de cuidados adequados no meio social a que

pertencia, seja por meio da incompreensão dos adultos ou pela ausência de condições adequadas para

seu desenvolvimento.

É possível, portanto, afirmar que a identificação dessa criança estava atrelada ao lugar

que ela ocupava na escola. As chamadas “caldas de classe”, ou seja, os alunos que não acompanhavam

seus pares, eram os que subsidiavam o conceito de “criança problema” construído por ele na década

de 1930. Por mais que o autor buscasse entender as causas para além da escola, era o comportamento

que elas apresentavam durante o período escolar que as colocavam no centro das suas preocupações.

Todavia, a escolha feita por Arthur Ramos (1959) do termo “criança”, ao invés do termo “aluno”,

parece ocultar, em parte, o papel da escola no processo de construção destes estudantes estigmatizados

como “problemáticos”. Estava claro que o termo “anormal” deveria ser abandonado. Estava certo

também que a escola contribuía para a manutenção do termo “anormal” ao tratar o desvio como algo

biológico, hereditário, negligenciando os aspectos sociais presentes nele. Mas o substituto também

conduzia a um equívoco. A “criança problema”, referindo-se de modo genérico à infância, contribuía

para ocultar que os casos vistos como “problemas graves” e de “difícil correção”, eram, na verdade,

construções que se davam nas experiências vividas na escola. Ao fazer esta escolha, Arthur Ramos

(1954) diz que os “problemas” são das “crianças” e, portanto, dizem respeito mais ao universo da

infância do que às experiências infantis vividas no espaço escolar.

Essa constatação é menos uma crítica e mais uma ressalva para uma leitura do trabalho

de Arthur Ramos (1954) feita quase um século depois da sua primeira publicação. O próprio autor

deixa evidências da não passividade da escola ao falar das “incompreensões” as quais estavam sujeitas

as “crianças problemas” dentro da escola e no meio familiar. E, de certo modo, seu posicionamento

frente à educação estava justificado na compreensão que tinha da escola, e de forma mais ampla, no

ideal republicano de educação engendrada pelo movimento escolanovista, do qual compartilhava.

O estudo de Josildeth Consorte, realizado no Rio de Janeiro em 1959, apesar de manter

a termo “criança”, foi mais direto ao demonstrar a não passividade da escola no processo de

apropriação dos rótulos aplicados aos estudantes. Na escola que pesquisou, o problema não estava

estritamente na criança pobre, mas na forma como a escola lidava com a “criança favelada”. O estudo,

realizado em um momento de expansão da educação pública e às vésperas da criação da primeira Lei

de Diretrizes e Bases da Educação, a autora investigou o cotidiano de uma escola que atendia crianças

moradoras em bairros e em uma favela. O conceito de “criança favelada” é cunhado para ilustrar que

parte dessas crianças eram classificadas dentro da escola por não corresponderem aos “ideais

educativos”. Ou seja, eram as “crianças favelas” que iniciavam mais tarde sua trajetória acadêmica,

que concentravam os maiores índices de evasão e reprovação e cujos familiares, em sua grande

maioria emigrantes, possuíam poucas possibilidades concretas de ajudar a superar as dificuldades que

se impunham à escolarização dos filhos, apesar de valorizarem os estudos. Nesse contexto, a autora

destaca que a escola mantinha práticas de seletividade no ingresso, priorizando a matrícula de crianças

moradoras de bairros a despeito das que eram moradoras das favelas, e no decurso do processo de

escolarização, distribuía as crianças em turmas através da aplicação de testes de maturidade para

escrita e leitura. As crianças “faveladas” eram concentradas em uma única sala. Assumindo um

aspecto não escolar da escola, elas ficavam sob a responsabilidade das professoras menos qualificadas

e segregadas nas salas dos “atrasados” para qual eram direcionados menos recursos (CONSORTE,

1959).

Em ambas as pesquisas, os autores não mencionam diretamente o processo de

estigmatização. Mesmo assim, e independente disso, a escola aparece como uma instituição capaz de

catalisar características comuns aos nichos mais pobres da população e convertê-los em problemas

escolares. Embora Consorte (1959) se distancie de Ramos (1954) devido ao seu posicionamento

absolutamente crítico ao cenário descrito por ela, ambos os trabalho se coadunam. Essa relação

harmoniosa fica evidente ao elucidarem que as crianças submetidas a condições de habitação

precárias cujos familiares estavam sujeitos às flutuações de um mercado de trabalho mais informal

que formal e, em consequência disso, não detinham as condições materiais consideradas mínimas

para suas respectivas épocas, tinham acrescidas às suas questões o fato de serem vistas pelas escolas

como “desajustadas”. Dentre essas crianças pobres, é possível supor a existência daquelas que

conseguiam se adequar à escola pelas “razões do improvável” (LAHIRE, 1997) e aquelas que não

conseguiam. É deste segundo grupo que surgiam, para os autores, as crianças que representavam um

“problema” para a escola - colocadas nesse lugar mais em função do comportamento do que por

dificuldade de aprendizagem.

O estudo de autoria de Marcos Cézar Freitas (2017), intitulado “Aluno-problema: forma

social, ética e inclusão”, apresenta uma argumentação que contribui para o entendimento dessa dupla

perversidade em torno da existência do aluno-problema. Sua análise aponta para a construção, ao

longo do século XX, de um sistema escolar que convive com o desenho da homogeneidade e da

simultaneidade em uma sociedade marcada por desigualdades sociais. O “aluno-problema” é

apresentado como uma produção inerente a esse modelo de educação. Nele, o tempo escolar é

pensado para atender simultaneamente o maior número possível de crianças. Um mesmo professor

deve ensinar um mesmo conteúdo que deve ser aprendido em um tempo delimitado entre uma

avaliação e outra. Nessa escola da simultaneidade e das massas, os estudantes participam de um jogo

de comparações, onde umas são confrontadas com as outras e cada uma, individualmente, é

confrontada com o conteúdo programado em cada disciplina.

O problema ético do qual fala o autor está relacionado ao fato da escola ser um local no

qual todas as crianças e adolescentes precisam dedicar uma parcela significativa de suas vidas, e que

trata todos sob as mesmas regras, mesmo não sendo capaz de desconectar cada estudante da sua

realidade social. Simultaneamente, todos, independentemente de estarem em vantagem ou em

desvantagem, são submetidos aos mesmos critérios tendo que responder adequadamente no mesmo

intervalo de tempo. Neste jogo, as desvantagens pessoais a que todos estão sujeitos, seja por uma

dificuldade pontual ou até mesmo por uma deficiência física ou cognitiva, podem se somar às

desvantagens sociais extremas como as vividas por famílias em situação de pobreza ou miséria.

Assim, a vulnerabilidade social ligada à pobreza aparece em Freitas e nos demais autores com mais

destaque do que na literatura internacional apresentada.

Para estes autores, (RAMOS, 1954; CONSORTE, 1959; FREITAS, 2017) a construção

destes estudantes enquanto estudantes “desajustados” se dá, entretanto, no interior da escola a partir

de práticas que, gradativamente, vão conformando suas identidades como “problemáticas”. Esse

destaque dado à pobreza pode ser explicado na construção desigual na qual se funda o Estado

Brasileiro (SOUZA, 2017). A pobreza, e os aspectos raciais inerentes a ela, despontam como um

marcador de diferenças na escola, considerando, claro, a hegemonia dos valores estéticos de uma

classe média.

Nesse sentido, Brignol (2016), com base em observações participantes e organização de

grupos focais, identificou a construção do aluno-problema como um território de violência que se

materializa na escola através da criação da “anormalidade”, a partir do que ele chama de tentativas de

assimilar o “inassimilável” e corrigir o “incorrigível”. Embora sua investigação tivesse o objetivo de

abordar os processos de subjetivação da violência escolar, ele chega ao aluno-problema e revela que

eles colocavam a escola diante de um paradoxo: o mesmo professor que culpava o aluno desviante

por suas transgressões, precisava conviver com o fato desse mesmo estudante ser percebido, muitas

vezes, como alguém vulnerável, que convivia com a violência, que possuía condições precárias de

vida, que vivia em um ambiente em que prevalecia a hostilidade etc. De um lado, o estudante odioso,

que oferecia “risco” e que precisava ser temido e contido. De outro, o estudante em situação de

“risco”, de vulnerabilidade que tinha no amparo escolar, uma possibilidade de “salvação”.

Essa foi uma contradição também indicada pela tese de Silva (2014). Através de análise

de sete entrevistas/discursos de professores do nível fundamental de duas escolas da cidade de

Conceição do Coité/Bahia, identificou-se que, apesar do aluno-problema ser percebido como alguém

“difícil” de lidar, sua presença contribuía para que o docente assumisse o que se entendia por “dever

da profissão”. O trabalho com esses alunos era visto como desafiador, porém necessário à medida que

os professores reconheciam que suas atuações poderiam representar uma possibilidade de melhora

real na vida dos seus alunos, em especial, para aqueles que eram vistos como problemáticos. Essa

atenção destinada aos “problemáticos” foi percebida também por Brignol (2016), que se coaduna com

os trabalhos de Ferguson (2001) e Moignard (2013, 2015a) quando nota que os “desajustados”, vistos

ainda enquanto sujeitos de direitos e, portanto, “em risco”, tornam-se foco de empreendimentos por

parte de alguns professores e funcionários buscando sua redenção, mesmo quando pouco se

acreditava que ela pudesse acontecer ou mesmo quando não se sabia mais quais medidas poderiam

ser adotadas. No contexto observado por esses autores, a gestão dos jovens considerados “em risco”

na escola era atravessada pelo aumento da atenção e vigilância dos alunos-problemas.

Essa medida tinha um efeito adverso: aumentava as chances dos alunos “em risco” serem

punidos. Além disso, como os empreendimentos de “correção” baseados na tentativa de autogoverno

acabavam tendo resultados pouco eficazes, os alunos “desajustados” passavam a ter o rótulo de

sujeitos ineducáveis ainda mais consolidado. Como resultado do esforço de “corrigir para salvar”,

fortalecia-se a ideia do estudante enquanto aluno “incorrigível”. E com os esforços de assimilá-lo,

eles continuavam a pertencer à escola sem estarem incluídos nela.

Rabuske (2006), e Santos (2007), partindo de escolas diferentes no estado do Rio Grande

do Sul, chegaram a constatações semelhantes. O aluno-problema também foi percebido como sendo

produzido pela via da anormalidade. Através da busca pela produção de discursos, as autoras

percorreram os dispositivos e rede de discursos e práticas que, ao se correlacionarem ou entrarem em

luta, produziam “verdades” que adquiriam dimensões constitutivas de subjetividades do

“aluno-problema”.

É interessante observar que Santos (2007) identifica o Setor de Orientação Educacional

(SOE) como um instrumento operacionalizador do discurso disciplinador quando estudantes e

familiares eram encaminhados para atendimento. Como parte do sistema disciplinar, o

encaminhamento para o SOE podia levar a outros níveis de punição na escola. Nos atendimentos

realizados nesse setor, o registro no livro de ocorrência era uma prática disciplinadora; primeiro, tendo

um fim em si mesmo (pois ter o nome registrado representava uma punição) e, segundo, como uma

forma de registro das sanções acionadas, o que permitia detalhar e perpetuar a trajetória desviante.

Eram feitos registros desde solicitação da presença da família a encaminhamentos para órgãos

externos (como conselho tutelar, assistentes sociais ou atendimento psicológico), suspensões e

solicitações de transferências (SANTOS, 2007; RABUSKE, 2006).

O mesmo pôde ser notado durante minha pesquisa de Mestrado (GOMES, E., 2014)

realizada em uma escola municipal da Baixada Fluminense. Tanto a Orientação Educacional, que por

se tratar de uma pesquisa participante também era desempenhada por mim, quanto o Livro de

Ocorrência, exerciam papeis semelhantes aos identificados por Santos (2007) e Rabuske (2006). O

encaminhamento para a Orientação Educacional e os registros feitos em decorrência disso eram

elementos importantes do aparato disciplinar da escola e no processo de construção do

aluno-problema. Durante os dois anos de pesquisa, três casos diferentes foram estudados pela

representatividade que tinham na escola. Cada um contribuiu para elucidar uma dimensão de um

complexo processo onde estudantes tinham sua identidade deteriorada. O primeiro caso possibilitou

observar os mecanismos que a escola acionou que resultaram na evasão do estudante sob o título de

“aluno que não quer nada” ao final do ano de 2013. O processo de construção do seu rótulo foi

acompanhado durante os seus dois últimos anos de estudo. Ícaro, o segundo caso analisado, foi todo

reconstituído através dos registros do Livro de Ocorrência. Esse estudante, depois de diversos

empreendimentos realizados por funcionários, todos registrados nos Livros de Ocorrências da escola

e em relatórios, teve a sua transferência realizada de modo compulsório após ter seu rótulo de “aluno

perigoso” legitimado para toda a comunidade escolar. Por último, Bruno, um estudante envolvido no

mesmo processo de construção do estigma que os outros dois, mas que teve sua sorte modificada ao

ter seu rótulo desconstruído mediante o empreendimento realizado por duas professoras. Uma delas,

sem ter a perceptibilidade do que fazia por ser nova na escola, não reconhecia o papel disciplinador

exercido pela Orientação Educacional e, por isso, não realizava os encaminhamentos do estudante

mesmo quando ele transgredia as regras. Durante o ano em que ela estava lecionando para ele, Bruno

deixou de frequentar a sala da Orientação e foi esquecido enquanto estudante causador de problema,

mesmo não apresentando modificações substanciais em seu comportamento em sala de aula.

Neste cenário, a Orientação Educacional emerge como um ponto de acesso a estes

estudantes pela possibilidade de compor, no ambiente escolar, os espaços disciplinadores pelos quais

o aluno-problema tem seu estigma construído. A articulação entre escola/família/estudantes se

consolida de modo inerente aos conflitos presentes nessa relação, em que a orientação educacional

pode atuar na tentativa de buscar soluções aos casos de modo individualizado (FERREIRA, 2013;

XIMENES, 2008; GOMES, 2015).

Com base nessas pesquisas é possível inferir que, no Brasil, a condição socioeconômica

dos alunos parece ser um aspecto indissociável da produção do seu estigma enquanto aluno-problema.

Diferentemente do que encontra Ferguson (2001) em seu estudo, em que a situação de vulnerabilidade

é colocada no campo da suposição, no Brasil, a situação de vulnerabilidade social de alguns estudantes

ganha contornos inscritos nas profundas desigualdades sociais brasileiras.